Alfabetização e Leitura
Fragmento da
carta de um garoto egípcio a seu pai, escrita em grego sobre um
papiro, proveniente do século II ou III d.C:
“Foi uma bela
coisa você ter me levado à cidade. Se você não me levar com você a
Alexandria, não vou mais lhe escrever, nem falar com você, nem te
cumprimentar... Mamãe disse a Arquelau: “Ele me perturba. Leve ele
embora...” Por isso, eu te imploro, manda me buscar. Se você não
fizer isso , eu não vou comer nem beber. Veja lá, hein!” (Piletti,1987:10)
A
alfabetização, a leitura e a produção textual têm sido alvo de
grandes discussões por parte dos estudiosos da Educação, já que há
muitos anos se observam algumas dificuldades de aprendizagem e
altos índices de reprovação e evasão escolar. Dentre as questões
mais focalizadas, destaca-se o ensino da língua materna. A
dificuldade, após anos de escola, de o aluno escrever um texto
coeso e coerente culminando na insegurança lingüística demonstra o
fracasso das práticas lingüísticas das aulas.
A voz do
professor raras vezes é ouvida no coro daqueles que denunciam a
situação. Não é de surpreender, pois faz parte do processo de
diminuição do professor deixá-lo sem acesso à palavra escrita,
seja, como leitor, porque não detém recursos financeiros
suficientes para adquirir o que é instrumento para seu trabalho,
seja como escritor, porque não é um representante social da elite
formadora de opiniões, embora tenha que, representá-la em sala de
aula.
A função
primordial da escola seria, para grande parte dos educadores,
propiciar aos alunos caminhos para que eles aprendam, de forma
consciente e consistente, os mecanismos de apropriação de
conhecimentos. Assim como a de possibilitar que os alunos atuem,
criticamente em seu espaço social. Essa também é a nossa
perspectiva de trabalho, pois, uma escola transformadora é a que
está consciente de seu papel político na luta contras as
desigualdades sociais e assume a responsabilidade de um ensino
eficiente para capacitar seus alunos na conquista da participação
cultural e na reivindicação social. (Soares, 1995:73)
A linguagem
tem como objetivo principal a comunicação sendo socialmente
construída e transmitida culturalmente. Portanto, o sentido da
palavra instaura-se no contexto, aparece no diálogo e altera-se
historicamente produzindo formas lingüísticas e atos sociais. A
transmissão racional e intencional de experiência e pensamento a
outros requer um sistema mediador, cujo protótipo é a fala humana,
oriunda da necessidade de intercâmbio durante o trabalho.(Vygotski,1998:07)
Mas,
freqüentemente o aprendizado fora dos limites da instituição
escolar é muito mais motivador, pois a linguagem da escola nem
sempre é a do aluno. Dessa maneira percebemos a escola que
exclui, reduz, limita e expulsa sua clientela: seja pelo aspecto
físico, seja pelas condições de trabalho dos professores, seja
pelos altos índices de repetência e evasão escolar ou pela
inadaptabilidade dos alunos, pois, a norma culta padrão é a única
variante aceita, e os mecanismos de naturalização dessa ordem da
linguagem são apagados. (Soares, 1995: 36)
A análise das
questões sobre a leitura e a escrita está fundamentalmente ligada
à concepção que se tem sobre o que é a linguagem e o que é ensinar
e aprender. E essas concepções passam, obrigatoriamente, pelos
objetivos que se atribuem à escola e à escolarização.
Muitas das
abordagens escolares derivam de concepções de ensino e
aprendizagem da palavra escrita que reduzem o processo da
alfabetização e de leitura a simples decodificação dos símbolos
lingüísticos. A escola transmite uma concepção de que a escrita é
a transcrição da oralidade.(Cagliari, 1989: 26) Parte-se do
princípio de que o aprendiz deve unicamente conhecer a estrutura
da escrita, sua organização em unidades e seus princípios
fundamentais, que incluiriam basicamente algumas das noções sobre
a relação entre escrita e oralidade, para que possua os
pré-requisitos, aprenda e desenvolva as atividades de leitura e de
produção da escrita.
Mas a escrita
ultrapassa sua estruturação e a relação entre o que se escreve e
como se escreve demonstra a perspectiva de onde se enuncia e a
intencionalidade das formas escolhidas.(Guimarães, 1995:08) A
leitura, por sua vez, ultrapassa a mera decodificação porque é um
processo de (re)atribuição de sentidos.
Os que se
baseiam em uma visão tradicional da leitura e da escrita continuam
a ver o aprendizado dessas práticas como o acesso às primeiras
letras, que seria acrescido linearmente do reconhecimento das
sílabas, palavras e frases, que , em conjunto, formariam os
textos, e, após o conhecimento dessas unidades, o aluno estaria
apto a ler e a escrever.(Cagliari,1989: 48) Essa seria uma
concepção de leitura e de escrita como decifração de signos
lingüísticos transparentes, e de ensino e aprendizagem como um
processo cumulativo.
Já na visão
contemporânea a construção dos sentidos, seja pela fala, pela
escrita ou pela leitura, está diretamente relacionada às
atividades discursivas e às práticas sociais as quais os sujeitos
têm acesso ao longo de seu processo histórico de socialização. As
atividades discursivas podem ser compreendidas como as ações de
enunciado que representam o assunto que é objeto da interlocução e
orientam a interação. A construção das atividades discursivas
dá-se no espaço das práticas discursivas. (Matencio,1994:17)
Como dito
anteriormente, estamos propondo que enfatizemos as práticas
discursivas de leitura e escrita como fenômenos sociais que
ultrapassam os limites da escola. Partimos do princípio de que o
trabalho realizado por meio da leitura e da produção de textos é
muito mais que decodificação de signos lingüísticos, ao contrário,
é um processo de construção de significado e atribuição de
sentidos. Pressupomos, também que a leitura e a escrita são
atividades dialógicas que ocorrem no meio social através do
processo histórico da humanização.
Adotar esse
ponto de vista requer mudança de postura pois a diferença
lingüística não é mais vista como deficiência (Ceccon,1992:62). O
trabalho com a leitura e a escrita adquire o caráter
sócio-histórico do diálogo e a linguagem preenche a representação
social: a palavra está sempre carregada de um conteúdo ou de um
sentido ideológico ou vivencial. (Baktin, 1992:95)
Nessa
perspectiva, a evolução histórica da linguagem , a própria
estrutura do significado e a sua natureza psicológica mudam de
acordo com o contexto vivido. A partir das generalizações
primitivas, o pensamento verbal eleva-se ao nível dos conceitos
mais abstratos. (Vigotski,1997:30). Não é simplesmente o conteúdo
de uma palavra que se altera, mas o modo pelo qual a realidade é
generalizada em uma palavra. O significado dicionarizado de uma
palavra nada mais é do que uma pedra no edifício do sentido; não
passa de uma potencialidade que re realiza de formas diversas na
fala. (Vigotski,1998:156)