|
Por HENRIQUE RATTNER
Professor
da FEA (USP), IPT e membro da Associação
Brasileira para o Desenvolvimento de Lideranças (ABDL)
|
|
A
Charada – É Possível Romper o Círculo Vicioso?
O
governo, as empresas, a academia e a opinião pública em geral
enaltecem as maravilhas das grandes empresas, de sua competitividade
e eficiência. Fatores, supostamente, característicos da liberdade
do mercado, capazes de estimular a inovação e os investimentos e
garantir o crescimento econômico que garantirá benefícios para os
consumidores.
A
realidade é bem diversa. Estamos diante de um processo selvagem de
concentração e centralização do capital nas mãos de poucos, sem
qualquer controle privado ou público. Isso tem facilitado uma série
infinita de operações bilionárias fraudulentas, mediante fusões,
incorporações, compras ou transações ilícitas de ações e
outros ativos. Tudo encoberto, até a eclosão dos escândalos, por
uma contabilidade manipulada, que acompanha o enriquecimento
desavergonhado dos principais executivos, às custas dos acionistas,
dos funcionários, dos consumidores e da economia nacional. Quando
estoura a bolha – os casos da Enron, MCI, Tye, Parmalat e outros -
as transgressões da Lei são tratadas como crimes de colarinho
branco; os advogados arrastam os processos por inúmeros recursos,
liminares ou apelações e as penalidades, se as houver, são
totalmente desproporcionais aos crimes de lesa economia e dos prejuízos
sofridos pela população.
Devido
ao clima de impunidade no mundo dos grandes negócios, não há
devolução do dinheiro roubado e a mídia, com raras e honrosas
exceções, se encarrega de diluir ou apagar os fatos da memória e
da opinião pública. Os assaltos à economia popular e ao bolso dos
acionistas e funcionários e, não raramente, as perdas ocasionadas
ao tesouro nacional pela evasão ou sonegação de impostos e
tributos, são minimizados em seus efeitos, diante os supostos benefícios
da livre iniciativa, do crescimento econômico (de quem?) e do
progresso da sociedade. Um estudo publicado pelo Financial Times,
respeitado jornal de economia e finanças, revela que as vinte
maiores empresas do mundo praticamente não pagam impostos. Mas
todas mantêm espalhafatosos programas, divulgados em luxuosos
impressos, sobre suas obras de “responsabilidade social”.
Cumpre-nos,
portanto, apontar os verdadeiros custos da concentração do
capital, incorporando na contabilidade as rubricas de contabilidade
social e ambiental.
Alega-se
que a grande empresa seria mais eficiente por permitir a racionalização
dos processos produtivos e assim, a redução dos custos de bens e
serviços. Contudo tal movimento é invariavelmente seguido de
processos de reengenharia calcados na redução da força de
trabalho, terceirização e “out-sourcing” que têm causado
efeitos desastrosos nas famílias dos desempregados, nas comunidades
onde as fábricas são fechadas; nas regiões cujos sistemas de
transportes e energia acabam sendo desarticulados. Isso vem levando
os elementos mais jovens da população a migrar para os centros
urbanos os quais, por sua vez, são incapazes de absorver esse fluxo
descontrolado desses milhares de deslocados, em busca de habitação,
emprego e serviços básicos de infraestrutura urbana.
Inevitavelmente, irão engrossar a massa de marginalizados e excluídos,
fenômeno evidenciado pelo aumento assustador do número de
favelados no Brasil durante a última década.
Também
é preciso pensar nos custos ambientais, de efeitos mais prolongados
e muitas vezes irreversíveis vêm se acumulando ao longo das últimas
décadas de “progresso”.
Os
dejetos e resíduos da mineração (de bauxita, minério de ferro,
cobre) deixam como herança uma terra arrasada, praticamente
irreversível. Acrescenta-se a poluição de solos e de lençóis
freáticos por efluentes de processos químicos e petroquímicos,
intoxicando fauna e flora e afetando a saúde de trabalhadores e
moradores na área.
O
desmatamento das matas ciliares ao longo do vasto sistema fluvial
destrói a fauna e flora, causa assoreamento dos rios e afeta a
pesca nas áreas costeiras.
A
disposição segura dos resíduos tóxicos de reatores nucleares e a
desativação das instalações, após um tempo de serviço variável,
continuam a figurar na lista dos problemas não devidamente
equacionados e resolvidos.
A
desertificação de vastas áreas do semi-árido, em conseqüência
de sua adaptação para o cultivo de monoculturas ou em pastos para
a pecuária, em expansão constante devido à política de exportações
de carne, altera radicalmente um dos biomas do Brasil, além de
causar a expulsão da população nativa de seu habitat.
O
uso em excesso de pesticidas e fertilizantes químicos na
agricultura em grande escala, além de intoxicar os alimentos de
origem animal e vegetal, contribui para acidificação dos solos e a
paulatina redução de sua produtividade.
Finalmente,
a poluição urbano-industrial, chaga da civilização moderna em
praticamente todos os países que adotaram sistemas de transporte
baseados em combustíveis fósseis, combinada com a fumaça e os
dejetos expelidos por processos industriais, anuncia desastres
ambientais e humanos em extensão e profundidade dificilmente imagináveis.
Tendências
e perspectivas
A
democracia como forma superior do convívio social constitui um
axioma no mundo ocidental. O rompimento das sociedades feudais
estamentais pelas revoluções burguesas abriu os diques para o
ingresso das massas, às quais foram feitas promessas de ascensão e
mobilidade social, ao cenário político da modernidade. No Brasil,
a libertação dos escravos deu início a um processo de migração
para os centros urbanos emergentes, o que obrigou os governos a
empreender modestas reformas sociais, como a implantação da
legislação trabalhista-previdenciária e obras de infraestrutura
de saneamento, habitação e segurança.
Mas,
em vez de uma sociedade dinâmica e democrática, baseada em
solidariedade “orgânica”, surgiu uma divisão cada vez mais
acentuada entre ricos e pobres, reforçando o antigo sistema de
senhores e escravos que, com
o tempo, foi agravada pelo desemprego estrutural e tecnológico.
Os
impasses sociais e políticos facilitaram a ascensão de demagogos
populistas, desvirtuando sistematicamente os resultados das eleições.
Os currais eleitorais, o voto do cabresto e a profissionalização
dos políticos que necessitam cada vez mais recursos para eleger-se,
tornando-os dependentes de grandes empresas, dispostas a investir no
futuro político dos candidatos. Os vínculos assim criados reforçam
a tendência ao nepotismo que engrossa o número de clãs regionais,
tradicionais e modernos, buscando perpetuar-se no poder. Se
acrescentarmos os esforços e as manipulações da tecnocracia,
constituindo seus currais eleitorais mediante a mobilização dos
respectivos partidos, fica configurado o triste espetáculo de casas
legislativas ocupadas por supostos representantes do povo, cujo
maior interesse é acercar-se da “boca do orçamento público”.
Neste cenário, cumpre ressaltar o papel negativo da maioria da mídia
que pouco tem feito para informar e esclarecer a opinião pública,
à medida que está cooptada e manipulada para defender os
interesses do capital.
Presa
na camisa de força da política macroeconômica nacional a serviço
do capital financeiro nacional e internacional, a população dos
excluídos (descamisados, descalçados, sem terra, sem teto e
desempregados) procura desesperadamente por um salvador carismático,
tão freqüente na história recente da América Latina. (Getúlio
Vargas, Juan D. Peron, Jânio Quadros).
Após
a queda das ditaduras na década dos oitenta e a conseqüente
democratização, verificou-se o retorno em massa às crenças
religiosas e o fortalecimento das seitas fundamentalistas que
ensaiaram respostas místicas ao desespero dos pobres diante o
fracasso das promessas de crescimento econômico via progresso técnico.
Se,
antigamente, a divisão da sociedade era mais clara e nítida –
capital contra o proletariado – hoje, as linhas divisórias são
mais difusas, o aglutinamento se faz em torno de interesses e
lideranças locais e regionais. Isso facilita o controle político
do rolo compressor do grande capital que manipula os principais
meios de comunicação e informação, faz eleger seus candidatos a
governantes e coopta os supostos reformistas ou revolucionários,
quando chegam ao governo.
É
possível reverter essa tendência perversa?
Os
cientistas sociais que se debruçam sobre a problemática dos
fracassos do crescimento econômico e suas prováveis causas têm
apontado alternadamente para variáveis geográficas, políticas, étnico-culturais
entre outras, para explicar os sucessos de alguns países e regiões,
particularmente no hemisfério setentrional e os fracassos de
desenvolvimento no hemisfério sul, nas antigas áreas e territórios
coloniais.
Uma
nova política, em vez de apenas remediar os efeitos destrutivos da
lógica da acumulação, é concebida como condição indispensável
do desenvolvimento social e cultural.
Em
todos os debates travados nos últimos anos, o conceito do capital
social tem ocupado espaço crescente, devido à percepção de seus
impactos nas práticas de desenvolvimento. Além da onda de
democratização que varreu o mundo dos países pobres nas últimas
duas décadas, criando condições favoráveis à revisão das
teorias convencionais, está se impondo a percepção do ser humano
como ator social principal.
Em
vez de condicioná-lo por estímulos e sanções positivos ou
negativos (a cenoura ou o chicote do método taylorista), procura-se
trabalhar com a necessidade gregária, o espírito de cooperação e
os valores de apoio mútuo e de solidariedade, como base da eficiência
social coletiva. No clima geral de incerteza e insegurança quanto
ao futuro e tendo em vista o baixo poder explicativo da
epistemologia convencional, torna-se imprescindível a incorporação
de novos conceitos e análises nos debates sobre o desenvolvimento.
Entre
estes, ocupam lugares cada vez mais destacados o capital social e o
papel da cultura.
|
|

|