Por LARRY HUFFORD

Professor titular de Ciência Política na Universidade de St. Mary, San Antonio, Texas.

 

Democracia instantânea

[Tradução: Eva Paulino Bueno]

 

O método dos Estados Unidos exportarem “democracia” se baseia em promover mudanças de regime de cima pra baixo, juntar advogados e cientistas políticos americanos para escrever uma constituição, e rapidamente organizar uma eleição. Democracia instantânea!

Eu trabalhei como observador oficial de eleições na Guatemala e na Nicarágua. A coisa mais perturbadora que eu vivi durante este trabalho foi observar o envolvimento dos consultores “ensinando” a estas sociedades em transição como conduzir campanhas presidenciais seguindo o modelo americano.

A Fundação Nacional para a Democracia dá fundos para o Instituto Democrático Nacional (NDI) e para o Instituto Republicano Internacional  (IRI) para “espalhar a democracia” em países que estão passando de regimes autoritários a democracia. Estas instituições pagam cientistas políticos para conduzir grupos de estudos e pesquisas de opinião, pagam a profissionais da mídia para planejar e produzir notícias, propagandas em rádio e televisão, e consultores para aconselhar candidatos presidenciais quanto a estratégias e táticas. Para falar bem claramente: os mesmos tipos que trouxeram as modernas campanhas eleitorais sem conteúdo aos Estados Unidos estão espalhando esta mesma doença em sociedades frágeis e em transição.

Os Estados Unidos acham que fazer eleições instantaneamente coloca qualquer nação na categoria de democrática. Eu as chamo de democracias pós-modernas, isto é, elas têm imagem mas não têm substância. Entretanto, os cidadãos dos Estados Unidos só precisam olhar-se no espelho. A presente campanha presidencial está atolada num abismo de falta de substância. As campanhas neste país agora são planejadas para ganhar eleições, não para governar o país.

Os Estados Unidos têm uma cultura confrontacional — “in your face”. Basta observarmos o comportamento dos profissionais de esportes, e  os shows de realidade na televisão. Nós temos uma religião confrontacional, um noticiário confrontacional e, logicamente, uma política confrontacional. Assuntos de importância não são discutidos. As campanhas presidenciais se focalizam na destruição da pessoa representando a oposição. Na política americana de hoje há inimigos ao invés de adversários. A pessoa pode negociar com adversários, mas os inimigos representam o mal e devem portanto ser destruídos.

Os debates entre Lincoln e Douglas duraram oito horas. Os candidatos não precisaram de uma equipe de advogados para escrever um documento de 32 páginas detalhando todas as condições e parâmetros do “debate.”  Hoje, os debates presidenciais são tão regimentados e orquestrados que é um erro chamá-los de debates.

As propagandas políticas na televisão têm a função de se conectarem emocionalmente com os eleitores, não de exporem a verdade. Numa campanha pós-moderna, a imagem sempre é superior à substância. As pesquisas mostram que os consumidores digerem informações negativas mais rapidamente, e as retêm por mais tempo que as mensagens positivas. A campanha negativa funciona. Mas, é importante frisar, o diálogo político implica que uma pessoa fala para ser entendida e ouve para entender. A civilidade é a antítese da cultura confrontacional.

A única coisa boa na exportação da democracia é que os escritores de constituições não “deram” a nenhuma das sociedades transicionais um colégio eleitoral. Neste momento, é difícil saber se George W. Bush e John Kerry estão fazendo campanha para presidente dos Estados Unidos ou para governador de Ohio. Apenas entre 12 e 15 estados do país são lugares onde há verdadeira competição em eleições presidenciais. Isto quer dizer que os demais estados jamais, ou raramente, vêem candidatos a presidente. Os distritos para deputados federais em todo o país têm sido tão bloqueados e manipulados que atualmente apenas dez por cento dos distritos são competitivos no país. Deve ser claro e evidente para qualquer observador desinteressado que os Estados Unidos não são uma democracia saudável.

O modelo da campanha eleitoral dos Estados Unidos não deveria ser exportado. Fazer esta exportação somente vai trazer uma rápida insatisfação com a democracia nas frágeis sociedades em transição. Na melhor das hipóteses isto levaria a um autoritarismo democrático.

Os Estados Unidos querem fazer eleições no Afeganistão e no Iraque antes que a mínima condição de segurança tenha sido obtida nos dois países, antes que economias estáveis e viáveis tenham sido estabelecidas, e onde rivalidades étnicas e religiosas são enormes. Campanhas e eleições levadas a cabo rapidamente demais, com uma estrutura e organização desleixadas, feitas à moda pós-moderna, levam os eleitores a escolherem baseados no grupo étnico, na religião e/ou em classe social. Esta realmente não é uma boa fundação para uma democracia estável e saudável.

A democracia só pode ter sucesso se tiver uma forte base participatória em que os cidadãos podem confiar em um processo transparente. Se os cidadãos dos Estados Unidos não exigirem futuras campanhas de substância nossos filhos vão viver somente com a imagem da democracia. A maneira de obter-se sucesso exportando democracia é ter-se uma democracia saudável em casa. Para conseguir isto, os cidadãos devem transcender esta política pós-moderna. A substância deve ser mais importante que a imagem. O diálogo e a civilidade devem se tornar centrais no debate político. Os cidadãos dos Estados Unidos precisam rejeitar esta atual cultura de confrontação.

   

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