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Por PAULO ROBERTO DE ALMEIDA
Doutor
em Ciências Sociais, diplomata, autor de vários trabalhos sobre
relações internacionais e política externa do Brasil
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Onde foram
parar os manifestos econômicos de oposição?
1. Panorama
depois da batalha
A frente de
batalha está calma, a fumaça, o fragor e o cheiro de pólvora já se
dispersaram, já não se vêem tantos mortos e feridos como
anteriormente e os combatentes se retiraram por falta de munição ou,
talvez, por falta de argumentos. Sim, estamos falando não de uma
guerra verdadeira, não de um conflito bélico, ou sequer de uma
contenda eleitoral, mas tão simplesmente de um enfrentamento
ideológico, a formidável “batalha de idéias” que, durante
praticamente dois anos, ocupou os corações e mentes de tantos
militantes da causa, de tantos propugnadores de soluções fáceis para
questões complexas, o combate em torno das posições de política
econômica do governo atual.
Estou
surpreendido com a aparente calmaria e com a falta quase completa de
adversários ideológicos: afinal de contas, durante todo esse
período, que se estende dos meses anteriores ao aquecimento da
campanha eleitoral aos meses imediatamente seguintes à formidável
vitória eleitoral e mesmo até o primeiro semestre de 2004, tive de
esgrimir quase sozinho as armas da racionalidade econômica e do bom
senso político, ao enfrentar hordas inteiras de opositores “de
esquerda” às políticas econômicas adotadas pelo atual governo da
mudança (que, finalmente, acabou mudando pouca coisa na economia,
justamente, para desespero daquele bando de opositores). Talvez a
quietude reinante seja apenas uma suspensão temporária de
hostilidades, um armistício não declarado, e talvez os adversários
retornem com toda a força uma vez passadas as eleições de outubro de
2004, e não seria bom baixar a guarda.
Por isso
mesmo, aproveitando este momento de calma e tranqüilidade, vou
tentar recuperar alguns dos argumentos bélicos do “outro lado”, para
oferecer um possível balanço das batalhas travadas no passado
recente e preparar o terreno para as possíveis novas contendas que
não deixarão de surgir no novo quadro político a ser criado por
essas eleições e pela evolução futura dos indicadores econômicos.
Ressalte-se, de imediato, que algo da calmaria reinante no presente
momento (outubro de 2004) pode talvez ser explicado pelo bom estado
da economia, pela sensação (que não é irreal) de crescimento, de
sucesso das medidas adotadas pelo governo para estimular a economia
num quadro de inflação baixa, da euforia com algumas vitórias
diplomáticas na frente externa (o que também inclui um crescimento
inédito nas exportações e no saldo de transações correntes).
Tudo isso pode
ser verdade e de fato contribui para “desarmar” muitos dos
adversários “catastrofistas” de antes, mas não estou verdadeiramente
convencido de que eles tenham “desarmado” de vez, ensarilhado os
bacamartes e passado a se dedicar à caça e pesca de inocentes
espécimes selvagens. Acredito, sim, que as sensatas políticas
econômicas do médico que nos governa nessas matérias de liquidez
monetária, de orçamento de gastos correntes e de investimentos e de
superávit primário continuarão a estar na mira dos inimigos
ideológicos de sempre, com possíveis escaramuças na primeira descida
de colina (isto é, de inversão nas tendências conjunturais).
Tendo mapeado
uma meia dúzia, pelo menos, de protestos acadêmicos e outras tantas
manifestações de inconformidade por parte dos próprios políticos do
partido ora hegemônico, não creio, assim, que a calmaria seja
eterna, ou que eles tenham de verdade se convertido ao calmo
pragmatismo de uma política econômica possível, não daquela “ideal”,
que eles sempre proclamaram em retumbantes manifestos de oposição.
Esses manifestos são aliás curiosos, ou bizarros, segundo se
prefira, pois que eles são o resultado nem sempre feliz de uma
combinação de argumentos puramente teóricos, sem atentar para os
dados da realidade, com manifestações de inconformidade com os
parcos resultados da política posta em prática desde a assunção do
poder, em termos de crescimento, de emprego, de distribuição de
renda, de investimentos sociais e por aí vai.
Nesses
manifestos, nem tudo o que é teórico é inconsistente, como nem tudo
o que é de natureza prática está afastado da realidade, pois que as
críticas formuladas a propósito daquela política econômica tomaram
por base a situação efetiva do Brasil nos meses que antecederam e
sucederam imediatamente à mais eloqüente manifestação de vitória
oposicionista na história política republicana. Por isso mesmo,
seria interessante recuperar alguns desses argumentos contidos nos
manifestos de oposição econômica, para tentar ver o que restou
deles, quase dois anos depois da “mudança para valer” ter começado
no Brasil. Vou me valer, para isso, de uma série de escritos que
tive a chance de elaborar, graças, justamente, ao ativismo desses
opositores econômicos de esquerda, que me deram bons motivos para
exercitar minha racionalidade econômica de princípio. A eles,
portanto, posso dedicar este modesto ensaio de recapitulação
histórica.
2. Para
começar, a lista dos manifestos de oposição
Valeria a
pena, antes de mais nada, fazer o “recenseamento” dos manifestos,
cartas, declarações e outros documentos de “contestação”,
preparados, expedidos ou divulgados desde antes da campanha
eleitoral até os dias que correm, como forma de se avaliar a
progressiva diminuição de intensidade de seu uso enquanto arma
política. Sim, cabe destacar, antes de mais nada, que essas
manifestações têm muito pouco de “econômicas”, uma vez que elas são
preparadas com intenções políticas e se destinam precipuamente a
provocar efeitos políticos. A “economia”, nesses documentos, se
existe, é mero expediente político, um artifício metodológico que
visaria, no meu entender, dar-lhes maior “consistência intrínseca”,
uma vez que um manifesto diretamente político apresentaria,
previsivelmente, menor impacto junto ao público, ao passo que se ele
vem envelopado nessa linguagem especializada e dotado de conteúdo
aparentemente “econômico” eles são capazes de ganhar “credibilidade
pública”. Esta a razão fundamental de tantos “manifestos
econômicos”, que de econômicos só têm o nome. De fato, se submetidos
a qualquer comissão editorial de revista econômica, para publicação
meramente como “nota de registro”, eles provavelmente seriam
recusados, tantos e tão flagrantes são os defeitos metodológicos e
as inconsistências propriamente econômicas dessas peças de
propaganda.
Esta parece
ser a palavra correta: eles constituem “propaganda política”, como
qualquer outra, apenas que travestidos de “manifestação econômica”,
e portanto com pretensões a seriedade, já que carregando a
assinatura de prestigiosos professores universitários, alguns
considerados luminares da “ciência econômica” em nossa terra. Mas
basta verificar as circunstâncias de seu lançamento e divulgação
para constatar que eles precedem ou coincidem com debates cruciais
na vida política do país e se inserem, de modo acessório mas não
menos estridente, na luta pela hegemonia de certas idéias nos
respectivos comandos políticos dos grupos em disputa pelo, ou já
ocupando o poder.
Vejamos,
portanto, quais foram os manifestos mais significativos de nossa
recente história eleitoral e como eles se inserem nas peripécias da
luta pelo poder (o poder efetivo ou o poder das idéias, ou seja, a
batalha pelos corações e mentes dos brasileiros).
-
“Um outro
Brasil é possível”, divulgado em 4 de julho de 2001 pelo Instituto
Cidadania (uma das ONGs do PT) e apresentado como uma das bases do
programa econômico do PT. O texto, na verdade, foi elaborado por
um grupo de economistas do partido, representando sua tendência
majoritária, e se dedicou a criticar a política econômica em vigor
naquele momento e outros tantos “equívocos” em matéria de política
externa e de relações internacionais do Brasil. Fiz uma análise
desse documento no ensaio “O PT e as relações econômicas
internacionais do Brasil: análise do programa econômico ‘Um outro
Brasil é possível’” (Washington, 14 outubro 2001, 25 p.),
publicado na
Espaço Acadêmico (novembro de 2001)
-
“Carta ao Povo Brasileiro”, divulgada
em 22 de junho de 2002 por Luiz Inácio Lula da Silva, já candidato
declarado do PT, marcou a conversão do partido em direção de uma
política econômica “responsável”, mas que no momento era
indiscutivelmente de “oposição”. Nela o candidato
propõe um pacto com o povo, assumindo
solenemente uma série de compromissos que, um mês depois, em 23 de
julho de 2002, seriam confirmados no documento “Compromisso com a
soberania, o emprego e a segurança do povo brasileiro” (ver
o texto original da “Carta”). Efetuei uma primeira análise
desse documento naquela conjuntura, com ênfase nos aspectos de
política internacional, mas o texto permaneceu inédito, a despeito
de sua circulação em meio eletrônico (lista de relações
internacionais). Mais tarde, seus principais elementos foram
consolidados no ensaio de reavaliação intitulado “Dois anos de
‘Carta ao Povo Brasileiro’: De volta a um documento de ruptura”
(Brasília, 27 junho 2004, 16 p.), publicado na revista eletrônica
Espaço Acadêmico (julho de 2004).
-
“Programa
de Campanha do PT”, divulgado em julho de 2002, confirmava os
compromissos com a manutenção do superávit primário (mas apenas “o
quanto for necessário para impedir que a dívida interna aumente em
relação ao PIB e destrua a confiança na capacidade do governo de
cumprir seus compromissos”), com os contratos da dívida
externa e com a responsabilidade fiscal
(o programa, junto com os demais documentos da campanha do PT de
2002, encontra-se disponível no link:
http://www.lula.org.br/obrasil/documentos.asp).
Efetuei, na época, comentários extensos a diversas passagens do
programa, em especial nas partes relativas à política econômica e
à política externa, mas eles permaneceram inéditos até aqui,
excluindo-se uma circulação rápida em boletim de relações
internacionais.
-
“Compromisso
com a soberania, o emprego e a segurança do povo brasileiro”, novo
documento, divulgado por Lula, em 23 de julho de 2002, e que se
situa ainda na vertente oposicionista à política econômica em
vigor. Efetuei uma análise naquele momento, que tampouco foi
finalizada para publicação, mas cujos principais elementos me
permitiram elaborar, a partir desse documento e do anterior, a
série de trabalhos enfeixados sob o título geral de “Conseqüências
Econômicas da Vitória”, publicadas em sua quase totalidade no
boletim Espaço Acadêmico (ou o
link direto para os artigos), mais tarde incluídos em meu
livro A Grande Mudança: conseqüências econômicas da transição
política no Brasil (São Paulo: Editora Códex, 2003, com
materiais elaborados ainda antes da vitória eleitoral, que eu já
previa então; para o sumário do livro ver o link:
http://www.pralmeida.org/01Livros/2FramesBooks/58GrdeMudanca.html).
A análise consolidada desse documento encontra-se em meu ensaio “A
Carta-Compromisso de Lula de 2002: um balanço preliminar, dois
anos depois” (Brasília, 27 junho 2004, 13 p.), tampouco publicado,
mas que pode ser encontrado no meu site pessoal, no link:
http://www.pralmeida.org/05DocsPRA/1295CartaCompromisso.pdf.
Como no exemplo anterior, minha análise também comporta uma
transcrição do documento original, para fins de controle e
correção das transcrições parciais que efetuei.
-
“Resolução
do
Diretório Nacional do PT” de 16 de março de 2003. Trata-se, não
propriamente de um manifesto de oposição, mas de um documento de
transição, que permite
revelar
o quanto
a conjuntura
política deixava transparecer a persistência de certa “estrutura
mental” no PT, ainda comprometido com algumas de suas teses
oposicionistas e formulações criticas acerca da antiga política
econômica (aliás continuada naquele momento e posteriormente).
Efetuei observações tópicas sobre essa primeira resolução do PT no
poder no próprio dia de sua emissão, enviada
em caráter reservado e seletivo a poucos interlocutores. Essa
análise crítica foi depois reformulada sob o título de
“O ‘novo
Brasil’ em ação: observações sobre a primeira Resolução do PT no
poder” (Washington, 30 abril 2003, 17 p.) e publicada
no boletim eletrônico
Revista
Autor
(Ano III, nº 25, julho de 2003; ISSN: 1677-3500).
-
“Carta ao
Presidente Lula”, de 1º de maio de 2003. Carta-manifesto, de tom
alarmista, assinada por algumas dezenas de “intelectuais” com a
intenção de “alertar” o presidente para os perigos da política
econômica (como a autonomia do Banco Central e a política de juros
altos) e das ameaças externas à soberania nacional (como o projeto
da Alca). Afirmava, entre outras coisas, o seguinte: “Em nosso
entender, tanto a Alca quanto a autonomia do Banco Central são
questões inegociáveis, posto que implicam na intocabilidade da
própria soberania da Nação. Decisão de tamanha magnitude deve ser
tomada pelo detentor dessa soberania: o povo brasileiro. Assim,
cada brasileiro e cada brasileira deveriam ser chamados a se
pronunciar sobre ambas as questões em um plebiscito convocado para
esse expresso fim.” Efetuei comentários a esse manifesto em 3 de
maio e depois novamente em 7 de setembro de 2003, em textos que
permanecem inéditos.
-
“Os caminhos
da transição”, artigo de análise crítica sobre um documento da
Secretaria de Política Econômica do Min. da Fazenda (“Política
econômica e reformas estruturais”, de autoria do Secretário de
Política Econômica Marcos Lisboa), publicado no nº 25 (maio de
2003) do boletim eletrônico Periscópio, da Fundação Perseu
Abramo e da Secretaria Nacional de Formação Política, do PT
(disponível no link:
http://www.fpa.org.br/periscopio/anteriores.htm). Efetuei
comentários a esse artigo, em nota intitulada “Um debate sobre a
política econômica do Governo PT: Ruptura ma non troppo?”
(Washington, 11 maio 2003, 9 p.), que depois foram publicados na
seção
“Cartas e opinião” do boletim Periscópio.
-
“A
Agenda Interditada”, também conhecido como “manifesto dos
economistas”, foi divulgado em 13 de junho de 2003, com a
assinatura de mais de duas centenas de economistas, em sua maior
parte acadêmicos, que tinha apoiado a campanha do PT. Efetuei, no
mesmo dia, uma análise desse documento eminentemente político,
dotado de pouca consistência econômica, em texto intitulado “Um
manifesto econômico de ‘inversão’” (Washington, 13-14 junho 2003,
20 p.), que foi distribuído primeiramente de forma reservada (esse
texto crítico se encontra disponível em meu
website pessoal). Posteriormente ele foi adaptado para
examinar o papel da imprensa na divulgação do manifesto, e
postado, em forma abreviada, sob o título “A imprensa e o
manifesto de uma “interdição” imaginada: Um posicionamento
político dotado de pouca consistência econômica” (Washington, 16
junho 2003, 15 p.), no site do boletim do
Observatório da Imprensa (nº 229, 17.06.03).
-
“Reforma
da Previdência: para que e para quem?”, artigo divulgado em
6 de agosto de 2003 pelo deputado Ivan Valente em seu site e na
revista
Espaço Acadêmico no qual o deputado e sete outros colegas
se insurgem contra a reforma da previdência (eles depois foram
punidos pela Executiva do Diretório Nacional do PT por terem se
abstido nas votações da reforma da previdência nesse mesmo mês).
Efetuei comentários à carta-artigo dos oito parlamentares, em
texto intitulado “Reforma da
Previdência: por que e a favor de quem?: Comentários às posições
dos parlamentares do PT contrários à reforma” (Washington,
1 setembro 2003, 10 p.), que foi enviado tanto ao deputado quanto
aos membros do Conselho Editorial da Espaço Acadêmico. O
texto permaneceu, porém, rigorosamente inédito para o público
externo.
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“O
governo Lula, o FMI e a transição de paradigmas”, artigo
crítico à política econômico publicado no boletim
Periscópio (nº 29, de setembro de 2003, da Fundação Perseu
Abramo). Efetuei comentários breves em texto intitulado “O
governo Lula, o FMI e a transição de paradigmas: comentários”
(Washington, 15 setembro 2003, 4 p.), publicados no boletim; link:
http://www.fpa.org.br/periscopio/cartas/carta02.htm).
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“Consenso de
Buenos Aires”, documento oficial divulgado por ocasião da visita
de Lula a Buenos Aires, para encontro com presidente Nestor
Kirchner, em 16 de outubro de 2003. A despeito de ser uma
declaração presidencial, com pretensões a oferecer uma base
programática contrária ao conhecido “Consenso de Washington”, para
adesão dos demais países da região, esse documento continha, em
suas primeiras formulações, posições nitidamente contrárias às
orientações de política econômica então seguidas pelas autoridades
econômicas brasileiras, ainda que não necessariamente
contraditórias com determinadas orientações do governo Kirchner.
Efetuei comentários preliminares, com base em matérias divulgadas
pela imprensa até a data de 12 de outubro de 2003 (Washington; 3
p.). Procedi ulteriormente a comentários analíticos mais extensos
ao documento efetivamente assinado pelos presidentes da Argentina
e do Brasil, em texto intitulado “‘Una sombra pronto seras…’:
Idealpolitik e o Consenso de Buenos Aires” (Miami, 20 outubro
2003, 7 p.), posteriormente publicados na revista eletrônica
O
Debatedouro (Brasília: ano II, nº 38, 23 novembro 200).
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“Abaixo-assinado”,
manifesto assinado por algumas centenas de “intelectuais”, que
pedia mudanças na política econômica do governo Lula, divulgado no
boletim eletrônico
Jornal da Ciência e-mail
(nº 2416, 27.11.03). Formulei observações críticas a
abaixo-assinado de acadêmicos, publicadas sob o título de “Uma
nova traição dos clérigos?: Comentários a um novo manifesto em
prol de mudanças na política econômica”, no
Jornal da Ciência e-mail (nº 2417, 28.11.03).
Posteriormente, reformulei e ampliei esses comentários no texto “A
neoliberalização e os seus descontentes: os órfãos do old-PT e os
filhos (confusos) do new-PT”. Vários dos textos de polêmica no
âmbito acadêmico encontram-se disponíveis na seção
“Tiroteio na torre de marfim”.
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“O Governo
Lula e as perspectivas para 2004”, Resolução do Diretório Nacional
do PT, adotada em 13 de dezembro de 2003, ao mesmo tempo em que o
partido expulsava três “radicais”, por se oporem às diretrizes de
política econômica e social adotados pelo partido no governo.
Curiosamente, o texto oficial, na parta relativa ao desempenho da
economia, pregava uma “inflexão maior da política econômica” e
postulava que se deveria “avançar na
implantação de um novo modelo de desenvolvimento”; em um
dos seus trechos, a resolução esclarece que “o
governo deve ir além da estabilidade macroeconômica e da
sustentabilidade fiscal; …o PT propõe que o governo faça uma
inflexão maior na política econômica no sentido de priorizar as
tarefas e as medidas voltadas para a retomada do desenvolvimento,
com a geração de emprego e distribuição de renda”. Efetuei,
na ocasião, comentários à expulsão dos “rebeldes” (que depois
fundaram o P-SOL) e às atitudes e tomadas de posição econômica do
PT, em texto que permanece inédito.
-
“Declaração
sobre a Cooperação para o Crescimento Econômico com Equidade”,
nova declaração ministerial bilateral Brasil-Argentina, divulgada
conjuntamente com a “Ata de Copacabana”, por ocasião de mais um
encontro, em 16 de março de 2004, entre os presidentes Lula e
Kirchner. A despeito da orientação liberal em matéria econômica e
o mais estrito respeito pelo Brasil de seus contratos de dívida
externa e do acordo com o FMI, a Argentina buscava então obter o
apoio do Brasil às modalidades heterodoxas de renegociação de suas
dívidas que ela queria fazer aceitar pela comunidade financeira
internacional e pelos seus credores lesados. Foi preciso muita
habilidade da área econômico-financeira do governo Lula para
expurgar esse documento dos aspectos mais delicados, como
mudanças nos parâmetros negociadores da
dívida externa e a idéia (ainda não aceita pelo FMI) de que os
investimentos em infra-estrutura não sejam contabilizados como
gastos e incluídos, portanto, nos cálculos de superávit primário.
Formulei, na ocasião, alguns comentários a essa tendência de se
ter uma ala do governo – dita “desenvolvimentista” – aparentemente
trabalhando contra outra ala – que seria a “ortodoxa” ou
“neoliberal” –, mas esses comentários ainda estão inéditos.
-
“Queremos um Outro Brasil”, documento de posicionamento de vários
petistas de oposição, veiculado por ocasião de seminário em São
Paulo em 21 de março de 2004, criticando os principais pontos da
política econômica do governo. Formulei observações críticas,
preliminares, a essas propostas de membros do PT no documento
“Queremos um Outro Brasil?: nós também, mas sustentável; algumas
considerações sobre propostas econômicas ditas 'alternativas'”
(Brasília, 27 março 2004, 9 p.), publicado na revista
Espaço Acadêmico (nº 35, abril de 2004). Mais adiante,
tendo sido liberado um segundo documento (“Mudanças já”),
elaborado pelo mesmo grupo e deliberadamente apresentado como um
elenco de medidas para “mudar a política econômica”, preparei nova
análise crítica, consubstanciada no texto
“Um
exercício de ficção econômica; Antes
que seja tarde, mudanças já, na economia surrealista”
(Brasília, 11 abril 2004, 9 p.), publicado na
Revista Autor (ano IV, nº 35, maio 2004).
-
“Carta
de Uberlândia”, manifesto da
Sociedade Brasileira de Economia Política, elaborado em seu
encontro de 11.06.04, tecendo uma série de críticas pontuais à
política econômica do governo. Efetuei uma análise desse
manifesto, junto com comentários tópicos à entrevista da
presidente da SEP, contendo igualmente posições contestadoras à
política econômica do governo Lula, no documento “A sociedade de
economia política faz política com a economia” (Brasília, 21 julho
2004, 10 p.), inédito em sua forma original. Juntamente com minhas
análises de documentos anteriores (o manifesto de 13 de junho de
2003, o documento dos dissidentes de 21
de março de 2004 e a própria “Carta Uberlândia”, ademais de uma
introdução sobre os “males da academia”, ou seja, “muita
teoria, pouca empiria”), preparei um
texto de seminário sob o nome
“Seria o governo Lula neoliberal?: as inconsistências das
políticas econômicas ditas ‘alternativas’ numa era de
constrangimentos fiscais”.
Ademais dessas
análises de textos diretamente ligados ao debate público em torno
das posições de política econômica do governo Lula, continuei a
entreter uma interação com diversos colegas acadêmicos e com grupos
de estudiosos que me chamavam a atenção para alguns textos também de
“contestação” ao governo e às suas políticas, publicados geralmente
na imprensa diária ou em sites de grupos de interesse. Os três
exemplos compilados abaixo servem apenas e tão somente como amostras
de minha intervenção em um rico debate que continuou a se
desenvolver em todas as etapas de um governo que vem prometendo
“mudar o Brasil”.
-
“O triunfo
da razão cínica”, artigo de Cesar Benjamin, publicado na revista
Caros Amigos (Ano VII, nº 80, novembro 2003, p. 19),
criticando de forma contundente o governo do PT, o presidente Lula
em particular, e todas as orientações de política econômica e
internacional adotadas pelo governo. Formulei, em 16 de novembro,
comentários críticos a essa matéria, em texto intitulado “Da
dificuldade de ver o mundo como ele é: Crítica a uma razão pouco
crítica”, que circulou de forma restrita por um grupo de
interessados (disponível no meu website, no link:
http://www.pralmeida.org/05DocsPRA/1141MundoComoEleE.pdf).
-
“O social fora de foco”, artigo de Roberto Mangabeira Unger na
Folha de São Paulo (23.12.03), criticando a política social do
governo Lula, sobretudo em termos de “universalização” ou
“focalização” dos gastos públicos. Respondi num texto de
comentários intitulado
“O social fora de foco?: um debate permeado de equívocos”
(Brasília, 28 dezembro 2003, 7 p), demonstrando os equívocos
conceituais e os erros factuais do artigo.
-
“Por que oposição?”, artigo de Roberto Mangabeira Unger na
Folha de São Paulo (27.01.04), consagrando a sua postura de
oposição ao governo Lula. Fiz resposta, circulada de forma
restrita, sob o título de
“A oposição imaginária: Comentários a artigo de Roberto Mangabeira
Unger” (Brasília, 27 janeiro 2004, 5 p.), rebatendo seus
pontos de vista.
Não sei se
este governo conseguirá, de fato, mudar o Brasil, mas também parece
um fato que ele congrega, como poucos, ou talvez nenhum até aqui,
condições de fazê-lo da melhor maneira possível, se sua agenda
reformista for conduzida com certo tato político e muito realismo
econômico. Nessas condições, creio ser meu dever de cidadão buscar
colaborar, na medida de minhas modestas possibilidades – e elas são
unicamente “intelectuais”, ao que parece – com esse esforço
mudancista que teve início há menos de dois anos. Até o final do
presente governo, seja em 2006, seja ainda em 2010, haverá muitos
“oposicionistas”, de direita, de centro e de esquerda, ou
identificados como tal. Minha pluma não estará a serviço de nenhuma
dessas correntes em particular, mas tão somente a serviço da
racionalidade econômica e da honestidade no jogo político.
Dito isto,
tentemos finalizar este trabalho fazendo uma síntese dos argumentos
mais freqüentemente utilizados nesses “manifestos” oposicionistas.
3. Agora,
um resumo dos argumentos oposicionistas
O que dizem e
o que pretendem, finalmente, esses manifestos tão estridentes?
Componho aqui uma lista sumária de suas recomendações, nem todas
estapafúrdias ou desprovidas de algum sentido instrumental:
-
controle do fluxo de capitais externos;
-
câmbio favorável às exportações;
-
ampliação das reservas
internacionais;
-
auditoria e renegociação da
dívida externa;
-
redução do superávit primário;
-
ampliação dos gastos públicos nos três
níveis da administração;
-
renegociação das dívidas de Estados e
Municípios para com o governo federal;
-
redução significativa da taxa básica de
juros;
-
flexibilização das metas de
inflação, introdução das metas de emprego e crescimento;
-
promoção de investimentos públicos e
privados em saneamento e infra-estrutura;
-
ampliação da política de incentivo às
exportações;
-
substituição de importações e ênfase
no mercado interno;
-
política de rendas pactuada para
controle da inflação;
-
controle dos preços administrados (tarifas públicas);
-
políticas sociais universais, em
lugar de focalização; direitos previdenciários amplos;
-
bancos estatais e sistema
financeiro público com crédito mais rápido e barato;
-
reajustes do salário mínimo na
perspectiva de dobrar o seu poder de compra;
-
não concessão de autonomia ao
Banco Central;
-
fim das privatizações, ampliação
do controle público sobre a economia;
-
reforma agrária extensiva, com
promoção da pequena propriedade contra o agronegócio;
-
revisão da Lei de
Responsabilidade Fiscal: exclusão de educação, saúde e assistência
social dos cálculos de limites às despesas públicas;
-
construção de redes nacionais de
bens e serviços públicos;
-
educação e saúde gratuitas e de
qualidade, saneamento, moradia, emprego e salário digno.
Não pretendo
responder ou comentar cada uma dessas proposições, tanto porque já o
fiz de forma relativamente extensa no trabalho elaborado em meados
de 2004, que citei na seção anterior (e a ele remeto os
interessados):
“Seria o governo Lula neoliberal?: as inconsistências das políticas
econômicas ditas ‘alternativas’ numa era de constrangimentos
fiscais”; ainda não publicado, mas disponível no meu site.
O que eu
poderia agregar, agora, seria o fator conjuntural, argumentando que
muitas das objeções levantadas contra as políticas econômicas e
setoriais do governo estavam vinculadas a uma situação de recessão
ou de estagnação econômica, com forte aumento do desemprego e uma
ameaça potencial de desequilíbrios internos e externos, em virtude
da magnitude das dívidas doméstica e externa e de suas obrigações
correspondentes. Uma vez que o crescimento voltou a marcar a
paisagem econômica, que, pela primeira vez em muitas décadas, ele
aparece combinado a uma relativa estabilidade de preços e a um
equilíbrio real nas contas fiscais e no balanço de pagamentos, as
críticas oposicionistas tendem a perder relevância ou em todo caso
atualidade política. É possível que elas voltem, uma vez passadas as
eleições de outubro de 2004 e se não forem confirmadas as virtudes
do atual modelo “palocciano” de crescimento econômico, baseado em
forte dose de responsabilidade fiscal, em “tolerância quase zero”
com a inflação e na continuidade das relações de cooperação com a
comunidade financeira internacional, a começar pelo FMI.
Talvez tenha
ocorrido, igualmente, certa “lassidão” ou simplesmente um “cansaço”
nas fileiras oposicionistas. Os mais vocais dentre os membros
oficiais – isto é, aqueles detendo mandatos ou cargos oficiais –, ou
foram enquadrados disciplinarmente ou foram expulsos do partido,
após um lento e penoso processo de acordos tentativos. Os que menos
tinham compromissos com a organização dela se afastaram, desiludidos
ou ressabiados, o que parece ter sido caso de muitos intelectuais
menos “orgânicos”. Os mais radicais, de todo modo, já tinham visto a
“conversão neoliberal” desde antes das eleições e a ela se opuseram
na medida das suas forças. Estão neste caso economistas como
Reinaldo Gonçalves – um dos signatários do primeiro documento de
conformação de um programa econômico “menos irrealista” do PT, o
artigo coletivo “A Reconstrução da
Nação”, assinado ainda por Guido Mantega, Paul Singer e Jorge
Mattoso e publicado na revista Teoria & Debate (São Paulo;
Fundação Perseu Abramo, ano 13, nº 43, janeiro-março 2000) – que não
tem perdido nenhuma oportunidade para espicaçar a política econômica
do PT de um ponto de vista ultra-esquerdista e ainda “socialista”.
Encontra-se igualmente neste caso um filósofo uspiano como Paulo
Arantes, que em seu último livro, Zero à Esquerda (São
Paulo: Conrad Editora do Brasil, 2004, 306 p.), incluiu um epílogo
datado de abril de 2003, intitulado “Beijando a Cruz”, no qual ele
considera que o partido “já vinha entregando os pontos há um bom
tempo”. Em outros termos, o partido já se encontrava inapelavelmente
“a serviço do Capital” e teria ocorrido (desde a Carta ao Povo
Brasileiro) uma “conversão suicida do Governo Lula à ortodoxia
econômica” (p. 303 e 306).
Em que pese a
continuidade de manifestações desse tipo, creio que não teremos,
daqui para a frente, a proliferação incontrolada de “manifestos
econômicos de oposição”: afinal de contas, quem tinha o que dizer,
de consistente, já o disse, e duvido que surjam argumentos novos, ou
totalmente inéditos, no debate em curso em torno das principais
orientações do governo. Persistirão, obviamente, essas acusações de
“neoliberalismo” contra o governo, mas sou obrigado a observar, aos
que levantam esse tipo de argumento, que a acusação não faz o menor
sentido.
Com efeito, o
que caracterizaria o neoliberalismo? Evidentemente, e antes de mais
nada, a não-intervenção estatal (ou mínima); a desregulação e a
privatização; a liberalização dos movimentos de capitais; a inclusão
social via mercado, não via políticas sociais ativas; a ausência de
políticas setoriais, em especial a industrial e a tecnológica; a
abertura econômica e a liberalização comercial; a integração ao
mundo, em especial com os países mais avançados; o abandono de
tratamento especial para países em desenvolvimento no âmbito de
organismos como a OMC; a adesão a instrumentos típicos da OCDE; o
rigor fiscal; a previdência via capitalização; a flexibilização das
normas laborais (ou trabalhistas); a desoneração radical das
atividades produtivas; a diminuição da carga fiscal; a simplificação
dos tributos; a universidade pública paga; a diminuição do poder
sindical, ou seja o Estado mínimo. Em outros termos, no domínio
ideológico e simbólico, teríamos reaganomics e tatcherismo,
Hayek e Friedman, em lugar de Prebish e Keynes, Felipe Gonzalez e
não Salvador Allende.
Se nos
guiarmos por esses critérios, parece esmagadoramente certo que não
temos um governo neoliberal; ele pode ser confuso, indeciso,
hesitante, guiado por sentimentos contraditórios, mas suas reações
estão mais do lado do intervencionismo e do dirigismo, do que do
lado do laissez-faire clássico. Se ele não é neoliberal, o
que faz, exatamente, o governo? Eu arriscaria dizer que ele pratica
uma simples política de estabilização, mas com uma imensa vontade de
empreender a mais vasta correção das desigualdades sociais e
estruturais de que se tem notícia na história brasileira. Ele é
apenas refreado em seu ímpeto mudancista pelo estado calamitoso das
contas públicas.
De fato, um
governo verdadeiramente neoliberal praticaria inclusão social via
integração ao mercado de trabalho e com base em um sistema
meritocrático, não com apoio em programas de proteção e de
discriminação positiva; um governo neoliberal não seria complacente
com os neobolcheviques do MST, em lugar de sustentá-los
financeiramente; um governo neoliberal daria um choque de
capitalismo nos industriais da burguesia paulista, em lugar de
protegê-los da concorrência externa e dos acordos de comércio, via
restrições políticas aos esquemas de liberalização comercial (Alca e
UE). Enfim, um governo neoliberal faria muito mais coisas, no
sentido do empreendedorismo e da integração às correntes da
globalização do que este está fazendo ou parece disposto a fazer.
De onde
surgem, finalmente, essas acusações de “traição” e de
“neoliberalismo”? Provavelmente dos eternos órfãos do socialismo e
das viúvas da globalização capitalista. Mas esses economistas da
oposição acadêmica não poderiam ter a audiência que estão tendo se
nisso não fossem ajudados pelo próprio partido no poder, que fez, de
fato, sua conversão não assumida mas esqueceu-se de avisar desse
fato os principais interessados: os intelectuais “gramscianos” e os
militantes sinceramente “socialistas”. Agora, ou eles estão confusos
ou pretendem se vingar da “traição” cometida. O crime de
“lesa-ideologia” é realmente muito grave, mormente num partido que
tinha num conjunto de princípios “ideais” um de seus sustentáculos
mais poderosos. O partido está carente de idéias e de definições, em
especial de um processo de revisão das antigas “verdades reveladas”
e sua substituição por “novas”, ou simplesmente pela realidade.
Afinal de contas, os rebeldes expulsos continuarão clamando, com
razão, por sua aderência estrita às resoluções da última conferência
do partido, realizada em Pernambuco em dezembro de 2001. Parece que
está na hora do partido no poder enfrentar o seu congresso de Gotha,
ou a sua conferência de Bad Godesberg. Ele deverá perder algumas
“plumas marxistas” nesse penoso processo de revisão. Mas, será
melhor assim do que continuar praticando o “passado de uma ilusão”. |
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