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Por NILSON
NOBUAKI YAMAUTI
Professor
do Departamento de Ciências Sociais (Universidade Estadual de
Maringá) e Doutor em Ciência Política (USP)
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É possível
transformar o modelo burocrático de gestão da Universidade?
Sabe-se que o
modelo de gestão instituído nas Universidades é de tipo burocrático.
Os órgãos do Estado e da Administração Central da Universidade
produzem normas a serem estabelecidas através de uma estrutura
hierárquica de controle. Os superiores hierárquicos, em tese, contam
com instrumentos de coerção para garantir que seus subordinados
obedeçam às normas estabelecidas.
Neste modelo
de gestão, os funcionários desempenham suas funções em razão da
coerção exercida pelos seus superiores hierárquicos. Ou seja,
desempenham suas funções porque são obrigados, coagidos e por
temerem sofrer as punições instituídas. Não existe, em tese, espaço
para o desenvolvimento de uma verdadeira paixão pelo trabalho. As
pessoas se tornam tarefeiras, simples cumpridoras de ordens.
O modelo
burocrático gera conformismo, desmotivação, falta de envolvimento e
de um verdadeiro compromisso com os fins da instituição. O
funcionário condicionado pela cultura burocrática pode se tornar
robotizado, só cumprindo obrigações e nada além disso. Se os
controles não forem eficazes, ele descobrirá, então, uma forma da
burlar as normas.
Os
administradores da cúpula, ao perceberem que os controles não estão
funcionando perfeitamente e que os objetivos da instituição não
estão sendo atingidos satisfatoriamente, procuram desenvolver normas
mais detalhadas a fim de aprimorar estes controles e aguçar a
coerção sobre os funcionários.
Neste
processo, as atividades-meio, de caráter administrativo, tendem a se
tornar monstruosas e dispendiosas exigindo, em certos casos, mais
tempo, energia e recursos que as atividades-fim, de caráter
pedagógico, por exemplo. O resultado final deste processo pode ser a
prostração mental de funcionários sufocados pelo excesso de
normatização e abatidos devido à percepção de que as normas são
desmoralizadas por falta de mecanismos de coerção suficientemente
eficazes para impedir a impunidade. Quando a máquina burocrática se
agiganta começa a emperrar por falta de agentes suficientes para
fiscalizar aqueles que têm a função de fiscalizar.
O colapso
do modelo
No final do
século XX, o fato histórico que marcou a implosão do modelo
burocrático de gestão, foi o colapso do socialismo de tipo
totalitário. A sociedade se burocratizou, a imposição de controles
de cima para baixo tornou os indivíduos apáticos, sem energia para
assumirem suas tarefas com vontade, responsabilidade pública e
paixão. As pessoas passaram a burlar os controles apesar da máquina
de repressão gigantesca e brutal desenvolvida pelo Estado. Erich
Fromm foi profético ao assinalar que o desenvolvimento de controles
mata a vida.
Na
Universidade, a ineficiência dos controles burocráticos pode ser
constatada pela possibilidade de o professor agir de forma
arbitrária dentro da sala de aula com decisões que contradizem os
fins da instituição; é a possibilidade de os alunos burlarem os
controles relacionados à avaliação através de colas e encomendas de
trabalhos a terceiros. A evidência dos efeitos perversos do controle
burocrático está no uso distorcido da autonomia, está no
arrefecimento das energias intelectuais de professores e alunos,
está no arrefecimento da vontade de produzir, criar, participar,
discutir, trabalhar coletivamente.
Na
Universidade pública, a especificidade do modelo burocrático
estabelecido é que os escalões superiores não têm poder de coerção
suficiente para garantir o cumprimento rigoroso das diretrizes
pedagógicas tendo em vista a realização dos objetivos gerais da
instituição. Departamentos, professores e alunos ficam sem uma
verdadeira autonomia e, ao mesmo tempo, sem formas democráticas de
controle. O modelo burocrático de controle, nesse caso, é capenga.
Entretanto, se
ainda existem experiências interessantes sendo realizadas na
Universidade é pelo fato de o modelo burocrático de controle não
apresentar eficácia integral. Aperfeiçoar os controles burocráticos
para impedir abusos pode ter o mesmo efeito de pesticidas na
lavoura: pode destruir também a autonomia desfrutada por aqueles
professores e alunos que tentam resistir à burocratização das
relações acadêmicas preservando o prazer de criar, ensinar e
aprender. E este prazer só subsiste porque a autonomia para estes
professores e alunos lhes possibilita realizar trabalhos por
motivação pessoal e não por sofrerem coação de superiores
hierárquicos.
Um novo
modelo de gestão
As empresas
capitalistas desenvolveram no final do século XX formas de gestão
mais consentâneas com as especificidades do homem moderno que
seriam: o amor à liberdade e à autonomia, o prazer de exercer o
papel de sujeito de seu próprio destino, ou seja, o papel de sujeito
que transforma a sua realidade para atingir fins próprios e
coletivos.
Nas fábricas
que implementaram essa nova forma de gestão, os operários passaram a
participar das decisões nos locais de trabalho a fim de elevar a
produtividade e a qualidade recebendo como incentivo, além de
prêmios especiais, a participação nos lucros da empresa. Dessa
forma, os operários passaram a trabalhar não mais por serem coagidos
pelos chefes e pelas normas da fábrica mas por motivação pessoal
interna. Foi possível, assim, eliminar sabotagens nas máquinas, na
produtividade e na qualidade dos produtos, - ou seja, sabotagem nos
objetivos da empresa -, ao mesmo tempo em que se eliminava muitos
cargos de chefia e muitos controles de tipo coercitivo.
Na verdade,
para aumentar seus lucros, bem como a exploração da força de
trabalho, as empresas instrumentalizaram alguns conceitos das
ciências sociais bem como certos princípios que lhes são inerentes:
práxis, autonomia do indivíduo, autogestão, democracia direta,
participação, vontade geral, identidade coletiva, sujeito histórico
etc.
A Universidade
poderia aplicar estes mesmos conceitos para criar uma nova forma de
gestão do processo pedagógico. Com uma diferença fundamental: na
Universidade, as relações entre alunos e professores no processo de
ensino-aprendizagem não constituem relações de classe tendo como
objetivo a exploração da força de trabalho. A busca de qualidade e
da produtividade do ensino não teria como finalidade beneficiar
agentes particulares privados mas toda a sociedade.
A idéia básica
dessa nova forma de gestão da Universidade é que professores e
alunos passem a encarar a atividade de ensino e aprendizagem não
como uma obrigação burocrática desgastante mas como uma atividade
geradora de prazer e gratificação. Professores, funcionários
técnico-administrativos e alunos seriam os responsáveis pela
qualidade do ensino desfrutando de uma flexibilidade curricular de
verdade, bem como de uma verdadeira autonomia, inclusive para
transgredir e inovar. O professor, em lugar de exercer uma função
técnica, a de transmitir os conteúdos pré-estabelecidos por
terceiros, iria exercer a função de educador verificando aquilo que
os alunos já sabem, o seu nível de desenvolvimento intelectual, a
sua visão de mundo, as suas necessidades acadêmicas, as suas
condições de vida, para aí sim planejar situações de ensino
adequadas para essa turma em particular a fim de efetivar os fins da
Universidade, não abarrotando os alunos de informações, competindo
com a capacidade de armazenamento dos discos-rígidos, mas criando e
planejando condições para que desenvolvam determinadas competências
e habilidades e aprendam a aprender tornando-se, assim,
verdadeiramente autônomos.
Neste
processo, espera-se que os alunos passem a buscar o conhecimento
movidos pela curiosidade e pela paixão da descoberta e não
especificamente para fazer provas e passar de ano como ocorre
comumente. No modelo burocrático de controle da atividade
pedagógica, a avaliação para os alunos torna-se um fim em si mesmo
quando deveria constituir apenas um meio de o professor verificar se
o seu método de ensino está produzindo resultados satisfatórios.
Este, aliás, é o efeito perverso de todo controle de tipo
burocrático: a inversão entre meios e fins e a distorção dos
objetivos da instituição.
É preciso
considerar que temos todos a mente impregnada pela cultura
burocrática. Por isso, esta nova forma de gestão, pelo menos no
início, não poderia dispensar formas democráticas de controle:
avaliações externas ao Departamento para medir o grau de
desenvolvimento da cidadania, das habilidades intelectuais, das
competências acadêmicas, dos valores consagrados pela história da
humanidade, da formação para o mundo do trabalho e da visão de mundo
no momento de ingresso e no momento de saída do aluno da
Universidade; e, quem sabe, a institucionalização da avaliação do
trabalho do professor em sala de aula pelos alunos. Os resultados
dessas avaliações precisariam estar vinculados de alguma forma a
incentivos especiais oferecidos à equipe de professores dos cursos,
aos funcionários técnico-administrativos realocados para se dedicar
a atividades-fins e ao Departamento pelo desenvolvimento da
qualidade de ensino.
É possível
transformar o modelo de gestão estabelecido nas Universidades?
Existe uma fábula muito conhecida, de autor desconhecido, que expõe
as dificuldades existentes para essa transformação. Para quem ainda
não teve o prazer de ler este delicioso texto, carregado de ironia e
bom humor, apresento a seguir uma versão por mim reescrita.
A fábula
dos porcos assados
Certa vez,
aconteceu um incêndio num bosque. Os porcos que ali viviam foram
assados pelo fogo e suas peles duras pururucaram, tornando-se
apetitosamente crocantes. Os homens daquela região, habituados a
comer carne crua, degustaram os porcos transformados em torresmos e
acharam delicioso o sabor e o aroma da carne assada. A partir dessa
revolucionária experiência gastronômica, toda vez que desejavam
comer porco assado e torresmo incendiavam todo um bosque inteiro.
Os homens
daquela região montaram um aparato técnico, científico e
administrativo monumental para o assamento de porcos. Este aparato
foi crescendo assustadoramente passando a envolver milhões de
pessoas.
Foram
desenvolvidas máquinas e equipamentos sofisticados para executar
tarefas de diversos tipos; funcionários foram especialmente
treinados para acender fogo e incendiar bosques e alocados em
núcleos regionais para trabalhar em períodos diurnos e noturnos.
Surgiram, ainda, especialistas em ventos, em chuvas, em árvores, em
bosques, em pururuca e torresmo e, enfim, especialistas de todos os
tipos possíveis e imagináveis. Os cargos foram surgindo sem parar: o
de diretor geral de assamento, o de diretor de técnicas ígneas com
seu Conselho de Assessores, o de administrador geral de
reflorestamento, o de diretor disso e daquilo, além de centenas de
cargos de chefia e sub-chefia. Foram criados departamentos para o
treinamento profissional em Porcologia, institutos superiores de
cultura e técnicas alimentícias e diversos centros responsáveis
pelas reformas de caráter igneooperativo. Foi formulado um Plano
Nacional para a Formação de Bosques, Planabo, cuja meta plurianual
seria implantar bosques de acordo com as técnicas mais modernas de
reflorestamento. Foram trazidos do exterior cientistas para o estudo
e seleção das melhores variedades de árvores e sementes, para o
estudo de fenômenos pluviométricos, para o estudo do fogo e de
matrizes de porcos e para desenvolver pesquisas sobre o
extraordinário fenômeno da pururucagem. Poderíamos ficar dezenas de
anos seguidos descrevendo o faraônico aparato instituído para
coordenar, implementar, controlar e manter todo o gigantesco
processo.
Apesar da
enorme soma de recursos públicos investidos no funcionamento deste
gigantesco aparato, no processo de assamento os animais ficavam, ou
parcialmente crus, ou demasiadamente tostados, desagradando milhões
de paladares cada vez mais refinados.
As queixas
eram justificadas: os impostos pagos para custear o aparato eram
escorchantes, a poluição causada pelos incêndios e a qualidade da
carne assada, devido, supostamente, à ampliação da escala de
produção, cada vez piores. Foram aumentando os protestos na
imprensa, crescendo as insatisfações na opinião pública, os
políticos aproveitando para fazer promessas de campanha e as
mobilizações da comunidade tornando consensual a necessidade urgente
de reforma no modelo de assamento de porcos.
Congressos,
seminários e conferências passaram a ser realizados na busca de uma
solução para o problema. Apesar do extraordinário esforço
empreendido por milhares de especialistas em assamento de porcos,
inclusive com títulos de doutor obtidos no exterior, os resultados
alcançados eram desanimadores. Repetiam-se, assim, os congressos,
seminários e conferências. Os especialistas continuaram insistindo
que as causas do mau funcionamento do sistema eram a indisciplina
dos porcos, que não permaneciam onde deveriam ficar no momento do
incêndio do bosque; a natureza indomável do fogo e dos ventos; e,
ainda, a má seleção das variedades de árvores, muitas delas
inadequadas para o assamento, a excessiva umidade da terra e o
insatisfatório serviço de meteorologia que não fornecia informações
exatas sobre o lugar, a hora e a quantidade da precipitação de
chuvas. Os especialistas formaram correntes de pensamento e
desenvolveram doutrinas que geraram disputas acirradas nas
Universidades. Milhares de obras de cunho científico foram
publicadas, lançadas revistas com prestígio internacional, criados
cursos de pós-graduação para formar cientistas além de institutos
para desenvolver pesquisas sobre porcos e assamento de porcos.
Até que, certo
dia, João Bom-Senso, um incendiador categoria C, nível 4, classe
INC, percebeu que o problema era de fácil solução. Bastava,
primeiramente, matar, limpar e cortar o porco escolhido e, depois,
colocar a carne numa armação metálica sobre carvão em brasa, até
que, sob o efeito do calor, a carne ficasse assada. A grande
vantagem desse método era a possibilidade de cada um temperar a
carne de acordo com o seu paladar e assá-la em sua própria casa
reunindo os amigos para beber, conversar, solidificar laços de cunho
político, religioso, profissional e/ou apenas afetivo.
Tendo sido
informado sobre as idéias subversivas deste perigoso funcionário, o
diretor geral de assamento mandou chamá-lo ao seu gabinete e, depois
de ouvi-lo pacientemente, disse-lhe em tom incisivo:
— Tudo o que o
senhor me explicou é teoricamente muito bonito, diria até
maravilhoso, mas jamais funcionaria na prática. O que o senhor
faria, por exemplo, com os anemotécnicos, caso viéssemos a aplicar a
sua bem intencionada idéia? Onde seriam empregados os pesquisadores
que produzem todo o conhecimento necessário para aperfeiçoar as
técnicas de incêndio e de reflorestamento?
— Não sei,
disse João.
— E os
especialistas em sementes? Em árvores importadas? E os desenhistas
de instalações para porcos e os operadores de máquinas para
destrinchar carne assada?
— Não sei.
— E os
cientistas que ficaram anos seguidos especializando-se no exterior e
cuja formação custou tantos recursos ao país? E os pesquisadores que
têm trabalhado na elaboração do Programa de Reforma e Melhoramento
do Sistema de Assamento de Porcos? O quê faço com eles se a solução
que o senhor me traz resolver tudo?
— Não sei,
repetiu João, encabulado.
— O senhor
percebe que a sua “maravilhosa” idéia pode desencadear uma crise de
proporções catastróficas no país? O senhor não vê que se tudo fosse
tão simples, nossos especialistas já teriam encontrado a solução há
muito, muito, tempo atrás? O senhor, com certeza, compreende que eu
não posso simplesmente convocar os milhares de técnicos, engenheiros
e pesquisadores com PhD e dizer-lhes que tudo se resume a utilizar
brasinhas, sem chamas, para assar porcos, e bye-bye para todos
vocês! O que o senhor espera que eu faça com os quilômetros e
quilômetros quadrados de bosques já preparados, cujas árvores não
dão frutos e nem têm folhas para dar sombra e abrigo aos pássaros?
— Não sei,
não, senhor.
— O senhor não
reconhece que nosso Instituto de Porcopirotecnia é constituído por
personalidades científicas do mais extraordinário gabarito?
— Sim, eu
acredito que sim.
— O que eu
faria com figuras de tão grande importância para o país?
— Não sei.
— Viu? O
senhor não sabe de nada! O que precisamos são soluções viáveis para
problemas práticos específicos. Por exemplo, como melhorar as
anemotécnicas atualmente utilizadas, como formar rapidamente
profissionais para preencher as vagas existentes na região Oeste do
país ou como construir instalações para porcos com mais de sete
andares que sejam funcionais. Temos que caminhar muito ainda para
aperfeiçoar o sistema, o senhor me entende? O que precisamos, acima
de tudo, é de sensatez e não de belas intenções!
— Realmente,
eu estou perplexo!, respondeu João.
— Bem, agora
que o senhor conhece as dimensões do problema, não saia espalhando
por aí a sua insensata idéia. Pode ser muito perigoso. O problema é
bem mais sério e complexo do que o senhor jamais poderia imaginar.
Agora, entre nós, recomendo que não insista nessa sua idéia boba
pois isso poderia trazer problemas para o senhor no seu cargo. Não
por mim, o senhor entende. Eu falo isso para o seu próprio bem,
porque o compreendo, entendo perfeitamente o seu posicionamento, mas
o senhor sabe que pode encontrar outro superior menos compreensivo,
não é mesmo?.
João Bom-Senso
não falou mais um a. Meio atordoado, meio assustado, envergonhado
por ter transmitido a sua estúpida idéia ao diretor geral, saiu de
fininho e ninguém nunca mais o viu. Os boatos se espalharam e
tornou-se hábito dizer em reuniões de Reforma do Sistema, em tom de
chacota, de forma cínica até, que falta Bom-Senso.
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