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Por
MARCOS DEL ROIO
Prof. de Ciências Políticas, FFC-Unesp/Marília |
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Astrojildo
Pereira (1890-1965)
A trajetória
de vida de Astrojildo Pereira coincide com o nascimento e formação
da modernidade capitalista no Brasil. Astrojildo Pereira nasceu após
o fim do escravismo e da monarquia e morreu logo depois da
instauração da ditadura militar que consolidaria a ordem burguesa no
Brasil. Durante toda a sua vida Astrojildo Pereira preservou a
lucidez de se manter ao lado e na perspectiva do que havia de mais
progressivo na vida social e cultural do País. Desde cedo percebeu
que a classe operária e os trabalhadores ofereciam a seiva mais
fértil e saudável da nossa vida social.
O espírito de
rebeldia levou-o a abandonar os estudos formais aos 16 anos, quando
começou a sua militância anarquista, em oposição à fé religiosa
difundida pela Igreja e contra o militarismo, estimulado, talvez
pelas greves operárias de 1906. Sob o impacto da revolta dos
marinheiros no Rio de Janeiro e pela execução do pedagogo anarquista
Francisco Ferrer, na Espanha, Astrojildo fez uma curta viagem a
Europa, que serviu para amadurecer as suas convicções de antagonismo
à ordem social. Como gráfico e jornalista, Astrojildo Pereira passou
a ser uma militante e organizador do movimento operário da vertente
anarco-sindicalista, tendo participado ativamente de várias
publicações de oposição a ordem liberal oligárquica e a guerra
imperialista.
Astrojildo
Pereira viveu intensamente o apogeu e a crise da primeira marcante
irrupção do movimento operário na cena política do país, quando os
trabalhadores urbanos se expressaram como classe, entre 1917 e 1920.
A rebelião do trabalho no Brasil foi apenas uma limitada faceta de
um movimento universal cujo ápice esteve na revolução socialista
eclodida na Rússia. As dificuldades no encaminhamento da luta de
classe contra a ordem liberal oligárquica, que acabaram na derrota
do movimento, e o impacto da Revolução Russa de 1917 provocaram uma
cisão no seio da vanguarda operária. O último esforço pra
preservação da unidade foi feita no III Congresso Operário do
Brasil, em abril de 1920, depois do que a divergência entre aqueles
que, por um lado, entendiam que a derrota se devia à falta de
centralização da organização da luta, cuja solução seria a formação
de um partido operário e que o desenvolvimento da revolução russa
deveria continuar sendo apoiada, e aqueles que, por outro lado,
continuavam a defender as formas dispersas de organização e que a
revolução russa havia regredido, não devendo mais ser apoiada.
Entre 1919 e
1924, Astrojildo Pereira dedicou-se ao esforço de organização de um
partido comunista no Brasil. A primeira tentativa de sua fundação
ocorreu na seqüência da criação da Internacional Comunista, em março
de 1919, com relativo e escasso sucesso. Diante da inevitável cisão
da direção da COB-Confederação Operária Brasileira, Astrojildo
Pereira passou a organizar o grupo que entendia ser necessária a
criação de um novo instrumento de luta e o estabelecimento de um
sólido vínculo internacional. Assim, tendo fundado o Grupo Comunista
do Rio de Janeiro, em 7 de novembro de 1921, buscou aglutinar outros
grupos análogos que iam surgindo pelo país até que, em 25 de março
de 1922, foi oficialmente fundado o PCB-Partido Comunista
Brasileiro. O reconhecimento oficial por parte da IC só viria, no
entanto, em 1924.
A partir de
então Astrojildo Pereira se empenhou na configuração de um grupo
dirigente do neonascente partido operário, que desenvolvesse uma
política voltada para a reconstrução da unidade da classe operária,
para o estabelecimento de alianças políticas com outros setores
oprimidos da ordem liberal e para a formulação de uma teoria da
revolução. Ao cabo de cinco anos, em torno de meados de 1929, com a
estreita colaboração de Otávio Brandão, Paulo de Lacerda e Cristiano
Cordeiro, entre outros, Astrojildo Pereira havia delineado um grupo
dirigente do movimento operário, agora em nova fase ascendente,
assim como uma teoria da revolução brasileira que vislumbrava no
latifúndio e no imperialismo os inimigos principais da classe
operária, no campesinato e na pequena burguesia urbana (e seus
intelectuais) os seus aliados. A questão agrária e a questão
nacional seriam assim o fulcro da revolução democrática no Brasil.
Esse trajeto
não se fez sem dificuldades, tendo encontrado uma oposição no
interior do partido, que depois daria origem tanto a vertente
stalinista quanto a vertente trotskista do comunismo brasileiro. A
repressão desencadeada pelo agonizante Estado liberal oligárquico e
a intervenção da IC, agora sob o controle do grupo de Stálin,
desarticularam esse primeiro grupo dirigente do partido operário no
Brasil. Astrojildo Pereira e Otávio Brandão, os dois principais
dirigentes do PCB foram afastados. Enquanto Astrojildo Pereira se
recolheu por algum tempo para refletir e estudar, Otávio Brandão foi
banido pelo novo regime instaurado em 1930, tendo se exilado na
URSS. Ao contrário do que se pensa, ambos continuaram, sob outras
formas e vestes, a militar no movimento comunista. Otávio Brandão
falou muitas vezes pelo PCB em Moscou e Astrojildo Pereira por meio
de seus escritos seguiu travando a luta em defesa da causa operária.
Mais, a partir de meados de 1934, quando o movimento operário
começou uma nova ascensão e a resistência antifascista passou a se
difundir na intelectualidade, Astrojildo Pereira se deu conta que a
política que havia concebido antes de 1930 voltava a se manifestar
na Aliança Nacional Libertadora, ainda que em uma situação de todo
nova.
Mesmo com a
derrota da ANL e com a subseqüente instauração do Estado Novo,
Astrojildo nunca deixou de atuar no mundo da cultura brasileira. No
momento em que agonizava a ditadura de Vargas, Astrojildo cumpriu um
papel de suma importância na organização da cultura e da
intelectualidade antifascista e democrática do Brasil, defendendo os
princípios da liberdade de expressão e de organização e a
necessidade da difusão da cultura entre as massas trabalhadoras.
Formalmente aceito de volta às fileiras do PCB, Astrojildo persistiu
se ocupando daquilo que mais gostava: da organização dos
intelectuais e da procura das raízes nacional-populares da cultura
brasileira. O instrumento de trabalho foi a revista Literatura.
A colocação do
PCB na ilegalidade e a nova orientação política que estreitava
sobremaneira as alianças políticas, particularmente no campo da
cultura, romperam as relações arduamente urdidas por Astrojildo
Pereira. Apenas depois do forte impacto do XX Congresso do PCUS
(1956) é que Astrojildo retornou ao efetivo fio condutor da sua
trajetória intelectual. Novamente buscou amparo e inspiração em
Machado de Assis na busca do nacional-popular, do respaldo cultural
necessário para a revolução nacional e democrática que se
auspiciava. O seu último grande empreendimento foi a revista
Estudos Sociais, voltada precisamente para a aglutinação de
jovens intelectuais decididamente interessados no conhecimento, no
estudo e na transformação da realidade brasileira. Com a instauração
da ditadura militar, em 1964, e a repressão política e cultural que
se seguiu, Astrojildo Pereira foi preso e viu ruir muitos de seus
melhores projetos e sonhos. A morte o colheu em novembro de 1965.
Foi somente na fase declinante da ditadura militar que o nome de
Astrojildo Pereira começou a receber o devido reconhecimento, não só
como o principal fundador do Partido Comunista no Brasil, mas como o
primeiro marxista e leninista e como um intelectual ativo na
organização do mundo da cultura e que ofereceu preciosos indicativos
de interpretação e pesquisa. |
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