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Por ANTONIO OZAÍ DA SILVA
Docente
na Universidade Estadual de Maringá (UEM), membro do Núcleo
de Estudos Sobre Ideologia e Lutas Sociais (NEILS – PUC/SP),
do Conselho Editorial da Revista Margem Esquerda e Doutor
em Educação pela Universidade de São Paulo
VERSÃO
PARA IMPRESSÃO [WORD WINZIP]
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Pedagogia
Libertária
e Pedagogia Crítica
Aos alunos (as)
dos cursos de Ciências Sociais e Administração, da Universidade
Estadual de Maringá, cujas atitudes desafiam as teorias
pedagógicas e o educador...
Resumo
O
objetivo deste texto é apresentar a Pedagogia libertária
e a Pedagogia Crítica, explorando as interfaces
entre ambas. Inicialmente, expomos, de maneira sintética, a
Pedagogia Libertária: suas origens, fundamentos e princípios.
Então, analisamos, a partir dos seus principais representantes, a
Pedagogia Crítica. Por fim, abordamos as possíveis confluências
entre estas tendências pedagógicas.
Palavras-chaves: Educação,
Pedagogia Crítica, Pedagogia Libertária
A Pedagogia
Libertária
A educação
ocupa um lugar estratégico no pensamento e prática anarquistas
enquanto fundamento inerente ao processo de transformação da ordem
capitalista e a fundação de uma nova ordem social. A preocupação em
formar homens livres e conscientes, capazes de revolucionar a
sociedade, é constante na obra dos maiores pensadores anarquistas.
Há, na tradição libertária, uma vinculação explícita entre educação
e luta política. A educação é um objetivo em si para combater a
ignorância e a miséria, e, simultaneamente, instrumento de atuação
política e social contra os privilégios, as injustiças e todas as
formas de opressão e exploração.
A educação é
concebida como parte do processo revolucionário, isto é, os
anarquistas não imaginam que apenas através do ato educativo a
Revolução tornar-se-á realidade, mas vêem a educação como
fundamental. Trata-se, na concepção libertária, de romper o círculo
vicioso entre a miséria, a ignorância e o preconceito, e, de formar
seres humanos autônomos, críticos, solidários e amantes da
liberdade. Os libertários questionam todas as relações de opressão,
expressão das relações de dominação que envolvem todas as esferas
sociais: família, escola, trabalho, religião etc.
O pensamento
pedagógico libertário é crítico às relações de poder presentes no
processo educativo e às estruturas que proporcionam as condições
para que estas relações se reproduzam. Um dos seus princípios
centrais é a rejeição de toda e qualquer forma de autoritarismo.
Neste aspecto, a pedagogia libertária oscila entre a
não-diretividade e a aceitação de processos educacionais diretivos,
isto é, em que se manifeste formas de autoridade não-autoritárias.
De qualquer
maneira, o questionamento do autoritarismo constitui o âmago da
Pedagogia Libertária. Isto significa recusar quaisquer
procedimentos que induzam à obediência cega às autoridades e
expresse relações opressivas. Na perspectiva bakuninista, trata-se
de ensinar a liberdade, o que pressupõe, em determinadas
fases do processo educativo, a presença da autoridade. É ela que
educa para a liberdade.
O
antiautoritarismo não é patrimônio exclusivo da pedagogia inspirada
na práxis anarquista. Neste sentido, é preciso considerar outras
correntes pedagógicas que centram-se no interesse e experiência do
educando.
Destacamos, por suas similitudes, a pedagogia libertadora de Paulo
Freire
e outros educadores críticos que advogam uma pedagogia engajada,
radical e crítica em relação aos processos educacionais fundados em
bases opressoras e autoritárias.
A Pedagogia
Libertária é legatária de um projeto de sociedade fundada na
autogestão presente na Associação Internacional dos Trabalhadores
(a I Internacional fundada em 1864). A autogestão tanto pode
ser assimilada numa perspectiva não-diretiva quando
diretiva. Segundo GALLO (1996):
“O que
diferencia as duas perspectivas de aplicação da autogestão
pedagógica no contexto libertário é que enquanto a primeira toma a
autogestão como um meio, a segunda a toma por um fim; em outras
palavras, na “tendência não-diretiva” a autogestão é tomada
como metodologia de ensino, enquanto que na “tendência mainstream’
[diretiva] ela é assumida como o objetivo da ação pedagógica. Ou,
ainda: educa-se pela liberdade ou para a liberdade”.
Os princípios
de autogestão e educação integral
nortearam várias experiências pedagógicas libertárias: Paul Robin e
a organização e direção do orfanato de Cempuis;
Sébastien Faure e La ruche (A colméia);
a Escola Moderna Racionalista de Francisco Ferrer, que
influenciou os anarquistas brasileiros nas primeiras décadas do
século XX;
a escola de Yasnaia Poliana, dirigida pelo russo Leon Tolstoi;
as práticas libertárias na Espanha, dirigidas pela Confederação
Nacional do Trabalho (CNT), etc.
Os primeiros
representantes desta pedagogia no Brasil foram os trabalhadores
imigrantes — italianos, espanhóis, portugueses, etc. — que, em fins
do século XIX, chegavam para trabalhar nas lavouras de café, em
substituição à mão-de-obra escrava. Posteriormente, estes imigrantes
constituíram uma parcela importante do nascente proletariado urbano
brasileiro.
Nas primeiras
décadas do século XX, os sindicatos operários tomaram para si a
tarefa de criar os espaços necessários para o desenvolvimento desta
pedagogia crítica às instituições formais, à educação oficial, laica
ou religiosa. Estes espaços alternativos são os centros de estudos
sociais, as escolas modernas, as escolas operárias, a universidade
popular, etc., onde se desenvolvem experiências fundadas na
Pedagogia Libertária, no sentido de formar um novo homem e
forjar a nova sociedade.
A Pedagogia
Libertária está, portanto, associada ao movimento operário, às
primeiras organizações dos trabalhadores, à luta dos trabalhadores,
à ação anarquista e anarco-sindicalista contra o Estado, a Igreja e
o capitalismo. Sua difusão se dá através da imprensa operária e da
ação direta dos libertários. A partir dos anos 20, o ideário
comunista, fortalecido pela vitória da Revolução Russa, passa a
disputar a hegemonia com os libertários e, pouco a pouco, se imporá
enquanto interlocutor dos trabalhadores frente às classes
dirigentes. A fundação do Partido Comunista, em 1922, conta com o
apoio de anarquistas convertidos ao bolchevismo, como é o caso de
Astrogildo Pereira.
A ascensão do
movimento comunista, aliado à criação de uma legislação sindical e
legalização dos sindicatos durante o governo Vargas, reduz
drasticamente a influência do pensamento libertário no movimento
operário brasileiro. Evidentemente, a Pedagogia Libertária
sofrerá os efeitos desta nova realidade. Neste caso, devemos
considerar ainda que, do ponto de vista estritamente pedagógico,
esta corrente teve que enfrentar, de um lado, a Pedagogia
Tradicional (associada às aspirações dos intelectuais ligadas às
oligarquias dirigentes e à Igreja); e, por outro lado, a
Pedagogia Nova (expressão das mudanças econômicas, políticas e
sociais, isto é, a urbanização, industrialização e fortalecimento
das classes médias e da burguesia, que buscavam modernizar o Estado
e a sociedade brasileira).
A Pedagogia
Libertária sobrevive enquanto projeto social vinculado à
tradição anarquista. Ela está presente nas iniciativas de
autodidatas e militantes vinculados às lutas sociais; nos centros de
cultura que sobrevivem aos períodos de repressão política; no
campo acadêmico através da atuação docente e produção de
intelectuais engajados, que se identificam ou simpatizam com o
pensamento acrático; em experiências isoladas, nas salas de aula de
escolas de periferia ou em universidades.
As
experiências pedagógicas fundadas no pensamento libertário,
internacionais ou no Brasil, apresentam características comuns, o
fio condutor que possibilita identificar os fatores que orientam a
sua práxis. Vejamos, em resumo:
-
LIBERDADE: Entendida como meio e fim, a liberdade é intrínseca à
prática libertária. Não se trata da liberdade em abstrato ou no
sentido liberal, mas da Liberdade construída socialmente e
conquistada nas lutas sociais.
-
ANTIAUTORITARISMO: Essencial à prática pedagógica libertária. A
idéia chave subjacente a este conceito é que não é possível combater
o autoritarismo e a opressão presentes no Estado, família, escola,
etc., sem que, concomitantemente, se formem homens livres; e, não se
formam homens livres através de métodos autoritários e de controle.
-
EDUCAÇÃO INTEGRAL: Os educadores libertários não recusam a ciência e
o saber especializado, mas advogam que, antes, o processo educativo
se concentre na formação plena (dimensões física, intelectual e
moral), que não separe o saber do saber fazer, isto é,
que não se fundamente na divisão entre ação e pensamento (trabalho
braçal e intelectual).
-
AUTOGESTÃO: A Pedagogia Libertária enfatiza que os recursos
no processo educacional devem ser controlados e administrados pelos
diretamente envolvidos e pela comunidade. Isto significa superar a
dicotomia Estado/Sociedade e colocar a educação sob controle da
sociedade/comunidade.
-
AUTONOMIA DO INDIVÍDUO: O processo educativo pedagógico centra-se no
educando, com pleno respeito aos estágios do seu desenvolvimento e o
estímulo para que ele tome o próprio destino em suas mãos. O
educando não é tratado como objeto (meio), mas enquanto sujeito e
fim em si mesmo.
-
EXEMPLO: A educação libertária pressupõe a busca da coerência entre
o falar e o fazer (discurso e ação): os exemplos
educam e falam mais do que as palavras; portanto, o educador
deve estar sempre aberto a aprender, a se educar, a
reconhecer os erros e dar o bom exemplo, a ser coerente em relação
aos meios e fins, a teoria e prática; trata-se de, para além de
assumir o pensamento anarquista, ter atitude, uma ética
e um modo de ser anarquistas.
-
CRÍTICA: O educador libertário é um educador crítico: dos conteúdos,
dos programas e instituições oficiais, da sociedade e todas as
esferas de reprodução de formas de opressão e, inclusive, de si
mesmo.
-
COMPROMISSO E RESPONSABILIDADE SOCIAL: A Pedagogia Libertária
é profundamente engajada, no sentido da crítica às estruturas de
dominação e da formação de homens e mulheres capazes de atuarem como
críticos e sujeitos ativos pela transformação das suas vidas e do
meio social. Nesta perspectiva, não há lugar para a neutralidade da
educação e do educador. Uma conseqüência lógica dessa maneira de
conceber o processo educativo é o compromisso com os oprimidos, os
deserdados.
-
SOLIDARIEDADE: Uma educação fundada em critérios solidários, de
ajuda mútua, que recusa tanto os prêmios quanto os castigos e,
portanto, os processos classificatórios (exames, notas, etc.) e as
relações de ensino-aprendizagem fundadas em critérios competitivos.
Estes
princípios norteiam a atuação do educador libertário.
Observemos que vários destes
princípios são compartilhados pela Pedagogia Crítica.
Vejamos, de maneira resumida, em que consiste esta pedagogia.
A Pedagogia
Crítica
“A pedagogia
crítica ressoa com a sensibilidade do símbolo hebraico tikkun,
que significa “curar”, consertar e transformar o mundo; todo o resto
é comentário”. Ela fornece a direção histórica, cultural, política e
ética para aqueles na educação que ainda ousam acreditar”. (MCLAREN,
1997: 192)
GIROUX (1999:
23), situa as origens da Pedagogia Crítica nos idos de 1976,
“quando Samuel Bowles e Herbert Gintis publicaram seu inovador
Schooling in Capitalist Society. Eu diria que esse livro,
juntamente com algumas obras seminais em sociologia da educação,
constitui a base de uma nova linguagem que foi além da tradição
crítica radical de Dewey e seus colegas”.
Ele observa que “no início a maior parte do trabalho da educação
radical dedicou-se à teoria da reprodução”, predominando o discurso
marxista.
A Pedagogia
Crítica se inspira no trabalho da Escola de Frankfurt.
GIROUX (1983), analisa suas implicações para o desenvolvimento da
Pedagogia Crítica e nota que os autores frankfurtianos oferecem
aportes importantes aos educadores críticos às concepções fundadas
na racionalidade positivista:
“... a Escola de
Frankfurt oferece uma análise histórica, bem como um arcabouço
teórico penetrantes que condenam a cultura do positivismo em seu
sentido mais amplo, enquanto, ao mesmo tempo, fornecem “insight”
sobre como aquela cultura torna-se incorporada dentro do “ethos” e
das práticas escolares. Embora, haja um crescente volume de
literatura educacional que é crítica à racionalidade positivistas
nas escolas, falta-lhes a sutileza teórica do trabalho de
Horkheimer, Adorno e Marcuse”. (GIROUX, 1983: 24)
GIROUX
assinala, ainda, que a teoria crítica propicia “um terreno
epistemológico valioso sobre o qual se pode desenvolver formas de
crítica que esclareçam a interação do social e do pessoal, de um
lado, bem como da história e da experiência particular, de outro”. A
importância desta dimensão da consciência histórica permite
que se desenvolva um novo tipo de conhecimento que leve em conta a
dialética das relações entre a cultura dominante e a dominada, isto
é, que permita aos oprimidos e deserdados apropriarem-se “das
dimensões mais progressistas de suas próprias histórias culturais e
também como reestruturar e apropriar-se dos aspectos mais radicais
da cultura burguesa”. (Id.: 24-25)
Trata-se de
uma concepção crítica que não restringe o conhecimento a si, isto é,
o saber não é ingênuo, não está “dado”, mas expressa e é legitimado
por interesses inscritos nas relações sociais amplas. Conhecer
se vincula a poder. Nesta perspectiva o poder é
concebido de maneira dialética: com potencialidades negativas, mas
também positivas. Desse modo, para a Pedagogia Crítica as
relações sociais no locus da escola e da sociedade em geral
não expressam apenas a dominação, mas também possibilidade de
resistência e de ação contra-hegemônica. Por isso, o papel dos
professores enquanto intelectuais públicos e transformadores
é fundamental.
A Pedagogia
Crítica recusa a tese de que o conhecimento e a escola são
neutros e que, portanto, os professores devem ter uma atitude
neutra. “A escola é um processo político, não apenas porque contém
uma mensagem política ou trata de tópicos políticos de ocasião, mas
também porque é produzida e situada em um complexo de relações
políticas e sociais das quais não pode ser abstraída”. (GIROUX,
1997: 88) Nas palavras de Paulo FREIRE (1997: 78):
“Não há nem
jamais houve prática educativa em espaço-tempo nenhum de tal maneira
neutra, comprometida apenas com idéias preponderantemente abstratas
e intocáveis. Insistir nisso e convencer ou tentar convencer os
incautos de que essa é a verdade é uma prática política indiscutível
com que se pretende amaciar a possível rebeldia dos injustiçados.
Tão política quanto a outra, a que não esconde, pelo contrário,
proclama, sua politicidade”.
Político,
aqui, refere-se à compreensão da escola como um espaço passível de
desenvolver uma política cultural. “Político, neste sentido,
significa possuir os instrumentos cognitivos e intelectuais que
permitam uma participação ativa em tal sociedade”, afirma GIROUX.
(1997: 87)
Com efeito, a
concepção predominante na educação vê os professores como técnicos
de alto nível, porém técnicos, transmissores de conteúdos (os
especialistas pensam por eles); executores de planos de ensino, leis
e projetos definidos pela burocracia e políticos. Nesta concepção,
os problemas de cunho pedagógico-político são reduzidos ao caráter
administrativo. Em tais condições, os professores terminam por
legitimar e reproduzir o status quo.
A Pedagogia
Crítica enfatiza a conexão entre valores e fatos; e, concebe a
escola como locus não apenas voltado à instrução. Trata-se de
politizar a pedagogia:
“Tornar o
político mais pedagógico significa utilizar formas de pedagogia que
incorporem interesses políticos que tenham natureza emancipadora;
isto é, utilizar formas de pedagogia que tratem os estudantes como
agentes críticos; tornar o conhecimento problemático; utilizar o
diálogo crítico e afirmativo; e argumentar em prol de um mundo
qualitativamente melhor para todas as pessoas”. (Id.: 163)
Neste
contexto, os professores desempenham, queiram ou não, um papel
pedagógico-político. Não há espaço para a neutralidade: esta se
constitui em engodo. O mesmo professor que reproduz os valores da
cultura dominante e contribui para manter a sua hegemonia, pode
desempenhar um papel transformador e contra-hegemônico. Como
salienta MCLAREN, no prefácio à obra de GIROUX (1997: XVIII):
“Sem duvida, o
professor como intelectual transformador deve estar comprometido com
o seguinte: ensino como prática emancipadora; criação de escolas
como esferas públicas democráticas, restauração de uma comunidade de
valores progressistas compartilhados; e fomentação de um discurso
público comum ligado aos imperativos democráticos de igualdade e
justiça social”.
A Pedagogia
Crítica é, portanto, uma pedagogia engajada, responsável diante
dos dilemas sociais. Ela “examina as escolas nos seus contextos
históricos e também como parte do tecido social e político existente
que caracteriza a sociedade dominante” (MCLAREN, 1997: 191). Por
outro lado, incorpora as experiências de vida dos oprimidos, suas
histórias e valores.
A Pedagogia
Crítica também inclui as contribuições das teorias
reprodutivistas (social e cultural). Estas teorias, em oposição
às vertentes liberais e funcionalistas, recusam a tese de que a
escola é uma instituição neutra, que transmite conhecimentos
imparciais capazes de instruir e elevar o nível cultural dos
estudantes, gerando possibilidades iguais. A importância dessas
teorias reside no fato delas desmistificarem a pretensa função
equalizadora da escolarização, isolada da sociedade global, com
suas contradições; de mostrarem que a principal função do sistema de
ensino é reproduzir os fundamentos da sociedade desigual e injusta,
é perpetuar o status quo.
A
Pedagógica Crítica não constitui um corpo homogêneo de autores e
idéias. “É mais correto dizer que os teóricos críticos estão unidos
em seus objetivos: fortalecer aqueles sem poder e transformar
desigualdades e injustiças sociais existentes”. (MCLAREN, 1997: 192)
Embora vinculada à obra de educadores ingleses e americanos, a
Pedagogia Crítica é fortemente influenciada pela Pedagogia
Libertadora de Paulo Freire.
Não se trata, em nenhum dos casos, de transpor mecanicamente teorias
do Brasil para a Europa e Estados Unidos, e vice-versa, mas sim de
assimilação de conceitos básicos capazes de propiciar a reflexão
sobre os problemas educacionais. GIROUX (1997: 145) assinala:
“Freire
apropriou-se do legado abandonado de idéias emancipadoras e suas
versões de filosofia secular e religiosa encontradas no corpus
do pensamento burguês. Ele também integrou de maneira crítica em seu
trabalho o legado do pensamento radical sem assimilar muitos dos
problemas que historicamente o assolavam. Com efeito, Freire combina
o que chamo de “linguagem da crítica” com a “linguagem da
possibilidade”.
Também MCLAREN
(1997: 328) destaca que a obra freireana “constitui uma
importante contribuição para a pedagogia crítica, não somente por
seu refinamento teórico, mas por causa do sucesso de Freire em
colocar a teoria na prática”.
As citações e
referências acima indicam temas e conceitos fundamentais à
Pedagogia Crítica. Em resumo:
1. A escola e
o processo de aprendizagem são analisados considerando-se os
contextos históricos, os vínculos e relações com a sociedade mais
ampla, os interesses políticos, econômicos, etc.
2. O processo
de aprendizagem não se manifesta e se desenvolve apenas nas
instituições formais, as escolas – a sociedade também educa;
3. A
escolarização constitui um empreendimento de caráter eminentemente
político e cultural e as escolas são concebidas enquanto locus
de disputa política cultural.
4. As escolas
reproduzem e legitimam as desigualdades sociais, de raça e gênero,
mas também constituem espaços de contra-hegemonia.
5. A
Pedagogia Crítica enfatiza que a reprodução destas desigualdades
também se dá através do currículo oculto, isto é, as “conseqüências
não intencionais do processo de escolarização”. (MCLAREN, 1997:
216)
6. Afirma,
portanto, que a idéia de que a escolarização promove mobilidade
social é um mito amparado no darwinismo social e na ideologia
meritocrática da classe média.
7. Isto
significa reconhecer que a escolarização se apóia na transmissão de
um determinado tipo de conhecimento legitimado pela cultura
dominante, o que não apenas dificulta como desconsidera e
desvaloriza os valores e habilidades dos estudantes economicamente
desfavorecidos.
8. Trata-se,
assim, de valorizar o capital cultural dos estudantes, seus
conhecimentos e experiências – o educador crítico reconhece a
necessidade de conferir poder aos estudantes.
9. Nesta
pedagogia a história é uma possibilidade a ser construída e
isto exige o resgate da esperança utópica.
10. É uma
pedagogia que advoga uma política cultural que leve em
consideração as dimensões raciais, de gênero e classe,
na qual os professores atuem como intelectuais públicos
transformadores, isto é, indivíduos que assumem os riscos de uma
práxis voltada para a democracia e justiça social, que
procuram se amparar em princípios éticos, solidários e na busca da
coerência entre discurso e ação.
Pedagogia Libertária
e Pedagogia Crítica: aproximações
Seria um erro
afirmar a identificação absoluta entre a Pedagogia Libertária
e a Pedagogia Crítica. Parece-nos, entretanto, que é possível
identificar algumas características comuns: a crítica à
escolarização e à ideologia meritocrática; a crítica ao poder
burocrático; reconhecimento do caráter essencialmente político da
educação; a perspectiva democrática de conferir poder aos alunos
e à comunidade escolar (incluindo os pais); o combate à exclusão e
aos mecanismos de exclusão reais e simbólicos (relacionados ao
capital cultural); e, a idéia de que o conhecimento não é neutro.
A crítica à
função reprodutora da escola é fundamental. Contudo, o efeito
negativo desta crítica é o pessimismo pedagógico, fundado num
certo determinismo: a escola seria, por natureza, conservadora. Os
educadores críticos ressaltam, contra esta concepção, que a redução
da escola a mero aparelho ideológico do capital anula o
discurso de possibilidade e esperança. Não obstante, eles
incorporam esta análise.
É preciso salientar que as teorias reprodutivistas
cumprem um papel fundamental, na medida em que libertam a pedagogia
do espaço meramente escolar, relacionando escola/educação com os
aspectos políticos, econômicos e sociais da sociedade: a escola não
se explica por si. Outra contribuição importante é a demonstração
dos fatores culturais que a escola incorpora e reproduz.
A dinâmica no
interior da escola está vinculada ao processo social geral. Assim,
em determinadas conjunturas históricas, os professores podem
desempenhar um papel transformador mais intenso e explícito; e,
mesmo em conjunturas desfavoráveis, eles podem atuar como agentes da
contra-hegemonia, enquanto intelectuais transformadores.
As próprias circunstâncias em que desempenham seu trabalho educativo
levam-nos a refletir sobre a prática docente, as relações a que
estão submetidos, o processo de proletarização e pauperização, sobre
o que se espera deles, etc. Isto supõe compreender a escola não
apenas como locus da reprodução, mas também como locus de
possibilidades; significa reconhecer que os indivíduos têm
escolhas a serem feitas, que podem agir também no sentido de mudar a
realidade que os cercam. O mesmo espaço que produz comportamentos
conformistas e conservadores, também produz a contestação. Dessa
forma, o mesmo movimento que reforça o papel do professor e da
educação enquanto reprodutores da ordem social vigente, “cria
condições para a emergência de uma pedagogia antiburocrática”. (TRAGTENBERG,
1980: 57)
Se
absolutizarmos a crítica à escola formal e reduzirmos o campo de
ação docente ao espaço escolar, então, corremos o risco de
restringi-la apenas à função reprodutora da sociedade de classes e,
conseqüentemente, de não vermos as suas potencialidades.
Ora, a Pedagogia Libertária é uma aposta no futuro que se
constrói no presente, a partir das escolhas humanas e dos gestos
mais simples em todas as esferas da sociedade. É também uma
pedagogia de possibilidades, de esperança, pois encerra
em si a utopia de um mundo diferente e melhor. A Pedagogia
Crítica enfatiza o papel transformador que o professor pode
cumprir enquanto intelectual. Isto pressupõe não apenas que os
professores se engajem, mas que atuem em todos os espaços possíveis.
Os educadores
libertários e críticos centram-se nos interesses destes. Eles
recusam as práticas autoritárias e reconhecem que o educador também
precisa ser educado; que a relação com o conhecimento não é uma
relação meramente objetiva – na medida em que envolve as
subjetividades do professor/aluno. Contudo, numa perspectiva
pedagógica diretiva, o professor também admite que ele não é
igual ao aluno: sua autoridade moral é dada pelo reconhecimento
dos alunos. Estes, ao legitimarem a autoridade docente,
reconhecem-no como um diferente – ainda que possam idealizá-lo como
um igual, ou uma espécie de irmão mais velho ou a
representação paterna. A relação educativa é, necessariamente, uma
relação entre desiguais. Porém, o educador libertário e
crítico estimula a autonomia do educando, ensina a liberdade com
responsabilidade; sua autoridade não sufoca a liberdade do educando;
sua atitude é de humildade e expressa o esforço em aceitar os alunos
como agentes ativos, cujo capital cultural e subjetividade
precisam ser respeitados.
As pedagogias
libertária e crítica respeitam a linguagem e o saber do educando,
isto é, o capital cultural que este traz para o espaço da
educação formal. Não obstante, esta atitude nega a postura
paternalista ou piegas
e supõe que se trabalhe para que os estudantes tenham condições de,
a partir da sua própria linguagem, apreenderem o discurso legitimado
pela cultura dominante; o contrário é reforçar a submissão e os
aspectos que contribuem para a reprodução das desigualdades.
Trata-se de desvelar o currículo oculto.
A Pedagogia
Crítica parte da realidade dos educandos e toma os seus
problemas e necessidades como ponto de partida. Os educadores críticos salientam “que qualquer prática
pedagógica verdadeira exige um compromisso com a transformação
social, em solidariedade com grupos subordinados e marginalizados.
Isto transmite, necessariamente, uma opção preferencial pelo pobre e
pela eliminação das condições que geram sofrimento humano”.
(MCLAREN: 1997: 194)
Concluindo...
Parece-nos que
é possível estabelecer aproximações entre as teorias que fundamentam
a Pedagogia Crítica e os princípios que tradicionalmente
caracterizam a Pedagogia Libertária. Com isso, não queremos
afirmar que as especificidades de cada pedagogia se anulam ou que se
sobrepõem uma à outra. Pelo contrário, há diferenças substanciais,
como por exemplo, a inspiração cristã da Teologia da Libertação
presente nas formulações de Paulo Freire, cuja obra, como
salientamos, influi decisivamente sobre os educadores críticos;
outra diferença fundamental é a ênfase da Pedagogia Libertária
na autogestão, em especial nas suas interpretações pedagógicas
não-diretivas. Os fundamentos filosóficos, as origens, evolução,
etc., são diferenciados.
Contudo, tanto
a Pedagogia Libertária quando a Pedagogia Crítica têm
preocupações comuns com os deserdados e excluídos, tratam de temas
comuns e oferecem um amplo leque de princípios norteadores para as
práticas educativas. É possível, até mesmo, vislumbrar aproximações
no que diz respeito à defesa da autogestão, em especial se
considerarmos a contribuição teórica de Paulo Freire e a sua postura
pela democratização da escola num sentido radical, isto é,
envolvendo professores, alunos e funcionários nas decisões sobre os
rumos da educação. Dessa maneira, é possível verificar similitudes,
por exemplo, entre a pedagogia do oprimido e da esperança freireana
e aspectos libertários, particularmente, em sua versão
anarco-cristã tolstoiana.
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