O Globo- 22/Outubro/2004
A parabólica de Lula/Merval
Pereira
O presidente Lula se encarregou
ontem de fazer uma revisão histórica e dar o aval do governo
petista a um dos grandes escândalos políticos recentes, ao
defender em público a teoria do ex-ministro da Fazenda Rubens
Ricupero, segundo a qual “o que é bom a gente conta, o que é
ruim a gente esconde”. A frase, dita em conversa informal, mas
captada por uma antena parabólica, causou um verdadeiro furor
nas hostes petistas na campanha presidencial de 94, a ponto de
o então presidente Itamar Franco, para não colocar em risco a
eleição de Fernando Henrique contra Lula, desautorizar
Ricupero e demiti-lo.
Pois Lula não precisou de
parabólica, dez anos depois, para validar a tese. Ontem, ele
voltou ao tema da elevação da auto-estima do brasileiro em uma
reunião com agentes de viagem, e aproveitou para criticar
indiretamente os meios de comunicação, outra obsessão
presidencial.
Segundo o presidente, em sua
peculiar visão do papel que os meios de comunicação deveriam
exercer, “o que não serve para ajudar na promoção do turismo,
não deve ser tornado público com displicência”.
O presidente acha que é preciso
saber como tratar nossas mazelas em público, e que deveríamos
ter vergonha de “mostrar fatos que afetam a essência do país”.
O que seria a “essência” do país não fica muito claro no
improviso presidencial, mas fica clara uma preocupação
recorrente, esta, sim, perigosa: não devemos ter vergonha dos
fatos em si, mas de exibi-los.
Segundo o presidente, “ninguém
respeita um país que não se respeita”. A receita dele é
simples: devemos falar bem de nós mesmos, e resolver os
problemas internamente. Para ele, o Brasil dá mais importância
às ações negativas do que à valorização nacional.
O tema já havia sido abordado
pelo ministro Luiz Gushiken (Secretaria de Comunicação de
Governo) em encontro, há algum tempo, com jornalistas no
Palácio do Planalto. Na ocasião, Gushiken se queixou da
imprensa que, segundo ele, gostava de “explorar o
contraditório” para fomentar “discórdia e disputa de egos”. E,
na mesma linha usada pelo presidente ontem, defendeu a tese de
que os meios de comunicação deveriam dar mais espaço para o
“lado positivo das coisas”: “Esse país está cheio de coisas
boas”, exclamou.
Depois desse encontro, duas
medidas foram tomadas pelo Palácio do Planalto: o envio do
projeto do Conselho Federal de Jornalismo para “fiscalizar” o
exercício da profissão de jornalista, e publicar no Diário
Oficial da União um decreto presidencial criando um comitê
gestor, com representantes dos três Poderes da República
(Executivo, Legislativo e Judiciário) para “elaborar uma
proposta de implantação de uma emissora de televisão com
programação voltada para o exterior”.
Ao mesmo tempo, surgiu a
campanha “O melhor do Brasil é o brasileiro”, promovida pela
Associação Brasileira de Anunciantes (ABA), com o incentivo de
Gushiken, exatamente para elevar nossa auto-estima, dando como
exemplos ídolos como Ronaldinho e Herbert Vianna.
A associação citou dados do
Instituto Latino Barômetro, que mostram que o povo com a mais
baixa auto-estima da América Latina é o brasileiro. Enquanto o
índice de confiança vai a 64% entre os uruguaios, a 52% entre
os chilenos, o do brasileiro fica em apenas 22%.
No lançamento da campanha, o
presidente Lula voltou a falar num tema que também o obceca, a
família: “O Estado pode resolver uma parte dos problemas ou
pode ser o indutor para resolver parte dos problemas. Mas uma
outra parte é a sociedade que tem que resolver, sobretudo as
famílias”.
Esse tipo de abordagem recebeu
várias críticas, entre elas a da professora Maria José
Rezende, doutora em sociologia pela USP, que em artigo deste
mês na “Revista Espaço Acadêmico”, diz que “no Brasil,
historicamente, o Estado nunca resolveu inúmeros problemas que
lhe competia resolver, e não o fez em razão de um modo de
administrar a coisa pública, que sempre favoreceu um amplo
processo gerador de desigualdades e exclusões sociais”.
A professora também criticou o
comentário feito pelo chefe da Casa Civil, José Dirceu, sobre
o maratonista brasileiro que ganhou a medalha de prata nas
Olimpíadas. “O Vanderlei sempre nos emociona, pois representa
o esforço de todos nós para melhorar o Brasil”, disse Dirceu.
Para a professora “uma
afirmação dessa natureza é extremamente vaga, visto que trata
como semelhante algo completamente distinto. O esforço
empreendido para obter uma boa classificação nas Olimpíadas é
completamente distinto de um empenho político para mudar o
país”.
Maria José Rezende questiona se
“quando o presidente exalta em seus pronunciamentos alguns
jogadores como pessoas que saíram da condição de pobreza e
venceram na vida, sendo estes, então, exemplo para o Brasil”,
ele não estaria fazendo a população interpretar “tais falas
como uma alusão à própria trajetória de Lula, um vencedor de
todas as dificuldades que caíram em seu caminho”.
Nesse caso, os pronunciamentos seriam,
segundo a professora, “um desserviço à busca de democratização
do país, pois escondem que o desenvolvimento da trajetória de
Lula envolve não somente esforço pessoal, mas um amplo esforço
social”. Ela ressalta que quando o presidente diz que a
população deve acreditar em sua própria capacidade, “ele não
está, então, falando em capacidade de organizar-se
socialmente, de pressionar os governantes, de reivindicar
melhorias, de condenar as práticas políticas viciadas em ações
clientelistas, etc., ele está se referindo à capacidade de
cada um arranjar-se por conta própria”.