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Por HENRIQUE RATTNER
Professor
da FEA (USP), IPT e membro da Associação
Brasileira para o Desenvolvimento de Lideranças (ABDL)
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Nanotecnologia
– Para melhor ou para pior?
Introdução
A nanotecnologia,
neste limiar do século XXI, está sendo aclamada como uma nova
revolução tecnológica por uma onda de marketing, inclusive por parte
de alguns centros acadêmicos, cuja produção efetiva pouco tem
contribuído para um conhecimento mais exato e confiável sobre o
tema.
Afinal, o que está
se estudando e o que está se fazendo? Quais são as pesquisas em
andamento e suas possíveis aplicações industriais? Mais importante
ainda, quem faz as pesquisas e com que objetivos? Quem arcará com os
custos? Servirão os resultados para a criação de riquezas (de quem,
para quem)? Pretende-se seriamente melhorar a qualidade de vida de
todos? Não se pretende parar o desenvolvimento da nanotecnologia,
mas é preciso levantar algumas questões fundamentais (aliás,
extensivas a todas as tecnologias de ponta) sobre suas relações com
a equidade social e a qualidade do meio ambiente. Impõe-se,
portanto, um processo de avaliação “ex-ante”, baseado no Princípio
de Precaução, mesmo porque o quadro de diretrizes existentes
referentes à produção, consumo e fiscalização de alimentos, drogas e
cosméticos, bem como as condições de segurança nos locais de
trabalho e o meio ambiente em geral são considerados insuficientes e
a legislação pertinente arrasta-se por anos nas casas legislativas.
À luz das
experiências das últimas décadas, convém esboçar um exercício de
prospectiva, passando em revista as promessas e os resultados da
nova onda tecnológica.
Inovação
Tecnológica e bem-estar social
As inovações de
maior impacto, nas últimas décadas, foram derivadas indubitavelmente
da introdução da microeletrônica e de suas inúmeras aplicações no
campo civil e militar. Não falta literatura sobre os aspectos
econômicos e técnicos de computadores e microprocessadores e suas
inúmeras aplicações em praticamente todos os setores das atividades
humanas. As conseqüências sociais, contudo, não têm merecido a mesma
atenção dos pesquisadores e os recursos alocados para incentivar
pesquisas e análises críticas sempre foram, e continuam sendo,
escassos.
Em 1982, foi
publicado um outro estudo do Clube de Roma[1],
intitulado “Microelectronicas and Society – for better or for worse”
que apresentou uma antevisão do futuro próximo e uma análise da
realidade, ao focalizar a problemática dos impactos da
microeletrônica sobre o trabalho humano, particularmente os efeitos
da automação e da robotização.
Análises
semelhantes deveriam elaboradas, mas não foram, referentes à
introdução da Revolução Verde de Norman Borlaugh, nos anos sessenta,
à biotecnologia e à engenharia genética e, mais recentemente, à
polêmica sobre o uso de organismos geneticamente modificados e as
sementes e os alimentos transgênicos. É possível extrair dos
relatórios anuais do PNUD sobre a evolução do IDH – o Índice de
Desenvolvimento Humano – um balanço sumário entre ganhadores e
perdedores nesse processo. Esses dados mostram que, apesar dos
avanços imensos do conhecimento científico e suas aplicações
tecnológicas, paradoxalmente, as condições existenciais de um quinto
da humanidade que sobrevive com menos de 1US$ por dia não têm
melhorado e as perspectivas para os próximos anos não parecem
augurar mudanças significativas.
Contrariamente à
mídia sensacionalista que ora aponta para a ameaça de “grey goo”-
máquinas que se auto-replicam ou, mais recentemente, evocam o
espectro do “green goo” – em que a biologia seria utilizada para
criar novos materiais e novas formas artificiais de vida, cabe aos
cientistas sociais a tarefa de avaliar os potenciais riscos e
benefícios da nanotecnologia.
O estado atual da
pesquisa científica e tecnológica não permite afirmar se e até que
ponto as nanopartículas ou produtos representam uma real ameaça.
É verdade, já
existem numerosos produtos e partículas em circulação, sem que tenha
havido uma avaliação ex-ante de seus riscos. Tampouco, seus
produtores ou comerciantes estão preocupados com o chamado
“princípio de precaução”. Mas, produtos baseados em nanotecnologia
possuem propriedades que atraem investidores e prometem benefícios –
de melhores produtos a novos caminhos de curar doenças – que acabam
deixando os riscos associados à introdução de novas tecnologias em
segundo plano.
Há, por exemplo,
indicações que nanopartículas são quimicamente mais reativas e, por
isso, potencialmente mais tóxicas. Entretanto, poucos estudos
toxicológicos existem, por enquanto, sobre a matéria.
Estudos sobre
nanotecnologia, em nosso meio, estão apenas na fase inicial. Tais
como as pesquisas do Instituto de Química da USP, que desenvolve
sensores de raios ultravioletas, com base em tecnologias
nanoscópicas. Outro projeto procura aperfeiçoar modelos de células
fotoquímicas para a produção de energia com estrutura molecular
Na Universidade
Federal de São Carlos foi desenvolvida uma combinação de
nanopartículas com outros materiais que permitiu o desenvolvimento
de um lápis com grafite mais resistente e, ao mesmo tempo, mais
macio. O produto acabou sendo adquirido pela multinacional Faber
Castell.
Sobre as
aplicações da nanotecnologia
O acompanhamento
do noticiário sobre os movimentos de investidores – especuladores na
área de nanotecnologia evoca até certo ponto o estouro da “bolha” de
especulação em novas tecnologias, cotadas na NASDAQ. A corrida atrás
de investimentos em companhias de informática fez a fortuna de
poucos e a miséria de muitos incautos, seduzidos pelo marketing
inescrupuloso das empresas. Embora a nanotecnologia possa ter
aplicações múltiplas, da microeletrônica até a medicina, pouco se
sabe quando e onde (ou mesmo se) a NT será aproveitada.
Uma empresa de
pesquisa, a Nanosys, nos EUA, anunciou que o lançamento de uma
oferta pública das suas ações, até o fim de 2004. Entretanto, a
empresa ainda não lançou um único produto e suas atuais receitas se
restringem a uma verba de US$ 3,1 milhões provenientes de contratos
de pesquisa com o governo dos Estados Unidos. A comparação com o
lançamento da Netscape, em 1995, não é válido porque esta já
contava, no mesmo ano, com 10 a 15 milhões de usuários. Por outro
lado, o clima geral da economia norte-americana e as baixas
sucessivas nas cotações das bolsas não favorecem o lançamento de um
novo ciclo de investimentos especulativos.
Um levantamento
sumário nas publicações que circulam sobre nanotecnologia aponta
para os seguintes produtos e serviços que já estariam no mercado:
-
Tecidos
resistentes a manchas e que não amassam;
-
Raquetes e bolas
de tênis;
-
Capeamento de
vidros e aplicações antierosão a metais;
-
Filtros de
proteção solar;
-
Material para
proteção (“screening”) contra raios ultravioleta;
-
Tratamento
tópico de herpes e fungos;
-
Pó antibactéria;
-
Diversas
aplicações na medicina como cateteres, válvulas cardíacas,
marca-passo, implantes ortopédicos;
-
Produtos para
limpar materiais tóxicos;
-
Produtos
cosméticos;
-
Sistemas de
filtração do ar e da água.
Mapeando os
riscos e as promessas da nanotecnologia
Nanotecnologia se
refere a partículas na dimensão de nanômetros (10-9 = 0,000.000.001
m = a um nanômetro, ou, nm). A interação da física clássica com
mecânica quântica – facilitou a emergência de outras tecnologias, o
que levou à preocupação com NPs produzidas e liberadas (residuais)
via tecnologias convencionais (ex. resíduos de combustão suspensos
no ar). Por outro lado, alimentam-se grandes expectativas de
benefícios para a computação, a medicina, materiais diversos e o
meio ambiente, ao combinar conhecimentos de física, química,
genética, tecnologias de informação e comunicação e ciências
cognitivas com a nanotecnologia. Estimativas variadas sobre os
gastos futuros do nanomercado oscilam de US$ 700 bilhões em 2008 e
mais de um trilhão, em 2015.
Na discussão de
nanotecnologias distingue-se a fabricação controlada de nanosistemas
funcionais, ou nanoestruturas de pelo menos 100nm de escala,
servindo à fabricação de nanosuperfícies (uma dimensão); de
nanotubos (duas dimensões) e de nanopartículas construídas (três
dimensões). Distingue-se também as nanopartículas fabricadas de vida
curta ou de vida longa como, por exemplo, as drogas.
Uma breve revisão
das informações disponíveis chama a atenção para produtos residuais
não intencionados (partículas liberadas por combustão) e
nanopartículas “livres” que penetram o corpo humano, sedimentando-se
em alguns órgãos. Nanopartículas entram no corpo humano via os
aparelhos digestivo, respiratório ou pela derme. Uma vez no
organismo, as NPs se deslocam por órgãos e tecidos distantes do
ponto de entrada e podem transpor as barreiras da circulação do
sangue, entrar no cérebro e criar riscos para a saúde (como,
exemplo, os vapores de polímeros que causam danos aos pulmões). Por
isso, as pesquisas técnicas devem ser acompanhadas por investigações
sobre os impactos na sociedade, no meio ambiente e as percepções da
sociedade civil sobre os potenciais benefícios e riscos da nova
tecnologia.
Hipóteses
levantadas sobre as características inéditas da nanotecnologia e que
exigiriam medidas de controle e de responsabilidade redobradas,
apontam para a INVISIBILIDADE e suas implicações para atividades
secretas e bélicas; a MICRO-LOCOMOÇÃO e suas potencialidades para
invadir ou superar barreiras, muros e outros obstáculos, inclusive a
pele humana e a AUTO-REPLICAÇÃO – o aspecto mais problemático e
perigoso que evoca o espectro do “aprendiz feiticeiro”.Essas três
características colocam em evidência os desafios de monitoramento,
apropriação e propriedade e o controle social da tecnologia.
Quanto ao
monitoramento, é de se prever que os dispositivos invisíveis, móveis
e autoreplicadores representarão desafios inéditos para a sociedade,
questionando-se sobre “o que controlar e por quem devem ser
exercidos os controles”. O cidadão comum não será mais capaz de
observar todas as atividades relevantes ao seu redor, enquanto as
autoridades serão pressionadas de prover assistência e orientação
quanto à proteção contra a invasão da privacidade por parte dos
produtores ou proprietários da tecnologia.
Aspectos éticos
relacionados com processos, e substâncias
Os riscos
inerentes na introdução de novas tecnologias exigem um diálogo
constante com a sociedade civil – os “stakeholders” que sofrem os
riscos, mas nem sempre os benefícios da NT. Outros atores,
industriais, cientistas e administradores devem ouvir o público, num
sistema de comunicação em duas vias. Entre os diversos problemas
nessa área destacam-se as decisões sobre alocação de recursos para
P&D e a avaliação de projetos e seu monitoramento. Isto exige a
promoção e a explicitação de diálogo sobre a escala de valores e as
diferentes opções sociais. Serão exigidos acordos sobre princípios
éticos sobre a dignidade humana, autonomia, a obrigação de não ferir
e fazer o bem, particularmente nas áreas de saúde e segurança no
trabalho, privacidade e preservação do meio ambiente.
Prioritária é a
necessidade de avaliar os riscos para aqueles que já estão expostos
as NPs e no local onde estão sendo produzidas. A administração dos
riscos e suas conseqüências sociais, econômicas e políticas, deve
estar estreitamente relacionada com políticas de saúde pública.
Haverá necessidade de regulamentação de padrões de exposição,
prevenção e intervenção, exigindo medições biomédicas e de
engenharia sanitária. Essas seriam as funções de um observatório de
nanotecnologia, para orientar as intervenções reguladoras. A adoção
do princípio de precaução em face de evidências incompletas e de
incerteza quanto aos riscos de conhecimentos científicos incompletos
impõe-se para a segurança da população até que se crie um processo
compreensivo de regulação da NT.
Face à mobilidade
e habilidade de NPs migrar no meio ambiente durante o ciclo de vida
e a exposição de seres humanos nos locais de trabalho e no meio
ambiente em geral, formulam-se as seguintes recomendações:
-
Elaborar uma
nomenclatura e manuais de serviço para a engenharia de NPs, com
testes de toxicologia e aprofundar os conhecimentos científicos,
com coleta de dados sobre o tempo de exposição e a resposta
necessária;
-
Estudos
toxicológicos e eco-toxicológicos sobre a persistência de NPs
livres no meio ambiente e seus impactos no organismo e no cérebro;
-
Desenvolver
instrumentos de medição e métodos de avaliação padronizados; e
desenvolver boas práticas referentes à avaliação de riscos para a
saúde e o meio ambiente humano;
-
Criar
instituições de monitoramento do desenvolvimento de NT;
-
Estabelecer um
diálogo com o público e a indústria para tomarem parte nos
processos decisórios;
-
Desenvolver
diretrizes e padrões para avaliação de riscos da produção e
manuseio de NTs e revisão de regulamentação já existente quanto ao
registro de produtos de NT e suas propriedades;
-
Maximizar a
contenção de NTs livres, até elaborar uma matriz e procurar
eliminar ou minimizar a produção ou liberação de NPs;
O que está em
questão?
As principais
polêmicas versam sobre o direito da sociedade civil de exercer o
controle (governança) da mudança e das inovações tecnológicas; a
necessidade de institucionalizar o aprendizado social e a avaliação
dos riscos e das oportunidades ao operar em condições de incerteza.
É fundamental a
avaliação permanente do papel da nova tecnologia na melhora ou piora
da situação social, diminuindo ou aumentando as desigualdades, a
exclusão e a degradação do meio ambiente.
Há uma ênfase
exagerada, devido a interesses e objetivos comerciais, nos impactos
supostamente revolucionários das novas tecnologias, enquanto, na
realidade ocorrem avanços apenas incrementais, baseados em áreas
solidamente estabelecidas como: semicondutores, ciência coloidal,
novos materiais, etc. O que torna necessário estabelecer uma
distinção entre ficção científica e extrapolação da evolução
provável e possível.
Neste contexto,
importa frisar que possíveis avanços viriam juntos com progressos da
biotecnologia e da tecnologia da informação, de forma sinérgica e
não isoladamente.
Inovação
Tecnológica e Desenvolvimento
Analisadas em
retrospectiva histórica, ciência e tecnologia constituem apenas
meios e instrumentos e não alvos em si mesmas. Sua aplicação e
destino, portanto, devem ser objeto de diálogo, comunicação e de
interação social permanentes.
Indubitavelmente,
uma das funções da ciência é racionalizar o desconhecido. Mas, se
neste processo ela for utilizada para impedir a liberdade dos
outros, os cientistas sacrificarão a sua própria criatividade,
perdendo a visão de conjunto do processo social. Com isso, a
autonomia da pesquisa e o potencial libertador inerente aos
conhecimentos científicos e tecnológicos também se perdem.
Contrariamente às proclamações dos vendedores de processos e
equipamentos, a nanotecnologia e suas múltiplas aplicações não são
revolucionárias em si. Somente na medida em que forem acompanhadas
por mudanças nas relações sociais e culturais poderá a sociedade,
como um todo, beneficiar-se das inovações.
Nas últimas
décadas, inúmeras inovações tecnológicas foram lançadas nos
mercados: microeletrônica, engenharia genética, raio laser, novos
materiais, energia fotovoltaica, fibras ópticas e outras,
contribuindo para transformar produtos, processos e as atividades
econômicas e administrativas. As conseqüências de sua utilização em
escala global têm constituído tema de reuniões científicas, debates
parlamentares e de decisões políticas. Emprego – desemprego;
qualificação – desqualificação da mão de obra; racionalização total
– alienação completa dos processos de trabalho; eficiência máxima na
administração privada e pública – invasão da privacidade constituem
alguns dos aspectos contraditórios e desafiantes das novas
tecnologias.
Qual a posição
crítica que devemos adotar e transmitir, na medida em que os
problemas da política científica e tecnológica se tornem cada vez
mais prementes? Não é possível resistir à penetração de inovações
tecnológicas na vida moderna sem cair no papel dos Ludditas do
início do século XIX. Recusar as mensagens dos mercadores da
nanotecnologia não deve conduzir a críticas negativas apenas. Mas,
advogar indiscriminadamente a incorporação da nova tecnologia na
vida cotidiana não significaria cair na lógica do discurso de seus
vendedores? Implícita em suas manifestações está a premissa da
inevitabilidade do progresso técnico e de seus benefícios que
automaticamente decorreriam para toda a sociedade.
Contrariamente aos
tecnocratas embevecidos com as maravilhas das tecnologias de ponta,
postulamos que nenhuma posição ou interpretação da realidade é
totalmente neutra, se não considerar seus efeitos de exclusão do
cidadão comum que a elas não tem acesso. Os homens de negócios e os
tecnocratas estão preocupados com a produtividade, o PIB, a balança
comercial, a taxa de lucro, que abstraem dos aspectos e
características sociais das inovações e de seu contexto. A visão
alternativa, preocupada com a solução dos problemas humanos de nossa
sociedade destaca o conteúdo do esforço científico–tecnológico e a
natureza qualitativa do desenvolvimento. Por isso, indaga sobre os
impactos das inovações, além da economia e do comércio
internacional, questionando para que serve essa tecnologia? A quem
serve e beneficia? E quais os problemas humanos que sua introdução
causará ou, possivelmente, intensificará?
Essas perguntas
podem parecer ingênuas porque mesmo nos países desenvolvidos as
novas tecnologias, inclusive a nanotecnologia, surgiram sem que
houvesse decisões democráticas sobre sua introdução, o que permite
inferir sobre poderosos interesses econômicos e políticos associados
às inovações.
Na análise sobre
as relações entre países desenvolvidos e “emergentes”, estas são
configuradas em termos de “gap” (fosso) tecnológico que caberia aos
retardatários a superar, caso contrário, estariam condenados ao
eterno atraso.
A maioria dos
analistas, em seu entusiasmo pela nanotecnologia, se limita à
apologia dos novos produtos, ignorando os problemas não-técnicos
associados à sua introdução nos diversos setores da vida social e
econômica. Advogando a inevitabilidade da inovação, infere-se sobre
um determinismo tecnológico que reduz o desenvolvimento ao progresso
técnico e à estratégia dos negócios. Em vão procuraremos
pronunciamentos sobre as relações sociais geradas ou deterioradas
pela nova tecnologia. Muitas das tecnologias de ponta surgiram em
projetos militares ou em laboratórios de P&D altamente
especializados, de propriedade de grandes empresas, o que revela um
dos aspectos, raramente comentados das inovações tecnológicas, ou
seja, sua estreita associação com grupos de poder.
Embora a maioria
dos estudos sobre inovações tecnológicas seja realizada por
economistas, é inegável que seus maiores impactos são de natureza
social. Mesmo quando alguma menção é feita sobre os impactos na
relação emprego – desemprego, esta se concentra nos termos
quantitativos, abstraindo das condições de trabalho, dos impactos
sobre as emoções e sentimentos dos trabalhadores, enfim, o próprio
“sentido” do trabalho para a vida humana.
Abstraindo dos
problemas do poder, das relações sociais e das condições de
trabalho, a inovação tecnológica passa a ser encarada como elemento
preponderante na luta pelos mercados travada pelas grandes
corporações que operam no espaço econômico transnacional e no mundo
político irreversível. Seguindo esse raciocínio, chega-se à
conclusão de nossa impotência diante a inevitabilidade do destino: a
tecnologia, as oportunidades e as diretrizes são dadas, as opções
foram feitas e seguir na trilha da nova tecnologia seria imperioso e
inevitável, sob pena de cairmos ainda mais no abismo do
subdesenvolvimento.
Não se pretende
impedir o progresso científico e tecnológico, mas cumpre-nos zelar
dos riscos à saúde da população e das ameaças ao precário equilíbrio
do meio ambiente. Para isso, é preciso deslocar a discussão de
princípios abstratos, a favor ou contra, para a análise dos atores
sociais e econômicos, comprometidos institucionalmente com a
legislação que exige o licenciamento ambiental (EIA/RIMA) para todas
as atividades econômicas, sujeitas à análise e avaliação por parte
do SISNAMA – Sistema Nacional do Meio Ambiente.
Inovações
tecnológicas devem ser não somente tecnicamente possíveis, mas
também ambiental e biologicamente seguras, economicamente
vantajosas, socialmente benéficas e eticamente aceitáveis. Tudo isso
legalmente regulamentado.
Portanto, as boas
normas da pesquisa científica e suas aplicações tecnológicas
rejeitam os privilégios de poucos e não admitem aberrações
jurídicas, visando proteger interesses de minorias econômicas ou
acadêmicas das obrigações que regulem a vida de todos os cidadãos. A
Lei de Biosegurança deve garantir previsibilidade jurídica e
isonomia, ambas condições básicas da ordem jurídica e do Estado
democrático.
Ciência e
tecnologia não são politicamente neutras; ao contrário, equipamentos
e processos de trabalho e a organização dos mesmos estão
inextricavelmente ligado às relações sociais de produção.
Em cada contexto
histórico, espacial e socialmente determinado, as formas concretas
da tecnologia representam determinada combinação de níveis de poder
econômico e político centralizado nas mãos dos detentores dos meios
de produção e, por outro lado, as aspirações ao poder dos
trabalhadores e suas reivindicações, por melhor remuneração, mais
autonomia e autogestão. Por isso, práticas tecnológicas refletem as
contradições políticas entre a dinâmica da economia (acumulação e
concentração do capital) e as tendências opostas do sistema social e
político, em direção à democracia e autogestão. Essa tensão
dialética estabelece os limites de ciência e tecnologia como
instrumentos de mudança social. P&D e a incorporação de seus
resultados ao sistema produtivo obedecem primeiramente a critérios
econômicos e políticos. Em última análise, o desenvolvimento
hipotético da nanotecnologia dependerá não somente do volume de
recursos financeiros postos a sua disposição, mas de quem os
controla e usa, com que objetivos e valores.
Outro desafio será
a definição dos direitos de propriedade, à semelhança do que está
acontecendo na área de biotecnologia e da biodiversidade. A
introdução de nanomecanismos abrirá uma ampla discussão sobre
responsabilidade e controle. Quem será responsável pelo “espaço
aberto” e o “território fechado” na escala da nanotecnologia? Além
de impor a obrigação de estudar os impactos da nanotecnologia sobre
a sociedade, caberia aos cientistas sociais a tarefa de estudar os
impactos da sociedade sobre a tecnologia e as normas, instituições,
grupos de “stake holders”e seus valores, para definir seus rumos e
limites, embora nossa experiência com a energia nuclear, a
engenharia genética e o internet não acena com resultados
promissores.
Em princípio, as
decisões sobre alocação de recursos, investimentos em P&D e
desenvolvimento de processos e produtos seriam da alçada da
sociedade civil, dos sujeitos potencialmente beneficiários ou em
situação de risco. A adoção do “Princípio de Precaução” face às
incertezas e riscos decorrentes da aplicação de conhecimentos
incompletos seria ditada por um acordo básico sobre os princípios
éticos, tais como a preservação da dignidade humana, a autonomia e a
obrigação de não ferir e fazer o bem, particularmente nas áreas de
saúde e segurança de trabalho e na preservação do meio ambiente.
Conforme já explicitado, não podemos subscrever à tese da
neutralidade ética das tecnologias e de seus inventores, defendida,
entre outros, por J. Mosterín, do Instituto de Filosofia, CSIC, de
Madrid. Ao discutir ética e padrões racionais, Mosterín confunde
moral e ética, tratando-as como sinônimos. A moral de qualquer
sociedade muda e evolui ao longo da historia, mas não os valores
éticos comuns a toda a humanidade, tão sagrados como a própria
vida. Mesmo os cientistas mais renomados não conseguiram escapar do
contexto social e dos valores dominantes em sua época.
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