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Democracia instantânea
[Tradução: Eva
Paulino Bueno]
O método dos Estados
Unidos exportarem “democracia” se baseia em promover mudanças de
regime de cima pra baixo, juntar advogados e cientistas políticos
americanos para escrever uma constituição, e rapidamente organizar
uma eleição. Democracia instantânea!
Eu trabalhei
como observador oficial de eleições na Guatemala e na Nicarágua. A
coisa mais perturbadora que eu vivi durante este trabalho foi
observar o envolvimento dos consultores “ensinando” a estas
sociedades em transição como conduzir campanhas presidenciais
seguindo o modelo americano.
A Fundação
Nacional para a Democracia dá fundos para o Instituto Democrático
Nacional (NDI) e para o Instituto Republicano Internacional (IRI)
para “espalhar a democracia” em países que estão passando de regimes
autoritários a democracia. Estas instituições pagam cientistas
políticos para conduzir grupos de estudos e pesquisas de opinião,
pagam a profissionais da mídia para planejar e produzir notícias,
propagandas em rádio e televisão, e consultores para aconselhar
candidatos presidenciais quanto a estratégias e táticas. Para falar
bem claramente: os mesmos tipos que trouxeram as modernas campanhas
eleitorais sem conteúdo aos Estados Unidos estão espalhando esta
mesma doença em sociedades frágeis e em transição.
Os Estados
Unidos acham que fazer eleições instantaneamente coloca qualquer
nação na categoria de democrática. Eu as chamo de democracias
pós-modernas, isto é, elas têm imagem mas não têm substância.
Entretanto, os cidadãos dos Estados Unidos só precisam olhar-se no
espelho. A presente campanha presidencial está atolada num abismo de
falta de substância. As campanhas neste país agora são planejadas
para ganhar eleições, não para governar o país.
Os Estados
Unidos têm uma cultura confrontacional — “in your face”. Basta
observarmos o comportamento dos profissionais de esportes, e os
shows de realidade na televisão. Nós temos uma religião
confrontacional, um noticiário confrontacional e, logicamente, uma
política confrontacional. Assuntos de importância não são
discutidos. As campanhas presidenciais se focalizam na destruição da
pessoa representando a oposição. Na política americana de hoje há
inimigos ao invés de adversários. A pessoa pode negociar com
adversários, mas os inimigos representam o mal e devem portanto ser
destruídos.
Os debates
entre Lincoln e Douglas duraram oito horas. Os candidatos não
precisaram de uma equipe de advogados para escrever um documento de
32 páginas detalhando todas as condições e parâmetros do “debate.”
Hoje, os debates presidenciais são tão regimentados e orquestrados
que é um erro chamá-los de debates.
As propagandas
políticas na televisão têm a função de se conectarem emocionalmente
com os eleitores, não de exporem a verdade. Numa campanha
pós-moderna, a imagem sempre é superior à substância. As pesquisas
mostram que os consumidores digerem informações negativas mais
rapidamente, e as retêm por mais tempo que as mensagens positivas. A
campanha negativa funciona. Mas, é importante frisar, o diálogo
político implica que uma pessoa fala para ser entendida e ouve para
entender. A civilidade é a antítese da cultura confrontacional.
A única coisa
boa na exportação da democracia é que os escritores de constituições
não “deram” a nenhuma das sociedades transicionais um colégio
eleitoral. Neste momento, é difícil saber se George W. Bush e John
Kerry estão fazendo campanha para presidente dos Estados Unidos ou
para governador de Ohio. Apenas entre 12 e 15 estados do país são
lugares onde há verdadeira competição em eleições presidenciais.
Isto quer dizer que os demais estados jamais, ou raramente, vêem
candidatos a presidente. Os distritos para deputados federais em
todo o país têm sido tão bloqueados e manipulados que atualmente
apenas dez por cento dos distritos são competitivos no país. Deve
ser claro e evidente para qualquer observador desinteressado que os
Estados Unidos não são uma democracia saudável.
O modelo da
campanha eleitoral dos Estados Unidos não deveria ser exportado.
Fazer esta exportação somente vai trazer uma rápida insatisfação com
a democracia nas frágeis sociedades em transição. Na melhor das
hipóteses isto levaria a um autoritarismo democrático.
Os Estados
Unidos querem fazer eleições no Afeganistão e no Iraque antes que a
mínima condição de segurança tenha sido obtida nos dois países,
antes que economias estáveis e viáveis tenham sido estabelecidas, e
onde rivalidades étnicas e religiosas são enormes. Campanhas e
eleições levadas a cabo rapidamente demais, com uma estrutura e
organização desleixadas, feitas à moda pós-moderna, levam os
eleitores a escolherem baseados no grupo étnico, na religião e/ou em
classe social. Esta realmente não é uma boa fundação para uma
democracia estável e saudável.
A democracia
só pode ter sucesso se tiver uma forte base participatória em que os
cidadãos podem confiar em um processo transparente. Se os cidadãos
dos Estados Unidos não exigirem futuras campanhas de substância
nossos filhos vão viver somente com a imagem da democracia. A
maneira de obter-se sucesso exportando democracia é ter-se uma
democracia saudável em casa. Para conseguir isto, os cidadãos devem
transcender esta política pós-moderna. A substância deve ser mais
importante que a imagem. O diálogo e a civilidade devem se tornar
centrais no debate político. Os cidadãos dos Estados Unidos precisam
rejeitar esta atual cultura de confrontação. |