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Por
VIRGINIA MACHADO
Professora Assistente
do Departamento de Educação e Ciências do Comportamento da
Fundação Universidade Federal do Rio Grande. Mestre em Educação
UFRGS 1999. |
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Pedagogia
Universitária:
tópicos para
uma análise
Resumo:
Relata-se uma tentativa de análise a partir de apontamentos de
questões problematizadas no cotidiano universitário local,
presentes no diálogo ainda escasso, mas permanente, com alunos e
colegas professores. Pretende-se organizar algumas idéias sobre
questões que envolvem o curso de Pedagogia e especificamente a
metodologia de ensino superior. Esta organização tem o objetivo de
demonstrar a urgência e necessidade do desenvolvimento de
metodologias e tecnologias de ensino superior integrando-se as
dimensões técnica, política e ética do fazer universidade. As
metodologias locais, ainda nebulosas, isto é, pouco
identificáveis, se constituem em mecanismos construtores do
educador e dos educandos do ensino superior, seja na formação de
profissionais liberais, seja na formação inicial de professores.
Argumenta-se que a visão de mundo e a potencialização do agir
solidário destes cidadãos estão intimamente relacionadas à
metodologia do ensino experimentado em sua formação. Esta
metodologia, por sua vez, é subsídio e produto do projeto de
universidade em vigor, muito debatido no plano político, mas ainda
com pouca repercussão nos planos técnico e mesmo ético.
Palavras-chave:
pedagogia universitária, cotidiano, complexidade, formação
profissional e cidadania
Exórdio
Falar de
pedagogia é sempre muito apaixonante quando se experimenta o
prazer de alguma sabedoria e ainda de muita demência
desta arte. Pedagogia como teoria crítica ou como “arte-oficio”
pressupõe a construção de um saber fazer pedagógico e saber ser
professor (pedagogo e pedagoga no caso dos estudantes de Pedagogia
e pedagogos e pedagogas aqui presentes) que passam pela revisão
permanente desta construção. É por sentir prazer em buscar estes
saberes que me aventuro a relacionar alguns tópicos para uma
análise sobre a relação pedagogia e ensino superior; certamente
que sempre inconclusa, por vezes até confusa, porém difusa, à
medida que a discutimos nas micro-relações do cotidiano
universitário, querendo verdadeiramente a discussão, a
clarividência dos contrários, correndo riscos do contraditório, do
falatório, do purgatório das idéias incompletas, dos avanços
conceituais e dos argumentos insistentes, dos saltos de qualidade
de nossa postura, cuja raiz prematura vem da vontade de pensar,
fazer, ser e sentir mais a vida e nosso trabalho.
Inicialmente
gostaria de apontar a metodologia adotada para estruturar esta
abordagem. Tentarei responder sucintamente as questões que me fiz
para justificar esta proposta de análise, que pretende inaugurar
minhas intenções de projeto de tese. Note-se que pretendo fazer
uma relação que envolva a todos os atores, portanto meu olhar não
se dirige somente aos estudantes ou aos professores ou à
instituição como um todo, mas a todos os envolvidos no processo da
pedagogia universitária.
Como me vejo
diante da necessidade e urgência desta discussão?
O que motiva a
sistematização destes problemas, não é um objetivo de encontrar
“culpados”, como possa parecer a quem tem dificuldades em ver a
dialética de nossa realidade acadêmica e suas relações externas,
mas tem sim o objetivo de encontrar subsídios que auxiliem a
elaboração
de metodologia e tecnologia de ensino superior pretendendo um
profissional formado pela universidade, que atue na sociedade em
que vive, levando-se em consideração o status quo, e o
projeto de nossas utopias de construção de uma sociedade mais
justa e boa para todos, numa perspectiva do desenvolvimento
sustentável, hoje problematizado quando se pensa em planejamento
produtivo e distributivo de riquezas, atrelado ao desenvolvimento
humano e social.
Que caminho
foi percorrido? O que encontro na literatura a respeito disto?
A universidade
tem sido objeto de crítica praticamente desde que foi inaugurada.
E isto já faz quase um milênio. A crítica mais enfática e arrojada
parece ter sido a de Max Weber, no início do século XX. Ele se
referia aos feudos que foram criados em torno das áreas do
conhecimento e às relações de poder provenientes destes
aglomerados, que poderiam barrar pessoas e idéias que não fossem
convenientes aos reitores, por exemplo. Esta crítica tem sido
considerada atual, na medida em que ainda mantemos aglomerados em
torno das áreas do conhecimento e a conseqüente competição entre
elas, que para alguns parece ser salutar e para outros não. No
Brasil, tivemos a crítica do prof. Luiz Arthur Giannotti, da USP,
resgatando a crítica de Max Weber e cunhando o termo “faz de
conta”, quando se refere ao ensino superior. Esta crítica veio
causar grande reboliço na universidade, já que era feito de dentro
dela. Depois desta crítica tivemos alguns teóricos, também
professores universitários, como é o caso de Pedro Demo, Cipriano
Luckesi que vão apresentar a crítica ao mesmo tempo em que
apresentam uma proposta metodológica de como fazer universidade,
partindo do pressuposto da produção textual e defesa das idéias
pelos acadêmicos. São boas sugestões, mas no meu entender, partem
da idéia da boa vontade de todos os envolvidos para que funcione.
Sabemos que a realidade é outra por “n” razões. Quais são? Elas
estão no cotidiano universitário e fora dele. É preciso estar
sintonizada em nosso tempo e no diálogo com os envolvidos,
lembrando que o agir solidário não pode ficar restrito a uma
discussão sobre dimensão política da prática pedagógica, mas deve
envolver as outras dimensões, como a técnica e a ética.
Que aspectos
a maioria das publicações conhecidas ainda não dão conta?
Estas
publicações ainda não dão conta de aspectos do
cotidiano
do professor universitário que promovem o fazer universidade
local/global através de sujeitos que se educam por uma pedagogia
no/do trabalho (ensino, pesquisa e extensão). Este cotidiano
precisa ser investigado em toda a sua extensão, ou seja, não
somente sobre sua metodologia de trabalho, como de sua concepção
de educação, ciência e cidadania, bem como sobre sua vida pessoal,
mantendo-se a visão integrada da pessoa, ponderando-se o quanto,
se possível, seu trabalho é trabalho criativo e o quanto é
alienado. A grosso modo diria que muitas das respostas aos
problemas relacionados a seguir poderiam ser encontradas no
diálogo com os colegas de profissão e a investigação sobre seus
cotidianos, assunto que tem me apaixonado quando busco o
entendimento da complexidade do mundo da vida e do sistema,
norteados por todas as formas de conhecimento.
Como pretendo
encaminhar esta discussão? Quais variáveis considero no
encaminhamento desta discussão? Que sugestões apresento para os
problemas que evidencio? A que me proponho fazer?
Quando se pensa
em fazer esta sistematização tem-se em vista a construção do
contexto – local - e uma inter-relação dos problemas, definidos
com base na experiência não somente da profissão docente, mas como
pessoa, acadêmica, a experiência em outras profissões já exercidas
no mundo do trabalho e, sobretudo, como cidadã e empreendedora da
idéia de uma sociedade possível, embora se revele mais e mais
distante em virtude dos últimos acontecimentos mundiais e locais.
A seguir
pretendo listar os problemas fazendo alguns apontamentos,
esclareça-se, de uma práxis. Por que de e não sobre
uma práxis? Puramente porque se tem a intenção de demonstrar que
estamos inseridos na raiz e na florescência dos problemas,
portanto, falamos de dentro. Estamos todos de certa forma imersos
nos problemas que definimos, mesmo que não seja de nosso interesse
acadêmico – o ensino -, mesmo que se escamoteie as razões dos
conflitos no cotidiano universitário, mesmo que se negue a
possibilidade de mudança social a partir de nossa práxis,
dizemo-nos críticos. Neste último caso somos contraditórios, pois
não há senso crítico que se preze que não faça o alarde de
críticas ao determinismo histórico. O bom senso crítico diz que
fazemos a nossa história, ninguém a determina. As vezes,
contraditoriamente dizemo-nos críticos, sujeitos históricos, mas
na prática delegamos a luta contra o determinismo histórico à
outros sujeitos. É muito comum concluirmos que não adianta nada
tentar mudar o próprio ambiente. Nosso discurso político é um mas
nossa práxis é cheia de contradições.
Vivendo sob a
mesma lógica, quase sempre encontramos no outro o motivo de nossos
fracassos, atribuindo somente a nós o motivo dos sucessos.
Raramente salientamos o valor da participação coletiva na
concretização de projetos, de metodologias bem sucedidas. Quantas
vezes somos capazes de perceber e documentar que produzimos
conhecimento e tecnologia a partir da colaboração comprometida de
nossos estudantes e colegas? Quantas vezes percebemos isto na
dinâmica da co-laboração aleatória, ou seja, sem que tenha sido
planejada?
É com o objetivo
de discutir alguns problemas observados durante os últimos anos,
contados os de trabalhadora e estudante e os de professora
universitária, que me vejo tentada a elaborar uma relação deles
para, à medida que amadureço cada um, possa fazê-lo de forma
global, avistando as conexões e possibilidades de trazermos à tona
uma discussão sobre metodologia de ensino superior que, no meu
entendimento, precisa ser feita urgentemente. Principalmente
quando se argumenta que buscamos a realização de algumas utopias
há muito tempo desejada pelos educadores e certamente pelos
cidadãos que investem no desejo de participarem de uma sociedade
de forma sincera, ao anunciarem que sabem fazer o que seu diploma
prescreve e para o que se apresentam às vagas existentes e/ou para
o que reivindicam melhores condições de trabalho e remuneração
justa.
O motivo da
pretensão de análise dos problemas formulados em seu conjunto se
deve ao entendimento da complexidade (Morin, 2001) adiantada em
que nos encontramos e que precisa ser avistada e compreendida, se
pretendemos a coerência com um outro olhar do fazer ciência e
educação, ou seja, se pretendemos a junção do conhecimento que
enquanto construído guiará a práxis que desejamos, a práxis que dê
conta dos problemas em seu conjunto, problematizando-os e chamando
os envolvidos à apresentação de soluções coerentes com a razão que
investigamos, qual seja, a razão comunicativa (Habermas, 1988).
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Problema da
escolha profissional – poderíamos aqui falar em vocação, apesar
de haver um ranço
lingüístico com relação a esta definição. Entendo vocação como
se sentir convocado a fazer algo que consiga conciliar o desejo
pessoal, ligado às capacidades individuais, tendências e
realizações próprias, condições concretas, e ao desejo coletivo,
quando se percebe a necessidade do oferecimento de bons
profissionais para a sociedade em que precisa e/ou pretende
viver, para a qual se apresentará anunciando que sua
contribuição social, remunerada justamente ou não, será com o
exercício de tal profissão. Por conta de algum impedimento da
vocação, muitos estudantes, e até mesmo professores, não
pretendiam ou não têm certeza do curso ou do trabalho que fazem.
Alguns já sabem que não gostam, mas continuam fazendo. Querem ir
até o fim, porque não querem mudar; acostumaram-se a sofrer ou
não têm para onde ir. E mais grave ainda, alguns têm medo de
mudar. Como pensar em metodologia de ensino superior quando se
documenta tais situações confessadas?
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Problema do
medo do futuro – a queda da descrença nas possibilidades
utópicas tem crescido no meio universitário. Na universidade
mais do nunca a sobrecarga de denúncias e desvelamentos da
realidade social e da política-econômica mundial e mesmo da
desconstrução das certezas científicas deixam poucas saídas para
o futuro próximo de nossos estudantes, já que estão longe da
vida da escola e mais próximos da vida do mundo do trabalho.
Mundo este que materializa a maior crise da História. Somente a
concordância da necessidade de sustentação do equilíbrio entre
formação profissional, construção do conhecimento e vida do
trabalho (dilema entre o fazer e o emprego) não consegue dar
conta de uma cultura da eficiência e da competitividade (na
verdade falaciosas), mas que nunca são desmistificadas, talvez
pela presença dos atores do faz-de-conta (Giannotti,
1986) presentes na universidade Como imprimir em nossa
metodologia de ensino superior o a crença em uma sociedade
possível a partir da validade da profissionalização bem
construída como argumento da cidadania plena e como base para a
construção do futuro individual e coletivo? A insistência na
crítica social e a promoção da educação para todos poderão nos
ajudar a transformar o senso comum individualista e senso
comum (Santos, 2002) solidário?
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Problema
conceitual – é muito grave constatar que nossos estudantes não
dominam conceitos fundamentais do curso que “fazem”. Esta
questão é da maior seriedade e precisa ser encarada pelas
associações de alunos, pelas comissões e por todos os
envolvidos, enfim, providencialmente quando da elaboração de
programas e reestruturações dos cursos. Esta carência conceitual
está relacionada à carência educacional pessoal e cidadã? Como
descobrir que conceitos são desconhecidos? Sabemos quais são os
conceitos fundamentais dos cursos? Os alunos, como futuros
profissionais de educação, estão preocupados com isto? Temos
todos os docentes esta visibilidade? Em era de
multi-inter-transdisciplinaridade, queremos fazer mais do
que encontrar argumentos de fundamentação da validade de
refazermos o pensamento, de críticas à razão instrumental, da
globalidade etc?
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Problema do
nível de exigência e da negociação – todos sabemos que quando
ficamos algum tempo sem fazer exercícios nos acomodamos à vida
sedentária e a cada dia ficamos mais preguiçosos, encontrando
todo o tipo de justificativa para não fazer exercícios. Da mesma
forma quando nos exigem pouco ou quando não somos exigentes com
os outros ou com nós mesmos, temos a tendência a aceitar
qualquer coisa. Sabemos também que a exigência pode nos fazer
sofrer no início, mas como humanos, podemos vir a dar respostas
além do que esperávamos ser capazes. Isto tem se notado quando
somos exigentes com os estudantes e justificamos esta exigência.
Quando ocorre a resistência a qualquer nível de exigência vemos
a manifestação, às vezes agressiva e mesmo descortês, da busca
de negociação. Esta negociação geralmente é liderada por
estudantes resistentes a desafios, às vezes com dificuldades de
aprendizagem ou pouco freqüentes e/ou com participação
esporádica ou pouco verdadeira. Mesmo que se redimensione o
planejamento estes alunos não dão respostas compatíveis com uma
exigência acadêmica mínima. Quanto mais o estudante negocia e é
atendido, mais medíocre é sua resposta ao redimensionamento do
programa. Até que ponto a flexibilidade é possível? Qual a
diferença entre flexibilidade e permissividade?
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Problema da
mudez em sala de aula – poucos alunos participam da aula de
forma observável. É preciso verificar por que isto acontece.
Seria por não haver espaço para a fala do aluno? Havendo espaço
ele não fala por não estar acostumado a falar ou por temer expor
seu conhecimento? Tem medo de expor porque tem vergonha do
professor ou de seus colegas? Por que se registra competição
acirrada entre alunos e grupos de alunos em sala de aula? A
cultura da competição, mais forte que a falsa eficiência, vem
com nossos alunos para a universidade ou ela nasce aqui? Não
havendo espaço para a fala do aluno, por que somente alguns
lutam para conquistar este espaço? Por que conversam
animadamente outros assuntos que não os abordados nos programas
acadêmicos? Por que alguns nem isto fazem? Qual a visão que cada
um dos grupos citados tem deste cenário? Como os “mudos” vêem os
falantes e estes àqueles?
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Problema
presencial: muitos alunos fazem uso do direito do valor mínimo
de presença nas disciplinas. Atrasos são freqüentes e
justificados pela condição do meio de transportes utilizado ou
do horário de trabalho. Em decorrência de razões de trabalho ou
desconhecidas muitos alunos saem mais cedo. Estas ocorrências
prejudicam o aproveitamento da carga horária destinada às
disciplinas, uma vez que somos interrompidos (alunos e
professores presentes na sala) no início e no meio da aula, e
pressionados a finalizar a aula quando já na segunda metade do
tempo de aula. Poderíamos também considerar aqui a questão do
corpo presente, que “desobedecem” a dinâmica da aula e a
proposta da disciplina em seu conjunto, sem proposições de
mudança fundamentada em razões progressistas. Este tipo de aluno
precisa ser vigiado e estimulado o tempo todo, sob pena de se
tornar difícil entender a sua reprovação no final do curso. Aqui
poderíamos também incluir a questão da evasão seja da
universidade, seja entre os cursos. Que atitude pedagógica
devemos tomar, adequada à pretensão de formação de bons
profissionais, comprometidos com a construção de uma sociedade
mais justa e boa para todos? Estamos dispostos a despender
energia em exigência do compromisso assumido na matrícula em uma
universidade pública? Temos esta visão global da relação entre a
falta de responsabilidade e a formação de profissionais e
cidadãos de qualidade?
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Problema do
ensino noturno: a cada ano desde que fui estudante do ensino
noturno, pois precisava trabalhar para meu sustento, observo o
aumento de uma acomodação e compaixão (Machado, 1996) que
garante ao ensino noturno o lugar de desvantagem perante o
ensino diurno. Novamente aqui eu chamaria a atenção para a
questão da reflexividade social abordada por Giddens
(1991). Na tentativa de garantir a todos os trabalhadores o
acesso ao curso superior desenvolve-se uma cultura de formação
profissional às avessas, fazendo do ensino superior noturno um
embuste de profissionalização e complementação da construção da
cidadania plena. Como conciliar a necessidade de garantir aos
trabalhadores dos cursos noturnos um ensino de qualidade que
garanta a eles a ascensão social que vêm buscar e a necessidade
de cada vez mais fazer menos para viabilizar a conclusão mínima
dos programas de formação profissional e cidadã? O que fazer
para despertar a interiorização da exigência de alto nível,
garantindo a própria qualidade? Como podemos provocar este
estudante a despender uma extra-força já que é um trabalhador
estudante, que está buscando um saber para Ser Mais?
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Problema do
hábito da leitura: é muito comum ouvirmos dos alunos a admissão
do fato de não terem o hábito da leitura. Esta é uma herança do
ensino básico e não podemos deixar de lembrar, também da herança
familiar. Junto com a dificuldade de leitura e interpretação de
textos há uma grande resistência em apostar na mudança de hábito
e recuperação do tempo perdido. Ou seja, nosso aluno deveria, ao
contrário do que reivindicam, ler mais, pois a lacuna é grande
para quem deseja ser professor e professora, no caso das
licenciaturas. Seria querer demais que nossos alunos tivessem
conhecimento acumulado sobre literatura, poesia, dramaturgia,
além de outras linguagens como cinema, artes visuais, plásticas
etc. Vemos surgir aos poucos a utilização de argumentos
validando o uso de outras linguagens para substituir a leitura,
não como complemento e objetos de criação a partir das reflexões
acumuladas pelas bases teóricas. Tem-se na discussão da
necessidade de mais prática também, no meu entendimento, como
pretexto para sonegar a teoria, que no caso, especificamente, da
formação de profissionais de educação é fundamental para situar
nossas ações em um contexto histórico, criado sobre um saber
acumulado, esperando novas reflexões a partir da narrativa de
cada práxis e de todas as práxis. Portanto, a prática se faz
como criação autônoma e coletiva do que aprendemos de verdade.
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Problema da
produção textual: a maioria dos alunos (Pedagogia) têm muita
dificuldade em produzir textos que atendam os quesitos que
seguem em seu conjunto:
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Estrutura :
texto com introdução, desenvolvimento e conclusão.
-
Correção:
respondendo à questão proposta corretamente, com base nos
conteúdos trabalhados na disciplina/leitura; ortografia,
gramática.
-
Clareza:
escrever de forma clara, objetiva, sem caminhos longos que
arrisquem perder o foco.
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Argumentação:
fundamentar as idéias com lógica, fundamentando-as em bases
teóricas trabalhadas e mesmo, em idéias próprias quando forem
além das bases acadêmicas.
-
Criatividade:
elaborar ou citar exemplos, apontar outros problemas
relacionados ao que se pede, fazer anúncios que sinalizem pra
outras questões conectadas ao que se pede.
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Esmero:
interesse em fazer bem feito (apresentação, letra legível,
limpeza, etc).
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Problema das
exposições: alguma timidez, juntado ao desinteresse e ao baixo
nível de exigência na apresentação de trabalhos leva a
transformar as apresentações de trabalhos acadêmicos em
calvários para quem assiste e para quem apresenta. É comum o
desconhecimento ou desinteresse na apresentação de qualquer
técnica para tornar a exposição mais clara e agradável. Na
maioria das vezes o que ocorre é o desfile da informalidade e do
improviso, como negação da técnica – talvez por medo de ser
acusado de tecnicista - dando a parecer que busca ser cativante
e progressista. Como estimular a vontade de investigar-se um
modo mais adequado de expor o que se tem a dizer? Por que a
negação da qualidade técnica tenta parecer progressista?
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Problema da
avaliação: foge-nos a percepção de que haja uma consciência da
necessidade e validade da avaliação como elemento de construção
do conhecimento. A avaliação tem sido observada como uma disputa
entre alunos e professores. Perde-se a possibilidade sincera do
diálogo construtivo. Talvez em vista disto, existe uma
resistência muito grande na exposição do pensamento e mesmo na
construção deste pensamento. Ocorre um bloqueio aqui que precisa
ser investigado concomitante a qualquer prioridade.
-
Problema do
respeito: alguns comportamentos, que deixam de ser exceção para
ser regra, considerados e legitimados como modernos, informais e
até mesmo progressistas, vão acumulando o que entendo como falta
de respeito. Sabemos que o excesso de intimidade destrói
qualquer relação afetiva. O que podemos dizer de relações de
trabalho (no ensino e na aprendizagem há trabalho)? Faço
referência ao comportamento em sala de aula, nos corredores da
universidade, na biblioteca, sanitários etc. Detendo atenção em
sala de aula, falo das conversas paralelas enquanto o professor
ou colegas abordam os conteúdos da disciplina ou apresentam
trabalhos é falta de respeito; falo de comer, beber, atender
telefone celular, sair tempestivamente sem expressões retóricas
do tipo “com licença?”; falo da descortesia de todo o tipo, como
interromper pessoas que conversam sem pedir licença ou aguardar
um pouco até ser notado; falo de apresentações de trabalhos sem
plástica, demonstrando descaso com o que faz; falo de expressões
chulas em sala de aula; falo de comentários pejorativos feitos
por qualquer pessoa (aluno ou professor) sobre pessoas que não
estão presentes para se defender; falo das abordagens de todo o
tipo feitas sem o mínimo conhecimento ou envolvimento, como
criticar resultados sem ter participado ou tentado participar da
criação; falo do esquecimento de agradecer o serviço ou
gentileza recebida; falo dos pés sobre as cadeiras, dos rabiscos
sobre o apoio para escrever; falo da arrogância quando das
abordagens e da seletividade no tratamento com as pessoas, só
fazendo reverencia a quem serve os interesses. Tudo isto e muito
mais considero falta de respeito. Estaríamos dispostos a
reconhecer e iniciar um policiamento maior para deter nossa
falta de educação? Estes comportamentos são avaliados na
formação profissional e cidadã a que deve se propor a
universidade? Mesmo para formação de pesquisadores?
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Problema da
responsabilidade: não apresentar trabalhos solicitados com
antecedência; abandonar grupos de trabalho sem aviso prévio,
chegar aos encontros com atraso; matricular-se em disciplina de
uma universidade pública, desperdiçar o tempo e dinheiro da
universidade pública, tomando o lugar de outra pessoa. Pessoa
que dá qualquer resposta quando interpelado (a) somente para se
ver livre do outro; fazer uso indevido da palavra sem o
compromisso com o que diz e sem se importar com o que os outros
são obrigados a ouvir; não assumir que o desempenho de cada um
(alunos e professores) constrói a universidade que dizemos
sonhar. Estamos todos dispostos a refletir sobre os limites da
irresponsabilidade? Ou, estamos todos dispostos a refletir sobre
a preguiça?
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Problema da
solidariedade: procurar saber porque alguns colegas não estão
presentes, exercitar a capacidade de respeitar as pessoas com as
quais não temos empatia (ainda), apostar na confiança como
melhor caminho de todo o educador, o primeiros que chegam
preparam a sala para acomodar a todos à medida que forem
chegando. Comprometer-se com o grupo que compartilha da
construção de nosso conhecimento, utilizar o comportamento
pessoal, acadêmico e cidadão para a construção de um
profissional de educação responsável pela formação do sujeito
ético-solidário e assim, de uma sociedade mais solidária. Como
incentivar e demonstrar a validade do agir solidário quando
todos falam tanto “ir à luta”?
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Problema da
ética profissional - ensino e pesquisa: tudo o que fazemos
educa os outros. Tudo o que fazemos nos educa. A questão da
ética a ser trabalhada também no ensino superior se torna hoje
uma questão chave se pretendemos liberar nossos esforços
teórico-práticos no sentido de construir uma sociedade
solidária, portanto, mais justa para todos. Se podemos pensar
que a mentira em que se pode levar a própria vida não tem nada a
ver com a ética social estamos redondamente enganados. Mesmo a
mentira que contamos para nós mesmos está relacionada a nossa
idéia de liberdade e vida boa para todos. Aqueles que têm
oportunidade nesta sociedade injusta de construir uma formação
profissional já assinam contrato de fidelidade com a sociedade
em que vivem. Por isso, cabe as vezes nos perguntarmos em que
mundo vivo? Em que sociedade vivo? Que sociedade represento? A
que sociedade quero servir? E daí, que pessoa quero ser? Esta
referência precisa ser coerente com as metodologia de ensino e
pesquisa propostas e experimentadas na universidade. Não há
incoerência brincalhona que seja, que se deva permitir
ultrapassar, ou mesmo, burilar a questão da ética
profissional, que além de ajudar a formar profissionais de
qualidade, ajuda, principalmente a formar cidadãos de qualidade.
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Problema da
interlocução: alunos não dialogam sobre o que aprendem (Machado,
2002). Há uma separação e distanciamento entre o conhecimento
acadêmico e os assuntos do grupo. A interlocução se restringe ao
cumprimento de tarefas. Questionamentos teóricos, insights,
elaboração de problemas acadêmicos com interesses de pesquisa
e/ou discutíveis são muito raros. Qual nossa contribuição
enquanto professores e pesquisadores para promover este tipo de
interlocução?
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Problema da
complexidade: conexões entre o que “aprendem” na academia e no
mundo da vida. Compreensão da dimensão das questões propostas
para estudo. Relações entre os acontecimentos políticos,
econômicos e sociais, culturais e seu cotidiano pessoal,
acadêmico, profissional e cidadão local e mundial. Como
desenvolver atividades que possibilitem a percepção do
entendimento complexo para além da informação e aceitação de sua
validade? Como transformar o pensamento cultural linear em
possibilidades de reuniões complexas para inaugurar outras
visões da realidade?
-
Problema da
informação e da base teórica: tanto alunos como professores
passam pela dificuldade de coordenarem a assimilação e
compreensão das informações conseqüentes da modernidade e das
críticas feitas ao seu tempo calcadas no acúmulo do
conhecimento já refletido por antecessores. Perde-se muito tempo
com informações do cotidiano e fazemos as análises superficiais,
pois não trilhamos ainda o arcabouço histórico que nos ajude a
minimizar nosso susto e potencializar nossa crença em dias
melhores. Só o que fazemos é alimentar o susto e produzir
conhecimento corcunda, desconectado do mundo e de nós mesmos.
Como, digamos assim, fazemos parar o tempo para dar tempo de
compreender o próprio tempo?
-
Problema da
criatividade: se não temos espaços hoje para possibilitar o
desenvolvimento do pensamento criativo – mesmo tardio, porque
lidamos com adultos que já percorreram um caminho escolar de
certo embotamento – também estamos expostos a lampejos de
pseudocriatividades impostas muito mais pela arrogância, pela
disputa avaliativa, pelo senso comum da validade do
psicodélico, da ausência de sentidos definidos, pela
possibilidade de construção de mensagens ambíguas, de sutileza
duvidosa. O que é criatividade afinal de contas no nosso
entendimento? Que meadas ajudamos a enrolar, que fio condutor
utilizamos para tecer as redes pedagógicas necessárias para
fugirmos da disjunção provocada pela ciência e cultura modernas?
Como tornar o psicodélico como criação conjuntiva, demente sim
em um primeiro momento, para liberar o homo demens aprisionado,
mas com o objetivo de orientar o homo sapiens na direção do
pensamento complexo, até hoje negado, por se temer a loucura.
Até que ponto estamos instrumentalizados para lidar com o demens
e o sapiens ao promover a criação? Até que ponto temos sido
tolerantes com a falsa criação? Quando identificar a falsa
criação, ou seja, apresentações impostas por respostas
simplistas e simplórias a nossas perguntas acadêmicas? Como
identificar “impostores” e como estimular os criativos?
Como
diferencia-los?
Enfim, como
interpretar a pretensão de criatividade? Afinal, quando sabemos
quando criamos alguma coisa?
20.
Problema do
tempo-espaço de criação: temos muitos alunos que merecem todo o
tipo de atenção. Alguns precisam desenvolver habilidades (um
saber fazer), outros atitudes (fazer efetivamente) e outros,
ambas. Alguns precisam receber orientação para continuar
crescendo, pois já batem a nossa porta pedindo mais do que a
carga horária das aulas. Cada vez mais precisamos de mais
equipamentos para desenvolver metodologia e tecnologia de ensino
superior, principalmente para aqueles que valorizam a educação
como meio de crescimento pessoal e de contribuir socialmente
para o desenvolvimento cientifico e tecnológico, econômico,
político, social e cultural para a construção de uma sociedade
mais justa e solidária. Cada vez mais nossas estratégias de
tentar dar conta de uma complexidade apenas com nossos cadernos
e reflexões solitárias, sem admitir e agir na direção concreta
de buscar soluções conjuntas, inteligentes e promotoras da
elevação do nível de todos demonstram esgotamento. Como podemos
entender que alguns de nós são doutos e pós-doutos convivendo
entre aqueles que não conseguem entender o que falam ou aonde
pretendem chegar com seu discurso? Como administrar o tempo de
atendimento a nossos alunos fora do horário de aula se a carga
de outros compromissos com a universidade é cada vez maior, em
virtude de permanentes exigências burocráticas pouco claras? Que
espaços diferentes do padrão de ensino tradicional que a
universidade perpetua – a sala de aula com cadeiras
desconfortáveis – podemos aproveitar ou criar para possibilitar
espaços propícios à criação que não sejam somente à escrita e à
“fala roubada”?
Como desenvolver técnicas para promover todo o tipo de criação,
inclusive a escrita e a oralidade?
Conclusão
Espero que fique
claro que esta análise quer caminhar por uma estrada onde tudo nos
admira, para a interpretação e justificação, bem como a
criação de metodologias e tecnologias de ensino superior, que
visem o desenvolvimento do pensamento complexo, da comunicação
dialógica e de uma ética solidária para a construção de uma
sociedade mais justa, empreendedora de projetos identificados com
um modo de produção alternativo, criador de outra mentalidade. O
fazer social de cada um e a relação com a competência profissional
em construção permanente precisam ser compreendidos como
compatíveis com a construção da cidadania plena e absolutamente
interdependentes.
A cada dia
torna-se imperativo a definição de um projeto político-pedagógico
orgânico amplamente discutido pela comunidade universitária e a
partir daí, colocarmos nossa competência de educadores cientistas
à prova, se queremos realmente desenvolver uma universidade
voltada para o desenvolvimento humano e social. A competência de
nossas metodologias e tecnologias de ensino produzirão argumentos
concretos para a demonstração da necessidade do planejamento
embasado, pensado, instrumentalizado, o que poderá garantir aos
cidadãos e profissionais que ajudamos a formar, que o planejamento
é essencial tanto no mundo da vida quanto no mundo do sistema. E
que quem sabe assim se consiga formar homens e mulheres que
planejam e não dependam mais que outros façam isto por eles. Esta
competência técnica com a qual lhes daremos exemplo será o próprio
instrumento político de seus anseios, como homens e mulheres,
tanto quanto como profissionais, imprimindo então a identidade de
um povo amadurecido.
Esta
demonstração navega, por olhar ainda míope, pelas janelas deste
hipertexto chamado universidade, em busca de outros olhares, falas
e ouvidos, busca de respostas, mas o grande objetivo, em verdade,
é a provocação.
Elaboração é substantivo do verbo elaborar. Segundo
Aurélio B. de Holanda, elaborar (do lat. Elaborare) 1.
preparar gradualmente e com trabalho. 2. formar, organizar. 3.
dispor as partes de; por em ordem; ordenar. 4. tornar
assimilável. 5. operar-se; formar-se. Aurélio ainda dá o
significado do adjetivo elaborável: que pode ser
elaborado. Quero entender que o mesmo se aplica à elaboração que
se pretende neste caso da elaboração de metodologias e
tecnologias de ensino superior.
Atualmente pesquiso sobre
Vida cotidiana e a construção do saber pedagógico: o diário
acadêmico
como
instrumento à reflexão e auto-formação. Pesquisa com
estudantes de formação de professores que relatam
simultaneamente sobre sua vida pessoal, acadêmica, profissional
(trabalhadores) e cidadã. Serão acompanhados até o final do
curso, com orientação pedagógica (por mim) e orientação
psicológica pelo colaborador Prof. Dr. Alfredo Martin.
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LEIA +
Bases freireanas:
falar de Freire, falar feito Freire ou deixar falar?

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Bibliografia
DEMO, Pedro. Pesquisa e construção de conhecimento:
metodologia científica no caminho de Habermas. Rio de Janeiro: Tempo
Brasileiro, 1994.
HABERMAS, Jurgen. Teoria de la acción comunicativa.
Madrid: Taurus, 1988.
GIANNOTTI, José Arthur.
A universidade em ritmo de
barbárie.
São Paulo: Brasiliense, 1986.
GIDDENS, Anthony. As conseqüências da modernidade. São Paulo:
UNESP, 1991.
LUCKESI, Cipriano [et. al.].
Fazer Universidade:
uma proposta metodológica. São Paulo: Cortez, 1996.
MACHADO, Virginia. O papel do professor: que papel é esse?.
Revista Momento. Rio Grande: Ed. FURG, 1996.
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sobre uma prática pontual. Revista Momento. Rio Grande: Ed. FURG,
2002.
MORIN, Edgar. Ciência com Consciência. Rio de Janeiro:
Bertrand Brasil, 2001.
SANTOS, Boaventura de Sousa. Um discurso sobre as ciências.
Porto: Afrontamento, 2002.
WEBER, Max. Sobre a Universidade. São Paulo: Cortez, 1989. |
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