|
Leia o texto dos companheiros e companheiras
da Consulta Popular |
|
Uma proposta de diálogo com os companheiros e
companheiras da Consulta Popular
O movimento
Consulta Popular divulgou recentemente um documento preparatório
para seus debates, intitulado “Refundar a Esquerda para Refundar o
Brasil”. Trata-se de um documento ambicioso, que propõe tanto um
balanço de todo um período da história da esquerda brasileira (e do
país) quanto uma agenda de discussões e de atividades, com nada
menos do que o objetivo expresso no seu título. Além disso, a
Consulta Popular é um dos movimentos que mais merecem o respeito
dos militantes socialistas brasileiros, pelo seu compromisso com as
lutas sociais e pelo seu esforço de reflexão política.
Estas já
seriam razões mais do que suficientes para buscarmos debater este
documento. Há, no entanto, uma razão adicional: ele faz uma crítica
destemperada ao P-SOL, com a qual não podemos estar de acordo.
Assim, comentamos aqui o documento citado, buscando estabelecer um
diálogo com seus autores.
1) Em primeiro
lugar, devemos registrar que temos pontos de acordo muito
importantes com o documento. Julgamos correta, por exemplo, a
seguinte caracterização do PT após a chegada de Lula à presidência
da República:
(…)
inclinações que estavam presentes há vários anos e que, para muitos,
já eram determinantes na trajetória do PT – inclinações ao
oportunismo, à burocratização, ao pragmatismo, à corrupção –
tornaram-se irreversíveis. A elas, soma-se a adesão doutrinária a um
neoliberalismo radical. Pela palavra de suas principais lideranças e
pela sua prática, o PT já não esconde sua condição de partido
tradicional, integrado política e moralmente à ordem em vigor.
A ela
acrescentaríamos apenas uma ênfase maior nos interesses de classe
(dominante) representados pelo governo liderado pelo PT, indo além
da correta crítica moral e ideológica ao partido. Do mesmo modo, sem
estarmos obrigatoriamente de acordo com toda a periodização proposta
para a história da esquerda brasileira, julgamos ser correto dizer
que “o ciclo PT acabou”. E estamos também de acordo com a avaliação
da situação atual da esquerda do PT:
A chamada
esquerda do PT, que abriga valorosos companheiros, continua a
exercer sua crítica aos rumos que o partido tomou. Fica cada vez
mais claro, no entanto, que essa esquerda não será capaz de produzir
uma nova qualidade no PT, e em algum momento, se permanecer fiel aos
seus ideais, terá de abandoná-lo.
Finalmente,
estamos de acordo com a necessidade apontada pelo documento de
refundar (ou reconstruir) a esquerda brasileira. Na
verdade, já começamos a dar nossa contribuição para esta tarefa, uma
vez que, após a expulsão do PT de quatro parlamentares que se
rebelaram contra sua transformação em partido da ordem, iniciamos o
processo de construção de um novo partido socialista.
No entanto,
como já dissemos, não podemos estar de acordo com as críticas feitas
ao P-SOL. Estas críticas se explicam, na nossa opinião, por
mal-entendidos e por algumas divergências importantes.
O documento da
Consulta diz o seguinte:
o programa que
o novo partido apresentou [é muito frustrante]. Não se percebe nele
nenhum esforço sério voltado para conhecer a história e a realidade
do Brasil. Nenhum fundamento programático novo. Nenhuma tentativa de
ouvir e compreender o povo brasileiro, para dialogar com ele.
Nenhuma proposta de nova prática. Nenhuma reflexão sobre as causas
do esgotamento do PT. Nenhuma preocupação em enfrentar os dilemas
estruturais da esquerda brasileira. Nenhuma idéia de superação. Ao
contrário: constituindo-se desde o início como uma legenda destinada
a dar suporte a candidaturas, o P-SOL representa um passo atrás em
relação às formulações originais do PT.
Ora, estas
frases implicam um primeiro mal-entendido: a suposição de que já
temos um programa definitivo, de que já nos damos por satisfeitos
com a formulação programática que aprovamos no Encontro de junho
passado.
Esta suposição
é incorreta. O programa que aprovamos é, conforme esclarece seu
primeiro parágrafo, um programa provisório. Seu objetivo foi,
em primeiro lugar, estabelecer algumas referências iniciais
e estratégicas para os militantes do partido e, em segundo
lugar, definir um texto para atender às exigências legais
existentes.
Nossa visão
estratégica é que o Brasil precisa de uma ruptura com a ordem
capitalista estabelecida. Os parâmetros fundamentais que norteiam
esta compreensão estão localizados no programa provisório.
Acreditamos que a partir daí temos uma base inicial para aprofundar
o debate da construção de um programa que analise de forma mais
aprofundada a estrutura de classes do Brasil e suas contradições, a
relação desta estrutura com o capital internacional e, dessa forma,
avance numa compreensão superior das tarefas colocadas para os
trabalhadores e todos os oprimidos do nosso país. Para nós, essa
empreitada não se faz com fórmulas herméticas e nem se limitará ao
debate nas fronteiras do partido, que seguiremos fazendo.
Acreditamos que o programa de uma ruptura socialista e popular será
construído em interação com os movimento sociais dos explorados, com
suas reflexões e suas lutas concretas.
Por isso,
concordamos com a necessidade de uma reflexão aprofundada sobre as
causas do esgotamento do PT e, mais do que isso, sobre o significado
de toda a trajetória desse partido. Ainda mais necessário, é claro,
é ouvir e compreender o povo brasileiro, dialogar com ele, etc., e
neste processo aprofundar nosso conhecimento da história do Brasil e
da nossa realidade atual. Tudo isso tem de ser feito para chegarmos
a um programa que atenda às necessidades da revolução brasileira.
Naturalmente,
esta é uma tarefa que exige vários anos de trabalho. Acreditamos já
termos começado a realizá-la, mas não poderíamos completá-la nos
poucos meses que tivemos desde o início do movimento para construir
um novo partido.
Além disso,
esta tarefa não cabe apenas a nós. Temos certeza de que muitos
militantes mais, além dos que já estamos engajados neste processo,
participarão do esforço de reconstrução da esquerda brasileira.
Contamos, naturalmente, com os companheiros e companheiras da
Consulta, a cuja reflexão atribuímos grande importância.
Esperamos a contribuição da parcela de companheiros da esquerda do
PT que não renunciarão à luta efetiva pelas transformações
socialistas e que, portanto, logo concluirão que já não há lugar
para eles neste partido, bem como da esquerda do PC do B, e de
outros partidos. Também poderemos contar, estamos seguros, com a
contribuição de companheiros da esquerda cristã e de lutadores dos
movimentos sociais que hoje não integram nenhum partido. Ou seja:
não teria sentido procurarmos avançar mais na elaboração
programática necessária apenas a partir dos primeiros militantes do
nosso partido.
Portanto — e
aqui registramos uma primeira divergência — não estamos de acordo
com as considerações negativas feitas no documento “Refundar a
Esquerda...” a respeito do nosso programa provisório.
É certo que há
temas que foram apenas mencionados ali — como a questão nacional, à
qual os companheiros da Consulta dão, com razão, grande
importância. Mas, apesar de todas as suas lacunas, achamos que o
texto que aprovamos condensa alguns elementos importantes, que
constituem um bom ponto de partida para a reflexão posterior.
Entre outros,
indo além da já mencionada necessidade de ruptura com a ordem
capitalista, os seguintes pontos são abordados no nosso programa
provisório: a avaliação da crise da esquerda brasileira diante do
governo Lula, a necessidade da luta antiimperialista e da revolução
socialista para que a emancipação do nosso povo possa se realizar, a
concepção de um socialismo que desenvolva a democracia e dê máxima
expansão à liberdade, o desafio de refundar a idéia e a estratégia
do socialismo no imaginário de milhões de homens e mulheres, a
defesa da independência política dos trabalhadores e a recusa à
conciliação de classes. Certamente não se trata de um “fundamento
programático novo”, mas são elementos muito úteis como ponto de
partida para uma reflexão sobre nossos desafios, e para marcar
diferenças importantes com aquilo que o PT se tornou.
Além disso, o
programa procura situar o Brasil no contexto internacional atual, e
vincular a reconstrução da esquerda brasileira às lutas que os
militantes populares estão desenvolvendo em todo o mundo. Avaliamos
que isto tem uma importância estratégica. Se é certo que devemos
abrir um novo ciclo na esquerda brasileira, como os companheiros da
Consulta ressaltam, não é menos verdade que este ciclo estará
inserido em um novo período da esquerda mundial. Acreditamos que
esta perspectiva internacionalista não tem sido suficientemente
destacada pela Consulta.
Recusamos,
portanto, a visão depreciativa que o documento “Refundar a
Esquerda...” tem do nosso programa provisório, ao mesmo tempo em que
salientamos o seu caráter de incompletude, de texto aberto a muitas
modificações e que carece de muito enriquecimento.
Além disso, a
crítica feita ao nosso programa revela implicitamente a idéia de que
a formulação de um novo programa deve preceder a construção de um
novo partido. Rejeitamos esta concepção. É fato que, desde o começo,
um partido deve se apoiar em alguma base programática — o que
certamente fazemos. Não é correto, porém, deduzir daí que ele tenha
de partir de um programa já plenamente elaborado. O próprio processo
de ouvir e de dialogar com o povo brasileiro, corretamente defendido
pela Consulta, poderá ser realizado em melhores condições a
partir de um avanço na organização partidária.
No entanto, a
divergência fundamental que temos com o documento da Consulta
está em que julgamos que o processo de reconstrução da esquerda
brasileira não pode ser feito deixando de lado o enfrentamento
com o PT e com o governo Lula em todos os terrenos — inclusive no
terreno eleitoral.
É certo que
não estamos construindo um novo partido para manter a velha
estratégia eleitoralista e institucional, estratégia que levou à
degeneração do PT e ao esgotamento do seu ciclo. Nossa opção por uma
nova ferramenta partidária é para, a partir do impulso às
mobilizações e ações populares, desenvolver uma estratégia centrada
na acumulação de condições para uma disputa de hegemonia, da
consciência da necessidade de um projeto coletivo de ruptura.
Nosso eixo
estratégico é, portanto, o apoio e o estímulo à mobilização direta,
condição primordial para que milhões tenham a consciência de que são
as suas forças e a sua auto-organização que podem efetivamente mudar
os destinos do país. Por isso temos muito respeito pelos
companheiros da Consulta Popular, que centram sua ação
política na ação direta dos movimentos sociais. Avaliamos mesmo que
esta metodologia da Consulta foi um importante alerta à
esquerda brasileira em relação ao perigo de uma adaptação completa
ao caminho da institucionalidade, com o abandono paulatino da
organização dos movimentos sociais dos mais diversos setores da
classe trabalhadora.
Mas também
acreditamos que a esquerda brasileira deve evitar a armadilha de ser
obrigada a optar entre dar algum apoio ao PT e ao governo Lula ou
marginalizar-se de um espaço que representa uma referência política
importante, isto é, o espaço institucional e eleitoral. Eleições,
sobretudo as presidenciais, mobilizam esperanças. Fazem parte do
processo de formação da consciência popular. Deixar a população
brasileira sem alternativa de disputa pela esquerda com o governo
Lula em 2006 implicaria um grande atraso para a formação de uma
consciência socialista ampla no nosso povo.
A importância
da participação eleitoral e institucional, no entanto, não se
restringe à disputa da consciência popular. Desde o início do
governo Lula, por exemplo, tem estado muito clara a importância da
participação de parlamentares na resistência às reformas neoliberais
que começaram a ser implementadas. O próprio fato de o PT, quando na
oposição, ter dado uma contribuição decisiva, através da luta
parlamentar, para barrar até 2002 certos aspectos da reforma da
Previdência, confirma a importância desta luta. É por esta razão que
muitos setores do movimento social, inclusive os vinculados à
Consulta, sempre tiveram a justa preocupação de lançar
candidaturas parlamentares (em geral pelo PT) e, além disso, sempre
se valeram do apoio de parlamentares para suas atividades.
O fato de
procurarmos cumprir as exigências da legislação para obtermos o
registro definitivo de nosso partido a tempo de podermos apresentar
candidaturas em 2006 não significa definir uma prioridade, nem
definir a luta institucional como eixo estratégico da nossa
atividade. Significa apenas não abandonar este terreno para o PT e
os partidos da chamada “base aliada”. Não nos subordinamos ao
calendário eleitoral, mas não podemos ignorá-lo.
Uma posição
como a do documento da Consulta, que aparentemente faz uma
crítica “pela esquerda” ao P-SOL, teria na verdade, se adotada, uma
conseqüência oposta, isto é, “de direita”: ela deixaria o domínio do
PT lulista prosseguir. Levaria a uma espécie de divisão de tarefas
muito danosa: a esquerda socialista se ocuparia dos movimentos
sociais, e seria obrigada a apoiar-se no PT (ou em outros partidos)
para a atividade parlamentar (com as restrições que a disciplina dos
partidos governistas demonstrou amplamente desde o início de 2003)
e, pior ainda, seria obrigada a apoiar a candidatura Lula em 2006,
ou a ficar marginalizada da disputa eleitoral.
Será que os
companheiros e companheiros da Consulta aceitariam dar seu
apoio à candidatura Lula em 2006? Ou trabalharão para construir uma
alternativa? Pois uma alternativa pode e deve ser construída. Esta
questão, aliás, não tem escapado a muitos lutadores sociais
brasileiros, dentro e fora do nosso partido, que têm proposto a
candidatura da nossa companheira Heloísa Helena à presidência em
2006, como uma das alternativas possíveis.
No entanto,
mais importantes do que nossas divergências são os acordos que temos
e que podemos aprofundar na luta concreta. A necessidade deste e de
outros debates não pode se constituir em obstáculo para nossa
unidade na realização das lutas necessárias, para o enfrentamento da
política antipopular do governo Lula, para a defesa da soberania do
nosso país frente às imposições do capital financeiro e das
multinacionais.
Na pauta do
governo estão a (contra) reforma sindical, a (contra) reforma
trabalhista, a (contra) reforma universitária. Todas têm um viés
claramente neoliberal. Representariam um retrocesso na organização
sindical brasileira e a perda de direitos sociais; contribuiriam
para a privatização e para o enfraquecimento do que resta das
universidades públicas. O governo continua priorizando o pagamento
da dívida externa e aplicando os ajustes do FMI — em especial,
gerando o “superávit fiscal primário” de 4,25% do PIB, que significa
uma transferência escandalosa de riqueza para os detentores de
riqueza financeira. Recusa (ou melhor, ignora) a reivindicação
democrática de que seja feito um plebiscito onde o povo possa
decidir sobre a ALCA. A precariedade da reforma agrária posta em
prática continua obrigando à mobilização de milhares de famílias de
trabalhadores sem-terra, tal como ocorria sob o governo FHC.
Todos estes
temas estão na pauta. Acreditamos que campanhas unitárias em torno
deles são absolutamente necessárias. Algumas (como a campanha contra
a ALCA, ou a campanha contra o pagamento da dívida externa) já estão
em andamento (mas podem ser reforçadas); outras estão no seu início
(como a campanha para barrar as contra-reformas sindical,
trabalhista e universitária, ou a campanha pelo controle dos
movimentos de capitais); outras ainda precisam começar a se
estruturar. Acreditamos que devemos dar passos de forma conjunta e
unitária em torno destas questões, nas quais temos amplo acordo. E,
simultaneamente, podemos continuar a debater as alternativas
políticas estratégicas, buscando os pontos que nos unificam e
discutindo, de forma franca, mas sem intolerância, nossas
diferenças.
Com a
tolerância de que precisamos e confiando na capacidade de diálogo
democrático dos socialistas, esperamos continuar avançando na
reconstrução de uma verdadeira esquerda socialista em nosso país.
Saudações
fraternas,
Fernando Silva
(Tostão)
João Machado
Junia Gouveia
Marcelo Badaró
Mário Agra
(membros da
Executiva Nacional Provisória do P-SOL)
[17/09/2004] |
|
 |