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Por
CÉSAR BENJAMIN
Autor de A Opção Brasileira
(Contraponto, 1998, nona edição) e Bom Combate (Contraponto,
2004). |
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Atualidade de
Marx
A
história da modernidade é a história da formação, pela primeira vez,
de um sistema-mundo. Nos últimos quinhentos anos, as antigas
sociedades humanas, que existiram em relativo isolamento durante
milênios, foram progressivamente unificadas em um novo sistema muito
mais amplo. Essa unificação foi feita por meio da incorporação de
áreas e povos ao controle e influência do antigo subsistema europeu.
Os agentes e
promotores dessa transformação construíram suas próprias maneiras de
compreender e conferir sentido ao que faziam. Primeiro foi a difusão
do cristianismo, mas esse discurso correspondia à consciência de um
tempo histórico que estava sendo ultrapassado. Logo veio uma
consciência nova. O iluminismo forneceu os dois conceitos
fundamentais que justificaram o papel universal da burguesia
européia: razão e liberdade. Conceitos gêmeos. Até então, a
revelação e a tradição é que forneciam normas válidas para a
organização da vida social. O pensamento só poderia ocupar um lugar
central se também dele fosse possível deduzir princípios e normas
universais que ultrapassassem os limites da mera opinião. Enorme
desafio. Os iluministas afirmaram que era possível superá-lo: o
pensamento podia produzir esses conceitos universais, e à sua
totalidade eles denominaram razão. A razão pressupunha a liberdade,
pois o sujeito só pode atingir a verdade se o seu esforço de
conhecimento não reconhecer nenhuma autoridade externa que lhe
imponha limites. E a liberdade pressupunha a razão, pois ser livre é
poder agir de acordo com o conhecimento da verdade.
Ao contrário
dos defensores das tradições, necessariamente vinculadas a
sociedades específicas, as vanguardas da modernidade européia logo
proclamaram a validade universal das suas proposições. As
mitologias, as religiões, a arte, a tradição, o direito, o Estado, a
política e a economia, tudo foi julgado à luz do ideal
homogeneizador do progresso. Pela primeira vez, a história passou a
ser encarada como um processo. Inseridas nele, todas as demais
formas de estar-no-mundo foram declaradas arcaicas.
A crítica à
consciência histórica da burguesia européia, feita por Marx, começou
por colocar essa consciência na história. Marx mostrou que o motor
da expansão européia não estava na razão ou na liberdade,
considerados como conceitos abstratos. Estava no desenvolvimento
pleno, pela primeira vez, das potencialidades e das contradições da
forma-mercadoria. Ela esteve presente, é verdade, na grande maioria
das sociedades, mas sempre de maneira marginal e limitada. A moderna
sociedade européia a libertou.
Isso ocorreu a
partir da inclusão, no circuito mercantil, de três elementos que
sempre haviam ficado fora dele: a força de trabalho humana, a terra
e os meios de produção. Transformar coisas em mercadorias é banal,
mas não é banal transformar em mercadorias os atributos fundamentais
das pessoas e da natureza. Só então o circuito mercantil reorganizou
à sua imagem e semelhança, pela primeira vez na história humana,
toda a vida social. Todos os agentes sociais relevantes, inclusive
os detentores do poder político, incluíram-se nele. Toda produção
passou a ser produção de mercadorias, e a produção de mercadorias
passou a ser feita por meio de mercadorias. Ao se fechar, como a
cobra que mordeu o próprio rabo, o circuito mercantil se tornou
imune a forças externas que lhe eram hostis.
Nos meados do
século 19, Marx escreveu que a sociedade assim organizada
desenvolveria, pelo menos, três características novas: a) seria
compelida a aumentar incessantemente a massa de mercadorias, seja
pelo aumento da capacidade de produzi-las, seja pela transformação
de mais bens, materiais ou simbólicos, em mercadoria; no limite,
tudo seria transformado em mercadoria; b) seria compelida a ampliar
o espaço geográfico inserido nesse circuito, de modo que mais
riquezas e mais populações dele participassem; no limite, esse
espaço seria todo o planeta; c) seria compelida a criar
permanentemente novos bens e novas necessidades; como as
“necessidades do estômago” são limitadas, esses novos bens e novas
necessidades, criados para dar sustentação a uma acumulação
ilimitada de riqueza abstrata, seriam, cada vez mais, bens e
necessidades voltados para a fantasia, que também é ilimitada.
Essa nova
sociedade se desdobraria em três direções fundamentais: promoveria
uma revolução técnica incessante (voltada para expandir o espaço e
contrair o tempo da acumulação), realizaria uma profunda revolução
cultural (para fazer surgir o homem portador daquelas novas
necessidades em expansão) e formaria o sistema-mundo (para incluir o
máximo de populações no processo mercantil).
Tudo isso se
confirmou. De certa forma, esse processo já pertence ao passado,
embora recente. Mas o percurso teórico de Marx não foi interrompido
aí. Seu verdadeiro lance de gênio foi ter percebido que o capital
procuraria ampliar suas possibilidades de acumulação em uma forma
(que chamou D – D’) na qual ele nunca deixaria de existir como
riqueza abstrata. É, exatamente, o que acontece hoje, com a
disparada da acumulação financeira global. Marx anteviu: quando essa
forma se tornasse predominante, a civilização do capital entraria em
crise. Pois, ao repudiar as “coisas”, o trabalho e a atividade
produtiva, ao afastar-se do mundo-da-vida, a acumulação de capital
não poderia mais ser o eixo em torno do qual a vida social se
organiza. A forma-mercadoria teria então de ser superada ou, pelo
menos, remetida novamente a um lugar secundário, sendo substituída
por algum outro princípio de organização da vida social.
Marx nunca
deixou de ser um filósofo, mesmo quando fez a crítica da economia
política. Eis o que quis nos dizer: mantida sob o comando do capital
e aprisionada nos sucessivos rearranjos da forma-mercadoria, a
capacidade criadora da humanidade – capacidade que decorre da sua
liberdade essencial, ontológica – poderia tornar-se muito mais
destrutiva na época do capitalismo senil, quando a potência técnica
da própria humanidade já estaria muito mais desenvolvida. Dependendo
de quais forças sociais predominassem, essa potência técnica
expandida poderia ser colocada a serviço da liberdade (com a
abolição do trabalho físico, cansativo, mecânico e alienado) ou da
destruição (com a escalada do desemprego e da guerra).
Essa me parece
ser a disjunção mais relevante proposta por Marx e sua profecia mais
certeira. O capitalismo venceu. Estamos, finalmente, em um
sistema-mundo em que tudo é mercadoria, em que se produz loucamente
para se consumir mais loucamente, e se consome loucamente para se
produzir mais loucamente. Produz-se por dinheiro, especula-se por
dinheiro, mata-se por dinheiro, corrompe-se por dinheiro,
organiza-se toda a vida social por dinheiro, só se pensa em
dinheiro. Cultua-se o dinheiro, o verdadeiro deus da nossa época –
um deus indiferente aos homens, inimigo da arte, da cultura, da
solidariedade, da ética, da vida do espírito, do amor. Um deus que
se tornou imensamente mediocrizante e destrutivo. E que é
insaciável: a acumulação de riqueza abstrata é, por definição, um
processo sem limites.
O capitalismo
venceu. Talvez, agora, possa perder. Pois, antes que o novo tenha
condições de surgir, Hegel dizia, é preciso que o antigo atinja a
sua forma mais plena, que é também a mais simples e mais essencial,
abandonando as mediações de que necessitou para se desenvolver. O
momento do auge de um sistema, quando suas potencialidades
desabrocham plenamente, é o momento que antecede seu esgotamento e
sua superação.
As crises do
mundo contemporâneo mostram que a acumulação de capital e a
forma-mercadoria não podem mais ser o princípio organizador da vida
social. É o desafio que está posto para nós neste século. O
pensamento de Marx nunca esteve tão vivo. |
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