Por ESTRELLA BOHADANA

Filósofa, doutora em História dos Sistemas de Pensamento – Escola de Comunicação da UFRJ –, autora de vários livros e artigos e integrante do corpo docente do Mestrado em Educação e Cultura Contemporânea da UNESA – Rio de Janeiro. Esposa de René Dreifuss  e responsável pela editoração da obra póstuma, incluindo  “Transformações: matrizes do Século XXI”, publicado pela Editora Vozes, em 2004

 

René Armand DREIFUSS. A época das perplexidades - Mundialização, globalização e planetarização: novos desafios. Petrópolis: Editora Vozes, 2004. (350p.)


 

RENÉ ARMAND DREIFUSS

TRANSFORMAÇÕES MATRIZES DO SÉCULO XXI

 

Transformações: matrizes do século XXI é o legado com  que René Armand Dreifuss, um dos mais brilhantes cientistas políticos da atualidade, falecido em maio de 2003, agracia o leitor. Trata-se de sua obra póstuma. Com quase 700 páginas, o autor do clássico 1964: a conquista do Estado, publicado também pela Editora Vozes, em 1980, aumenta o acervo de suas fascinantes pesquisas, apresentando, mais uma vez, um pensamento de fina prospecção, agudeza e ousadia., sempre disposto a analisar e a denunciar os diferentes liames que tecem os fios do poder.

Mergulhando nas várias articulações das corporações que constituem o sistema de produção global, em Transformações: matrizes do século XXI, Dreifuss desvenda os vínculos entre as diferentes corporações e o modo pelo qual estas alimentam as “tecnognoseonomias” e os pólos motores de desenvolvimento tecnológico e de produção – estes de alcance global e matricial – e por eles são alimentados.

Em “Transformações: matrizes do século XXI”,  Dreifuss apresenta uma investigação rica e minuciosa das mutações tecnológicas, permitindo aprofundar dois conceitos importantes,  elaborados em sua obra “A época das perplexidades”, de 1996, publicado pela Editora Vozes, hoje na 4a edição, a saber: o de capacitador “teleinfocomputrônico satelital” e o de “tecnobergs”.

No que se refere ao capacitador “teleinfocomputrônico satelital”, esse aprofundamento conceitual revela-se quando o autor demonstra que, como potência, o capacitador retroalimenta as mais diversas descobertas científicas, além de se constituir em potente suporte viabilizador de um novo modo de produção e de novas organizações sociais da produção, ambos sinergeticamente transnacionalizados e realizando-se de maneira global.

A partir dessa formulação, o autor afirma que, possibilitados pelos sistemas de comunicação digitalizada, o planeta ingressa em uma forma de existência que supera distâncias, propiciando inovações na mobilidade e na agregação social, facilitando, para alguns grupos sociais, a vinculação sistemática, constante, ampla e profunda dos “muito distantes” (em termos de personalidade, cultura e geografia), ao mesmo tempo que promove a segregação de outros grupos – basta verificar a diminuta participação dos países que constituem o eixo Sul-Sul.

 Esses sistemas, por sua vez, ao provocar seqüências de interação pontual, serial e circunstancial, tornam-se manifestações que se processam tanto dentro de perímetros nacionais, estando espacialmente localizadas, quanto em espaços transfronteiriços, como eventos desterritorializados. Dessa maneira, tais sistemas desempenham papéis essenciais como insumo e como produto final; além disso, simultaneamente, constituem-se como instrumento de produção e de serviço e operador em tempo real. Tendo como traço marcante sua difusão mundial em curtíssimo intervalo de tempo, tratam-se de tecnologias aplicadas em todas as atividades do planeta, vinculadas completamente ao existir humano e afetando todas as funções societárias. Assim, estando a comunicação no comando do cotidiano, o complexo capacitador “teleinfocomputrônico satelital” delineia também outro paradigma cognitivo.

Aprofundado o conceito do capacitador, Dreifuss, de forma engenhosa, demarca um novo estádio para designar os “tecnobergs”, que passariam a determinar os processos de modificações substanciais nos horizontes e no sentido de vida, reformulando as relações entre estados, delineando uma nova heterotopia econômica transnacional e uma nova ordem internacional e transfronteiriça do conhecimento, ambas acopladas a uma heterarquia político-estratégica. Esboçam-se, portanto, os elementos constituintes de um outro modo de organização social da produção globalizada, que demanda uma profunda reorganização empresarial, com conseqüências no comércio entre as nações, o que contribui para o desemprego estrutural, em seu formato atual, e para o lazer ampliado de grupos seletos. Ademais são estimuladas novas dimensões da pesquisa e da utilização da ciência e da tecnologia, direcionando o processo de produção de conhecimento, de desenvolvimento de saberes e destrezas, bem como de sua aplicação, fortalecendo, como “gnoseonomia, os entornos da “oikonomia”.

No cerne dos “tecnobergs”, as corporações, que se configuravam em função de uma racionalidade bipolar (doméstico-multidoméstico, local-multinacional) de instalação das indústrias e dos serviços, passam a ser globalizadas. Estes “tecnobergs” alavancam três fenômenos multifacetados, simultâneos, diferenciados e que se reforçam mutuamente: a mundialização de estilos, usos e costumes (metanacional); a globalização tecnológica, produtiva e comercial (transnacional); e a planetarização da gestão (supranacional). Esses fenômenos (também conceituados em A época das perplexidades) são discutidos agora a partir do amplo acoplamento do processo de concentração de controle de propriedade dos meios de produção e comercialização, que se dá em cada segmento dos produtos de consumo de massa. Esse processo de concentração é visto no livro por meio das fusões, alianças e aquisições, em movimentos transnacionais (intra, inter e multissetoriais) e apoiado na interação potencializadora dos variados conhecimentos, interligando ainda mais os processos de mundialização e de globalização.

Nessa nova dinâmica, ao concentrar a propriedade e o controle dos agentes, oligopolizar os meios de pesquisa e a produção por meio de fusões e incorporações – por alianças e joint ventures, por aquisições e absorções – a nova fase do processo de mundialização e de globalização assegura a produção transnacional, realizada e centrada no que será definido pelo autor como corporações estratégicas.

De maneira inusitada, Dreifuss demonstra como as corporações estratégicas,  interagindo por meio de matrizes, passam a definir suas core competences, num processo concentracionista que desmonta a lógica anteriormente prevalecente de grandes conglomerados de capital com investimentos diversificados, estipulando agora uma nova relação entre ciência e tecnologia como eixo de refocalização das cadeias produtivas.

Ao mesmo tempo, o autor apresenta como se dá a “transição-em-rede das redes” para um tecido de pesquisa e produção transnacional, muito mais complexo em seu desenho produtivo e de comercialização, sustentado por conhecimentos e agindo como concentrador de capacidades. Para Dreifuss, neste cenário, configura-se uma sucessão infindável de compras, vendas, desmantelamentos e integrações complementares.

Como desdobramento, forma-se, também, uma “heterotopia tecnoprodutiva” multinacional, transitória em tempo e em referências, configurando rapidamente uma equivalência “gnoseogeonômica”, ambas determinadas pelo entrelaçamento de focos indutores de ciência e tecnologia, com a correspondente concentração de conhecimento e disponibilidade para realizações de ponta, através de pólos motores tecnoprodutivos e de plataformas terceirizantes e quarteirizantes de produção e comercialização.

A integração global de operações empresariais e atividades tecnoprodutivas, afirma o autor, compreende não só a luta por mercados e sua partilha, mas o desenvolvimento de estratégias corporativas de participação nos mercados, buscando formas de compartilhá-los.

A lógica da infonomia ou da “gnoseonomia” dos “tecnobergs” e da formação de sociedades de informação é a da primazia das core competences e da determinação de padrões a partir delas, com base na dinâmica de integração de meio, mensagem e conteúdo. Partindo de cada segmento, procura-se expertise nos outros, assim como complementação.

De maneira brilhante, encontramos em Transformações: matrizes do século XXI o modo pelo qual as corporações estratégicas do complexo capacitador de conteúdo buscam a fusão ou a absorção de corporações que possam viabilizar suas opções de comando e indução científico-tecnológica (ou seja, que lhes permitam dominar os vários segmentos de conhecimento que o compõem) e de predominância tecnonômica no espaço multimidiático e multifuncional do emergente sistema teleinfocomputrônico satelital de produção e de serviços. As empresas procuram controlar o formato, os meios e o conteúdo.

E, finalmente, o autor, retomando os conceitos de mundialização, globalização e planetarização revela a maneira como a nova dinâmica galgada por esses fenômenos, bem como as tendências à configuração de hierarquias de conhecimento mutáveis, “heterotopias-em-recomposição” de pesquisa e produção, poliarquias supranacionais em gestação e “heterarquias político-estratégicas” convergentes implicam uma multiforme e complexa emergência e constituição de uma nova realidade.

Realidade paradoxal, posto que – concomitantemente a esse processo – se configura uma outra realidade, na qual uma significativa parcela da população mundial se encontra  alijada dos benefícios de tamanha concentração de conhecimento gerados pelos “tecnobergs”. Portanto, é imperativo que se repense outros caminhos que possibilitem um novo caminhar,  a fim de devolver à humanidade a crença de que é possível  fazer do planeta Terra um habitat digno da nossa existência.

E, em memória a René Armand Dreifuss, que acreditou na possibilidade de o  homem transformar a realidade, nada como lembrar a frase com a qual encerra o seu Transformações: matrizes do século XXI: “E o jogo continua...”

   

 
 

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