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Por
PAULO MEKSENAS Sociólogo
e doutor em educação pela USP. É autor do livro Pesquisa
Social e Ação Pedagógica, São Paulo, Loyola, 2002.
Atualmente é professor adjunto no Centro de Ciências da Educação
da UFSC.
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O
lugar da ética no trabalho do (a) professor (a)
Muitas
são as reflexões acerca do papel social do professor(a) na
modernidade. Em número crescente surgem os artigos; os ensaios e as
teses, que buscam indicar os caminhos necessários ao exercício
desta profissão. Assim, se escreve sobre como é ou deve ser a relação
do professor com os pares e com os seus alunos; a respeito das relações
didáticas e inerentes à socialização do conhecimento; das lutas
à democratização do ensino; da violência e da crise da instituição
escolar; dos modos e das formas da gestão em políticas públicas
na educação. Por outro lado, ao mergulhar na discussão da prática
docente no cotidiano institucional poderíamos indagar: como os
professores se posicionam diante das noções de bem e mal; do justo
ou injusto; do que é ou não correto? Ou, em outros termos, como os
aspectos de uma moralidade profissional podem constituir-se em
posturas éticas no exercício da profissão? Assim, a presente
reflexão busca formular algumas questões sobre o lugar da ética
no trabalho do professor(a).
Definições
sintéticas indicam o início da discussão do tema em questão e,
nesse aspecto, a moral pode ser um ponto de partida desejável se
entendida como um corpo de regras e normas, socialmente aceitas como
as mais adequadas para a vida de uma coletividade. Sejam as normas e
regras sancionadas juridicamente e na forma de leis ou, os costumes
e hábitos sociais que se impõem ao grupo ao longo de sua história.
A moral, ao constituir-se como um fenômeno que regula a vida social
e que julga o agir considerado correto ou errado, coloca a questão
da tensão/conflito que se estabelece entre o sujeito e a esfera
social. Nesse ponto da discussão, podemos afirmar que o indivíduo
define-se pela sua capacidade de pensar; julgar e querer,
levando-o a posicionar-se frente ao mundo e frente aos outros: compreendendo;
escolhendo e desejando. Por outro lado, essa tríade
afirma-se na sua relação com uma outra: de contexto; de organização
do trabalho; de história, isto é, emerge no
campo das necessidades; da produção e reprodução
da materialidade humana e, ainda, constitui-se como ações
no mundo. Tais ordens estão em tensão porque nem sempre o compreender;
o escolher e o desejar coincidem com as delimitações
inerentes ao contexto; à organização do trabalho e
à história. Trata-se do velho conflito indivíduo –
sociedade e em meio a tal, os prepostos da moral modelam as
escolhas individuais frente às necessidades sociais.
Na
modernidade a moral não é espelho do contexto; trabalho e história
de uma coletividade, mas de uma classe social: a burguesia.
Nem de toda ela, mas da fração de classe que se impõem,
em determinado momento, como hegemônica. Desse modo, aquilo que é
tido como socialmente justo ou injusto; o bem e o mal; o certo e o
errado; não corresponde à compreensão; escolha e desejo de cada
indivíduo e nem do conjunto dos participantes da vida social. Ao
contrário, reflete o contexto; a organização do trabalho e a história
da fração dominante e que apresenta as suas particularidades como
se fossem as determinações da totalidade social. Tais
particularidades de classe também não coincidem de maneira unívoca
às concepções da classe que as produziram: trata-se, a moral, de
uma concepção invertida do real em que, num mundo povoado de
mercadorias, cria a ilusão da qual as coisas/objetos, e não
o ser humano, é que determinam as regras da vida social.
E assim, seguindo as pistas lançadas por Marx, podemos
afirmar que a moral, sob a sociedade burguesa, assume a forma de ideologia.
E qual seria o seu cerne? Novamente podemos recorrer a Marx e buscar
a explicitação da moral no contexto; trabalho e história
da sociedade burguesa e sintetizada em uma máxima:
Cada
homem especula sobre a maneira de como criar no outro uma nova
necessidade para o forçar a novo sacrifício, o colocar em nova
dependência, para o atrair a uma nova espécie de prazer e, dessa
forma, à destruição (...) quanto menos cada um comer,
beber, comprar livros, for ao teatro, ao bar, quanto menos cada um
pensar, amar, teorizar, cantar, pintar, poetar etc., mais economizará,
maior será sua riqueza, que nem a traça nem a ferrugem corroerão,
o seu capital. Quanto menos cada um for, quanto menos cada um
expressar a sua vida, mais terá, maior será a sua vida alienada e
maior será a poupança da sua vida alienada (Marx, 2002: 149 e
152).
Em
outros termos, a moral como ideologia sedimenta uma práxis que
transformou a realização pessoal, promovida entre indivíduos e
destes com a coletividade, em mero prazer obtido pela posse do
objeto. No lugar de fazer-me indivíduo pela minha interação com
os outros, me torno uma particularidade fechada em mim mesmo, pela
coleção de mercadorias que possuo e, para tal, vale tudo:
quanto menos cada um pensar, amar, teorizar, cantar, pintar, poetar
etc., mais economizará [para comprar mercadorias], maior será
sua riqueza [de objetos inúteis], que nem a traça nem a
ferrugem corroerão ...
Sob
o signo desta moral, tornada historicamente ideologia, é que outras
pequenas morais, não de classe e sim de grupo,
afirmam-se. Entre elas, aquela correspondente ao exercício da
profissão docente, que se constitui por códigos do que é certo ou
errado; justo ou injusto; do bem e do mal no exercício da profissão.
É óbvio que essa moralidade profissional está imbricada com a
ideologia: sempre vemos no cotidiano escolar a defesa que muitos
professores fazem a respeito do dever de seus alunos em
prepararem-se para o mercado, no lugar da crítica; professores
portando e adorando griffes – verdadeiras ou falsas, em vez
do questionarem-se a respeito; defendendo, com pouca consciência,
que a posse de objetos é mais importante que as interações
sociais. Entre professores, o que é certo ou errado; bem ou mal;
justo ou injusto, acaba determinado pela grande moral
ou ideologia. Porém e contraditoriamente, a moralidade do professor
pode adquirir formas de maior independência frente à ideologia,
pois aquela pequena moral profissional, ao originar-se
da prática cotidiana do experimentar a profissão, permite
concordar ou discordar com os prepostos da grande moral ou ideologia.
Um
exemplo tipifica esta última questão. Imaginemos um(a)
professor(a) do ensino público, que foi designado a lecionar numa
escola situada em região urbana com altos índices de violência.
Ao vivenciar as primeiras semanas neste contexto, tal professor(a)
percebe as dificuldades na realização do seu trabalho. O que seria
correto: continuar lecionando em tal realidade, ou buscar um
contexto menos violento para exercer a sua profissão? Caso a
escolha seja a de ir ao encontro de uma nova escola em região menos
violenta, o professor(a) em questão faria uma escolha moral, pois
adotaria a regra socialmente tida como correta: afastar-se do perigo
e proteger-se; é bom lembrar que o individualismo faz parte da
grande moral moderna. Porém, a escolha poderia ser outra:
permanecer na mesma escola, sob todos os riscos e, ainda, engajar-se
em movimentos pela paz. Essa outra opção se daria por meio de uma
escolha ética. E qual a diferença em ambas? Na primeira o agir
profissional está vinculado a uma escolha comum, pois admitir que
cada um deve pensar em si mesmo é algo valorizado. Já, na segunda,
o agir se aproximaria de uma escolha capaz de interrogar-se e
questionadora da validade de um aspecto moral. Neste ponto está o
significado da postura ética na profissão: o interrogar-se a
respeito da prática profissional na perspectiva da crítica da
pequena moral.
Deste
pequeno exemplo, ainda poderíamos pensar outros, aprendemos que
todos os professores são pessoas morais, o que não significa que
tenham postura ética em todo momento. A ética situa-se acima da
moralidade porque é capaz de questiona-la. Nesse sentido, é
esclarecedora a posição de Nascimento quando afirma: a questão
ética não se restringe ao plano da aceitação das normas
socialmente estabelecidas nem se reduz ao problema da criação dos
valores por uma liberdade solitária. Nasce na existência concreta
de cada um, da consciência dos valores envolvidos no reconhecimento
da inalienável dignidade da pessoa e do sentido da responsabilidade
pessoal diante do outro, cujo rosto é um apelo constante a ser
respeitado e promovido (1984:16). Daí a importância em
qualificar o trabalho do professor(a) como uma atividade que
ultrapasse a dimensão moral na direção da postura ética, pois
apenas esta última é capaz de estabelecer os projetos sociais
geradores da nova tríade – contexto; trabalho e história. Em
suma, a ética permite a crítica à pequena moral e pela crítica
é possível questionarmos a ideologia, lançando-nos em diferentes
alternativas sociais.
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