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Leia a crítica do P-SOL (assinada por
membros da sua
Comissão Executiva Provisória) |
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CONSULTA
POPULAR
Documento preparatório
Refundar a
esquerda para refundar o Brasil
1. Um ciclo na
existência da esquerda brasileira está chegando ao fim. Podemos
chamá-lo de “ciclo PT”. Cada vez menos militantes acreditam que esse
partido ainda possa representar a vontade de mudar o nosso país.
Entre o povo, embora de forma desigual, generaliza-se a mesma
percepção.
Com a chegada
de Lula ao governo federal, inclinações que estavam presentes há
vários anos e que, para muitos, já eram determinantes na trajetória
do PT – inclinações ao oportunismo, à burocratização, ao
pragmatismo, à corrupção – tornaram-se irreversíveis. A elas,
soma-se a adesão doutrinária a um neoliberalismo radical. Pela
palavra de suas principais lideranças e pela sua prática, o PT já
não esconde sua condição de partido tradicional, integrado política
e moralmente à ordem em vigor. Ele continuará a existir no espectro
da política institucional, cada vez mais divorciada do país real,
mas não mais poderá ser o eixo de gravitação de uma esquerda digna
deste nome.
2. Para nós,
que desenvolvemos, colaboramos ou simplesmente acompanhamos a
experiência da Consulta Popular, coloca-se agudamente a questão de
como nos integrar a um novo ciclo, que se inicia. A necessidade de
refundar a esquerda torna-se mais premente diante do aprofundamento
da crise brasileira. Multiplicam-se os sinais de barbárie – em
presídios e Febens superlotados, em periferias sem trabalho e
favelas sem lei, no desamparo da infância e da velhice, no colapso
dos serviços públicos, em garimpos que se multiplicam, no
salve-se-quem-puder que se generaliza.
Confirma-se a
constatação, que sempre fizemos, de que a atual crise não se limita
aos seus aspectos econômicos e sociais mais evidentes. Nossa
sociedade vive uma crise de destino. Nascida como uma empresa
colonial e territorial, voltada para servir ao sistema mundial, até
hoje não superou as principais características herdadas dessa
condição; seus diferentes ciclos de desenvolvimento sempre
reproduziram a desigualdade social interna e a dependência externa.
Nos últimos anos, ambas vêm se tornando dramáticas, colocando em
risco a nossa existência como sociedade organizada e nação soberana.
De costas para o país, nunca as elites brasileiras foram tão
incapazes de organizar a vida da nação e propor a ela um projeto. Ao
mesmo tempo, porém, nunca o nosso povo foi potencialmente tão forte,
como é hoje, para assumir para si esse papel. Com cinco séculos de
existência, a sociedade brasileira já amadureceu as condições para
dar um salto, de forma que, finalmente, seu próprio povo, assumindo
o controle da nação, se torne um povo de cidadãos. Considerada em
perspectiva histórica, a revolução brasileira – ou seja, a
refundação do Brasil, agora na condição de sociedade para si –
amadureceu, embora as condições políticas para realizá-la ainda não
tenham sido construídas.
Refundar a
esquerda não é um fim, mas um meio para dotar a sociedade de forças
novas, capazes de ajudar a refundar o Brasil.
3. Pelo menos
três particularidades caracterizam um ciclo de vida da esquerda:
-
a
predominância de uma certa interpretação da sociedade; essa
interpretação serve de base para a formulação de um programa que
resume as mudanças propostas naquele período histórico;
-
a percepção
de uma forma de luta estratégica, que, uma vez conduzida com
êxito, apoiada por outras formas de luta, possibilita alterar a
correlação de forças entre as classes e inaugurar um novo e mais
avançado período de luta;
-
a presença
de uma organização política que se apresenta legitimamente, aos
olhos da sociedade e da maioria dos militantes, como a instituição
mais autorizada para propor, defender e aperfeiçoar aquela
interpretação e como a mais capacitada para conduzir a luta
estratégica, a ela associada.
Nesse sentido,
podemos falar na existência de pelo menos dois grandes ciclos na
história da esquerda brasileira: um, mais antigo e mais prolongado,
teve seu eixo no Partido Comunista Brasileiro; o outro, mais recente
e mais curto, no Partido dos Trabalhadores. As demais iniciativas
presentes na vida da esquerda – como, entre outras, a formação do
PCdoB, a experiência da luta armada, a fundação do PSTU – não
chegaram a constituir hegemonias novas e duradouras. A experiência
trabalhista, por sua vez, embora importante na vida política do
nosso povo no século XX, foi qualitativamente diferente, pois não
reivindicou para si, de nenhuma forma e em nenhum momento, a
proposta de transcender o capitalismo.
4. Os ciclos
não são estritamente definidos pela cronologia. Em certa medida,
podem se superpor. E, para que surja um novo, não é nem necessário
nem desejável que desapareçam todos os elementos do anterior. A
história nunca recomeça a partir do zero. Formulações e experiências
do passado podem ter aspectos positivos, que permanecem atuais. Se o
processo for autêntico, a superação contém elementos de conservação.
Quando falamos
no fim do ciclo PT, isso não significa adotar uma atitude
negativista em relação a tudo o que foi feito. Tampouco nos leva a
reivindicar algo absolutamente novo, descontaminado de passado.
Dizemos que o ciclo PT acabou porque:
-
a
interpretação que o partido tem sobre a crise brasileira – que
seria superada com uma retomada do crescimento econômico – está
fundamentalmente errada;
-
o programa
liberal e conservador do governo Lula, ao fortalecer as forças do
capital contra as forças do trabalho, agrava a velha crise, em vez
de abrir um período novo;
-
o tipo de
prática que o PT propõe aos militantes – integrar-se cada vez mais
às instituições do Estado, construindo carreiras políticas
individuais – perpetua e aprofunda o impasse da esquerda;
-
permeado por
interesses menores de todo tipo, o PT não é mais capaz de
reformar-se e abandonar esse caminho falso.
5. Abrir um
novo ciclo é lançar-se resolutamente num processo que nos conduza a
renovar a interpretação do Brasil, propor um programa de
transformações estruturais, imaginar uma forma de luta estratégica e
criar um novo instrumento de intervenção política. Não conseguiremos
cumprir todas essas tarefas de uma só vez. Mas, não podemos mais
hesitar sobre a necessidade delas. A omissão, agora, representaria a
opção por nos retirarmos da história. E, para o problema de que
estamos tratando, a decisão de concentrar nossas forças apenas nos
movimentos sociais, abandonando a problemática especificamente
política, teria o mesmo efeito de uma omissão.
Neste momento,
nenhum agrupamento reúne condições para reivindicar para si, com
legitimidade, a capacidade de estabelecer a nova hegemonia de que a
esquerda necessita. Quando o velho já morreu e o novo ainda não
nasceu, é tempo de muita incerteza. Nesse contexto, deve-se esperar
uma multiplicação de iniciativas, o que não é necessariamente ruim.
6. A chamada
esquerda do PT, que abriga valorosos companheiros, continua a
exercer sua crítica aos rumos que o partido tomou. Fica cada vez
mais claro, no entanto, que essa esquerda não será capaz de produzir
uma nova qualidade no PT, e em algum momento, se permanecer fiel aos
seus ideais, terá de abandoná-lo.
Esta já foi a
opção de quatro parlamentares que, junto com alguns intelectuais e
cerca de 700 militantes, fundaram recentemente o Partido do
Socialismo e Liberdade (PSOL). Também há muitos companheiros
valorosos entre eles. Porém, o ritmo e a forma dessa iniciativa, bem
como o programa que o novo partido apresentou, são muito
frustrantes. Não se percebe nele nenhum esforço sério voltado para
conhecer a história e a realidade do Brasil. Nenhum fundamento
programático novo. Nenhuma tentativa de ouvir e compreender o povo
brasileiro, para dialogar com ele. Nenhuma proposta de nova prática.
Nenhuma reflexão sobre as causas do esgotamento do PT. Nenhuma
preocupação em enfrentar os dilemas estruturais da esquerda
brasileira. Nenhuma idéia de superação. Ao contrário:
constituindo-se desde o início como uma legenda destinada a dar
suporte a candidaturas, o PSOL representa um passo atrás em relação
às formulações originais do PT.
Construído às
pressas, em bases frágeis, subordinado ao calendário eleitoral,
unindo pessoas e grupos tão díspares, o PSOL poderá desdobrar-se em
duas direções. Caso fracasse em conseguir a almejada legenda – o que
não desejamos – o projeto, simplesmente, perderá o sentido. Caso a
consiga, ficará cada vez mais submetido à dinâmica da
institucionalização, da luta interna e da fragmentação, com cada
subgrupo lançando os seus candidatos e batalhando por eles. O
ambiente concorrencial, típico da política burguesa, logo será
predominante num partido cuja unidade e consistência são frágeis.
Nenhuma das
condições para abrir um novo ciclo está presente na fundação do PSOL.
Pretendendo ser o espelho invertido do PT, ele se torna incapaz de
ultrapassar o universo do próprio PT. Suas críticas, embora
estridentes, não agregam qualidade nova à esquerda brasileira.
7. Tal como
existe hoje, a Consulta Popular também não tem capacidade de
desempenhar um papel relevante nessa transição. Estamos, pois,
diante de uma grave decisão: ou a Consulta se retira do processo
político brasileiro e aceita a dispersão de seus militantes, ou
produz em si mesma um salto de qualidade.
Nos últimos
anos, trabalhando com enorme restrição de recursos, a Consulta foi
um dos poucos espaços, na esquerda brasileira, seriamente dedicados
a cumprir três tarefas que consideramos essenciais: elaborar
política e teoricamente uma alternativa para o Brasil, formar e
articular lutadores do povo, e apoiar os movimentos sociais.
Obtivemos alguns êxitos: milhares de companheiros freqüentaram
cursos de boa qualidade, de diferentes níveis, alguns com meses,
outros com um ano, outros ainda com dois anos de duração; nossa
série de cartilhas destinada ao trabalho de base imprimiu mais de
200 mil exemplares; reproduzimos cerca de 30 mil cópias de 25 fitas
de vídeos especialmente produzidos como instrumentos de formação; o
livro A opção brasileira atingiu 20 mil exemplares vendidos e se
tornou referência no debate em todo o país, ultrapassando amplamente
os limites da esquerda. A caminhada que realizamos entre Rio de
Janeiro e Brasília, com 1.800km, e a grande assembléia que se
seguiu, com 5 mil lutadores, foram marcos na nossa militância.
Tivemos presença importante, embora o mais das vezes exercida com
discrição, nos principais episódios de luta do povo brasileiro nos
últimos anos.
8. Se optarmos
por desaparecer, poderemos nos orgulhar de um caminho percorrido com
dignidade. Se optarmos por continuar, teremos muito a fazer. Pois as
limitações da Consulta saltam à vista. Não nos constituímos como uma
organização política, stricto sensu. Nossa organicidade sempre foi
muito baixa. Nunca encontramos algum tipo de meta-síntese que
unificasse e conferisse nova qualidade ao nosso trabalho, que
permaneceu disperso. Nos deixamos impressionar por críticas, reais
ou imaginárias, vindas das correntes dominantes, que sempre nos
acusaram do grave delito de querer formar um partido por fora do PT.
Por ironia da história, estamos criticando aqueles que acabam de
optar por esse caminho, em plena crise do PT.
De forma mais
ou menos consciente, a Consulta se constituiu na fase final de um
ciclo de existência da esquerda – que agora estamos chamando de
“ciclo PT” –, antecipando-se a um novo ciclo que estava em gestação.
Vivemos hoje uma situação paradoxal: nos preparamos com seriedade
para desempenhar um papel na transição que antevíamos, mas, até
aqui, não nos mobilizamos para enfrentar os novos desafios que a
transição já nos coloca. Nossa postura politicamente passiva e nossa
incapacidade de encontrar caminhos estratégicos conduziram a
Consulta até a virtual paralisia na maioria dos estados. Esta
situação tem criado um sentimento de perplexidade e frustração em
muitos quadros da esquerda brasileira.
9. Com o
desvelamento daquilo que representam o PT e o governo Lula,
desapareceram os motivos legítimos das nossas hesitações. O que
antes poderia representar uma característica positiva de prudência,
perseverança num projeto e tolerância com a diversidade, agora
perdeu completamente o sentido. Tornou-se evidente que a esquerda
brasileira necessita de um instrumento político novo, capaz de
recuperar os aspectos positivos da história anterior, mas de propor
outro caminho, com uma interpretação renovada de nossa realidade. Um
instrumento político que seja radical, pois a crise brasileira exige
soluções radicais, sem ser sectário, de modo a conter dentro de si a
diversidade, a generosidade, a espiritualidade e a alegria do povo,
condição para ser parte dele.
Como dissemos,
não poderemos fazer tudo de uma só vez. Estamos propondo um
calendário de atividades, de modo a abrir um processo centrado na
idéia de refundar a esquerda para refundar o Brasil. Ele começa na
reunião ampliada 13, 14 e 15 de agosto, com cerca de 80 dirigentes,
que deverá aprovar um documento político de maior densidade, a ser
debatido em todo o país. Se a decisão for pela continuidade do nosso
trabalho, a reunião poderá desdobrar-se na elaboração de um novo
texto ainda mais amplo, que atualize e vá além de A opção
brasileira, ao longo do segundo semestre. O processo deverá culminar
em uma plenária nacional entre 21 e 24 de janeiro de 2005, com cerca
de 400 delegados, em moldes semelhantes à que realizamos em dezembro
de 1997.
Devemos nos
preparar para, na medida do possível, responder três questões: qual
a nossa interpretação da crise brasileira atual? Que forma de luta,
ou combinação de formas de luta, pode produzir um salto de qualidade
na sociedade brasileira? De que nova forma de organização
necessitamos?
10. De acordo
com as nossas tradições, essa plenária não será um espetáculo para a
mídia, nem uma disputa de radicalismos estéreis, nem um desfile de
sapiências e vaidades. Deve privilegiar o diálogo maduro e a
participação dos lutadores do povo, os verdadeiros protagonistas da
refundação.
São Paulo, 13
de junho de 2004
Consulta Popular |
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