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Por JOSÉ APÓSTOLO NETTO
Historiador
e doutorando em História (UNESP - Campus de Assis, SP)
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A figura do bom ladrão na Arte Marginal das
periferias do Brasil
É moeda corrente entre os defensores institucionais e midiáticos da
onipresença policial na sociedade brasileira o grotesco ditado de
que ladrão bom é ladrão morto. Adaptação tupiniquim da também
grotesca frase ianque “índio bom é índio morto”, vale lembrar que
ela não encontra total acolhida entre a população periférica dos
grandes centros urbanos. Enlaçado nos braços afáveis do imaginário
popular, esse personagem controverso manda dizer que passa bem,
obrigado!
A figura do bom ladrão está presente no imaginário ocidental desde a
Antigüidade; porém, coube ao medieval Robin Hood o papel de tipo
mais acabado de malfeitor humanista. Espécie de herói dúbio - que
faz o mal para promover o bem - a sua imagem, não apenas se tornou
popular mundialmente, como tem sobrevivido ao tempo. Entre nós,
sobretudo nos setores populares, tem sido revivido e reinventado na
figura, nas obras e nos feitos de criminosos mais variados.
No México, por exemplo, desfruta dessa condição Jesus Malverde, que
fora, no primeiro quartel do séc. XX, o bandido mais temido nas
redondezas da Cidade do México. Hoje, considerado o santo laico mais
popular do país, é conhecido também como o padroeiro dos
narcotraficantes. Segundo os relatos orais – (não existem registros
escritos da vida do ladrão) - Malverde, embora capaz dos crimes mais
cruéis, tinha inclinação aos gestos mais nobres e cristãos.
Afora o fato de roubar, assaltar e até matar apenas pessoas da elite
e do governo, doando parte dos despojos aos necessitados,
submeteu-se ainda – à semelhança de Cristo – ao martírio, apenas
para provar sua fidelidade ao povo humilde e trabalhador. Quando foi
letalmente ferido a bala, pediu dois favores para um dos seus
homens: primeiro, que o entregasse à polícia somente quando a
recompensa pela sua cabeça tivesse triplicado; segundo, que o prêmio
fosse dividido entre os pobres. O seu martírio durou meses até que
fosse finalmente preso.
Hoje milhares de devotos visitam o túmulo onde supostamente foi
sepultado. Eles vêm de muitos lugares do México, mas também de fora,
como, por exemplo, Colômbia (Medelin, Cali, principalmente) e Los
Angeles, USA. Entre os peregrinos estão os chefões do narcotráfico.
Pelo menos é o que indicam as generosas ofertas em dinheiro e o
perfil dos devotos.
Os nossos ladrões e bandidos
O Brasil também tem a sua galeria de bandidos às avessas. É uma
galeria original e matizada. O acervo conta com figuras reais e
fictícias. Alguns são nacionalmente conhecidos devido à repercussão
das suas proezas, mas também aos exageros dos inimigos.
Encabeçam essa lista Virgulino Lampião, Antonio Conselheiro, Antônio
Silvino, Corisco, Dadá e demais cangaceiros e líderes religiosos,
cujas trajetórias estão umbilicalmente ligadas com a história do
sertão nordestino, principalmente no que diz respeito às suas
contradições mais profundas.
Aparecem ainda nomes como Madame Satã, Dente de Prata, Gato Preto,
Lúcio Flávio, Charles Anjo 45 e, mais recentemente, alguns
traficantes dos morros cariocas e favelas paulistas.
Nesse último caso, vale lembrar José Carlos dos Reis Encina,
nacionalmente conhecido como Escadinha, morto em setembro, no Rio,
quando voltava do presídio, no qual cumpria pena no semi-aberto. Era
tido pela comunidade como generoso; mas como perigoso pela sociedade
em geral, principalmente pela polícia.
Devido às suas peripécias, mereceu homenagem nos sambas de Bezerra
da Silva e nas letras de vários rappers. São músicas que falam tanto
das virtudes de Escadinha - alimentar crianças pobres do Morro do
Livramento e punir quem roubava os trabalhadores, por exemplo - como
da ousadia do bandido, evidenciada na sua tentativa de fuga de
helicóptero do presídio de Ilha Grande, Rio, em 1985.
Todavia, há um grupo desses malfeitores que, embora pouco
conhecidos, possuem uma estória rica e poética. É o caso, por
exemplo, de Pé de Veludo, bandido – hoje santo – da região de
Marília, que roubava mansões e revertia o roubo em benfeitorias para
a comunidade. Seu apelido tem origem na habilidade de entrar e sair
das casas sem deixar pistas ou ser notado pelos donos, que muitas
vezes dormiam enquanto ele agia.
Zé Bonito e Jocenir
Na literatura e na música marginais, convém dizer, os bons ladrões,
tiradas as diferenças de superfície, possuem muitos pontos em comum.
Em geral, são de origem humilde ou estão em ascensão social; o seu
único contato com o mundo do crime se dá através dos vizinhos ou
algum parente envolvido com a criminalidade.
Zé Bonito, “Cidade de Deus”, por exemplo, era, antes de virar
bandido, um sujeito íntegro e reto, a despeito de viver num ambiente
dominado por traficantes e assaltantes de vários naipes. A sua vida
de cidadão comum é assim narrada:
“José trabalhava de trocador de ônibus, dava aulas de Karatê no
Décimo Oitavo Batalhão da Polícia Militar, terminava o segundo grau
à noite num colégio estadual da praça Seca, jogava bola todo sábado
à tarde, único momento em que ficava junto às pessoas de sua idade,
porque não era de muito coleguismo. Gostava mesmo era de andar
sozinho para evitar encrencas. Por ser considerado um rapaz muito
bonito na favela, vivia cercado de garotas, até ganhara o apelido de
Zé Bonito.” (Lins, 2002:308-9)
Aliás, a beleza e a inteligência funcionam como trunfos do bom
ladrão Jocenir, “Diário de um Detento”, que, antes de ser preso,
exerceu o cargo de executivo em várias multinacionais. Essas
competências não apenas vão facilitar a vida dele dentro da cadeia
como torná-lo uma pessoa especial para a população carcerária.
Jocenir caiu no mundo do crime, vivenciando o seu lado mais desumano
- a prisão -, por conta de uma armação da polícia com o irmão dele.
Levado à delegacia, após ser flagrado pela polícia num depósito de
cargas roubadas, é pressionado a assinar a culpa por receptação:
“Perplexidade. Eu disse não estar entendendo nada do que estava
acontecendo, pois todos sabiam que eu nada tinha a ver com as cargas
daquele depósito. Disse que o responsável pelo depósito era o meu
irmão, e que este comparecera com o advogado horas antes, trocou
gentilezas, tomou cafezinhos e foi embora. O delegado frio e cínico
afirmou que ou eu pagaria a conta, ou então toda a delegacia...” (Jocenir,
2001:34).
A entrada de Zé Bonito na bandidagem também se dá por um quase
fatalismo. Não é em razão da sua condição social ou de um ato
deliberado, mas devido a uma incoercível sede de vingança do estupro
da sua noiva pelo traficante Zé Miúdo. A queda ocorre gradativamente
e é narrada do ponto de vista da subjetividade transtornada e
transformada da personagem. Primeiro, é narrada a transformação da
dor e do sofrimento em ódio incontrolável:
“Não conseguiu se deitar de barriga para cima, como era seu costume,
e ficar olhando o teto, tamanha era a dor que sentia na nuca. Quase
não piscava o olho. Enquanto perambulou na rua, sentiu ódio e
vergonha. Ali na cama, esses dois sentimentos tomavam novo impulso.
O pênis de Miúdo indo e vindo exatamente na vagina de sua amada, a
mulher escolhida para ser sua esposa; com quem desejava imensamente
fazer sexo, mas que esperava o casamento para que isso acontecesse.
Aquele desgraçado deflorara a sua bela feito retroescavadeira.
Lembrou de sua namorada se debatendo para se livrar do estuprador,
dos tapas dados no rosto, dos socos em suas costas para fazê-la
calar-se, do filete de sangue saindo da vagina.” (Lins, 2002:309)
Em seguida, é narrado movimento da consubstanciação do ódio e da
sede de vingança:
“Mudou de lado, o corpo tremia. Como é que um homem pode fazer um
ato desse? E logo com ele, que era incapaz da mínima crueldade, que
nunca fora de briga e nunca fizera mal a ninguém? A cabeça doía de
acordo com a pulsação. Esperava que o conhecido não relatasse o
episódio a ninguém, arrependeu-se de ter-lhe contado o estupro.
Manteria o segredo até meter a porrada naquele verme. Se tivesse
dinheiro mudaria dali no dia seguinte. A cada vez que a cena voltava
a sua mente, à vontade de chorar era pertinente. Mas não chorava,
apenas contraía os músculos. O rosto formigava. Um gosto de sangue
na boca. Necessidade de levantar-se, arrumar uma pistola e
ensangüentar Zé miúdo.” (Lins, 2002:309)
Assim foi que Zé bonito, o belo negro de olhos azuis, se transformou
em bandido. Mas bandido humano, generoso e comiserado. Mesmo fazendo
parte do bando do traficante Cenoura, com quem se aliou para
derrubar Zé Miúdo, era contra o tráfico de drogas, assaltos,
recrutamento de crianças na guerra da bandidagem; protegia os
moradores do “pedaço” da violência de outros bandidos, aconselhava
os pais sobre a educação dos filhos, e velava os corpos dos amigos
mortos nos conflitos das quadrilhas.
Dimas: o primeiro vida louca da história[1]
Na música popular negra brasileira, várias canções tratam da questão
do bom ladrão. Mas, por razões metodológicas, como, por exemplo,
abrangência e representatividade, nos limitaremos a falar música
“Vida Loka”, do grupo de rap paulista Racionais MC´s.
Convém iniciar dizendo que “Vida Loka” está inserida no contexto de
um álbum duplo cujas músicas, temática e estruturalmente, remetem a
um jogo de metáforas que combinam cenas bíblicas e experiências
cotidianas, de modo a formar um conjunto de analogias e paralelos
entre o povo favelado e o povo perseguido de Israel e/ou o negro
escravo; entre o homem periférico e Dimas, o bandido arrependido e
perdoado por Cristo na cruz.[2]
Desse modo, o rico egoísta e racista será visto, assim como o faraó
e o senhor de engenho, como o perseguidor e opressor do povo pobre e
humilde, que tem Deus como protetor e o rap como arma:
“Hey, Senhor de engenho/Eu sei/Bem quem é você/Sozinho/Cê num guenta/Sozinho/Cê
num guenta a pé/Você disse que era bom/E a favela ouviu/Whiski e Red
Bull/Tênis Nike/Fuzil/Admito/Seus carro é bonito, Hé/E eu não sei
fazer/Internet, Video-cassete/Os carro loko/Atrasado Eu tô um pouco
sim/Tô/Eu acho sim/Só que tem que/Seu jogo é sujo/E eu não me
encacho/Eu so problema de montão/De carnaval a carnaval/Eu vim da
selva/So leão/Sou demais pro seu quintal.Hey bacana/Quem te fez tão
bom assim/O que você deu/O que cê faz/O que cê fez por mim/Eu recebi
seu Tic/Quer dizer Kit/De esgoto a céu aberto/E parede maderite/De
vergonha eu não morri/Tô firmão/Eis me aqui/Você não/Cê não
passa/Quando o Mar Vermelho abrir.” (Negro Drama, 2002)
Mas a relação entre o opressor e o oprimido é descrita na forma de
ironia, em que virada do jogo é inevitável:
“Problema com escola/Eu tenho mil/Mil fita/Inacreditavel, mas seu
filho me imita/No meio de vocês/Ele é o mais esperto/ Ginga, fala
giria/Giria não dialeto/Esse não é mais seu/Hó/Subiu/Entrei pelo seu
rádio/Tomei, você nem viu/Nóis é isso, aquilo/Que/Você não dizia/Seu
filho quer ser Preto/Há/Que irônia/Cola o pôster do Tupac/Aê/Que
tal/Que cê diz/Sente o NEGRO DRAMA/Vai/Tenta ser feliz.” (Negro
Drama, 2002)
No fundo, Dimas, no conjunto da obra, funciona como alegoria
redentora de todos os erros e falhas do homem favelado e periférico
que anda na vida do crime, mas sabe também do peso e do fardo que
carrega por estar nessa condição; condição esta que precisa ser
expiada para que o conflito entre ele e a lei, a sua consciência e
os seus atos, o seu espírito e a sua carne, seja superado.
E a superação só ocorre naquele instante em que o
homem/favelado/pecador, no contexto de uma vida louca e absurda,
reconhece-se enquanto guerreiro cujos atos e obras estão (auto)
justificados nas batalhas diárias contra o poder que oprime os que
vêm do gueto:
“Quente é Mil Grau/O que o guerreiro diz/O promotor é só um
homem/Deus é o juiz/Enquanto Zé Povinho apedrejava a Cruz/Um canalha
fardado/Guspia em Jesus/Hó.../Aos 45 do segundo arrependido/Salvo e
perdoado/É DIMAS, o bandido.” (V.L, 2002)
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