As eleições
de 2002 e o significado do governo Lula — Uma contribuição ao
debate dos desafios diante da esquerda brasileira
Introdução
— O caráter do governo Lula
Quase dois
anos após as eleições presidenciais, já está bastante clara a
orientação geral seguida pelo governo Lula. Sua política
macroeconômica é explicitamente neoliberal, e ele tem encaminhado
reformas (de fato, contra-reformas) neoliberais (a reforma da
Previdência, a lei de falências, o projeto das parcerias
público-privadas). Tem ainda, anunciado projetos, cujos contornos
já se anunciam, que têm o mesmo caráter (os projetos das reformas
sindical, trabalhista, universitária). É certo que, em algumas
áreas, ele tem implementado algumas políticas de características
diferentes. Mas as políticas neoliberais predominam amplamente e
condicionam o conjunto do governo, marcam toda sua atuação.
Levando em
conta, por outro lado, que o presidente e os principais ministros
são filiados ao PT, um partido de origem socialista que ainda têm
vínculos importantes com os trabalhadores, o governo Lula pode ser
chamado de social-liberal. Não é sequer, como alguns setores da
esquerda chegaram a dizer, um governo de frente popular (no
sentido tradicional deste termo, isto é: um governo reformista,
baseado numa aliança de partidos operários com partidos burgueses,
como a Frente Popular francesa dos anos 30 do século passado).
Mesmo onde se
afastam do padrão neoliberal (como no BNDES, dirigido por um
presidente filiado ao PMDB, ou em parte da ação do Itamaraty, do
Ministério do Desenvolvimento Agrário ou do Ministério do
Meio-Ambiente), as políticas do governo Lula não deixam de ser
políticas burguesas, ou não vão além do que é aceitável em um
governo burguês — e seu espaço é reduzido pela orientação
neoliberal predominante. Não se pode comparar, por exemplo, a
influência do BNDES com a do Ministério da Fazenda ou a do Banco
Central. Quanto à política externa, além de ela escapar em grande
parte ao Ministério das Relações Exteriores (pois o Banco Central,
o Ministério da Fazenda, o Ministério da Agricultura e o
Ministério do Desenvolvimento fazem muita política externa), o
próprio Itamaraty tem adotado em negociações comerciais recentes
uma postura muito mais adaptada ao padrão neoliberal dominante do
que havia feito em momentos anteriores. Assim, na reunião do
Conselho Geral da OMC de julho de 2004, ou nas negociações em
andamento do Mercosul com a União Européia, a posição do governo
brasileiro foi ou vem sendo muito mais alinhada com os interesses
dos países imperialistas do que na Reunião Ministerial da OMC de
Cancun, em 2003. Quanto à área da reforma agrária e da agricultura
familiar, além de ser prejudicada pelas limitações da orientação
do MDA, ainda sofre com o fato de o Ministério da Agricultura ter
um peso muito maior no governo. Já se disse, não sem razão, que o
governo Lula tem sido “o governo do agronegócio”.
Outras
características importantes para a avaliação da natureza do
governo Lula são suas alianças e seus vínculos sociais explícitos.
Ele está aliado às forças da direita política e aos setores
economicamente dominantes (inclusive, e principalmente, ao capital
financeiro). O modo de fazer política do governo Lula não é menos
significativo: ele opera e constrói suas maiorias de modo
fisiológico.
O governo
Lula, portanto, é um governo social-liberal, o que implica dizer
que é um governo de colaboração de classes, isto é, que ele
promove ativamente a subordinação dos trabalhadores aos patrões;
em suma, é um governo burguês.
As
dificuldades da ruptura política com o governo Lula
Diante disso,
chega a ser surpreendente que ainda haja dúvidas na esquerda
brasileira quanto a qual posição tomar diante dele. A atitude
necessária, naturalmente, é de uma oposição clara, de denúncia de
seu caráter burguês, neoliberal, socialmente retrógrado. No
entanto, uma parte substancial da esquerda brasileira é ainda uma
esquerda governista, ou reluta em assumir com clareza uma linha de
oposição.
Pode-se
argumentar que este fato pode ser explicado, em grande medida,
pelos interesses materiais. Como se costuma dizer, o governo,
especialmente o governo federal, tem a caneta: assina nomeações.
Este é um argumento importante, não há dúvida. Mas junto com ele
vêm uma série de considerações políticas: a preocupação com o
possível isolamento social, político e, sobretudo, eleitoral a que
o rompimento com o governo poderia levar.
A ruptura com
o governo Lula é ainda mais difícil para os militantes do PT do
que para outros setores da esquerda. Ela levaria à adoção de uma
posição muito crítica em relação ao PT e, quase certamente, à
ruptura com este partido (como já aconteceu com parlamentares
expulsos e com outros militantes que deixaram o PT para construir
um novo partido de esquerda). Ora, romper com o PT não é uma
decisão fácil para seus militantes. Muitos vêem nisso a certeza do
isolamento: o PT ainda pode ser considerado o principal partido de
esquerda brasileiro, mesmo que seja hoje dominado por uma direção
social-liberal. Permanece uma referência importante para setores
importantes dos trabalhadores brasileiros e dos movimentos sociais
(embora tenha aí um desgaste crescente).
Não podemos
deixar de considerar uma dificuldade que podemos chamar de
biográfica da ruptura com o PT. Muitos dedicaram a este
partido toda uma vida de militância, e não se concebem longe dele.
Neste quadro, o argumento dos interesses materiais pode ser
colocado compreendido de modo menos negativo. Para muitos que
fizeram da construção do PT uma opção de vida, ela se tornou
também uma opção profissional, e a reconversão para outra
atividade fora do PT, ou em outro partido, oferece grandes
dificuldades e riscos. Para alguns, a guinada do PT ao
social-liberalismo ganhou o caráter de uma tragédia pessoal.
Assim, podem ceder diante do peso dos argumentos materiais sem
venderem suas convicções — apenas concluem não ter mais condições
de recomeçar a luta.
É necessário
enfatizar, entretanto, outra razão importante para que a
compreensão da necessidade da ruptura com o governo Lula ainda
seja limitada. Trata-se da grande dificuldade de compreender o que
se passou e o que está se passando desde 2002. Uma pergunta que
aparece com certa freqüência é a seguinte: como é possível que o
governo brasileiro esteja, em 2003 e 2004, dando continuidade às
contra-reformas neoliberais, depois da derrota histórica do
neoliberalismo, e da grande vitória popular, nas eleições de 2002?
Uma variante desta questão é proposta pelos que se apegam à
fórmula de “governo em disputa”: se houve uma grande vitória da
esquerda em 2002, como podemos já estar derrotados na disputa dos
rumos do governo?
Estas
formulações trazem implícito um entendimento incorreto do
significado do resultado das eleições presidenciais; o objetivo
fundamental desta contribuição é argumentar contra este
entendimento, debatendo o significado da eleição de Lula, seu
impacto político e social e, em particular, suas conseqüências
para a esquerda brasileira.
Evolução do
PT — Breve retrospecto
Convém começar
com um breve retrospecto da evolução política do PT e do próprio
Lula.
A formação do
PT teve uma importância decisiva para a esquerda brasileira por
ter significado a construção de uma expressão política própria dos
trabalhadores brasileiros e um movimento em direção à sua
independência política de classe. Este fato pode ser mais bem
situado se lembramos que, na história do país, os partidos
predominantes no campo popular foram os PCs (PCB ou PC do B) e o
PTB; ou seja, partidos operários que aceitavam com freqüência
subordinar-se a lideranças burguesas, no caso dos PCs, ou um
partido já de colaboração com a burguesia na sua própria
estrutura, no caso do PTB. Além disso, o PT integrou setores
importantes da militância de esquerda brasileira, afirmou-se como
um partido plural e com uma razoável democracia interna, e
definiu-se como um partido socialista.
Naturalmente,
o PT sempre teve fragilidades importantes, destacando-se a pouca
profundidade da discussão do significado do socialismo e sua
estrutura de organização bastante frouxa. Mas elas foram sendo
reduzidas até 1989, quando Lula quase chegou à presidência da
República como um candidato claramente de esquerda. Até então, a
evolução do PT foi muito positiva.
No entanto, no
próprio ano de 1989 começou uma mudança drástica no quadro
internacional, com o desmoronamento do então chamado “campo
socialista” e a grande crise da esquerda que se seguiu. A partir
daí, a ofensiva neoliberal intensificou-se em todo o mundo,
inclusive no Brasil. Ela já havia começado na última fase do
governo Sarney, mas intensificou-se a partir do governo Collor.
Esta ofensiva teve impactos econômicos e político-ideológicos, bem
como um impacto social profundo: debilitou as camadas assalariadas
e os movimentos sociais.
Além disso, no
caso do Brasil, ele combinou-se com o crescimento da inserção
institucional do PT desde 1988. Isso trouxe, naturalmente, maiores
pressões para a adaptação do partido à institucionalidade — mais
difíceis de enfrentar dada a relativa fragilidade
político-ideológica do PT.
Nesse
contexto, é importante levar em conta qual foi a avaliação da
derrota de 1989 feita pelos dirigentes do partido — principalmente
pelo próprio Lula. Naquele ano, a candidatura do PT foi fortemente
rejeitada por setores empresariais, de proprietários de terra e
pelas camadas mais abastadas das chamadas classes médias. Para
compreender esta rejeição, é preciso, naturalmente, partir da
existência de antagonismos de classe: os setores dominantes da
sociedade brasileira não aceitavam — e não podiam aceitar — o
programa e o caráter de classe da candidatura, isto é, sua
identificação com os interesses populares. Portanto, no
fundamental, a rejeição a Lula por parte destes setores só podia
ser superada com o abandono pelo candidato da sua perspectiva de
classe.
No entanto,
Lula e o círculo mais próximo a ele parecem ter concluído que a
rejeição se devia basicamente a um suposto excesso de radicalismo,
ou ainda a questões de natureza mais individual: a resistência da
população a um “candidato sem diploma”. O fato de o arco de apoios
no segundo turno ter sido muito amplo (então até o PSDB apoiou
Lula) parece ter contribuído para o esquecimento dos antagonismos
de classes estruturais.
A partir desta
avaliação, foi sendo progressivamente construída à idéia de que
era possível para Lula e o PT superarem a rejeição sem deixarem de
defender os setores populares. Para isso, o programa deveria ser
mais moderado, as alianças deveriam ser ampliadas (não se indagava
se essa ampliação seria coerente com os interesses sociais que se
queria representar) e seria preciso a aceitação do candidato pelos
setores burgueses. De fato, com o tempo, o que passou a ser o
núcleo das estratégias eleitorais foi o próprio desconhecimento
dos antagonismos de classe inevitáveis na sociedade capitalista.
Existia uma
via alternativa para procurar ganhar eleições — a partir de uma
maior mobilização popular, ampliando o que já havia acontecido em
1989, compreendendo que uma eleição nacional constitui um momento
em que se enfrentam alternativas de classe; mas ela foi
descartada. Isto aconteceu já em 1994, e mais acentuadamente
depois. Desde o início dos anos 1990, Lula e seu círculo mais
próximo estiveram entre os que mais impulsionaram no PT a
“moderação” e a diluição das referências socialistas, e que mais
buscaram estabelecer vínculos cada vez mais fortes com setores
burgueses.
O fato é que,
depois de 1989, combinaram-se uma inflexão negativa (do ponto de
vista socialista) na evolução do PT e do próprio Lula. Com a crise
das referências da esquerda, com a ofensiva liberal, com a maior
inserção institucional, e com o debilitamento do movimento social
que tinha representado o impulso fundamental para a constituição
do PT, ele começou a perder seu caráter rebelde e a trilhar um
caminho de progressiva integração à ordem. Muitas idéias
neoliberais começaram a se infiltrar no partido (por exemplo, as
visões de que o Estado é em geral menos eficiente do que as
empresas, e de que não é possível superar o mercado capitalista).
No plano
nacional, em cada disputa eleitoral o PT se colocou menos à
esquerda. Cada derrota da candidatura presidencial foi
interpretada no sentido de a “moderação” e a “ampliação” das
alianças ainda terem sido insuficientes.
Esta evolução
política negativa teve uma correspondência no plano organizativo.
Enquanto no início da construção do PT havia uma preocupação com a
organização de núcleos e com o caráter militante do partido,
progressivamente foi vencendo a concepção de partido organizado em
torno apenas de disputas eleitorais. A consumação de uma concepção
anti-militante de organização foram a generalização dos encontros
de base com urnas abertas durante todo o dia, sem nenhum tipo de
debate (esta concepção foi adotada no estado de São Paulo depois
de 1983, e foi generalizada para o país mais de quinze anos
depois) e a instituição da chamada “eleição direta” dos dirigentes
estaduais e nacionais, valorizando ao máximo o peso das figuras
públicas — ou seja, sobretudo dos parlamentares, no processo do
Encontro Nacional de 2001.
Com relação à
democracia interna, até o 1º Congresso do PT, em 1991, houve
progressos (em particular com a adoção da participação
proporcional de todas as correntes nas Executivas). Depois, no
entanto, começaram restrições; um momento muito traumático foi a
intervenção no PT do Rio de Janeiro em 1998, para impor o apoio à
candidatura de Anthony Garotinho (então no PDT) — o PT do Rio
nunca mais se recuperou desse golpe.
1990-2001:
a identidade ambígua de um PT cindido
Por outro
lado, a evolução do conjunto do PT foi muito desigual, e sua
diferenciação política interna aumentou tremendamente. Nos anos
1990, houve em geral uma polarização bastante clara entre uma
direita e uma esquerda no PT, sobretudo após 1993, quando o antigo
bloco majoritário — a Articulação — dividiu-se entre a maioria
(que passou a chamar-se “Articulação Unidade na Luta” — o setor de
Lula e José Dirceu) e a “Articulação de Esquerda”. Esta divisão,
aliás, tornou possível que em um curto período, a Articulação de
Esquerda formasse, com outras correntes de esquerda, a maioria
nacional no PT.
A direita
ganhou uma existência mais nítida com a formação do atual “campo
majoritário” do PT, organizado após o Encontro de 1995, para dar
sustentação à presidência de José Dirceu. Foi o resultado um
processo de convergência, que já vinha se fazendo desde o início
dos anos 90, entre o que viria a ser a Articulação Unidade na Luta
e setores originários da esquerda do PT, principalmente a “Nova
Esquerda” de José Genoino, além de outros pequenos setores.
Progressivamente, a maior parte deste “campo majoritário”,
especialmente da sua direção, foi alterando seus vínculos sociais
e suas referências políticas. Enquanto construía laços crescentes
com setores empresariais, distanciava-se das posições socialistas.
No processo de preparação do 2º Congresso do PT (1999), chegou a
haver um ensaio de abandono formal desta referência (José Dirceu
disse que “o socialismo era um ‘morto-vivo’ que acompanhava o
PT”). Ele não pôde, no entanto, ser levado adiante. De qualquer
maneira, o fato é que a direção do campo majoritário do PT passou
a identificar-se com as novas tendências da social-democracia
internacional, integrando-se, portanto, ao campo ideológico
neoliberal.
Por outro
lado, no caso dos setores mais à esquerda do PT, as coisas
evoluíram de modo muito diferente. É verdade que também eles
sofreram o impacto do processo de crise internacional da esquerda
e das maiores pressões institucionais — mas não da mesma maneira.
Parte da esquerda (o exemplo mais claro foi o da Nova Esquerda de
José Genoino) girou à direita (diversos setores fizeram este
movimento ao longo de toda a década). Mas, nos que se mantiveram à
esquerda, predominaram a resistência às pressões do neoliberalismo
e a manutenção das referências ideológicas socialistas. A formação
da Articulação de Esquerda, em 1993, foi uma expressão importante
deste processo de resistência.
Um fato
notável foi que mesmo havendo um processo mais ou menos regular de
migração de setores da esquerda para o “campo majoritário” ou para
suas proximidades desde o início dos anos 1990, os setores mais à
esquerda continuaram a ter um peso importante, e a influir nas
definições do partido. Nos Encontros de 1995 e 1997, a divisão do
partido entre direita e esquerda deu-se praticamente meio a meio.
Além disso,
mesmo dentro do campo majoritário do PT, a evolução foi muito
diferenciada. Boa parte deste campo continuou contrapondo-se ao
social-liberalismo e a referenciar-se no socialismo. Por outro
lado, durante o governo FHC, a própria condição de oposição
obrigou o PT como um todo a se diferenciar do neoliberalismo. Em
1999, embora o campo majoritário já tivesse uma maioria mais
folgada, os setores interessados em distanciar-se da referência
formal ao socialismo não puderam levar à prática sua intenção,
como já foi mencionado.
Assim, embora
a evolução negativa do PT tenha sido contínua, ela não foi nem
linear, nem coerente, nem isenta de contradições,. Os setores mais
social-liberais do “campo majoritário”, embora constituíssem o
núcleo de direção de todo o PT, não puderam formalizar uma mudança
político-programática clara do partido.
A conseqüência
disso foi que, até 2001, nas grandes questões políticas, nas
grandes disputas de orientação de classe, o PT sempre se situou do
lado dos trabalhadores, da esquerda. Ou seja: tanto o contexto
político quanto a correlação de forças interna (incluindo as
diferenciações do chamado “campo majoritário”) mantiveram o PT, na
sua expressão pública, globalmente no campo da classe operária e
dos seus aliados.
No Encontro
Nacional de dezembro de 2001, o PT ainda se colocou oficialmente,
como partido, à esquerda — provavelmente foi o último momento em
que isto aconteceu.
É útil
comentar as declarações que Lula e João Paulo (o presidente da
Câmara de Deputados) deram em março de 2003, tentando explicar as
diferenças entre as posições de seu governo e as posições
anteriores do PT. Lula disse a seguinte pérola:
"Quando a gente é de oposição pode
fazer bravata, porque você não vai ter que executar nada” (Folha
de S. Paulo, 28/03/2003). Na mesma época, João Paulo disse que “na
oposição, estávamos fazendo luta política”.
Estas declarações são úteis para mostrar que estes dirigentes do
campo majoritário do PT não levavam muito a sério o que defendiam
quando estavam na oposição. Mas podem induzir a uma conclusão
errônea, a de que o PT (ou sua direção) escondia suas convicções
por interesse da “disputa política”. Neste contexto, aliás, a
imprensa conservadora tem criticado a direção do PT por não ter
feito como o Partido Trabalhista britânico (e outros partidos
social-liberais), que explicitou uma mudança programática profunda
antes da eleição de Tony Blair. A verdade, no entanto, é que o
núcleo dirigente do “campo majoritário” e do PT não poderia ter
feito isso antes de chegar ao governo, ainda que o quisesse: a
correlação de forças interna ao PT não o permitiria.
A diferença
entre a defesa anterior por parte do PT de posições de esquerda
(por exemplo, a oposição a reformas neoliberais) e sua prática de
governo não pode tampouco ser identificada com o fenômeno trivial
de que um partido social-democrata — ou qualquer partido
reformista — costuma apresentar, quando na oposição, posições mais
à esquerda do que no governo. Isto se deve fundamentalmente a um
esforço para mobilizar o eleitorado iludindo-o, de maneira mais ou
menos deliberada. No caso do PT, o que havia era um divórcio
profundo entre a natureza política de suas posições oficiais (que
resultavam de uma dada correlação de forças interna num contexto
político preciso) e as convicções de seu grupo dirigente.
Repetindo, para enfatizar: tanto o contexto político quanto a
correlação de forças interna (incluindo as diferenciações do
chamado “campo majoritário”) impediam que o núcleo
dirigente do PT defendesse no interior do partido suas posições
com maior clareza e impediam que elas se tornassem as posições
oficiais do partido. Não se trata de dizer que a direção do PT não
dirigia o partido — ela dirigia, mas não podia fazê-lo segundo sua
própria linha política. Por outro lado, os setores de esquerda
nunca puderam dirigir o PT, mas foram capazes de influenciar, até
2001, suas posições oficiais.
2002: uma
mudança drástica nas posições oficiais do PT
A campanha
eleitoral de 2002 assinalou uma mudança de qualidade negativa na
linha política oficial do PT, reduzindo a distância entre ela e as
convicções do núcleo dirigente. O momento decisivo dessa mudança
foi a imposição — por Lula — da coligação com o PL, aprovada na
reunião do Diretório Nacional do PT de junho. Pela primeira vez, o
PT se coligou no plano nacional com um partido claramente burguês
e de direita. Pela primeira vez, Lula teve como vice-presidente um
grande empresário. E o fato de essa composição ter sido imposta
por Lula ao partido sacramentou o total controle pelo candidato
das decisões fundamentais.
O caráter
traumático da mudança na linha do PT foi bem exposto pelo fato de
ter havido uma intervenção da direção nacional do PT em Alagoas,
para implementar a aliança com o PL, não apenas contra a senadora
Heloísa Helena, candidata a governadora, e a esquerda do PT, mas
contra o consenso do partido no estado. Mesmo os membros alagoanos
do campo majoritário eram contrários à coligação e respaldavam
nisso a candidata a governadora. Por outro lado, depois da
intervenção, o campo majoritário alagoano logo se rendeu a ela; e,
mais adiante, a maior parte da esquerda do PT de Alagoas preferiu
esquecer o episódio.
O fato é que a
partir daí — mas apenas a partir daí —, Lula passou a ter o
controle incontestável de todas as decisões no PT.
Qual era o
projeto de Lula e do seu círculo para a presidência?
Provavelmente, ele pode ser resumido da seguinte maneira, numa
versão generosa: fazer o bem para o povo, desde que isso possa ser
compatibilizado com a implementação de uma amplíssima aliança com
as classes dominantes e, portanto, com a aceitação de todas as
restrições impostas pelo grande capital, nacional e internacional,
e em particular pelo capital financeiro (representado pelos
“mercados”). A idéia era que sem isso seria impossível ganhar as
eleições, e ainda mais impossível governar. Um elemento central
dessa concepção era a vontade de mostrar que um governo Lula podia
ser tão ou mais confiável ao grande capital do que o de FHC. O
giro de 2002 não foi apenas uma reação de pânico diante da
chantagem que os “mercados” promoveram (embora isso também tenha
existido, e motivado a famosa “Carta ao Povo Brasileiro”). Ganhar
a confiança do grande capital foi o objetivo central da imposição
da aliança com o PL, e já era uma preocupação antiga de Lula e de
outros dirigentes.
Portanto, o
projeto de Lula e do seu círculo, desde as eleições, já não era um
projeto transformador, progressista. Era claramente um projeto de
conciliação de classes, burguês. Nas condições que prevalecem hoje
nos setores dominantes da burguesia, essa conciliação implica a
aceitação da dominância do neoliberalismo — ou seja, a adoção do
projeto de um governo social-liberal.
Entretanto,
dada a história do PT, e dadas as ambigüidades da explicitação
política da nova linha durante a campanha — em grande parte, as
posições do Encontro de dezembro de 2001 foram formalmente
mantidas, e se expressaram no Programa oficial da coligação Lula
Presidente —, este projeto nem de longe foi corretamente percebido
pela maior parte do eleitorado, e nem mesmo pela maior parte da
militância do PT e da esquerda brasileira.
Naturalmente,
no PT e no bloco de forças da coligação, outras concepções estavam
presentes. Mas Lula já tinha garantido o controle total sobre o PT
e sobre todo o bloco desde a campanha eleitoral, e sua eleição só
podia reforçá-lo ainda mais.
Para agravar
as coisas, as posições que recusavam o social-liberalismo dentro
do bloco do governo eram muito frágeis. Os setores mais à esquerda
do PT, além de minoritários, não tinham clareza sobre o caráter do
projeto de Lula e do seu círculo. Muitos ainda mantinham um
fascínio por Lula, que vinha do seu antigo papel de dirigente de
greves memoráveis. Além disso, deixaram-se empolgar pelo
crescimento eleitoral da candidatura, e pareceram se esquecer das
críticas que tinham feito à orientação da campanha até meados do
segundo semestre de 2002.
Quanto aos
setores do “campo majoritário” do PT divergentes do projeto
social-liberal, as possibilidades de que viessem a representar uma
resistência efetiva eram ainda mais reduzidas. São muito
subordinados a Lula, e carecem de qualquer projeto claro
alternativo ao social-liberalismo. São favoráveis a alianças
amplas com a burguesia. Aliás, desde os primeiros meses de governo
ficou claro que o PT como partido não tem força na definição das
orientações do governo — é apenas uma correia de transmissão
destas orientações. É verdade que uma das características do
ministério de Lula que chamaram a atenção quando ele foi anunciado
foi a ampla participação dos petistas, inclusive de setores mais à
esquerda. Este fato podia, na época, ser interpretado como uma
indicação de que os petistas, e até mesmo os mais à esquerda,
teriam influência no governo. Com o passar dos meses, no entanto,
foi ficando claro que esta participação não significava influência
do partido, mas sim sua cooptação para uma posição de
colaboração de classes e de subordinação à linha social-liberal
prevalecente.
Nos outros
partidos de esquerda, todos os problemas que faziam a fragilidade
da contraposição ao social-liberalismo dentro do PT se combinavam.
Carecem tanto de força política real no governo quanto de um
projeto alternativo, aceitam alianças amplas com a burguesia, etc.
Para completar
o quadro negativo, a campanha eleitoral deseducou e desmobilizou o
povo — tornou mais difícil que viesse a haver uma pressão social
ampla pelo cumprimento das promessas de mudança.
É verdade,
como já foi dito, que o programa oficial da campanha era um
programa explicitamente antineoliberal, e que no geral ainda podia
ser caracterizado como um programa transformador. Mas não é menos
verdade que Lula já tinha demonstrado que não dava nenhuma
importância aos programas ou às resoluções aprovadas pelo PT (as
resoluções do Encontro de 2001 já haviam sido desconhecidas
durante a campanha, em 2002).
A fragilidade
das posições mais à esquerda no interior da coligação se
explicitou logo na montagem do governo. Talvez a prova maior dessa
fragilidade tenha sido o fato de não haver existido quase nenhuma
oposição à formação da amplíssima e muito conservadora base de
apoio ao governo Lula (tanto no parlamento quanto na sociedade).
Quase não houve resistência a despropósitos como a indicação de
Meirelles para a presidência do Banco Central. Neste caso, a
exceção foi a posição da senadora Heloísa Helena, responsável pela
única atitude de resistência que obteve repercussão pública.
O
significado da eleição de Lula e a disputa realmente existente
Nestas
condições, a vitória eleitoral da candidatura Lula em 2002 não
significou uma vitória do desejo de mudanças da sociedade,
embora tenha sido alimentada por este sentimento, embora Lula se
tenha declarado porta-voz dele, e embora o povo acreditasse nisso.
Foi a vitória do vale-tudo para ganhar as eleições,
do projeto de chegar ao governo pelo governo. Foi a vitória de
um projeto de conciliação de classes, de aceitação da subordinação
dos interesses populares aos interesses das classes dominantes,
que conseguiu iludir o povo com a promessa de mudanças. Este
era o projeto do núcleo em torno de Lula, que ganhou desde a
campanha total controle sobre o PT e a coligação.
É verdade que,
uma vez que o candidato de FHC perdeu, um aspecto de derrota
eleitoral do neoliberalismo esteve certamente presente. Contudo, o
neoliberalismo logo ressurgiu, impulsionado pela candidatura
vitoriosa.
Assim, ao
contrário do que se costuma pensar ainda hoje, as eleições de 2002
no Brasil significaram um deslocamento da correlação de forças
desfavorável aos setores populares. Se não fosse assim,
como seria possível explicar o fato de os trabalhadores terem
sofrido com o governo Lula perdas que o governo anterior não havia
conseguido impor? Quando, no entanto, compreendemos corretamente o
que aconteceu em 2002, a explicação desta mudança desfavorável é
clara: Lula ficou muito parecido com FHC, passou a implementar
fundamentalmente a mesma política; e, além disso, obrigou a maior
parte do PT e da esquerda a mudar de lado junto com ele,
abandonando a defesa dos interesses populares, ou a adotar uma
posição ambígua. Um exemplo importante das conseqüências negativas
da eleição de Lula sobre o movimento social brasileiro é a crise
atualmente vivida pela CUT, dividida entre a defesa dos interesses
dos seus representados e a docilidade da maioria da sua direção
diante do governo.
Na verdade, o
novo presidente alardeou, ele mesmo, de forma quase transparente,
que sua eleição representou uma mudança desfavorável aos
trabalhadores, quando se vangloriou de ter feito uma reforma da
Previdência (reduzindo direitos sociais) que FHC não conseguira
fazer.
Com eleição de
Lula à presidência, consolidou-se ainda uma mudança drástica na
correlação de forças no campo da esquerda brasileira, e em
particular no interior do PT: os setores que resistiam ao abandono
de um projeto socialista perderam força. As pressões para a
adaptação à ordem cresceram enormemente.
Como vimos,
as posições que o PT vinha defendendo até 2001, e que o colocavam
globalmente no campo da defesa dos interesses populares e da
oposição às políticas burguesas, não eram as posições da maioria
da sua direção. Eram a resultante da correlação de forças
interna, incluindo as diferenciações no interior do “campo
majoritário” do PT, e da posição que o partido ocupava na cena
política como oposição ao governo FHC. Ou seja, as posições que o
PT defendia resultavam da interação entre os diversos setores do
partido num quadro em que o PT era obrigado a fazer oposição. Era
inevitável, portanto, que a chegada de Lula à presidência e a
grande mudança na correlação de forças na esquerda brasileira
decorrente dela levassem ao abandono oficial dessas posições.
Assim, as
eleições de 2002 selaram o destino do PT: sua morte como partido
autenticamente socialista tornou inevitável.
É verdade, por
outro lado, que não se tratou de uma degradação linear da
correlação de forças contra os setores populares e a esquerda
brasileira. Além do já mencionado desgaste do neoliberalismo
implicado na derrota do candidato de FHC, a eleição de Lula
contribuiu para aumentar a politização na sociedade. Além disso, a
explicitação da natureza do projeto de Lula e do núcleo dirigente
do PT contribuiu para abrir a possibilidade de uma reconstrução da
esquerda brasileira em novas bases. No entanto, não podemos
menosprezar a importância negativa do deslocamento do PT para o
campo da colaboração com a burguesia e da defesa das políticas que
lhe são mais favoráveis. O fato é que, a partir da eleição de
Lula, gente que antes se opunha às políticas neoliberais passou a
apoiá-las ativamente, ou aceitou subordinar-se a elas.
Não devemos
concluir, entretanto, que todos os recuos dramáticos sofridos pela
esquerda brasileira em 2003 fossem inevitáveis. Seria possível ter
havido maior resistência, maiores choques com o núcleo do governo
e, sobretudo, começar a reconstrução da esquerda socialista antes,
se tivesse havido uma clareza um pouco maior do que se passava, e
um pouco mais de coragem, no conjunto da esquerda, de correr os
riscos que apenas alguns se dispuseram a enfrentar. Se, por
exemplo, mais parlamentares tivessem se recusado a votar a favor
da reforma da Previdência, muita coisa poderia ter sido diferente.
Seja como for,
a reconstrução da esquerda socialista brasileira em novas bases é
possível agora. Mas há algumas condições indispensáveis para que
ela se dê:
a) o abandono
das ilusões no governo Lula, em todo o núcleo dirigente do PT e no
próprio quadro orgânico do PT (o objetivo deste texto é contribuir
para isso);
b) a
convergência do conjunto da esquerda socialista, isto é, a
superação do risco da dispersão dos militantes.
A esquerda
brasileira tem pela frente sérios desafios, portanto. Atravessa um
dos momentos mais difíceis da sua história. Enfrenta ainda muitas
ilusões com o que resta do PT — inclusive ilusões da esquerda
internacional. Em conseqüência, sofre uma grande desigualdade nos
tempos da percepção da natureza real do governo Lula e do PT, o
que agrava o risco de fragmentação. A unidade de toda a esquerda
socialista não será tarefa fácil...
Podemos
concluir destacando um ponto decisivo, ou seja, qual é a disputa
real em curso hoje, do ponto de vista da esquerda socialista
brasileira. Certamente não é a disputa do governo Lula, e nem
mesmo do quadro orgânico do PT (deste partido, só é possível
disputar sua herança).
A disputa real
da esquerda socialista brasileira é a luta contra sua redução à
marginalização política, o que implica tanto lutar contra a
cooptação de mais setores da esquerda pelo governo quanto
contra a dispersão dos que resistem e mantêm a defesa de um
projeto socialista. É preciso, portanto, buscar a unidade dos
que resistem na construção de uma alternativa política que ocupe o
espaço deixado vazio pela integração à ordem do PT, do PC do B e
dos outros partidos de esquerda que apóiam o governo Lula.
Até agora, o
esforço mais amplo neste sentido vem sendo o movimento de
construção do P-SOL (Partido Socialismo e Liberdade). No entanto,
só uma pequena parte da esquerda socialista brasileira está
engajada nele. Outros setores continuam sua luta no interior do PT
(ou de outros partidos, como o PC do B), às vezes com resultados
expressivos, como aconteceu com a esquerda do PT do Ceará na
disputa do 1º turno da eleição para a prefeitura de Fortaleza, ou
como tem acontecido na organização da resistência às
contra-reformas sindical, trabalhista e universitária do governo
Lula. Outros se colocam fora do campo estritamente partidário
(como os militantes da
Consulta
Popular).
Só a
convergência da maior parte destes setores nos primeiros meses de
2005 permitirá que a construção de uma alternativa política da
esquerda socialista dê um salto de qualidade. Este, no entanto, é
um tema para outro texto.