Por ROBINSON DOS SANTOS

Doutorando em Filosofia na Universidade de Kassel – Alemanha. Bolsista do Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico (DAAD)

 

Extremos da educação:

da disciplina do medo ao medo da disciplina

  

A educação, enquanto fenômeno universal, comporta diversas tensões no interior de e entre seus diferentes âmbitos. Quando enfrentadas de modo produtivo, estas tensões podem fornecer valiosos subsídios para a reflexão e análise do fenômeno educativo. Dois âmbitos educativos tensos, tanto no seu interior quanto na sua relação um com o outro, são a família e a escola.

Enquanto instâncias sócio-educativas formais, a família e a escola foram dois dos principais ambientes de formação ao longo da história, mesmo considerando que outras instâncias sócio-educativas também tiveram um papel muito forte como, por exemplo, o Estado e a igreja. Nos tempos atuais, porém, família e escola parecem perder o poder e o espaço que tiveram outrora no sentido da formação do indivíduo. Os “porquês”  e as conseqüências deste fato não cabem nos modestos limites desta reflexão.

Uma das tensões a que nos referimos acima advém do fato de que escola e família, além de terem seus respectivos papéis enfraquecidos, parecem cada vez mais distantes e contrárias no processo educativo das crianças e jovens. Não é difícil constatar no cotidiano esta distância e contrariedade, sobretudo, quando os pais, ao invés de participarem ativamente do processo educativo de seus filhos e apoiarem as diretrizes que são propostas e estabelecidas na escola, fazem claramente o contrário. Do mesmo modo, esta contrariedade aparece quando a prática da escola tem uma tendência mais liberal frente à educação vinda do ambiente familiar. No primeiro caso, os pais desautorizam a educação escolar e, no segundo caso, a escola desautoriza a educação familiar.

Esta discordância é apenas um exemplo dentre outras situações que provocam ocasionais ou duradouros abismos entre família e escola. Por conseguinte, o educando fica confuso em saber qual a referência que deve seguir e é justamente aqui que reside o “perigo”. No meio desta confusão, desta falta de sintonia, quem educa as crianças e jovens? Quem lhes dá, em grande parte, respostas ou, ao menos indicações, referências às suas dúvidas?

Em parte, este afastamento e falta de diálogo deve-se à exigência, cada vez maior, de que pais e mães estejam empregados para dar conta das despesas do lar.  Esta distância abriu espaço para outra forma de educação. Em nossa forma de perceber o problema, a formação parece, cada vez mais, vir da informação. Isto porque os meios de comunicação como a televisão, internet e outras formas sedutoras que, a pretexto de entreter, informam e formam a opinião pública, ganham cada vez mais espaço e importância na vida das pessoas. Eles acabam funcionando, em muitos casos, como um pretenso substituto da formação vinda da educação familiar e escolar. Em diversos ambientes familiares, por exemplo, a televisão funcionou (e às vezes ainda funciona) como a “babá” das crianças ou como seu passatempo. Com isso, temos a todo momento a veiculação, ora mais ora menos explícita, de orientações, valores, idéias, práticas e posturas que pouco contribuem para o desenvolvimento saudável e integral da personalidade de nossas crianças e jovens. Além disso, tais meios proporcionam cada vez mais o individualismo e o não-enfrentamento entre as pessoas (tanto entre si e quanto em relação aos seus problemas)  no ambiente familiar.

É justamente aqui que entra em cena uma das questões mais controversas no âmbito da educação familiar e escolar: a questão dos limites. Dada a ausência da família e as limitações da escola, quem dá a medida para a ação à criança e ao jovem? Como a família e a escola podem re-estabelecer a disciplina como algo fundamental na formação de nossas crianças e jovens? Numa sociedade que se pauta pelo consumismo desenfreado, na qual a regra é “compro, logo existo”, que mostra a todo momento que a verdade é o que a televisão e a moda dizem, em que as instituições políticas perdem credibilidade, e a única regra é que “não há regras”, que sentido faz falar em disciplina?

Esta temática sempre provocou e continua provocando debates, assim como  é, constantemente, objeto de pesquisas, dissertações, teses e livros, em diversas áreas das ciências humanas. Quando pronunciado, o termo disciplina parece, por si só, causar um ar de gravidade na conversa entre as pessoas. Facilmente as pessoas sabem dizer se são a favor ou contra a disciplina, mas se perguntarmos por uma definição possivelmente poucos saberão dizer o que é ou, até mesmo, como a entendem.

O fato é que, em função desta indefinição ou relatividade do termo, temos na prática os dois extremos: da licenciosidade ou permissividade até o excesso na imposição de limites para a ação do educando (em alguns casos, desembocando na violência). Na primeira situação temos normalmente ou pais  que deixam para a escola resolver esta questão ou, então, aqueles que se preocupam demasiadamente em não melindrar ou traumatizar o(a) filho(a). Tanto os pais que transferem unicamente para escola a tarefa de disciplinar e civilizar seu rebento, quanto aqueles que não querem “traumatizá-lo” não fazem idéia do mal que estão fazendo ao mesmo, pois ele se verá mais tarde numa grande confusão: não saberá mais a fronteira entre o público e privado. Ou seja: criada sem regras e limites para sua ação no seu ambiente privado, a criança crescerá sem saber se existe um espaço que não seja dela ou no qual ela não possa agir como age no seu ambiente privado. Todo ambiente será, pois, como o ambiente de casa, em que tudo é permitido e ninguém o repreenderá por nada que fizer, já que não há certo nem errado. A propósito, estas duas noções (certo e errado) também estão cada vez mais misturadas e rarefeitas. Neste sentido, os pais jamais devem ausentar-se de sua responsabilidade e, tampouco, transferí-la para a escola. Por mais que se esforcem, os professores jamais conseguirão suprir a ausência da educação familiar. Além disso, é conveniente que não o tentem fazer. Por isso, é assaz importante o diálogo próximo entre pais e professores, no intuito de acompanharem de perto a formação do jovem e atuarem visando o mesmo objetivo.

No outro extremo desta situação, estão aqueles pais e professores que cometem excessos em nome dos limites e da disciplina. Tais pais crêem que com violência, agressão e maus tratos estão educando e formando alguém para a vida em sociedade. Tais professores, na inglória tentativa de “compensar”, com o excesso de disciplina na escola, a “falta” da mesma vinda de casa, infelizmente ainda existem, apesar de serem cada vez mais raros em função da vigilância e das leis que garantem aos menores e adolescentes direitos contra o abuso e a violência. Estes, assim como os primeiros, também estão colaborando para a ruína da vida psicossocial do indivíduo.

Em ambas situações, facilmente, teremos pessoas incapazes de se adaptar socialmente e de viver em comunidade. Talvez o desafio com que se deparam pais e professores, em nosso modo de olhar para o problema, não seja somente o estabelecimento da disciplina ou dos limites. Se houver um projeto mínimo de educação tanto na escola quanto na família, não será difícil  compatibilizar tais propostas e fazer com que o(a) educando(a) perceba que não é possível viver, nem na família e nem na sociedade, sem um mínimo de regras comuns.

Diante de uma sociedade em que os apelos midiáticos e os modismos funcionam cada vez mais como diretrizes para a ação e para o comportamento das crianças, jovens e adultos, de modo geral, a grande questão,  que se coloca para pais e professores, é como fazer com que o(a) educando(a) perceba que a disciplina ou os limites são, justamente, a medida para a construção de sua liberdade e autonomia dentro da sociedade. E esta passagem da heteronomia para a autonomia é o ponto crucial da formação do indivíduo. Em nossa interpretação, certamente, aqui reside uma das principais interrogações da educação na atualidade.

 

 
 

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