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Por ANTÔNIO
INÁCIO ANDRIOLI
Bolsista do EED e doutorando em Ciências Sociais na
Universidade de Osnabrück – Alemanha |
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O que eu tenho a
ver com isso?
“Quando
os nazistas levaram os comunistas, eu calei, porque, afinal, eu não
era comunista. Quando eles prenderam os sociais democratas, eu
calei, porque, afinal, eu não era social democrata. Quando eles
levaram os sindicalistas, eu não protestei, porque, afinal, eu não
era sindicalista. Quando levaram os judeus, eu não protestei,
porque, afinal, eu não era judeu. Quando eles levaram a mim, não
havia mais quem protestasse”
(Martin Niemöller).
Todas as vezes em
que ocorre um massacre humano, uma crueldade que choca a humanidade,
como o holocausto nazista, as ditaduras militares, os atentados em
Nova Iorque e em Madrid, o terrorismo do governo norte-americano no
Iraque e no Afeganistão e, recentemente, o genocídio na Rússia, é
comum vermos na imprensa os familiares das vítimas se perguntando
desesperadamente: “porque mataram logo quem não tinha nada a ver com
isso?”. Por outro lado, nós, expectadores, somos tentados a agir com
uma brutal indiferença que parece se justificar na resposta: “eu não
tenho nada a ver com isso!”. Tanto a pergunta como a resposta não
são novas e remetem a um problema maior de nosso tempo: a extrema
falta de solidariedade entre os seres humanos. Diante de um fato
social, a pergunta que podemos nos fazer é “até que ponto eu não
tenho nada a ver com isso?”
Na Alemanha foram
realizados muitos estudos críticos acerca da passividade do povo
alemão com relação ao nazismo. Há um consenso de que Hitler não
contou com a maioria da população para colocar em curso suas
atrocidades, mas contou com a passividade, com a indiferença e a
apatia da maioria, que permitiu o gradativo avanço da barbárie
contra judeus, negros, homossexuais, ciganos, sindicalistas,
comunistas e sociais democratas. A predisposição de aceitar uma
injustiça cometida a outro; a centralização extrema em torno de
interesses pessoais ou, no máximo, quando pertinentes ao grupo
familiar; o cultivo da ordem e da disciplina como valores morais
fundamentais; e o sentimento de bem-estar quando isolado
socialmente, são sintomas de que a indiferença e a carência de
solidariedade continuam muito presentes na atual sociedade alemã. No
entanto, se o confronto com atitudes egoístas extremadas continua a
chocar muitos estrangeiros neste país, a Alemanha não mantém
exclusividade neste comportamento. Considerando que se trata de um
dos países capitalistas mais desenvolvidos do mundo, o comportamento
da maioria do povo alemão é similar ao dos demais, se deixarmos de
lado as diferenças culturais localmente determinadas. Tratam-se de
valores que reproduzem a lógica de uma sociedade cercada de
abundância, centrada na satisfação individual, na concentração de
riquezas geradas por outros, na competição desenfreada por status
social, no consumo como válvula de escape do tédio cotidiano e na
avaliação subjetiva de independência da necessidade do contato
social.
A generalização de
um comportamento de ausência de qualquer responsabilidade com os
fatos sociais não deveria gerar espanto, se verificarmos que ele é o
que boa parte da humanidade almeja como padrão de felicidade para
si. O que nos deveria chocar é que, sendo essa análise correta,
estamos caracterizando um comportamento que tende a se generalizar
com o avanço do capitalismo, ou seja, se nos países do chamado
Terceiro Mundo a miséria material está aumentando progressivamente
para a maioria da população, o “Primeiro Mundo” passa a se
confrontar cada vez mais com uma espécie de “miséria psíquica” de
seu povo, motivada, em boa parte, pela sua atitude consciente de
isolamento e de apatia social. Psiquiatras denominam essa atitude de
fobia social, um fenômeno que, por exemplo, na Alemanha, atinge
cerca de 9% da população. Os sintomas detectados nessas pessoas,
segundo os pesquisadores, vão desde a aceleração cardíaca até crises
de tremedeira causados por excessivo stress em situações de
contato direto com outras pessoas, como telefonemas, apresentação
diante de estranhos e, especialmente, quando há a sensação de
insegurança pelo fato de estarem sendo observadas. Como alternativas
de fuga do problema aparecem, principalmente, o isolamento social, o
fumo e a bebida alcoólica.
A solidariedade,
fenômeno característico de grupos humanos que se vêem confrontados
com necessidades comuns, passa a ser cada vez mais rara em
sociedades de farta abundância material. As condições objetivas de
geração desta riqueza material estão assentadas na objetivação do
ser humano, onde o trabalho, transformado em mercadoria, assume uma
forma abstrata, impedindo as relações diretas entre os sujeitos. As
pessoas se encontram por intermédio das mercadorias e em função da
lógica que permite aumentar seu acesso. Assim, mesmo os encontros
informais de pessoas tendem a estar permeados de intenções e de
interesses que reproduzem uma estrutura social objetivadora dos
seres humanos, que apresenta o individualismo exacerbado como
possibilidade de conquista da liberdade individual. Como resultado,
temos um crescente processo de alienação e estranhamento humanos,
fundamentado e subjetivamente justificado na conquista de um maior
bem estar individual a todo custo. Como afirma Ricardo Antunes, “o
capitalismo dos nossos dias, ao mesmo tempo que, com o avanço
tecnológico, potencializou as capacidades humanas, fez emergir
crescentemente o fenômeno social do estranhamento, na medida em que
este desenvolvimento das capacidades humanas não produziu
necessariamente o desenvolvimento de uma subjetividade cheia de
sentido, mas, ao contrário, ‘pode desfigurar, aviltar etc... a
personalidade humana’, pode também ‘nesse processo sacrificar os
indivíduos (e até mesmo classes inteiras)”.
No que se refere
aos atentados, guerras e seqüestros, onde pessoas inocentes são
vitimadas, tratam-se de momentos em que seres humanos são
explicitamente usados como objeto para atingir interesses econômicos
e/ou políticos. Essa é, aliás, a forma que todo tipo de violência
assume na sociedade: o momento em que pessoas são transformadas em
objeto com vistas à satisfação de interesses de outros. Esse
fenômeno social acontece de forma rotineira, muitas vezes
despercebida ou inconsciente, pois já integra a lógica cotidiana da
maioria das relações sociais. Somente quando a violência conduz a
conseqüências extremas, como a morte, é que muitas pessoas se dão
conta de sua existência, sendo os inúmeros momentos de submissão a
que os seres humanos vêm sendo submetidos diariamente, no trabalho,
na própria família, na relação com os demais, afastados desta
caracterização. Assim, fatos como o desemprego, que atinge 1/3 da
população mundial, cujas pessoas estão com sua perspectiva de vida
submetida à boa vontade dos empregadores; a fome que mata 25 mil
pessoas diariamente, das quais 11 mil são crianças; e a violência
contra as mulheres que, mesmo na Europa, atinge 4 milhões de
vítimas, parecem não sensibilizar a população.
A violência é
cotidiana, mas parece que somente com o sensacionalismo da imprensa
ela se torna tema de debate. Numa sociedade dividida em classes, a
injustiça já está decretada desde o seu princípio, que estabelece a
propriedade dos meios de produção, concentrada nas mãos de cada vez
menos pessoas. A violência atual, como representação da submissão de
uns em relação a outros, é parte integrante da estrutura da
organização social capitalista, no momento em que esta se baseia na
submissão do trabalho assalariado. A desigualdade e a injustiça,
frutos decorrentes desta violência original, só podem vir a gerar
reações de violência por parte dos grupos dominados. A barbárie se
generaliza e, para manter a estrutura em funcionamento, a classe
dominante recorre novamente à violência, sempre que necessário for,
para manter seus privilégios de propriedade, acumulação de riquezas
e poder político.
Se as formas de
violência que a maioria da população presencia, através da mídia,
devem ser condenadas, não podemos esquecer que os atentados, as
guerras e os seqüestros, não são acontecimentos que surgem do nada,
como sendo a origem da violência. O que geralmente não aparece nos
noticiários é que há um contexto, uma história anterior a um
acontecimento. Se o assunto é terrorismo, precisamos identificar
seus motivos, causas e objetivos. Ao procedermos assim, não podemos
deixar de identificar o terrorismo contemporâneo com a lógica
imperialista da sociedade em que vivemos, como bem caracterizaram
Paulo Cézar Tiellet e Paulo Denisar Fraga em artigo publicado nesta
revista, mostrando que o terrorismo é o filho bastardo do
imperialismo: “Os milhões de vítimas do capitalismo tornam
inaceitável que o terrorismo seja criticado unilateralmente, sem que
se faça, do mesmo modo, uma crítica às responsabilidades do
imperialismo norte-americano. Quem duvidar dessa tese terá a chance
de se convencer quando acontecerem as retaliações”.
É impossível
combater a violência na sua raiz (de forma radical, portanto) sem
confrontar as estruturas sobre as quais se baseia a sociedade
capitalista. Seres humanos que passam a depender de grupos armados
para sobreviver, seja servindo às máfias ou aos exércitos, são, ao
mesmo tempo, agressores como vítimas de uma estrutura social que os
submete a defender uma causa, arriscando sua própria vida, para
receber em troca uma chance de sobreviver num mundo em que a
barbárie se torna a regra da socialização e mina a possibilidade de
existência de uma efetiva solidariedade entre as pessoas. Da mesma
forma, as vítimas e seus familiares que reagem violentamente na
tentativa de fazer justiça, incorporam um método que aprofunda a
violência e deixa cada vez mais claro que, diante da desumanização,
restam poucos caminhos de fuga aos que ainda se consideram
inocentes. A solidariedade, que parece ainda existir nestes
momentos, é logo sufocada pelo ódio que sucede à criminalização. Se
quisermos, de fato, entender porque determinadas tragédias humanas
acontecem, ao invés de nos perguntarmos como é possível que pessoas
cometam certas atrocidades, é mais importante refletirmos sobre o
tipo de sociedade que produz certas atitudes e pessoas. Pois, se
continuarmos a pensar que nada temos “a ver com isso”, certamente
muitos continuarão “pagando por isso”. |
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