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Por RUDÁ RICCI *
Sociólogo,
Professor da PUC-Minas e UNINCOR. Coordenador do Instituto Cultiva
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Polarização
Partidária
1. Quando a
bipolarização consolida o pragmatismo gerencial na política nacional
Os resultados
das eleições municipais de 03 de outubro revelam que o Brasil deu
mais um passo para a cristalização de um sistema partidário centrado
em dois partidos. Uma polarização dominante, ainda que não
consolidada, entre PT e PSDB. É algo impressionante para um país que
até pouco tempo vivia sob as sombras de um regime militar. São dois
partidos social-democratas, que a imprensa insiste em traduzi-los
como sendo de "centro-esquerda ou esquerda", numa imprecisão
conceitual que denuncia a baixa formação teórica dos nossos
jornalistas. Nas 26 capitais e nos municípios com mais de 200 mil
habitantes (que congregam 42 milhões de eleitores ou 35% do total de
eleitores do país), PT e PSDB destacam-se totalizando algo ao redor
de 60% dos votos. O terceiro partido é o PMDB e o quarto é o PFL. Na
reta final (mais precisamente: na semana que antecedeu as eleições),
os candidatos petistas revelaram um crescimento surpreendente, que
pode ser explicado pelo grau de profissionalismo com que este
partido encarou esta disputa municipal. PT e PSDB se interiorizaram,
também, ocupando parte do espaço que era cativo de lideranças do
PMDB e PFL.
O mais
importante, contudo, não é o indicador estatístico. O mais
importante é que PT e PSDB monopolizam a pauta político-partidária e
os projetos e estratégias nacionais. Todos os outros partidos
gravitam ao redor da disputa entre petistas e tucanos e não
conseguem nem mesmo criar uma agenda alternativa. Uma ou outra
agremiação procurou inserir a pauta liberal de diminuição drástica
dos tributos, mas não conseguiram superar a curiosidade da imprensa,
tornando-a marginal. Assim, a condução da política econômica, a
forma de gerenciamento de políticas públicas e a agenda para as
políticas sociais são claramente definidas pelos dois partidos
hegemônicos. Entre os dois partidos, parece evidente que "o modo
petista de governar" foi o que sofreu maior aggiornamento de 1998
para cá, o que eqüivaleria afirmar que ocorreu, recentemente, uma
convergência programática entre petistas e tucanos, consolidando um
forte pragmatismo gerencial na política nacional, focado na
estabilidade monetária e fiscal. Antes, o modelo petista
orientava-se pela "inversão de prioridades" (maiores investimentos
em áreas e populações menos abastadas) e empoderamento social
(aumento da participação do cidadão no processo decisório de
condução das políticas públicas).
O pragmatismo
gerencial do momento torna-se extremamente técnico e desqualifica,
em parte, o modo de operação política dos peemedebistas e
peefelistas, mais afeitos à dinâmica tradicional, marcada pela
fidelidade e pelos acordos e habilidades políticas de suas
lideranças. Aqui repousa as bases para a cristalização da
polarização do sistema partidário brasileiro.
2. Quando a
bipolarização desloca a disputa para o marketing pessoal
Um sistema
partidário bipolar, mesmo quando não consolidado (como é o caso
brasileiro), gera dois movimentos que se contradizem. Um primeiro
movimento é o de conflito aberto. Há uma tendência declarada em
busca da maior identidade com o eleitorado e desqualificação do
adversário direto. Mas há um segundo movimento de aproximação
programática. Aliás, é o que ocorre nos EUA. Como a disputa passa a
ser muito acirrada e o campo de competição se estreita em dois
partidos, o risco de perda de um para o outro é muito alto. Um
pequeno deslize de um é contabilizado em dobro para o outro. É o
mesmo quando dois times de futebol disputam uma mesma posição no
campeonato: quando os dois jogam entre si, a vitória de um conta "em
dobro", porque o outro perdeu seus pontos e concedeu ainda outros
para seu adversário direto. Como o risco é alto, é comum que os dois
times joguem de forma similar. Em outras palavras, os dois partidos
tendem a se arriscar menos, o que significa inovar menos e trabalhar
mais as diferenças pessoais que as programáticas. Não por outro
motivo, os jornais norte-americanos diziam que Clinton era o
democrata mais republicano da história dos EUA. E o que dizer da
atual disputa nos EUA? Talvez, possamos dizer que vários candidatos
petistas nunca foram tão tucanos como nessas eleições, e vice-versa.
É a velha máxima que diz que os contrários se atraem. Às vezes, se
atraem, fingindo que se repelem.
Assim, devemos
nos preparar para a diminuição do papel da militância partidária na
definição das decisões e disputas eleitorais no Brasil. Os quadros
profissionais, da máquina partidária e do marketing político, serão
figuras proeminentes (ou quase exclusivas) do cenário político do
país. As eleições municipais deste ano já indicaram este futuro e,
neste quesito, os petistas saíram à frente. Os dirigentes petistas
das campanhas eleitorais definidas como prioritárias relatam que
várias peças publicitárias, discursos e posturas de candidatos eram
decididas na véspera, à luz de pesquisas qualitativas realizadas
diariamente. A imprensa relatou a substituição da militância petista
por profissionais treinados e uniformizados que visitaram por mais
de uma vez a residência de eleitores, esquadrinhados por bairro.
Todas informações eram sobre preferência eleitoral percebida pelos
"profissionais da eleição" eram classificadas e definiam o próximo
passo na abordagem dos eleitores de cada território municipal. Os
salários de gerentes e "profissionais-visitadores" desta eleição
variaram entre 300 e 800 reais, podendo superar um pouco esta
margem, dependendo da capital. Em termos do programa de campanha,
muitos candidatos petistas abandonaram as proposições mais ousadas e
tradicionais. O caso mais evidente foi o de Belo Horizonte, onde o
candidato vitorioso no primeiro turno (a vitória mais espetacular do
PT neste dia 3 de outubro), que criticou abertamente vários
elementos centrais da reforma educacional iniciada na gestão Patrus
Ananias (denominada "Escola Plural") e destacou grandes obras em
detrimento do orçamento participativo.
Em suma, o PT
é o principal responsável pela mudança drástica e significativa do
sistema e estrutura partidária por que vem passando o Brasil.
Altera, a partir destas eleições municipais, o patamar da disputa
partidária, elevando o grau de profissionalização, ao estilo
norte-americano. Também é responsável pela consolidação da
bipolarização dominante PT-PSDB ao se deslocar programaticamente,
diminuindo significativamente os riscos de inovações e mudanças
radicais nas políticas públicas vigentes.
Se esta
tendência se fortalecer nas eleições de 2006, as campanhas serão
mais mornas e mais personalizadas a partir de então, as abordagens
mais dirigidas para cada nicho de eleitores e os partidos caminharão
para seu "empresariamento", sendo mais e mais conduzidos por
técnicos experimentados. Estaremos, neste caso, vivendo o limiar da
americanização da política brasileira. |
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