O duro caminho das pedras
Vários
leitores têm reagido aos meus textos, criticando a visão, segundo
eles, excessivamente pessimista de minhas análises e previsões.
Afinal, assim argumentam, a economia mundial e a brasileira estão
crescendo, ciência e tecnologia estão avançando e o regime
democrático estaria se fortalecendo, na América Latina e, também,
na África.
O otimismo
desses leitores críticos parece parcial e de difícil sustentação,
à luz da lógica e da dinâmica arrasadora do sistema de mercado
capitalista.
Há poucos
meses (julho de 2004) as Nações Unidas, através do PNUD, seu
programa de desenvolvimento, divulgavam no Relatório de
Desenvolvimento Humano de 2004 informações baseadas nas
estatísticas do Banco Mundial e da UNESCO, segundo as quais vivem
no mundo mais de um bilhão de pessoas com menos de US$ um por dia
e quase metade da população mundial vive sem saneamento adequado.
Mais de 800 milhões de pessoas adultas estão desempregadas ou
subempregadas, desnutridas e analfabetas.
Contrariamente
às expectativas e apesar de inúmeras conferências internacionais,
a desigualdade aumentou nos últimos vinte anos, dentro e entre os
países. O próprio Brasil, em que pesam os quase vinte anos de
regime democrático, praticamente estagnou numa posição pouco
favorável na lista dos quase 180 países, nos quais foram avaliados
os indicadores de renda, educação e expectativa de vida. Em nível
internacional, o aumento da desigualdade acompanhou a concentração
de renda, do poder e de acesso à informação. Comparando países
ricos e pobres no período de 1960 a 2002, a renda per capita nos
primeiros aumentou em mais de 180% (de US$ 11.500 para 27.000)
enquanto nos países pobres a renda cresceu apenas 28%!
Enquanto a
globalização uniformiza os padrões de produção e consumo, ela
amplia a diferenciação intra - e interpaíses. Como acinte à
miséria em expansão, cresce constantemente o volume de recursos
financeiros, quase US$ dois trilhões por dia, que são transferidos
por meios eletrônicos e que alimentam a especulação e o
empobrecimento das populações no mundo subdesenvolvido e nos
países “emergentes”.
O preço pago
pelo suposto equilíbrio das finanças públicas que reduziria o
perigo da inflação e ajudaria a equacionar o problema da dívida
externa envolve além da precarização dos empregos, a queda da
massa salarial e o aumento ininterrupto do número de famílias
vivendo abaixo da linha de pobreza. Segundo uma reportagem
publicada pelo jornal O Estado de S.Paulo, em 26/9/04, sob o
título “Alerta São Paulo”, o número de indigentes teria crescido
em 88% e o número de domicílios classificados como miseráveis em
ais de 117%, nos últimos dez anos, na região metropolitana da
Grande São Paulo. No Brasil, o número de favelados mais do que
quadruplicou no mesmo período e o número de presos em
penitenciárias dobrou enquanto, sosseguem, aumentou também o
número de milionários no país.
O Estado,
frente às forças do mercado onipresentes, perdeu sua capacidade de
planejar, regular e orientar a alocução de recursos e, portanto,
de equilibrar o mercado de trabalho e a distribuição de renda. O
discurso eufórico sobre o “novo modelo de desenvolvimento” não
consegue ocultar a falência da chamada “Terceira Via” e do que
sobrou do Estado de Bem-estar Social, da legislação trabalhista e
previdenciária e das tímidas melhoras nos sistemas de educação e
saúde.
Cientistas
sociais críticos, em número crescente, questionam as
possibilidades de resolver os problemas derivados do desemprego e
da desigualdade econômica, dentro as regras e procedimentos do
atual regime democrático representativo. Face ao endividamento
irracional, interno e externo, e a conseqüente irracionalidade da
miséria social parece inviável sustentar padrões políticos que
garantem justiça social, mantendo-se o regime de liberdade
individual cujo denominador mínimo é o direito básico ao
trabalho.Até quando será possível para o governo defender a
legitimidade do processo democrático convencendo as camadas
desfavorecidas e marginalizadas das vantagens e perspectivas da
democracia e acenando com promessas de direitos de cidadania e de
proteção social, no clima de crise crônica do sistema econômico?
Os problemas
apontados acima levantam perguntas cruciais para a sociedade
brasileira e, por extensão, para as latino americanas. Seria
possível realizar as transformações da estrutura social,
redistribuindo renda e, ao mesmo tempo, respeitar as regras
democráticas? Como realizar reformas significativas num país tão
dependente de crédito e investimentos externos?
Os objetivos
das políticas sociais não podem restringir-se à proteção de
natureza filantrópica, mas devem visar a capacitação das pessoas a
ganhar renda e assim, status de cidadania. Isto vai exigir
orientar os investimentos governamentais para a criação de
empregos, inclusive nas áreas de educação, saúde e de outras
políticas sociais. Crédito subsidiado e garantido constitui um
instrumento importante, pois os pobres não possuem garantias reais
e não podem contrair empréstimos, mesmo a juros baixos. Os
problemas de insatisfação política e falta de confiança no governo
tendem a crescer porque as pessoas se sentem politicamente
manipuladas e revoltadas face à sua impotência, o que coloca na
pauta a necessidade de reformas políticas visando facilitar à
população o controle sobre sua vida coletiva.
Revolução,
reformas ou auto-gestão popular?
Por que a
democracia representativa não funciona mais?
A necessidade
de recursos volumosos para custear a propaganda eleitoral e
eleger-se vicia as eleições para cargos representativos e
executivos, a favor dos ricos e poderosos. Invariavelmente,
constroem-se novas hierarquias e clãs com base regional e
político-partidária. A mídia, com raras e honrosas exceções, está
sendo aliciada a serviço das elites e a própria tecnocracia do
Estado procura perpetuar-se no poder mediante alianças com
diferentes partidos ou grupos políticos. Como, então, fazer
prevalecer a vontade popular para efetivamente fiscalizar a
administração pública, eleger e, eventualmente, substituir
administradores corruptos ou incompetentes e como controlar e
acompanhar sua gestão, responsabilizando-os pelos prejuízos?
Os partidos
políticos são agentes do poder constituído e disputam sua
manutenção nas posições de mando, contra qualquer iniciativa de
mudança.
Como passar do
nível micro para o macro, ou seja, definir as grandes diretrizes
da política econômica?
A reforma
política exige a institucionalização do poder de revogar mandatos,
destituir dirigentes eleitos mediante referendum e dissolver uma
Assembléia Legislativa mediante plebiscito.
Por isso, as
mudanças devem começar no plano local, via conselhos populares,
reuniões em torno do orçamento participativo e movimentos de
cidadania, até chegar à organização de um fórum de cidadania que
anualmente se reúne para examinar e avaliar o desempenho do
governo, em função do interesse público e à luz das promessas
feitas em tempos de campanha eleitoral.
Como passar do
nível micro para macro, ou seja, definir as grandes diretrizes da
política econômica?
Os
governantes, independentemente dos partidos que estiverem no
poder, preferem planejamento e controles centralizados no processo
de tomada de decisões, em oposição a políticas de
descentralização, autonomia e auto-gestão. Essas atitudes são
justificadas pela crença de que decisões técnicas e jurídicas
seriam suficientes para resolver os conflitos de interesses e de
valores em jogo. A burocracia desafia e nega a eficácia de
decisões em políticas públicas por via de debates e votos em
assembléias democráticas. Agrava essa resistência ao processo
democrático a falta de compromisso de longo prazo dos servidores
públicos devido a transitoriedade dos governos e a falta de
credibilidade da maioria dos políticos.
A emergência
de organizações da sociedade civil como legítimo representante da
população leva a pressões para obter, cada vez mais, voz e vez,
mediante interpelações, críticas e propostas de alternativas para
as questões que afetam o bem-estar e a segurança de todos,
particularmente os mais carentes.
Pode-se prever
um longo período de dualidade de poder e de governança. De um
lado, as instituições oficiais e sua burocracia civil e militar e,
por outro, o poder popular representado pelos movimentos sociais,
as organizações não-governamentais e outras formas de associação
da sociedade civil. Essa tensão só será superada com a
organização, mobilização e conscientização da população mediante
os meios de comunicação em massa e a democratização da Internet
as quais não dispensam reuniões, encontros e fóruns, tais como os
protestos contra as reuniões do FMI, a OMC e o Banco Mundial em
anos recentes.
Haverá
desvantagens em relação aos poderes da burocracia estabelecida que
dispõe de recursos financeiros e poder de repressão o que deixa
claro que a conquista da sociedade pluralista e democrática não se
dará num mar de rosas. Entretanto, os avanços e a vigência da
democracia participativa colocarão em pauta a questão das relações
entre o Estado e a sociedade civil.
O Estado
moderno foi criado a partir do Renascimento para superar as lutas
intermináveis entre os senhores feudais que constituíam obstáculos
ao desenvolvimento da produção, do comércio e da própria
cidadania.
A ascensão e
expansão do poder estatal, sobretudo a partir da segunda metade do
século XX e suas alianças com as elites do poder
econômico-financeiro colocam a tarefa inadiável da desconstrução
do Estado autoritário, mesmo quando o governo é exercido por
partidos da “esquerda” e a construção da sociedade pluralista e
democrática, mais igualitária e mais justa.
A
social-democracia pressupõe o exercício da soberania pela
população que delega poderes de execução, legislação e judiciais,
com mandato revogável. A degeneração do Estado, tanto no ocidente
quanto no oriente, transformou a população em massa de manobra
incapaz de vigiar, avaliar e fiscalizar as políticas públicas.
No século
passado, ainda se sonhava com a tomada de poder pela via
revolucionária. Mas, os novos regimes tornaram-se ainda mais
autoritários e menos democráticos. Em que pesam as dificuldades de
introduzir mudanças constitucionais, parece absolutamente
indispensável atualizar a legislação com realização de consultas
populares, plebiscitos e referendos em todas as questões que
afetam os destinos da população. Seriam instrumentos mais
apropriados para conter as investidas de uma nova casta social – o
clube dos ricos, consumidores conspícuos e de bens de luxo – que
acumula e concentra as riquezas na onda da instabilidade das
especulações financeiras da globalização.
Continuaremos
por muito tempo na situação de ambigüidade entre competição e a
necessidade de cooperação. O tão almejado desenvolvimento só
poderá ocorrer quando conduzido por organizações e instituições
solidárias, engajadas no desenvolvimento de novas forças
produtivas que, sem rejeitar as pesquisas científicas e o
desenvolvimento tecnológico, são comprometidos com o respeito à
natureza, favorecem os valores de igualdade, justiça social e
auto-realização e contribuem efetivamente para a inclusão social.
Seria possível
o desenvolvimento de uma economia solidária, no contexto da
economia de mercado capitalista?
A resposta não
é de natureza teórica. Efetivamente, existem hoje milhares de
cooperativas, consórcios e outros tipos de associações de produção
e comercialização que preconizam e praticam a melhor distribuição
dos ganhos e a participação dos empregados nas decisões
administrativas.
A introdução
das novas tecnologias de flexibilização e descentralização da
produção permite um desenvolvimento mais solidário via a
cooperação consorciada de pequenas e médias empresas, em
condições de sub-contratação ou complementaridade, com base em
articulações produtivas em nível local, regional e nacional
Nessa
dualidade do sistema econômico, o papel do Estado e de seus órgãos
de política pública econômica e financeira, será decisivo.
Enquanto perdurar a política monetária e financeira atual que
eleva as taxas de juros e restringe o acesso ao crédito, o
desenvolvimento econômico, tanto de empresas capitalistas quanto
das solidárias, encontrará obstáculos dificilmente superáveis.
As
perspectivas de sairmos do atoleiro e ingressarmos uma era de
“desenvolvimento como liberdade” (nas palavras de Amartya Sen),
parecem muito distantes. Mas, lembrando a História, o que foi o
mundo “civilizado”, duzentos e poucos anos atrás, quando começou a
ser sacudido pelas idéias de alguns visionários que proclamaram os
direitos humanos, liberdade e igualdade?