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Por PAULO ROBERTO DE ALMEIDA
Doutor
em Ciências Sociais, diplomata, autor de vários trabalhos sobre
relações internacionais e política externa do Brasil
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Rumo
a um novo apartheid?
Sobre
a ideologia afro-brasileira
Paulo
Roberto de Almeida,
Sociólogo (ítalo e luso-descendente).
“Faço
questão de me comprometer, igualmente, com o combate às discriminações.
Adotaremos políticas afirmativas para garantir direitos iguais a
todos, sem distinção de gênero, etnia, raça, condição física,
crença religiosa ou opção sexual. Queremos eliminar as
desigualdades, valorizando as diferenças.”
Presidente
Luiz Inácio Lula da Silva
1.
Colocando a questão
Um
espectro parece rondar, atualmente, a sociedade brasileira: o do
apartheid. Refiro-me à possibilidade de surgimento, disseminação
e consolidação de uma nova forma, não menos insidiosa do que a
tradicional (já suficientemente conhecida e combatida), de
apartheid. Trata-se de um apartheid social – não necessariamente
racial –, baseado numa nova separação cultural e ideológica, e
portanto mental, dos brasileiros. Eles passariam a ser divididos em
duas categorias fundamentais: a dos afrodescendentes, de um lado, a
de todos os demais brasileiros, de outro.
Antes
que alguém me acuse de “inimigo dos afrodescendentes” quero
deixar bem claro que reconheço, sim, a existência de uma enorme
defasagem social, educacional, cultural e profissional atuando em
desfavor dos chamados “afro-brasileiros”, que é o resultado
histórico das condições sociais de pobreza e desigualdade que
sempre atingiram com maior acuidade a população de origem negra.
Também sou, sim, explicitamente, a favor de políticas de ação
afirmativa e de favorecimento educacional para os brasileiros pobres
em geral e, em especial, no que for possível, com ênfase acrescida
na situação da população negra. Mas quero deixar manifesto,
desde já, que não acredito que qualquer tipo de “reserva de
mercado” nos exames vestibulares de ingresso no terceiro ciclo
represente uma mudança dramática da situação dos mais
desfavorecidos, brasileiros pobres em geral e populações negras em
particular.
A
questão das cotas no vestibular é um aspecto menor, não o mais
importante, de um problema maior, que é a desigualdade de chances
que vitima os negros e mulatos brasileiros nas várias vertentes de
uma inserção social que teima em ser persistentemente lenta, na
educação, no emprego, nas possibilidades de ascensão social,
enfim. Tenho dúvidas, porém, de que políticas de promoção desse
tipo devam ser conduzidas como resultado de algum tipo de consciência
(ou “remorso”) quanto à necessidade
de reparação histórica à comunidade negra pelos males sofridos
desde o tráfico e a escravidão (e nas fases seguintes de
discriminação de fato ou de indiferença “ativa”). Também
rejeito as alegações dos que são contrários às cotas universitárias
pela suposta necessidade de preservar ensino de qualidade e sistema
de mérito nas universidades públicas (elas já estão, de fato,
trabalhando em uma situação “sub-ótima” no que respeita seus
presumidos “padrões de qualidade” ou de “excelência”, em
razão das muitas disfunções acumuladas ao longo de anos e anos de
democratismo populista, de irresponsabilidade no controle do
desempenho de seus professores, de corporativismo exacerbado e
outros males).
O
que pretendo tratar neste ensaio é uma outra questão: a da emergência
e atual afirmação, ainda que incipiente, de uma ideologia do
“afrobrasileirismo” (à falta de uma melhor definição).
2.
Um problema não apenas conceitual
Em
primeiro lugar, recuso a qualificação de “afro-brasileiros”,
ainda que aceite a realidade de que temos, obviamente, “afrodescendentes”.
Mas os nossos brasileiros “afrodescendentes” são tão
africanos, hoje, quanto eu sou português ou italiano pela minha
ascendência, ou seja, hoje em dia quase nada, ou de fato
absolutamente nada. Somos todos brasileiros, e apenas brasileiros,
ponto.
Isso
se deu ao cabo de um imenso e bem sucedido experimento de miscigenação
étnica e cultural, um processo único no mundo, já suficientemente
explorado por autores vários – entre eles Gilberto Freyre –
para ser novamente explorado aqui. Somos o verdadeiro melting-pot do mundo, muito mais do nos Estados Unidos, que
conservaram vários traços de apartheid racial ou étnico. Não
existem afro-brasileiros no Brasil, assim como não existem AfroAmericans nos EUA: existem negros americanos ou brasileiros
negros, mulatos e das mais variadas colorações, que foram trazidos
ao Brasil – ou aos EUA – como escravos e que se converteram em
brasileiros – ou americanos – como quaisquer outros,
independentemente de serem, e permanecerem, desfavorecidos nos
planos social, profissional e até do reconhecimento cultural. Nos
EUA, a condição estritamente material é até mais favorável aos
negros, bem mais do que no Brasil, diga-se de passagem, mas o
isolamento cultural – e racial – é bem maior, em virtude da
segregação legal que acabou criando duas culturas e até mesmo
dois “universos mentais”, totalmente distintos e em grande
medida opostos. Todo e qualquer processo de miscigenação racial
– ou étnica, para evitar uma terminologia indevida – é único
e original, e o nosso foi verdadeiramente de miscigenação, à
diferença dos EUA, onde jamais ocorreu (salvo de maneira
extremamente marginal) qualquer “osmose” racial entre negros e
as demais comunidades formadoras da população americana.
Quando
digo que recuso o “afrobrasileirismo” é porque acredito que
esse conceito não é o resultado de uma condição étnica,
cultural ou mesmo histórica, mas sim uma ideologia, politicamente
importada e artificialmente explorada, que pode contribuir, também
no Brasil, para a criação do mesmo sistema de aparteísmo racial
ou cultural que se constata existir nos Estados Unidos. Não creio
que seja bom para o Brasil, aliás para os próprios
“afrodescendentes” – quer reconheço existir, como disse –,
aderirmos a uma ideologia que vai contra todos os princípios do
nosso bem sucedido melting-pot,
introduzindo em seu lugar a divisão, a diferenciação e o
apartheid. A promoção dos valores “negros” não deveria em
princípio ser feita em detrimento de valores universais e igualitários
que estão na base de nosso sistema constitucional e cultural.
Muito
bem, diriam os “afrodescendentes”, como resolver o problema da
desigualdade de fato que impede, basicamente, a maior parte dos
“negros” e assemelhados de entrarem na universidade e de
galgarem postos profissionais mais condizentes com o perfil de
ascensão social que se deseja para todos, inclusive os milhões de
brasileiros pobres, brancos ou mestiços de outras etnias, que também
sofrem os mesmos problemas? Como reconheço que a “solução
universal” da melhoria da qualidade das escolas públicas pode ser
uma quimera irrealizável no curto prazo, sou absolutamente a favor
de bolsas de estudo (e outras formas de ajuda) generosamente
distribuídas a “afrodescendentes” candidatos a ingressar em
nossas escolas, de maneira a habilitá-los a prestar um vestibular
nas mesmas condições (ou quase) que os demais.
Ainda
que esta medida possa ser injusta do ponto de vista do branco pobre,
igualmente morador de favelas ou zonas rurais periféricas, creio
que ela pode e deve representar um começo de ação afirmativa no
sentido de resgatar todo o sofrimento imposto pela sociedade
nacional – majoritariamente branca, pelos seus estratos dirigentes
e pelas suas decisões políticas, reconheça-se – à sua
comunidade negra brasileira e outros estratos desfavorecidos. Aliás,
acho que as universidades públicas poderiam e deveriam começar a
oferecer cursinhos pré-vestibulares nos quais elas passariam a
admitir, de modo maciço, todos os brasileiros pobres, em especial
os negros e mulatos. Os estados deveriam desenvolver programas
extensivos de bolsas de estudos (gratuitas, isto é, sem reembolso)
dirigidas prioritariamente aos estratos de baixa renda, em especial
os negros.
Trata-se
de um sistema de “cotas”, sem qualquer “reserva de mercado”
e baseado inteiramente no princípio da meritocracia, que permanece
um sistema válido de seleção de candidatos a quaisquer cargos ou
escolas públicas. Os negros – e outros pobres – do Brasil
precisam de programas intensos de formação educacional e de
preparação profissional: bolsas e cursos de preparação podem
fazer a diferença positiva, sem introduzir a “diferença
negativa” do regime de cotas baseadas em critérios raciais ou
demográficos de escassa legitimidade democrática.
3.
Agora ao coração do problema: a ideologia do
“afrobrasileirismo”
Acredito
que o “afro-brasileirismo” é um conceito em busca de definição,
até mesmo entre seus promotores mais ativos. Não sou um conhecedor
extenso da literatura a esse respeito, mas não me lembro de ter
lido uma definição que fosse sociologicamente sustentável sobre
essa “condição”. Por isso pretendo abordar o problema de um
ponto de vista histórico, antropológico e, em seguida, político-ideológico.
As
definições raciais brasileiras são tão diversificadas quanto a
plasticidade da língua nacional, ou como a própria realidade étnica
subjacente às populações que aqui se misturaram ao longo dos séculos.
Sobretudo a partir da “importação” de negros africanos, entre
os séculos 16 e 19, mas também com base nos elementos autóctones
e nas muitas etnias imigradas desde a independência, constituiu-se
um povo legitimamente brasileiro, dotado de características
singulares no conjunto dos “povos novos” — a definição é
devida ao antropólogo Darcy Ribeiro — e que é certamente
original do ponto de vista das relações interétnicas e culturais
que essas comunidades mantêm entre si. Pode-se indicar a preservação
de certos traços “culturais”, gastronômicos ou religiosos no
interior desses diversos elementos constitutivos do povo brasileiro,
mas dificilmente se poderá apontar, entre eles, diferenças
significativas ou considerar que seus modernos representantes possam
reivindicar um “pertencimento” geográfico outro que não ao próprio
Brasil.
Entretanto,
a partir da importação acrítica de um conceito estranho à
cultura e às tradições sociais brasileiras, a questão da
“alteridade” étnico-geográfica começa agora a ser colocada em
questão no caso dos negros e mulatos brasileiros. Com efeito, a
partir de uma matriz importada dos Estados Unidos está sendo
introduzida no Brasil a concepção segundo a qual, dentre os
diversos segmentos da população brasileira, se encontrariam, não
mais negros, pardos e mulatos (e suas infinitas variações
subjetivas), mas um grupo novo na paisagem social do país: os
afro-brasileiros. Tal como apresentada por seus proponentes,
tratar-se-ia não apenas de uma nova categoria (ou classificação)
étnico-cultural, mas de todo um programa político de promoção
social e da identidade cultural desse segmento talvez majoritário
no País.
Em
que medida essa proposta é demograficamente pertinente,
sociologicamente consistente, historicamente sustentável,
etnicamente adequada e “politicamente correta”? Desde já
esclareço minha posição por um ceticismo de princípio em relação
a esse tipo de conceito e à “realidade” que o sustenta. Não
creio que a noção de “afro-brasileiro” seja positiva do ponto
de vista da integração social das diversas vertentes do povo
brasileiro, podendo mesmo ser negativo para o programa que
supostamente deveria ser o de todos os cidadãos nacionais: superar
a velha segregação racial que ainda persiste apesar dos avanços
logrados, em lugar de construir um novo apartheid racial.
Este
é exatamente o ponto que constitui o objeto destas minhas reflexões
pouco sistemáticas: em última instância, a proposta dos
afro-brasileiros, se implementada como programa político,
redundaria na substituição da velha discriminação racial contra
negros e mulatos, combatida por gerações inteiras da causa negra
brasileira, por um novo tipo de apartheid, a exemplo daquele que se
constituiu nos Estados Unidos depois da abolição da escravidão.
Ele significa, sinteticamente falando, a separação e a promoção
de atitudes, comportamentos e práticas sociais exclusivamente
reservados às populações de origem negra, com todas as suas
implicações negativas para a integração ampliada das diversas
componentes do povo brasileiro.
Antes,
contudo, que se queira ver nos propósitos do autor algum elemento
de racismo antinegro ou de descaracterização da luta
antidiscriminação conduzida por muitos movimentos militantes da
causa negra, gostaria de deixar bem claro minha posição de
partida. Creio, como muitos outros sociólogos ou simples cidadãos,
que o mito da “democracia racial” brasileira é exatamente isso,
um mito, mascarando as muitas práticas não institucionais de
discriminação de fato que, ainda hoje, dificultam a afirmação
econômica, a ascensão social e a auto-estima psicológica dos
negros e mestiços do Brasil. São bastante conhecidos os problemas
que afetam negros e mulatos no Brasil: menor escolarização, renda
inferior e chances reduzidas de mobilidade ascensional, seja no
emprego, seja em outros canais de inclusividade social. A pobreza
que atinge os negros e outras camadas mestiças não é simplesmente
pobreza, mas vem acoplada a outros problemas que alguns sociólogos
chamam de “ciclo cumulativo de desvantagens”.
Feito
o diagnóstico sumário e bem estabelecida a justificativa para uma
política (ou políticas setoriais) de promoção ativa desses
segmentos — às quais sou amplamente favorável, geralmente num
sentido não diretamente discriminatório, mas incidindo de forma
preferencial, e concentrada, nas populações pobres — a questão
que pretendo colocar neste pequeno ensaio é esta aqui: em que a
ideologia afro-brasileira pode contribuir para a superação dessas
desvantagens cumulativas que penalizam obviamente com maior acuidade
aqueles que são objeto de sua atenção?
4. As conseqüências ideológicas do “afro-brasileirismo”: o novo apartheid
Quando
utilizo o conceito de ideologia para referir-me ao programa político
“afro-brasileiro” pretendo denotar exatamente essa característica
básica do termo: trata-se de uma importação acrítica, mais ou
menos clandestina — pois que não reconhecida de forma cabal, e
sem o pagamento do devido copyright
—, de um conceito racial-geográfico pronto e acabado e que se
refere a uma experiência histórica e social alheia às realidades
brasileiras, qual seja a dos Estados Unidos. Como pretendo discutir,
subsistem problemas enormes, e não apenas de ordem epistemológica,
à incorporação ingênua desse conceito ao universo racial, social
e político brasileiro.
O
que seria um afro-brasileiro? Trata-se tão simplesmente de um
brasileiro dotado de ascendência africana? Certamente, mas em que
sentido esse brasileiro negro, da era contemporânea, continua sendo
africano? Provavelmente tanto quanto eu, neto de imigrantes
portugueses e italianos, continuo sendo europeu, ou seja: nada, ou
quase nada. Sou tão “europeu” quanto meu concidadão negro é
“africano”, ou seja muito pouco, apenas por vagas identidades
ancestrais que nos definem muito pouco em nossa atual identidade.
Quero crer que somos ambos apenas e tão somente brasileiros.
Em
outros termos, não apenas é difícil, mas afigura-se impossível
definir grupos humanos mediante uma origem indistintamente
“continental”, uma vez que pessoas e núcleos familiares se
afiliam a determinados grupos humanos com identidades mais restritas
do que o âmbito geográfico continental. Mormente no caso dos
atuais brasileiros negros, trazidos ao Brasil como escravos em lotes
individuais (em alguns casos do mesmo grupo de origem), suas tribos
e etnias de origem perderam-se irremediavelmente, logo em seguida,
na terrível mistura humana realizada pelos escravagistas e depois
pela sociedade de “acolhimento”. Assim como parece difícil, no
Brasil contemporâneo, falar de “eurobrasileiros” ou “ásiobrasileiros”,
seria virtualmente impossível, nas condições ainda mais
desestruturadoras da “imigração” africana, justificar a existência
dessa categoria recriada de “afro-brasileiros”.
A
rigor, pretendendo atribuir uma origem geográfica a todos os outros
imigrantes voluntários, poderíamos falar de “ítalo-brasileiros”,
ou “nipo-brasileiros”, por exemplo, pois eles possuem características
sociais e culturais similares, identificando-se pela língua ou
pelos costumes comuns, inclusive religiosos e alimentares. Ora, tal
não ocorre com os supostos “afro-brasileiros” — ou ocorreria
em escala muito menor, apenas no caso de certos grupos lingüísticos
e religiosos concentrados na Bahia, identificados com a religião
islâmica —, uma vez que eles são o resultado da mais trágica e
desumana “emigração” conhecida em toda a história da
humanidade, processo ocorrido ao longo de séculos e séculos de
transferência forçada de lotes inteiros de indivíduos, arrancados
de grupos de origem que poderiam ser bantos, ovambos, ibos, haussas
ou quaisquer outros capturados pelos mercadores. Contrariamente aos
imigrantes voluntários, eles não tiveram condições de preservar
— salvo casos extremamente restritos — línguas ou costumes de
origem, que de resto se espalhavam por várias regiões africanas.
Um história sem dúvida alguma trágica, mas esta é a herança de
vários séculos de escravismo e de colonização do Novo Mundo.
Não
se trata, assim, de uma realidade brasileira, pois esta é uma história
universal. Ou seja, não existem afro-brasileiros, assim como não
existem afroamericanos ou afroqualquer outra nacionalidade que se
queira. Existem negros, ou mestiços, americanos, brasileiros,
colombianos, venezuelanos, cubanos, e vários outros mais, em
resumo, cidadãos negros ou mulatos que se tornaram cidadãos de
seus atuais estados nacionais. Se isto é um fato, como se justifica
o aparecimento e consolidação dessa ideologia racialista?
Segundo
minha interpretação, essa construção ideológica apenas surge
como resultado da situação peculiar dos negros americanos,
submetidos durante décadas e décadas a uma situação de apartheid
de fato e de direito que os converteu em cidadãos de uma categoria
à parte nos Estados Unidos. Eles já não eram africanos, a
qualquer título — tanto porque o tráfico foi precocemente
substituído pela “criação” de escravos —, mas não possuíam
os direitos e franquias dos demais americanos, de origem branca e
européia. A situação se agravou, paradoxalmente, depois da guerra
civil, uma vez que a segregação foi sendo lentamente construída
ao longo do último terço do século 19 e início do século 20
(aqui com o consentimento e o estímulo do governo federal e da
Suprema Corte). A evolução terminológica acompanhou a tomada de
consciência do problema negro nos Estados Unidos: eles primeiro
foram “negros”, no sentido mais pejorativo do termo, isto é niggers, depois se converteram, numa conotação menos agressiva, em
colored ou black people, para serem finalmente enquadrados, até com o seu
consentimento, nessa categoria aparentemente inocente de African Americans.
Este
o termo oficial — falso, hipócrita, de fato irreal e
historicamente não fundamentado — sob o qual são atualmente
identificados os negros americanos, aliás bem mais negros do que no
Brasil, pois que não dispondo do mesmo “estoque” (inicial ou
produzido) de mestiços e mulatos e dos “fluxos e refluxos” de
outras categorias intermediárias. Compreende-se sua utilização,
nos Estados Unidos, num sentido parcialmente ideológico, pois que
servindo para fundamentar uma luta pela afirmação de direitos
civis e, concomitantemente, pela promoção da igualdade de chances
nos mercados laboral e educacional, luta sustentada tradicionalmente
pela Associação Nacional para o Avanço do Povo de Cor (NAACP).
Menos compreensível parece ser a introdução no Brasil, de forma
consciente, de um conceito de separação, não de inclusão, que
seria supostamente o objetivo maior de todos as categorias de
brasileiros.
Aparentemente,
porém, os negros brasileiros não desejam ser simplesmente
brasileiros, mas sim esta outra condição, irreal e construída, de
“afro-brasileiros”. Que tipo de conseqüência poderia ter esta
atitude para a (des)construção da nação brasileira?
5.
A revolução cultural em marcha: a valorização das diferenças
Transcrevo
novamente, para comentar, a frase destacada em epígrafe, retirada
de um dos discursos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva,
certamente preparada por um militante da chamada “causa negra”
para apoiar as políticas de promoção de direitos das minorias e
de grupos sociais desfavorecidos, adotadas conscientemente pelo
governo: “Faço questão de me comprometer, igualmente, com o
combate às discriminações. Adotaremos políticas afirmativas para
garantir direitos iguais a todos, sem distinção de gênero, etnia,
raça, condição física, crença religiosa ou opção sexual.
Queremos eliminar as desigualdades, valorizando as diferenças.”
Minha
opinião é a de que “garantia de direitos iguais” deve existir,
em princípio, via criação de condições ou oportunidades iguais
para todos, o que se dá geralmente por meio da educação
(essencialmente nos dois primeiros ciclos de ensino e na vertente técnico-profissional).
Políticas afirmativas são, por definição, discriminatórias em
sua essência e intenção, o que acarreta o risco de criar novas
formas de apartheid social ou racial, num país que deveria eliminar
as desigualdades eliminando também as diferenças, por meio da
miscigenação ativa, não via exaltação de valores étnicos ou
raciais exclusivos (e portanto excludentes).
Antevejo
um sério problema “político” em relação ao que acabo de
expor, isto é, a promoção de uma política de “miscigenação
ativa”, que entendo ser a única solução efetiva para os males
– não só no Brasil, mas em todo mundo – da discriminação e
do racismo: os militantes da “causa negra” me acusarão de
tentativa de “branqueamento”, quando não do “crime de etnocídio”,
ao pretender eliminar o problema via mistura racial. Eu responderia
de imediato que é isso mesmo, pretendo não apenas “acabar” com
a “raça negra” – mesmo não concordando com tal caracterização
– mas também com a “raça branca” (e a “asiática”, e a
“médio-oriental”) e outras tantas mais que podem existir neste
país tão variado, e instintivamente tão integrado, como é o
Brasil. A eliminação das diferenças de “raça” – essa
palavra tão enganosa e deformadora, mas ainda assim tão útil do
ponto de vista daqueles que se colocam do ponto de vista das diferenças,
que não é o meu – é a única forma efetiva de se cortar pela
raiz qualquer sentimento de rejeição em face da “alteridade”,
pelo simples motivo de que não haveria mais, pelo menos idealmente,
nenhum tipo de “alteridade” estritamente definida.
Creio
mesmo que o Brasil encontra-se muito mais perto de realizar esse
ideal da miscigenação “hegemônica” antes que qualquer outro
povo do mundo. Os EUA poderão ser, talvez, e de certa forma já são,
o primeiro país “multinacional” do planeta, haja vista a
constante imigração e o afluxo ininterrupto dos mais diversos
povos naquele país continente. Mas eles demorarão um certo tempo,
se é que conseguirão de verdade chegar à condição desejável,
para atingir a etapa que reputo indispensável e necessária de ser
ou constituir progressivamente uma sociedade verdadeiramente
“multirracial”. Acho que o Brasil encontra-se mais perto desse
ideal, ainda que sua “inclusividade nacional” seja bem inferior
à dos EUA. Não importa: o relevante é a atitude mental e o
comportamento social subjacentes à esse ideal de miscigenação, e
nisso o Brasil parece imbatível.
O
único obstáculo a esse estado de “abolição de fronteiras étnicas”
– uma imensa revolução no caminho de um gênero humano
potencialmente “globalizado” – é representado, precisamente,
pela ideologia das “diferenças”. Por que a “diferença”
teria de ser um valor em si, independentemente e à parte da
diversidade cultural entre povos distintos, o que é um fato da história?
O perigo que vejo nesse “culto das diferenças”, em especial em
se tratando de grupos étnicos, é justamente o da separação, o do
apartheid.
Registre-se,
aliás, que não vejo a promoção das “diferenças” como
iniciativa política de qualquer outro grupo racial ou étnico no
Brasil, à exceção dos próprios negros ou “afrodescendentes”.
Atribuo essa especificidade “política” à história de
discriminação social e mesmo de racismo aberto ou velado que
reconheço ter existido e que ainda existe no Brasil. Compreendo sua
existência, mas não creio, sinceramente, que ela seja boa, desejável
ou até mesmo funcional do ponto de vista das políticas de promoção
ativa de inclusão social, de igualdade de fato, racial e cultural,
e do ponto de vista da construção de uma “nacionalidade
brasileira” inclusiva e abrangente.
A
ideologia afro-brasileira representa a negação de tudo o que
representamos como nação e como povo. Não creio que os
afrodescendentes brasileiros estarão mais bem servidos, do ponto de
vista cultural, material ou mesmo espiritual, com uma ideologia
grupal que exalta a diferença e promove a separação. Acredito
mesmo que os militantes da causa negra não deveriam jactar-se de
defender a causa de uma ideologia importada, que não tem nada a ver
com a realidade brasileira e que resultaria, afinal de contas, numa
construção artificial do ponto de vista da história e da
psicologia social dos negros.
As
discriminações devem ser efetivamente combatidas, não pela criação
de novas formas de discriminação, tanto mais patéticas quanto
voluntariamente adotadas, em nome de uma ideologia importada que não
visa, de fato, promover a inclusão social, mas o desenvolvimento
separado e combinado dos vários grupos étnicos em que se divide,
até aqui, a população nacional de grandes países multi-étnicos
como o Brasil e os EUA. Uma sociedade verdadeiramente integrada,
como pode chegar a ser a sociedade brasileira em futuro não muito
distante – se não socialmente, mas pelo menos do ponto de vista
“racial” –, representa uma sociedade na qual não apenas as
discriminações de fato sejam uma relíquia do passado mas também
uma formação social na qual o racismo se torne uma hipótese
inexistente até do ponto de vista teórico, pela impossibilidade prática
de qualquer tipo de “separação racial”.
Isto
é o que eu penso, de verdade. Se ouso parodiar o líder negro
Martin Luther King, incansável batalhador das causas cívicas (e não
da causa racial) nos EUA, eu diria, simplesmente: “eu tive um
sonho…”
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