|
Por ANTONIO OZAÍ DA SILVA
Docente
na Universidade Estadual de Maringá (UEM), membro do Núcleo
de Estudos Sobre Ideologia e Lutas Sociais (NEILS – PUC/SP),
do Conselho Editorial da Revista Margem Esquerda e Doutor
em Educação pela Universidade de São Paulo
|
|
Crescimento
eleitoral e positivismo petista
Os
resultados confirmam o contínuo crescimento eleitoral petista e
indicam que a vitória de Lula em 2002 não foi um acidente de
percurso. Embora a eleição na capital paulistana represente uma nota
dissonante, o fato é que os petistas e seus aliados têm muito a
comemorar. O PT se consolidou enquanto alternativa eleitoral
institucional. Neste aspecto, guardadas as devidas
especificidades, ele confirma a trajetória dos partidos
social-democratas europeus. Como estes, o PT nasceu questionando a
legalidade burguesa, com um pé dentro e outro fora da
institucionalidade vigente. Em suas origens, colocou-se enquanto
expressão política da classe trabalhadora contra a política
tradicional eleitoralista e aliancista dos partidos que
historicamente adotaram a postura de porta-voz ou de representação
dos trabalhadores.
O PT nasceu
enquanto instrumento pedagógico para a conscientização dos
trabalhadores, com uma mensagem programática anticapitalista e
defensor de um tipo de socialismo genérico que rendeu muita
polêmica, interna e externa, mas que sucumbiu à sua evolução
eleitoral. O PT radical, preconceituosamente definido como
xiita, é coisa do passado. Já nos anos 80, assumira o desafio de
conquistar a simpatia da classe média urbana, os pequenos e micros
empresários e parcela da burguesia nacional. Para isto combateu
internamente os seus radicais, enquadrou-os, minimizou-lhes o
espaço interno. Derrotados politicamente, muitos aderiram às teses
moderadas, outros foram expulsos, uma minoria resiste saudosa e
romanticamente. A cada eleição, o PT idealizado nos primeiros anos
desmancha-se na solidez da realidade.
Adam
Przeworski, sociólogo polonês e estudioso dos partidos políticos,
contribui para a compreensão deste processo. Em sua análise:
“Ao estender seu apelo às classes médias, os partidos socialistas
diluem a preeminência ideológica geral da classe operária e,
conseqüentemente, enfraquecem o poder da de classe como uma causa do
comportamento político dos operários. Quando os partidos políticos
não mobilizam os indivíduos como operários, mas como as massas, o
povo, a nação, os pobres ou, simplesmente como cidadãos, as pessoas
que são homens ou mulheres, jovens ou velhos, crentes ou
não-religiosos, habitantes da zona urbana ou da rural, além de serem
operários tornam-se menos inclinadas a perceber a sociedade como
sendo composta por classes, a identificar-se como membros de uma
classe e, por fim, menos propensas a votar como operários.
(PRZEWORSKI, 1989: 128)
O crescimento
eleitoral petista tem um preço: seu discurso e sua prática
precisaram amoldar-se às exigências da classe média e de parcela da
elite nacional. Ele teve que se tornar palatável ao gosto destas
camadas sociais e teve que, continuadamente, exorcizar os fantasmas
do passado. Se por um tempo manteve a fraseologia constestadora,
logo se adaptou ao jogo eleitoral, adotando os mesmos meios que os
demais partidos. E, como afirma Przeworski: “As eleições não
constituem instrumentos para a transformação radical. São
inerentemente conservadoras, precisamente por seu caráter
representativo dos interesses existentes em uma sociedade
heterogênea”. (Id.: 155) Também nisto o PT repete a trajetória da
social democracia européia.
O PT, mesmo em
sua fase radical nunca pretendeu ser um partido
revolucionário ao gosto dos marxistas-leninistas de todas as matizes
ou da direita míope que tentou lhe impingir a pecha de comunista. A
política petista, em curso desde os anos 80, avançou a passos largos
para uma perigosa indiferenciação entre esquerda e direita. Se
admitirmos que, mesmo do ponto de vista social-democrata, o PT
tendia a se constituir enquanto um partido ideológico, verificamos
que o discurso ideológico social-democratizante foi substituído
paulatinamente pelo moralismo, sintetizado pela bandeira da “ética
na política”. Não obstante, o PT, a partir das suas experiências
administrativas, em especial no âmbito federal, mostrou que também
tem “pés de barro”. Com efeito, o discurso pela ética na política
não é patrimônio da esquerda.
Não nos
iludamos quanto às nossas próprias esperanças e os instrumentos que
temos para viabilizá-las. O PT superou o dilema da estrela,
próprio dos partidos surgidos no bojo das lutas operárias. Ele fez
sua opção política: amadureceu e cresceu na direção eleitoral,
ampliando seu discurso e sua influência. O crescimento eleitoral
petista, sem trocadilhos, é positivo – em especial, para os
ocupantes da administração estatal. Contudo, expressa um viés
conservador, na medida em que se adapta ao eleitorado atomizado e
universalizado através de conceitos como “governar para todos”,
“Brasil, um país de todos”, “cidadãos”, etc. Boa parte desta massa
amorfa que o apóia eleitoralmente o faz não porque o petismo
expresse expectativas de mudanças estruturais, mas porque se mostra
uma opção eficiente no sentido gerencial. Pode parecer paradoxal,
mas o PT adaptou-se de tal forma às exigências eleitorais que
termina por se mostrar como uma alternativa segura e estável,
inclusive para o eleitorado de viés conservador. É a face
melhorista e positivista da política petista que se
impõe.
O PT
positivista
O realismo
e pragmatismo petista se ampara num discurso que dilui a realidade
fundada em antagonismos sociais. A mensagem “paz e amor” da última
campanha presidencial foi uma manifestação desta política
positivista.
O positivismo sociológico imagina a sociedade como um organismo que
tende naturalmente à integração, ao consenso e à harmonia. Na
analogia positivista entre o corpo biológico e o corpo
social, o natural é que suas partes constitutivas, ainda
que diferenciadas e responsáveis por funções específicas, se
complementem e cooperem no sentido de manter a saúde do corpo – ou,
como diria Comte, a Ordem e Progresso. Se é natural
que o corpo tenda à normalidade, à saúde, todos os sintomas que
possam comprometê-lo são considerados patologias, anomia. Na
perspectiva positivista, os conflitos sociais, as
contradições inerentes à sociedade moderna são concebidas como
fenômenos marginais e transitórios, exceções e imperfeições cuja
superação transforma-se numa questão moral.
Por dever de
ofício vivencio experiências educativas que instigam a reflexão.
Admira-me, por exemplo, a resistência de jovens acadêmicos
convertidos ao marxismo em aceitar os argumentos da sociologia
positivista quando, de fato, em nosso cotidiano reproduzirmos este
modo de pensar a vida em sociedade. Ou não é verdade que o direito
positivo, a moral, as idéias corporativistas, a justificação
ideológica da ordem e da preservação do status quo são
predominantes em nossa forma de encarar o mundo e nossa inserção
neste?
Temos
dificuldade de aceitar a crítica contundente que nos faça refletir
sobre os fundamentos da desigualdade. Em vez de pensar a sociedade
em termos de classes sociais que defendem interesses econômicos
específicos e particulares, contraditórios e antagônicos, a política
predominante baliza-se pela cooperação e harmonia entre estas. As
desigualdades sociais fundadas em diferenças econômicas, na
apropriação desigual da riqueza socialmente produzida, diluem-se no
moralismo ético.
O modelo de
análise da sociedade formulado por Comte e Durkheim no século XIX é
revigorado no âmbito político-social atual. O discurso positivista é
universalista. Nele, há lugar para todos. Menos para os radicais,
é claro! Estes assustam, passam a idéia de ruptura com a ordem; são
tachados de baderneiros, destruidores. Expressam a consciência
negativa. São patológicos; causam doença social. Afinal são os
eternos críticos, os que não conseguem negociar, dialogar, conviver
com o diferente – palavras chaves no discurso ideológico dos que
criam a ilusão de que a política estaria acima dos interesses
econômicos materiais expressados concretamente em grupos e classes
sociais e suas organizações políticas e econômicas. É a mesmice que
impera! Predomina a cretinice, apoiada no moralismo conservador
recorrente a valores como a sagrada família, a religião etc.
Social-democracia?!
Louve-se o PT!
Os resultados alcançados fazem jus à sua política positivista, cujas
origens remontam ao V Encontro Nacional (1987). Antes
demonizado, agora é ovacionado – nada a ver com a prática de jogar
ovos. O reformismo dos partidos de origens proletárias gerou muita
polêmica. Mas este debate, se considerarmos o petismo, já está
superado. A social-democracia européia precisou manter um discurso
ortodoxo e revolucionário concomitantemente com uma prática
reformista. Este não é foi o caso do PT – temos, ainda, que
considerar os contextos históricos e sociais diferenciados.
A despeito de
tudo, é ou não é verdade que o PT melhorista e positivista
diluiu o conteúdo classista que tentou imprimir à sua política em
suas primeiras participações em eleições? É fato ou não que a
política eleitoral impôs-se como determinante dentro da estratégia
de acúmulo de forças, definida em seu V Encontro
Nacional (1987)?
Em suma, o
partido adotou o discurso da ordem. Apresenta-se como confiável,
como o mais capaz para governar respeitando os interesses comuns do
povo – mas povo é uma generalidade abstrata que encobre a
verdadeira natureza das relações sociais da sociedade fundada nas
diferenças de classes sociais. Pode-se esperar mais do PT?
Talvez aqui
consista o erro de um certo pensamento esquerdista que teima em
pensar o PT nos moldes dos anos 1980. O PT nunca foi revolucionário
– este foi apenas um desejo manifesto dos setores minoritários em
seu interior. Mas o PT também não logrou transformar-se no partido
social-democrata sonhado por muitos – pelo menos se tomarmos com
exemplo a social-democracia clássica. O PT é, simplesmente,
positivista. Ele, como diria Durkheim, cumpre uma função
na sociedade, é fator de manutenção da saúde desta. Neste
sentido, seu crescimento eleitoral é um engodo.
Referências
Bibliográficas:
PRZEWORSKI,
Adam. (1989) Capitalismo e Social-Democracia. São Paulo,
Companhia das Letras. |
|

|