O Canto Geral de Pablo Neruda, o
Poeta do Mundo

Meu caminho
junta-se ao caminho de todos. E em seguida vejo que desde o sul da
solidão fui para o norte que é o povo, o povo ao qual minha
humilde poesia quisera servir de espada e de lenço para secar o
suor de suas grandes dores e para dar-lhes uma arma na luta pelo
pão.
Pablo Neruda
Em 12 de julho
de 1904 — há cem anos — nasce Neftali Ricardo Reys Basoalto. No
pequeno lugarejo em que nasceu, Parral, a 340 quilômetros de
Santiago, ou em qualquer outro lugar, os nascimentos fazem parte
do cotidiano. Nada há de especial. Seus pais são personagens
comuns: ele é José del Carmen Reys Morales, maquinista de um trem
lastreiro; ela, Rosa Basoalto Reys, professora, morta de
tuberculose um mês depois de o menino nascer. Outra personagem
entra no enredo de Neftali — Trinidad Candia Marverde — a segunda
esposa de seu pai a quem ele acha incrível ter de chamar de
madrasta já que ela é o anjo tutelar de sua infância, diligente e
doce, com senso de humor camponês, e a bondade ativa e infatigável.
Rodolfo e Laura — seus irmãos, filhos de seu pai e de Trinidad —
são mais dois personagens do enredo nerudiano
Nos primeiros
cinco anos, Neftali corre sua infância pelas veredas de Parral ao
sabor da chuva, do vento e do frio. Ternos anos, pouco registrados
pela memória do garoto. Temuco — cidade pioneira, dessas sem
passado, com grandes lojas de ferragem ostentando desenhos dos
produtos à venda porque muitos compradores são índios e não sabem
ler. Aliás, os araucanos, que lá vivem, são acossados primeiro
pelos espanhóis; depois, pelos próprios chilenos. Neste mesmo ano,
1910, Neftali é matriculado no Liceu, cuja diretora, mais tarde,
seria a escritora Gabriela Mistral — Prêmio Nobel de Literatura em
1945. Gabriela Mistral e seu tio Orlando Masson, poeta e fundador
do Diário de Temuco, estimulam suas incursões poéticas.
O pai, no
entanto, opõe-se à vocação literária do filho, deseja vê-lo
formado com vistas a um futuro promissor. A vida encarrega-se de
mostrar o quanto o prognóstico paterno falha. O próprio autor dos
versos de A barcarola anula com a sua versão as várias
existentes sobre o nascimento e a origem de Pablo Neruda.
Quando eu
tinha catorze anos de idade, meu pai perseguia denodadamente minha
atividade literária. Não concordava em ter um filho poeta. Para
encobrir a publicação de meus primeiros versos busquei um
sobrenome que o despistasse totalmente. Encontrei numa revista
esse nome tcheco, sem saber sequer que se tratava de um escritor,
venerado por todo um povo, autor de belíssimas baladas e romances
e com monumento erigido no bairro Mala Strana de Praga.
(Confesso
que vivi, p. 165).
Os tempos do
Liceu em Temuco cedem lugar a novos tempos em Santiago na
Universidade do Chile onde o Instituto de Pedagogia e os novos
companheiros universitários o esperam. Na mala, está a peça mais
importante do seu vestuário: a capa negra de seu pai. Esse traje
lhe empresta certo ar dos poetas do século passado e, com
ele, tem a impressão de não estar tão mal de aspecto.
Na cabeça, há muitos livros, sonhos e poemas que zumbem como
abelhas.
A pensão da
Rua Maruri, 513 é seu primeiro abrigo em Santiago. Lá, inspirado
pelo pôr-do-sol defronte à sacada, escreve de dois a cinco poemas
por dia e termina, em 1923, seu primeiro livro:
Crepusculario, cuja edição é custeada por ele e por alguns
amigos. Pablo escreve mais de trinta livros depois desse, no
entanto a singularidade do momento é relatada por ele, assim:
Meu primeiro
livro! Sempre sustentei que a tarefa do escritor não é misteriosa
nem mágica, mas que, pelo menos a do poeta é uma tarefa pessoal,
de benefício público. O que mais se parece com a poesia é um pão
ou um prato de cerâmica ou uma madeira delicadamente lavrada,
ainda que por mãos rudes. No entanto creio que nenhum artesão pode
ter, como o poeta tem, por uma única vez durante a vida, esta
sensação embriagadora do primeiro objeto criado por suas mãos, com
a desorientação ainda palpitante de seus sonhos. È um momento que
não voltará nunca mais. Virão muitas edições mais cuidadas e
belas. Chegaram suas palavras vertidas na taça de outros idiomas
como um vinho que cante e perfume em outros lugares da terra. Mas
esse minuto de arrebatamento e embriaguez, com som de asas que
revoluteiam e de primeira flor que se abre na altura conquistada,
esse minuto é único na vida do poeta. (Confesso que vivi,
p. 53).
A vida
pulsante da capital vai sendo aos poucos incorporada pelo jovem.
Crepusculario patrocina a aproximação de estudantes,
boêmios, poetas e loucos. Certa loucura anda muitas vezes de
braço dado com a poesia. É tão difícil as pessoas razoáveis se
tornarem poetas quanto os poetas se tornarem razoáveis.
Conhece muitos escritores: uns morrem no anonimato; outros se
tornam famosos. Alberto Rojas Gimenez pertence ao primeiro grupo,
é um dos mais queridos companheiros de geração, é diretor da
revista Claridad para qual Pablo começa a colaborar como
militante político e literário. O ambiente dentro e,
principalmente, fora da Universidade já não lhe parece estranho.
Mulheres, bares, boemia nutrem o futuro autor de Espanha no
coração, mas debilitam quem, como ele, está literalmente com
fome.
Outros versos
pululam. A juventude é rápida, Crepusculario já é passado.
O próximo livro já corre pelas páginas e, em 1924, é entregue aos
leitores o livro Vinte poemas de amor e Uma canção desesperada.
Por falar em amor, uma jovem inaugura em Pablo o amor. Ela é
Albertina Azócar, musa de seus livros inaugurais, universitária
inteligente e tímida que não aceita os ardentes convites do vate
chileno. Ela é a junção de Marisol e Marisombra, personagens
criadas por Neruda para saciar a curiosidade dos leitores que
tanto queriam saber a identidade da mulher de Vinte poemas de
amor.
Três grandes
amores, depois de Albertina, navegaram pelas águas líricas de sua
vida. Conhece Maria Antonieta Haagenar, em Java, Batávia, com ela
se casa em dezembro de 1930 e dela se separa em 1936. No final da
década de 30, inicia um relacionamento com a pintora argentina
Delia del Carril com quem vive até 1955 e a quem evita magoar
quando publica anonimamente, em 1952, em Nápoles, Os versos do
capitão, dedicados à Matilde Urrutia sua paixão clandestina.
A verdade é que
eu não quis, durante muito tempo, que esses poemas ferissem Delia,
de quem me separava. Delia del Carril, passageira suavíssima,
cordão de aço e de mel que atou minhas mãos nos anos sonoros, foi
para mim durante dezoito anos uma companheira exemplar. Este
livro, de paixão brusca e ardente, ia chegar como uma pedra
lançada sobre sua delicada estrutura. (Confesso que vivi,
p. 226).
Por volta de
1946, é apresentado à cantora Matilde, e ambos vão se enovelando
gradativamente. Dos encontros fortuitos ou marcados, ao casamento
simbólico, em Capri, sob o testemunho da lua e, finalmente, ao
casamento oficial em 1966, com muitos convivas, a vida de Pablo e
Matilde é regada sempre de paixão. Tudo lhes é aprazível: os
passeios ao mercado Vega, as viagens ao exterior ou aos recônditos
lugarejos chilenos, a construção e decoração das casas, as
reuniões em Isla Negra. Essa paixão continua viva em Matilde mesmo
após a morte de Pablo, como ela mesma registra em Minha vida
com Pablo Neruda.
Depois de sua
morte, restou-me muito tempo disponível. Partira aquele menino
grande, tão exuberante, que ocupava todas as horas de minha vida.
Então, com imensa avidez, comecei a freqüentar a Biblioteca
Nacional à procura de suas primeiras colaborações, enviadas para
jornais e revistas da época. (Minha vida com Pablo Neruda,
p.230).
Os filhos
perdidos deixam uma lacuna na vida do poeta. Com Maria Antonieta,
tem uma filha, Malva Marina Trinidad, morta aos oito anos vítima
de uma doença congênita; com Matilde, duas gravidezes
interrompidas por uma fada má,
invejosa de tanta felicidade.Tudo foi inútil; perdeu dois filhos
tão amados, tão desejados, que já tinham uma infinidade de nomes
lindos.
Essas perdas prematuras assinalam
o papel efêmero de pai ensaiado por Pablo.
Um prêmio
literário estudantil, alguma popularidade advinda dos novos livros
e a capa preta outorgam-lhe certa respeitabilidade fora dos
círculos literários. Pablo, porém, almeja ultrapassar os limites
do Chile, cantar seus versos, sua pátria, seu povo; observar a
América sob todos os lados; descobrir outras culturas e revelar a
de seu povo. Seus feitos literários e, principalmente, a
influência do amigo Bianchi, membro do clã nobre chileno,
transformaram-no cônsul. Rangun, na Birmânia, é o destino por ele
escolhido, em função do desconhecimento dos demais países
mencionados e da sonoridade da palavra.
Neruda, como
representante oficial do Chile, exerce função diplomática em
vários países: Birmânia (hoje, Myanmar), Cingapura, Ceilão (atual
Sri Lanka), Argentina, Espanha, França e México. Não cabem, neste
roteiro, todas as intempéries nem todos os acontecimentos
grandiosos, mas cabem aqueles que mais influenciam o poeta e, por
conseguinte, seus escritos. Pablo é um cronista de sua época.
Registra, em seus versos, os momentos relevantes do século XX, sob
a ótica dos que estão no centro e dos que estão na periferia.
Também, não é
admissível constar deste relato, a lista de todos os grandes
artífices e/ou arautos da cultura e da política que, num ponto do
planeta, estabelecem contatos, rápidos ou eternos, com o poeta
andarilho. Algumas dessas figuras suscitam êxtase e entusiasmo;
outros, repulsa e raiva. Muitos nomes são citados em dois dos mais
de trinta livros publicados:
Canto geral
e
Confesso que vivi.
De 1934 a 1936,
o autor de Canto geral
é cônsul na pátria de Lorca. A escuridão do franquismo tolda sobre
a Espanha. Assiste a desgraças que deixam marcas indeléveis em sua
poética e mudam-lhe o rumo. Lorca é assassinado. O povo,
espicaçado na agonia, perde seu poeta e sua liberdade.
Espanha,
envolta em sonho, despertando
como uma
cabeleira com espigas,
te vi nascer,
entre as brenhas
e as trevas,
lavradora,
levantar-te
entre os carvalhos e os montes
e percorrer o
ar com as veias abertas. (...)
Até hoje corre
a água de tuas penhas
entre os
calabouços, e susténs
a tua coroa de
farpas em silêncio,
para ver quem
pode mais, se tuas dores
ou rostos que
cruzam sem olhar-te.
Eu vivi com a
tua aurora de fuzis,
e quero que de
novo povo e pólvora
sacudam as
ramagens desonradas
até que trema o
sonho e se reúnam
os frutos
divididos da terra.
(Canto
geral, p. 417).
À Espanha de
Francisco Franco não interessa um cônsul rebelde, opositor o que
leva o ditador espanhol a pressionar o governo do Chile a
destituir Neruda do cargo diplomático. Em Paris, o autor de
Espanha no coração
recruta escritores e intelectuais para, com palavras, lutarem
contra o fascismo. Edita, com essas armas literárias, a revista
Os poetas do mundo defendem o povo espanhol.
A Guerra Civil
Espanhola vai “patrocinar” a Neruda uma das incumbências mais
nobres de sua vida. O governo da Frente Liberal, Dom Pedro Aguirre
Cedra, decide enviar o antibeligerante bardo à França para cumprir
nobre missão: a de retirar os espanhóis das prisões e de
embarcá-los no Winnipeg. Neste barco, reformado para aumentar sua
capacidade de passageiros, atracado ao porto vizinho de Bordéus,
cerca de dois mil espanhóis escapariam rumo ao Chile.
Espanha no
coração é um livro
que retrata e denuncia os horrores da guerra, no entanto,
foi, ao pé da letra, fabricado por soldados na gráfica instalada
por Manuel Altoguirre em plena frente do leste, perto de Gerona
num velho mosteiro.
Os soldados do
front aprenderam a manejar os tipos da gráfica. Mas aí
faltou o papel. Encontraram um velho moinho e ali decidiram
fabricá-lo. Estranha mistura a que foi elaborada entre as bombas
que caiam no meio da batalha. Tudo era aproveitado no moinho,
desde uma bandeira do inimigo à túnica ensangüentada de um soldado
mouro. Apesar dos materiais insólitos e da inexperiência total dos
fabricantes, o papel ficou muito bonito. Os poucos exemplares que
restaram desse livro assombram pela tipografia e pelas páginas
impressas em misteriosa manufatura. Anos depois vi um exemplar
desta edição em Washington, na Biblioteca do Congresso, colocado
em uma vitrina como um dos livros mais raros do nosso tempo. (Confesso
que vivi, p. 129.)
No México, o
poeta de
Canção de gesta
encerra sua trajetória diplomática.
A função de cônsul torna-se similar ao trabalho do policial, pois
consiste em averiguar a origem racial das pessoas. Os versos de
retaliação, no enterro de Leocádia, mãe de Prestes, ao governo
Vargas, que mantém o Cavalheiro da Esperança no cativeiro por sete
anos, também contribuem para sua retirada do México.
Senhora,
fizeste grande, muito maior nossa América
Deste-lhe um
rio puro de águas colossais,
Deste-lhe uma
grande árvore de raízes infinitas:
Um filho teu
digno de sua pátria profunda.
(Antologia
poética, p. 99)
México,
florido, espinhoso, cheio de magia e de mistérios, pátria de
pintores — Diego Rivera, José Clemente Orozco, David Alfaro
Siqueiros — que, com pinceis e tintas, retratam em telas e murais
a história e a geografia de sua pátria. Aos escritores mexicanos
cabe uma hilariante antologia composta para Neruda. Quinze ou
vinte bardos resolvem homenageá–lo com um passeio numa barca
florida. Garrafas de Tequila e pistolas não faltavam na
embarcação. Em certo momento, os ébrios poetas rendem-lhe um
estranho preito: oferecem-lhe suas pistolas para que ele
disparasse para o céu. Com grande alarido, cada rapsodo mexicano
saca com decisão sua pistola para que o assustado Pablo elegesse a
sua e não a dos outros.
Aquele pálio
inseguro de pistolas, que se cruzavam diante de meu nariz ou me
passavam debaixo dos sovacos, tornava-se cada vez mais ameaçador,
até que me ocorreu tomar de um sombreiro típico e recolhê-las
todas em seu bojo depois de pedi-las ao batalhão de poetas em nome
da poesia e da paz. Todos obedeceram e desse modo consegui
confiscar-lhes as armas por vários dias, guardando-as em minha
casa. Acho que fui o único poeta em cuja honra se compôs uma
antologia de pistolas.
(Confesso
que vivi, p.164.).
Com o fim
voluntário de sua carreira diplomática, o poeta está de volta a
sua pátria, aos braços do seu povo aos quais não aceita abandonar
nem em seu derradeiro momento.
Acho que o
homem deve viver em sua pátria e creio que o desarraigamento dos
seres humanos é uma frustração que de uma maneira ou de outra
entorpece a claridade da alma. Eu não posso viver senão em minha
própria terra. Não posso viver sem pôr os pés, as mãos e o ouvido
nela, sem sentir a circulação de suas água e de suas sombras, sem
sentir como minhas raízes buscam em seu barro pegajoso as
substâncias maternas.
(Confesso
que vivi, p. 173).
Um desejo
súbito de conhecer um pouco mais sua origem, levam-no a subir até
Macchu Picchu, aquelas construções de pedra rodeadas pelos
altíssimos cumes dos Andes verdes. Ali nasce o poema Alturas de
Macchu Picchu que depois será inserido em
Canto Geral.
Então na escada
da terra subi
entre o
emaranhado atroz das selvas perdidas
até a ti Macchu
Picchu.
Alta cidade de
pedras escalares,
por fim morada
do que o terrestre
não escondeu
nas adormecidas vestimentas.
Em ti, como
duas linhas paralelas,
o berço do
relâmpago e do homem
embalavam-se de
espinhos.
Mãe de pedra,
espuma de condores.
Alto arrecife
da aurora humana.
Pá perdida na
primeira areia.
(Canto geral,
p. 31).
No Chile, Pablo
constata que a realidade de seu país, em muitos aspectos,
assemelha-se à da Espanha. Não há guerra deflagrada, mas há
pobreza, ignorância, subdesenvolvimento em toda parte da América
Latina desde a colonização luso-espanhola. Neruda finca seus pés
no solo pátrio, descobre suas raízes, inquieta-se com a massa de
desabridos que vivem sob o signo da desesperança na terra da
esperança. Pablo volta-se para seu povo e assume a militância.
Em quatro de
março de 1945, a gente sem escola, sem sapato elege-o senador.
Meses depois, em quinze de julho de 1945, ele filia-se ao Partido
Comunista. Como senador, viaja para ermos lugarejos, inteira-se
da vida dos inumeráveis trabalhadores do salitre e do cobre, dos
que nunca usaram colarinho e gravata. Essas peregrinações
ratificam o ideário do poeta militante.
Nunca pensei,
quando escrevi meus primeiros livros solitários, que com o passar
dos anos me encontraria em praças, ruas, fábricas, salas de aula,
teatros e jardins, dizendo meus versos. Percorri praticamente
todos os rincões do Chile, derramando minha poesia entre a gente
de meu povo.
(Confesso
que vivi, p.267).
Pablo acredita
nas idéias socialistas de Gabriel Gonzálvez Videla e ajuda a
elegê-lo. No poder, aos poucos, o véu socialista cai e Videla, o
Judas chileno, começa a perseguir todos aqueles — inclusive os que
o acompanham nas suas andanças eleitorais — que divirjam de suas
idéias, agora bem ao gosto dos norte-americanos.
Dois documentos
consolidam a perseguição de Videla ao Senador Pablo Neruda:
Carta íntima para milhões de
homens, publicada na
Venezuela em 1946 e Eu
acuso, lido na Assembléia
em fevereiro de 1948. Este discurso direto é o estopim para a
cassação do mandato de senador de Neruda.
Sob o jugo do
aprendiz de caudilho, o Partido Comunista é prescrito pela Lei de
Defesa da Democracia, denominada Lei Maldita. Neruda é cassado e
passa a viver na clandestinidade. Período de recolhimento e de
observação, acolhido em distantes vilarejos, Pablo aguarda o
momento seguro para seguir seu caminho pela Zona Austral da
Cordilheira dos Andes rumo à Argentina. Neste compasso de espera,
na solidão de cubículos ou em estâncias ermas, Pablo termina de
escrever Canto Geral:
grito de denúncia contra as injustiças históricas da América
Latina, revisão de séculos de dominação estrangeira e de
resistência nativa — arma de combate do poeta desterrado.
Nos tempos de
exílio, volta a percorrer várias partes do mundo: algumas
conhecidas; outras, não. A recepção é quase sempre calorosa por
parte dos intelectuais e dos artesãos da cultura, mas a presença
do autor de Para nascer,
nasci incomoda as
autoridades contrárias às idéias do poeta engajado nas causas
sociais. Entre vistos negados em alguns lugares, saídas rápidas,
estratégicas em outros, aplausos e flores dos leitores em quase
todos os continentes, participações em congressos, premiações, o
desterro chega ao fim. O Chile espera-o com seu bosque astral, com
as ondas do Pacífico, com a selva perdida. Daquelas terras,
daquele barro, ele sai a andar, a cantar pelo mundo e, para
aquelas terras, ele volta sempre em busca de fôlego, inspiração.
Sua pátria é seu alimento, dela ele extrai o pólen que espalha
pelo mundo em forma de poesia.
Coerente com a
vida, seus escritos tematizam sobre o que lhe é mais caro: o amor
sensual, o amor pelo seu povo, pela humanidade, a luta pela
justiça. A natureza borda os versos de Pablo, e o mar, calmo ou
turbulento, concede-lhe o ritmo inerente à matéria tratada.
Sua poética é
vasta e bem diversificada, reflexo, inclusive, de sua trajetória —
como representante oficial como político, combatente ou como
proscrito do Chile — por muitas regiões, dos famosos centros
europeus aos recônditos lugarejos do Oriente. Nada da vida lhe
escapa, e dela extrai a matéria-prima de sua obra: amores,
paixões, amizades, guerras, golpes, lutas, política, momentos
solenes ou prosaicos.
Minha poesia e
minha vida têm transcorrido como um rio americano, como uma
torrente de águas do Chile, nascidas na profundidade secreta das
montanhas austrais, dirigindo sem cessar até uma saída marinha o
movimento de suas correntes. Minha poesia não rejeitou nada do que
pôde trazer em seu caudal; aceitou a paixão, desenvolveu o
mistério e abriu caminho entre os corações do povo. Coube a mim
sofrer e lutar, amar e cantar; couberam-me na partilha do mundo o
triunfo e a derrota, provei o gosto do pão e do sangue. Que mais
quer um poeta? E todas as alternativas, desde o pranto até os
beijos, desde a solidão até o povo, perduram em minha poesia,
atuam nela porque vivi para minha poesia e minha poesia sustentou
minhas lutas. (Confesso que vivi, p. 178).
Pablo é um ser intenso: ama e
protesta com a mesma veemência. Escreve seus versos mais
contumazes contra os regimes ditatoriais sem perder a ternura.
Engajado nas lutas de seu tempo, jamais deixou o amor e a amizade
naufragarem de sua vida, ancorou-os sempre no seu cais poético. O
oceano singra os caminhos por onde os outros elementos da natureza
entram nas estrofes nerudianas. O lado romântico nunca exclui o
engajado. Os dois integram-se em plena sintonia. Em suas memórias,
o poeta confessa que viveu sua época e com intermitências se
infiltrou a política em sua vida e em sua poesia não
era possível fechar-se em seus poemas, assim também não era
possível fechar a porta ao amor, à vida, à alegria ou à tristeza
em seu coração de jovem poeta.
Neruda, uma das estrelas fulgurantes
da constelação poética da América Latina, cidadão e poeta do
mundo, sabe iluminar as palavras com as quais pode denunciar,
homenagear, registrar pessoas e acontecimentos que construíram a
história de nossa época e a de outras que a ela influenciam. Nas
linhas de seus versos, o poeta prosterna-se diante das palavras,
une-se a elas, persegue-as, morde-as, derrete-as, declara-se por
elas apaixonado.
Vocábulos amados... Brilham como
pedras coloridas, saltam como peixes de prata, são espuma, fio,
metal, orvalho...São tão belas que quero colocá-las todas em meu
poema... Agarro-as no vôo, quando vão zumbindo, e capturo-as,
limpo-as, aparo-as, preparo-me diante do prato, sinto-as
cristalinas, vibrantes, ebúrneas, vegetais, oleosas, como frutas,
como algas, como ágatas, como azeitonas... E então as revolvo,
agito-as, trituro-as, adorno-as, liberto-as... Deixo-as como
estalactites em meu poema como pedacinhos de madeira polida, como
carvão, como restos de naufrágio, presentes da onda... Tudo está
na palavra... Uma idéia inteira muda porque uma palavra mudou de
lugar ou porque se sentou como uma rainha dentro de uma frase que
não a esperava e que lhe obedeceu... Têm sombra, transparência,
peso, plumas, pêlos, têm tudo o que se lhes foi agregado de tanto
vagar pelo rio, de tanto transmigrar de pátria, de tanto ser
raízes... São antiqüíssimas e recentíssimas. Vivem no féretro
escondido e na flor apenas desabrochada... (Confesso que vivi,
p.57-8)
O poeta discorre sobre as palavras
e, por meio delas, apresenta os temas recorrentes em sua escrita:
palavras do mar, do ar, da terra; palavras táteis, olfativas,
auditivas, visuais, palatáveis; palavras líricas, épicas e
dramáticas: palavras do opressor e do oprimido. Palavras iguais
incrustadas de maneira diferente na frase, na no verso, no
discurso do poeta, do trabalhador, do caudilho, do liberal, do
colonizador e do colonizado.
Que bom idioma o meu, que boa língua
herdamos dos conquistadores torvos... Estes andavam a passos
largos pelas tremendas cordilheiras, pelas Américas encrespadas,
buscando batatas, feijõezinhos, tabaco negro, ouro, milho, ovos
fritos, com aquele apetite voraz que nunca mais se viu no mundo...
Tragavam tudo: religiões, pirâmides, tribos, idolatrias iguais as
que eles traziam em suas grandes bolsas... Por onde passavam a
terra ficava arrasada... Mas caíam das botas dos bárbaros, das
barbas, dos elmos, das ferraduras, como pedrinhas, as palavras
luminosas que permaneceram aqui resplandecentes... o idioma.
Saímos perdendo... Saímos ganhando... Levaram o ouro e nos
deixaram o ouro... Levaram tudo e nos deixaram tudo...
Deixaram-nos as palavras. (Confesso que vivi, p.58)
Pablo confessa, com esse idioma —
corrente, expressivo, sonoro —herdado dos colonizadores, que
recolhe lembranças “sem cronologia, tal qual estas ondas que vão e
vêm”.
O fluxo destes escritos, portanto, obedece ao do seu lembrador. As
idas e vindas do poeta a tantos lugares deixam o leitos meio
aturdido à procura de um mapa, de uma bússola, de um cronômetro.
Matilde irrompe pela vida do poeta,
semeia amor sobre ele. Muitas linhas, desde Os versos do
capitão, são dedicadas a ela.
Matilde, nome de planta ou de pedra
ou vinho,
do que nasce da terra e dura,
palavra em cujo crescimento
amanhece,
em cujo estio rebenta a luz dos
limões.
Nesse nome correm navios de madeira
rodeados por enxames de fogo
azul-marinho,
e essas letras são a água de um rio
que em meu coração calcinado
desemboca.
Oh nome descoberto sob uma
trepadeira
como a porta de um túnel
desconhecido
que comunica com a fragrância do
mundo!
Oh invade-me com tua boca
abrasadora,
indaga-me, se queres, com teus olhos
noturnos,
mas em teu nome deixa-me navegar e
dormir.
(Cem sonetos de amor, p.
11.).
Matilde e Pablo passam a viver sob o
mesmo teto, ou melhor, tetos. O casal vive em três casas: La
Choscana, em Santiago, aos pés do Monte de São Cristóvão; La
Sebastiana em Valparaíso, cidade sinuosa, enovelada, cheia de
ladeiras: nos morros, a pobreza; na baixada, perto do mar, a
riqueza e a casa de pedra defronte por mar, em Isla Negra. Agora,
são casas-museu abrigos de objetos adquiridos por Pablo ou a ele
presenteados pelos amigos e pela natureza. Essas peças compõem
coleções coerentemente distribuídas nos três museus e expostas à
visitação. Garrafas, carrancas, estátuas, livros, caracóis e
outros presentes do mar, cavalo de madeira, miniatura de barcos e
até uma locomotiva revelam as preferências do poeta e esclarecem
algumas imagens recorrentes em sua poética.
Pablo recolhe-se para escrever, mas
já não pode fazê-lo como dantes. Seu canto é luta renhida, é hino
de liberdade. O ano de 1969 está destinado aos versos. As palavras
sufocam-no. Ele pressente que precisa libertá-las no papel. Não é
fácil, porém isolar-se. Nos últimos tempos, seu refúgio em Isla
Negra tem sido violado. A poesia e a política imbricam-se à
revelia do escritor de A espada incendiada.
A vida política veio como uma
tempestade para me tirar de meu trabalho. Voltei uma vez mais a
multidão.
A multidão tem sido para mim a lição
de minha vida. Posso chegar a ela com a inerente timidez do poeta,
com o temor do tímido, mas — uma vez em seu seio — sinto-me
transfigurado. Sou parte da maioria essencial, sou mais uma folha
da grande árvore humana.
(Confesso que vivi, p. 353)
Em 1970, em prol do partido, meio a
contragosto, candidata-se à Presidência da República. Com certo
alívio, cede seu lugar ao amigo Salvador Allende cuja candidatura
é capaz de unir todos os partidos formadores da Unidade Popular.
Candidato à presidência por três vezes consecutivas, Allende é
consagrado nas urnas pelo voto do povo chileno.
Allende nomeia Pablo Embaixador em
Paris. Com o auxílio prestimoso de Jorge Edwards, o poeta cumpre
sua missão com capacidade, dignidade e muito orgulho; afinal,
agrada-lhe a idéia de representar, na França, um governo
popular, alcançado depois de tantos anos de governos medíocres e
mentirosos.
Após tantas quase vitórias, em 1971,
Pablo Neruda ganha o Prêmio Nobel de Literatura. Convalescente de
uma recente cirurgia o agraciado vate chileno viaja com sua
companheira para Estocolmo. Lá, profere um personalíssimo discurso
— lírico e engajado —, escrito em guardanapos de papel, como
relata a Gabriel García Márquez.
Menos de dois anos após essa
homenagem, por tantos almejada,
a mão do verdugo empapa de sangue
a praça, o país. O poeta,
enfraquecido pela doença e pelo sofrimento do povo, não resiste,
encanta-se em 23 de setembro, sem realizar o seu sonho.
Havia sonhado e lutado toda a vida
pela erradicação da pobreza; queria que em seu país houvesse
justiça social, um pouco de igualdade. Colocou sua pena e sua vida
a serviço desta causa nobre. Muitas vezes arriscou sua integridade
física perseguido por González Videla, que considerávamos um
tirano. É que não conhecíamos a tirania de fato. (...) Sempre
animado, entusiasta, alegre, falando às massas, tentando despertar
a consciência adormecida e fatalista dos pobres que se contentam
com as esmolas do nada!
(Minha vida com Pablo Neruda,
p. 9.).
Matilde providencia os paramentos do
velório e decide que Pablo deve ser velado em sua casa em
Santiago. A casa está em ruínas, os vidros estilhaçados, a escada
da entrada transforma-se numa cachoeira. Ela insiste que ali é o
lugar de Pablo. Os vizinhos arranjam tábuas para que o caixão com
o poeta e o cortejo possam chegar ao segundo andar. Não permite
que ninguém varra os destroços. O cenário da casa do poeta deve
assemelhar-se ao do Chile: mortos e feridos estão nas ruas, nas
praças, nas valas, nos estádios.
O enterro do poeta, no dia seguinte,
é a primeira manifestação de mágoa, revolta, rebeldia contra o
golpe. Pessoas diferentes lugares e origens vão chegando à
pracinha de Monte de são Cristóvão. Elas choram, lançam flores e
gritam em uníssono: “Pablo Neruda, presente, agora e sempre!
Povo chileno, presente, agora e sempre! Allende, presente, agora e
sempre! Pablo Neruda, presente, agora e sempre!”.
Esse grito revela um raio de luz e
de esperança de um povo que não vai ser pisado pelas botas da
ditadura. O relato está no tempo presente:
presente-mais-que-passado, presente-mais-que-futuro, pois a obra
de Pablo Neruda está presente, o povo está presente. Presente no
Canto geral de um poeta do povo que deixa por escrito um
testamento poético de luta por um porvir mais justo.
E a minha voz nascerá de novo,
talvez noutro tempo sem dores,
sem os fios impuros que emendaram
negras vegetações ao meu canto,
e nas alturas arderá de novo
o meu coração ardente e estrelado.
Referências
NERUDA, Pablo.
Poesias completas.Buenos Aires: Losada, 1951.
_______.
Confesso que vivi. Trad. de Olga Savary. 3. ed. São Paulo:
DIFEL/ Círculo do Livro, 1983.
_______. Canto Geral. Trad.
de Paulo Mendes campos. 6. ed. São Paulo: DIFEL, 1984.
_______. A
barcarola. Trad. de Olga Savary. Porto Alegre:L&PM, 1998
_______.
Antologia poética. Trad. de Eliane Zagury. 19. ed. Rio de
janeiro:José Olympio 2004.
_______.
Cem sonetos de amor.
Trad. De Calos Nejar.
Porto
Alegre:L&PM, s.d.
URRUTIA,
Matilde. Minha vida com Pablo Neruda. Trad.de Luciana
Savaget. Rio de Janeiro:Bertrand Brasil, 1990.