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Por
CLÓVIS ZIMMERMANN
Sociólogo e doutorando
em sociologia pela Universidade de Heidelberg na Alemanha. Esse
artigo faz parte de um estudo sobre o Programa Fome Zero realizado
pelo autor in loco entre novembro de 2003 e fevereiro de
2004 para a ONG FIAN (FoodFirst Information and Action Network) em
diversos municípios do nordeste do Brasil. |
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Um primeiro olhar sobre o Programa Fome Zero:
reflexões sobre primeiro ano de implementação
O
Programa Fome Zero tornou-se, ainda antes de ser implementado, uma
referência mundial no combate à fome. A proposta foi amplamente
elogiada por colocar o fim da fome como objetivo de governo e
apresentar um programa abrangente, coordenando medidas estruturais,
específicas e locais. Pela primeira vez, um governo brasileiro
declarara-se disposto a cumprir suas obrigações internacionais e
constitucionais.
1.
Do Programa Cartão-Alimentação ao Bolsa-Família
Dentre
as principais, e uma das primeiras ações executadas pelo Programa
Fome Zero, destacou-se a implantação do Programa Cartão-Alimentação,
que posteriormente foi transformado em Bolsa-Família. O Programa
Cartão-Alimentação fez parte das políticas específicas do Fome
Zero, sendo substituído em 20 de outubro de 2003 pelo Programa
Bolsa-Família. O intuito do Bolsa-Família[1]
foi, em primeiro lugar, de
convergir os inúmeros programas de distribuição de renda
existentes num só. O Bolsa-Família é, pois, fruto da unificação
dos programas de transferência de renda do governo federal, ou
seja, Bolsa-Alimentação (Ministério da Saúde), Auxílio-Gás
(Ministério das Minas e Energias), Bolsa-Escola (Ministério da
Educação) e o Cartão-Alimentação (MESA). O objetivo dessa união
é incrementar a qualidade dos gastos públicos, a partir de uma
gestão coordenada e integrada, de forma intersetorial. A implantação
do Bolsa-Família, em nível local, é de responsabilidade da
Prefeitura Municipal, cabendo a sociedade civil a tarefa de
controlar das políticas públicas. Nota-se aqui uma diferença em
relação ao antigo Programa Cartão-Alimentação, haja visto que
com o Bolsa-Família a participação da sociedade civil fica
restrita ao controle das políticas públicas, deixando, assim de
exercer papéis de caráter deliberativo.
2
Obstáculos na implantação do Programa Fome Zero, em especial do
Bolsa-Família
1.
Seleção: No Brasil, a existência inquestionável de uma grande
parcela de cidadãos que não possuem trabalho fixo ou que trabalham
no setor informal da economia, sinônimo de exclusão dos direitos
trabalhistas, não permite ao Estado tomar conhecimento preciso da
situação real e do montante de famílias em situação de fome e
pobreza. Tentativas de identificação dos pobres através de critérios
técnicos dificilmente são capazes de diferenciar os pobres do
restante da população de baixa renda. Neste sentido, existem
muitos entraves no processo de seleção e escolha das famílias
carentes e necessitadas a serem incluídas em programas sociais. Ou
seja, não existem formas de controlar a renda das pessoas, uma vez
que muitas atividades econômicas são realizadas no âmbito
informal. Além disso, o nível de fragilidade de muitas famílias
contribui para que o processo de seleção torne-se ainda mais difícil,
justamente por haver a necessidade adicional em se selecionar os
mais pobres dentre os pobres. Nos municípios, onde o Bolsa-Família
está sendo implantado, existem muitos empecilhos em escolher os
mais necessitados a serem beneficiados. Segundo Cândido Norberto do
Comitê Gestor de Acauã, a qualificação da pobreza é uma tarefa
muito árdua:
“Classificar
a pobreza já é difícil. Escolher pobre entre os mais pobres é
uma situação mais difícil ainda. Porque são pobres onde só
tem pobre. Sempre as pessoas vêm dizer para a gente que também
precisava do Bolsa-Família”.
2.
Fragilidade da Sociedade Civil: A frágil e até mesmo inexistente
organização e articulação da sociedade civil é outro problema
encontrado na implantação do Programa Fome Zero em diversos municípios
brasileiros. Em muitas dessas localidades, o nível de pobreza tem
relação direta com o baixo grau de organização da sociedade
civil. Nesses municípios, inexistem sindicatos, associações
comunitárias e outras formas de atuação cívica. De certa forma,
a ausência de organizações sociais dificulta o processo de
implantação do Bolsa-Família, uma vez que o mesmo depende do
engajamento da sociedade civil. Em algumas cidades, o governo
federal auxiliou na criação de organizações sociais, com o fim
de facilitar o desenvolvimento local e garantir, assim, um
funcionamento mais eficaz do Programa.
3.
Cadastramento: Problemas operacionais referentes ao Cadastro Único
têm prejudicado, de certa forma, a implantação do Bolsa-Família.
O processo de seleção dos indivíduos a serem beneficiados pelo
Bolsa-Família dá-se via Cadastro Único. Trata-se de um sistema
operacional de embaraçoso manejo. A maior dificuldade, no entanto,
está relacionada ao processo de inclusão de novos beneficiários.
Isso ocorre devido à complexidade do sistema. Para ser beneficiada
pelo Bolsa-Família, a família tem de estar primeiramente inscrita
no Cadastro Único.[2]
4.
Quotas: Por último, obstáculos, concernentes ao processo de
seleção das famílias a serem incluídas no Programa e de
operacionalização do sistema de cadastramento, dificultam a inclusão
e exclusão de beneficiários. Como cada município recebe um número
fixo de famílias a serem contempladas, a partir do momento em que
esse município preencher a quota, fica impossibilitada a inserção
de novas famílias neste sistema de combate à fome. Seria, pois,
necessário excluir famílias beneficiárias para poder incluir
outras, uma tarefa incomoda e até mesmo dolorosa de ser realizada,
pois se trata de excluir os mais pobres dentre os pobres. Além
disso, o sistema operacional funciona de forma lenta quando da execução
de alterações rápidas necessárias para poder atender à população
realmente carente.
3
Aspectos positivos
1.
Tematização da Fome: Um aspecto interessante no Programa Fome Zero
é que o Estado está assumindo sua obrigação constitucional, isto
é, criando programas para erradicar a fome no Brasil. A sociedade
civil, por sua vez, já vinha tematizando esse assunto e, em virtude
disso, o Fome Zero tem recebido o apoio de várias entidades e indivíduos
da sociedade, os quais têm-se solidarizado com a situação de fome
e pobreza, à qual estão sujeitos milhões de brasileiros. Até
mesmo entidades, que tradicionalmente estiveram alheias aos
problemas da população pobre, têm feito campanhas de arrecadação
de gêneros alimentícios para o combate à fome no país. Uma outra
novidade é que com o Fome Zero, o Estado está alocando recursos orçamentários
na luta contra a fome, objetivando a garantia a todos os cidadãos
do direito ao acesso diário a alimentos em quantidade e qualidade
suficiente para atender às necessidades nutricionais básicas
essenciais à manutenção da saúde.
2.
Transferência de Renda: A constituição de um programa de transferência
de renda é algo louvável, pois assim se consegue generalizar e
distribuir os benefícios sociais às camadas menos favorecidas, ao
invés de ficarem, como é de costume, restritos à elite. Apesar de
muitos sociólogos caracterizarem o programa como
“funcionalização da miséria" [3]
(Francisco de Oliveira), defende-se aqui a tese de que a criação
de um arranjo institucional capaz de beneficiar diretamente as
camadas desfavorecidas da sociedade deve ser vista como aspecto
positivo e como uma das medidas básicas e primordiais a serem
executadas pelos programas de combate à fome e à pobreza,
uma vez que somente tendo acesso imediato à alimentação, o indivíduo
provido da mesma terá condições de recuperar suas forças e começar
a perceber a realidade com outros olhos e iniciar o processo de
ampliação do seu horizonte. Concorda-se que os recursos
transferidos às famílias é insuficiente, mas a introdução de um
Programa de transferência de renda em todo o país é algo inovador
nas políticas públicas brasileiras. Políticas públicas de
transferência de renda e de geração de emprego não precisam se
excluir reciprocamente, mas como mostra a experiência Sueca, podem
muito bem complementar-se mutuamente.
3.
Dinamização da Economia Local: Os recursos repassados pelo
Bolsa-Família têm colaborado para uma maior dinamização da
economia de todos os municípios, principalmente daqueles menores e
mais pobres. Esses recursos possibilitam um aumento das vendas nas
mercearias, supermercados e casas comerciais. Além disso, muitos
outros estabelecimentos públicos e comerciais têm surgido em função
da implantação do Bolsa-Família. Da mesma forma, as políticas
estruturais têm contribuído e poderão contribuir para o aumento
da renda de muitas famílias e para dinamizar a economia de muitos
municípios brasileiros.
4.
Melhoria Alimentar: Por fim, sem sombra de dúvidas, o Programa Fome
Zero tem contribuído na melhoria alimentar de muitas famílias
pobres do Brasil. Antes da existência do Programa, muitas delas
alimentavam-se basicamente de feijão e farinha, isso quando havia,
passando a consumir outros produtos com a introdução do Bolsa-Família,
como por exemplo arroz, óleo, verduras e carnes, o que tem contribuído
para um consumo de calorias mais balanceado. Os impactos do Programa
variam, no entanto, de acordo com o grau da necessidade da população.
Famílias pobres, que não necessariamente passavam fome antes da
implantação do Programa, conseguem inclusive investir em melhorias
habitacionais e nas condições higiênicas, enquanto que as famílias
que passavam fome utilizam os recursos do Bolsa-Família
exclusivamente para a aquisição de gêneros alimentícios, cujo
valor, dependendo do número de filhos, não é suficiente para o mês
todo. Contudo, essas pessoas relatam que a regularidade na distribuição
dos recursos federais é um fator de extrema importância, pois tem
contribuído muito para uma melhor alimentação familiar.
Recomendações
e considerações finais
O
Programa Fome Zero tem apresentado sérios problemas de seleção,
inclusão de novos beneficiários além de não possibilitar e
garantir o direito humano à alimentação. Uma recomendação para
o futuro é introdução rápida da Lei de Renda Básica de
Cidadania, sancionada pelo Presidente Lula
em Janeiro de 2004. Essa lei prevê, por
tempo indeterminado, uma renda básica
a todos os
cidadãos brasileiros, de qualquer condição econômica e social.
Assim, problemas de seleção, exclusão, inclusão,
justiciabilidade e estigmatização podem ser evitados.
Uma
outra recomendação é a participação da sociedade civil no
monitoramento do Programa. As primeiras experiências mostraram que
houve uma participação intensa da sociedade civil na introdução
do Programa Fome Zero. Há um grande interesse da sociedade civil em
participar do processo de erradicação da fome, desmistificando
assim a idéia arraigada de que a população menos favorecida não
tem consciência política coletiva e muito menos interesse em
participar de eventos desse caráter. Nota-se que a sociedade civil
pode participar ativamente na formulação e controle das políticas
públicas, mesmo que as condições não sejam as mais favoráveis.
É de suma importância neste contexto, que o Estado possibilite e
abra canais institucionais de participação.
Por
último, constata-se que, até o momento, o Programa Fome Zero tem
ficado reduzido quase que exclusivamente ao processo de implantação
de políticas específicas (Bolsa-Família), relegando a um segundo
plano os programas de reforma agrária, de apoio à agricultura
familiar e de geração de empregos e renda. Por isso, as políticas
desse Programa ainda não são suficientes para garantir os recursos
necessários à efetivação de uma alimentação adequada. Para
assegura a realização de uma alimentação adequada, o Programa
Fome Zero terá de viabilizar a todos os cidadãos o direito ao
acesso diário a alimentos em quantidade e qualidade suficiente para
atender às necessidades nutricionais básicas essenciais à manutenção
da saúde. Até agora, o Programa tem possibilitado “um pouco”
de alimento para os muitos brasileiros que dele estavam privados. No
entanto, o Programa Fome Zero terá de ampliar suas políticas públicas,
sobretudo as de caráter estrutural, pois o mesmo tem investido de
forma bastante debilitada em se tratando de um país com tantos
recursos naturais e econômicos.
[1]
O Programa Bolsa-Família deposita aos beneficiários um valor fixo
de R$ 50,00 para famílias com renda mensal de até R$ 50,00 por
pessoa, tenham elas prole ou não. Além desse valor fixo, as que têm
filhos entre 0 e 15 anos terão um benefício variável, de R$ 15,00
por criança, sendo computado o limite máximo de três filhos.
Desse modo, somando-se todos os benefícios existentes, o Bolsa-Família
distribui o montante máximo de até R$ 95,00 por família.
Para aquelas com renda per capita mensal superior a R$ 50,00
e menor e/ou igual a R$ 100,00 por indivíduo, o Bolsa-Família
deposita mensalmente o benefício variável de R$ 15,00 por filho
com idade de 0 a 15 anos, até o limite de três benefícios.
Fontes governamentais estima que com o programa Bolsa-Família há
um aumento na transferência de recursos para em média R$ 73,00 por
família.
[2]
Aqui aparecem os primeiros problemas. Para ser inscrito no Cadastro
Único, as pessoas precisam obrigatoriamente ter Carteira de
Identidade e CPF. Como muitos indivíduos no Brasil não possuem
esses registros, esses deverão ser providenciados, necessitando de
no mínimo um mês para serem executados. O segundo problema está
relacionado ao cadastramento, que é efetuado pelas prefeituras
municipais, as quais muitas vezes incluem sua clientela política,
sendo que muitos não precisam do auxílio, como por exemplo:
mulheres dos prefeitos, vereadores etc. Estima-se que cerca de 30 %
das pessoas cadastradas não são necessitam do benefício. O
terceiro problema é a estaticidade do sistema, pois não se
consegue atualizar o Cadastro. Isso significa, por vezes, que os
filhos que nascem não são incluídos e as pessoas da família que
falecem não são excluídas do Cadastro.
[3]
É correta a crítica de Oliveira, de que o Bolsa-Família, por ser
extremamente focalizado em uma parcela da população, se constitui
em uma espécie de "ajuda humanitária" para garantir a
sobrevivência dos mais pobres sem alterar a condição social
destes (v. Jornal Brasil de Fato de 15/01/2004). Entretanto, se o
Programa “garante a sobrevivência dos mais pobres”, isso já é
um sinal de mudança, pois até o presente momento nenhum governo
brasileiro conseguiu realizar tal façanha. Ou seja, ninguém pode
negar que houve uma alteração da condição social destes, o certo
é que a melhoria na qualidade de vida poderia ser muito maior.
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