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Em
defesa da liberdade de cátedra
Mao-tsé-tung,
líder do regime socialista chinês, promoveu uma grande Revolução
Cultural na década de 60. Um dos pontos desta Revolução consistiu
no incitamento dos estudantes para delatarem professores que
estivessem contaminados pela ideologia burguesa. Muitos professores
caíram em desgraça. Os estudantes espancaram e humilharam
professores experientes e competentes e os expulsaram das
Universidades achando que estavam contribuindo para sanear o
socialismo eliminando as laranjas podres do sistema.
Com
a mesma prepotência, Mao-tsé-tung promoveu uma outra campanha para
elevar a produção agrícola chinesa. A avaliação de seu governo
era de que os pardais constituíam a praga responsável pela baixa
produtividade na agricultura por comerem as sementes e danificarem
as plantações.
Milhões
de chineses foram mobilizados nessa campanha e os pardais foram
praticamente dizimados. A conseqüência foi desastrosa: houve uma
proliferação assustadora dos insetos que serviam antes de alimento
aos pardais. Estes insetos destruíram a agricultura chinesa e
provocaram muita fome e desolação. Algumas fontes dizem que foram
mais de 30 milhões de chineses dizimados pela fome.
A
minha intenção, ao contar essa história não foi levantar uma crítica
ao socialismo. Quem sabe o que era a China antes da revolução
socialista e o que se tornou depois não pode cair nesse engodo.
A
minha intenção, aqui, é fazer um alerta. No Brasil, durante a
ditadura militar, muitos intelectuais foram delatados, presos,
aposentados e exilados. A similaridade entre os dois fatos históricos
está na eliminação da liberdade dos intelectuais, inclusive a
liberdade de cátedra. A conseqüência disso foi a supressão de críticas
às barbaridades cometidas pelos governantes. Mao-tsé-tung eliminou
os cientistas que tinham idéias contrárias às de seu governo. Os
militares no Brasil eliminaram os intelectuais que defendiam um
projeto de construção nacional independente do capital
estrangeiro. Antes do regime militar, a nossa dívida externa era
inferior a 3 bilhões de dólares. No final do regime, a dívida
havia saltado para cerca de 100 bilhões e nunca mais parou de
crescer devido ao aumento unilateral das taxas de juros e devido ao
pagamento interminável dos serviços da dívida externa. Sabemos
que a decisão dos militares de sufocar os opositores está custando
caríssimo ao Brasil até hoje. A dívida externa brasileira deve
estar em torno de 250 bilhões de dólares. A política do governo
para garantir o pagamento dos juros dessa dívida é que está
sufocando o crescimento econômico e reproduzindo a miséria de mais
de 50 milhões de brasileiros. O pensamento único custou caro ao
Brasil e, inclusive, às Ciências Humanas. Não estamos formando
mais cientistas sociais do porte de Florestan Fernandes e Octavio
Ianni mesmo com o grande aumento no número de diplomados.
Estes
dois fatos históricos servem para refletirmos sobre o papel dos
cientistas sociais dentro da sociedade e, mais particularmente sobre
a liberdade de cátedra de professores.
Sem
liberdade na produção de conhecimento e na prática de ensino
dentro das Universidades, a sociedade é que acaba sofrendo as
conseqüências. O Regimento da UEM estabelece, quanto a isso, que a
Universidade deverá assegurar a plena liberdade de estudo,
pesquisa, ensino e expressão, permanecendo aberta a todas as
correntes de pensamento.
É
verdade que são necessários mecanismos regimentais para evitar
arbitrariedades de professores dentro da sala de aula. O que
pretendemos assinalar é que não podemos criar um ambiente
semelhante ao do programa Big Brother Brasil da Rede Globo onde se
sabe de tudo o que os seus participantes fazem. Se criarmos um
ambiente semelhante, a Universidade não estará mais servindo para
a Educação de pessoas e sim para a deformação de seu caráter.
Estaremos vivendo num ambiente típico de totalitarismo.
Defendo
o respeito mútuo entre colegas que exprimem, de forma aberta ou não,
posições de caráter político, teórico, metodológico e pedagógico
conflitantes. Politizar as discussões significaria explicitar os
conflitos existentes e colocá-los na mesa de debates, deixando bem
claro que não existe neutralidade nas ciências humanas. Quem se
propõe neutro, ou está sendo desonesto ou ingênuo.
É
claro que não se trata de travar uma luta de vida e morte, num jogo
de soma-zero, para ver quem irá impor sua concepção de ciências
humanas. É muito benéfica a convivência de concepções antagônicas
dentro de um curso porque toda pluralidade é enriquecedora.
É
importante estabelecer um pacto democrático em torno de um objetivo
comum, o de construir um bom curso de Ciências Humanas. Deve-se
discutir e definir os caminhos e os procedimentos para que este
objetivo comum seja atingido. E um procedimento que pode contemplar
os diferentes projetos seria a criação de uma grade curricular que
dê maior autonomia aos alunos oferecendo a eles a possibilidade de
optar pelo tipo de formação que desejarem fazendo escolhas diante
de diversas disciplinas optativas oferecidas dentro e fora dos
Departamentos. Dessa forma, poderemos impedir a construção de um
pensamento único nos cursos de Ciências Humanas.
Autonomia
didática
Ninguém
deve interferir em atividades realizadas dentro da sala de aula onde
a autoridade do professor precisa permanecer soberana.
Particularmente, defendo a autonomia didático-pedagógica do
professor porque essa autonomia diferencia uma instituição pública
de ensino superior das instituições privadas. Os resultados advindos da autonomia são
evidentes: a qualidade da dedicação ao ensino que nasce do
trabalho feito por vontade e não por obrigação; a busca espontânea
de aprimoramento pessoal e de alternativas didático-pedagógicas
mais eficazes; a possibilidade de preservação da convivência
normal do professor com a turma de alunos e, sobretudo, o pluralismo
na expressão de idéias que é algo essencial para qualquer projeto
pedagógico que seja verdadeiramente democrático. Na era moderna,
— a história do século XX demonstrou isso —, não existe a
possibilidade de constituição de sociedades e de instituições
sem a concessão da devida autonomia ao indivíduo. Todas as experiências
de totalitarismo fracassaram desastrosamente. A diversidade é não
só enriquecedora como também absolutamente necessária para o
desenvolvimento do conhecimento e da sociedade. A intolerância deve
ser banida da academia. Ama o controle e mata a vida, como diria
Erich Fromm.
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