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Por
MÁRIO MAESTRI Mário
Maestri, 56, gaúcho, é historiador. Escreveu em parceria com
Florence Carboni A linguagem escravizada [São Paulo:
Expressão Popular, 2002]
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Por
que não canto o Hino Nacional
No
início do século 19, os soldados franceses enviados por Bonaparte
para vergar a barbárie e restabelecer a civilização na
parte francesa da ilha de Santo Domingos, futuro Haiti, escutavam,
ao longe, assustados e perplexos, o ressoar da canção querida que
seus oficiais lhes proibiam cantar. Eram os negros insurrectos que,
entoando a Marselhesa, surgiam da profundeza da noite para
desbaratar as linhas do exército invicto.
Avante,
filhos da Pátria
O
dia de glória chegou
Contra
nós, levantou-se,
O
estandarte ensangüentado da tirania.
Escutai,
nos campos, rugir esses ferozes soldados?
Eles
vêm, nos nossos braços,
degolar
vossos filhos, vossas companheiras.
Às
armas, cidadãos! Formai, vossos batalhões!
Marchemos!
Marchemos!
A
Marselhesa teria sido composta para o exército do Reno, em
1792, pelo capitão-engenheiro Claude-Joseph de Lisle Rouget. Ela
transformou-se na principal canção popular marcial e, muito mais
tarde, no hino nacional da França, pela decisão e vontade anônimas
e soberanas da população nacional em armas.
A
Marselhesa foi selecionada entre tantos outros hinos porque
na forma e no conteúdo sintetizava o entusiasmo com que a França
democrática, republicana e plebéia levantava-se para vergar os
aristocratas e conservadores que, dentro e fora do país,
coligavam-se contra a revolução.
Após
o golpe militar de 1799, Bonaparte proibiu aos soldados franceses
cantar a Marselhesa, tamanha era seu poder de invocação
democrática e revolucionária. A tradição conta que teria apenas
permitido que fosse entoada, por uma única vez, em 1805, em
Austerlitz, quando da grande vitória sobre os imperadores da Áustria
e da Rússia.
Pela
Internacional!
No
século 19, através do mundo, a Marselhesa tornou-se a canção
do movimento democrático e socialista. Em 1870, com a Terceira República
francesa, ela foi reconduzida como hino patriótico francês.
Portanto, em 1871, na Comuna de Paris, o mundo do trabalho e a ordem
do capital defrontaram-se, de armas à mão, cantando o mesmo hino.
Durante
os combates parisienses, foi composto o “Canto da Internacional:
hino dos trabalhadores”, que o Jornal Oficial da Comuna falhou ao
prognosticar como a possível “Marselhesa da nova Revolução”
– como lembra Luiz A.
Gini. Cem mil trabalhadores foram mortos, fuzilados ou aprisionados
durante e após os combates pelas forças da reação burguesa.
O
“Canto da Internacional” não prosperou. Porém, a canção
revolucionária “A Internacional”, com música do operário
Pierre Degeyter [1888] e poema escrito por Eugène Pottier, que
participara da Comuna, em 1871, terminou celebrizando-se, no fim do
século 19. Desde então, “A Internacional” constituiu o hino
dos trabalhadores franceses e de
todo o mundo, cantado com a mesma música nos mais diversos idiomas.
De
pé, ó vítimas da fome!
De pé, famélicos da terra!
Da idéia a chama já consome
A crosta bruta que a soterra.
Cortai o mal bem pelo fundo!
De pé, de pé, não mais senhores!
Se nada somos neste mundo,
Sejamos tudo, ó produtores!
Refrão
(bis)
Bem
unidos façamos,
Nesta luta final,
Uma terra sem amos
A Internacional.
Macieira
não dá laranjas. A gênese histórica e social radicalmente
distinta do hinário patriótico brasileiro explica seu nulo poder
evocativo popular e democrático. A ruptura da união do Brasil com
Portugal foi certamente o movimento de independência mais atrasado
e mais conservador das três Américas.
Para
tranqüilizar os interesses britânicos e portugueses, as elites
provinciais do Brasil aceitaram o tacão centralizador e despótico
de um príncipe português que era, igualmente, o herdeiro da coroa
lusitana que renegavam. Para garantir a continuidade da ordem
negreira, os grandes proprietários de todas as províncias optaram
por um Estado monárquico, centralizador e antiliberal.
Independência
de branco
Muito
logo, os senhores teriam a prova amarga da tacanhice da solução
bragantina. Em novembro de 1823, apenas quatorze meses após o
Sete de Setembro, dom Pedro desferia o primeiro golpe militar do
Brasil independente, fechava a assembléia nacional constituinte e
legislativa, ditava a constituição ant-liberal que governaria o
Brasil até 1889.
A
Independência de 1822 foi coisa de branco, de escravista e de rico,
pra branco, escravista e rico. A grande maioria da população
trabalhadora, formada por africanos e brasileiros escravizados,
prosseguiu sob o jugo absolutista e colonial do bacalhau de cinco
dedos do escravista impiedoso.
O
“Hino da Independência” teve autores mais ilustres do
que a Marselhesa e a Internacional. A letra foi
escrita por Evaristo da Veiga, prócer da Independência, e a música,
composta pelo imperador em pessoa. Em verdade, o hino já seria
executado, em 7 de setembro, à noite, no Teatro da Ópera, em São
Paulo, diante do digno compositor e da igualmente digna elite
escravista da cidade. Tudo muito chic e oportuno, portanto!
Uma independência socialmente excludente geraria hino esteticamente
excludente.
Já
podeis da Pátria filhos,
Ver
contente a mãe gentil;
Já
raiou a liberdade
No
horizonte do Brasil.
Como
assinala Flávio R. Kothe, em O cânone imperial, o primeiro
verso realiza-se na segunda pessoa do plural, comum à linguagem áulica
da Corte e desconhecida da população livre pobre, para não falar
da população trabalhadora, que se comunicava em boa parte através
de línguas e koinés africanas e indígenas.
A
contradição berrante entre os “filhos da pátria” que saudavam
a “liberdade” que raiara “no horizonte” e as multidões de homens e
mulheres de pele negra e parda acorrentadas à escravidão até a
morte registrava o fato de que a massa trabalhadora não faria,
sequer formalmente, por 66 anos, parte da nação que surgia.
A pátria que se criava tinha poucos mas escolhidos filhos.
República
do fazendeiro
O
golpe militar de 15 de novembro de 1889 pôs fim a um centralismo
monárquico que a Abolição tornara desnecessário e, de lambuja,
sufocou a proposta de refundação da nacionalidade brasileira
defendida pelo movimento abolicionista. Então, todos os habitantes
do Brasil passaram a participar, formalmente, de uma república
essencialmente federalista e oligárquica e nulamente democrática e
plebéia.
A
ruptura com o passado monárquico exigiu a produção de novos símbolos
republicanos, em geral construídos com o velho e usado material
simbólico imperial, para que não esquecessem que, no fundo, pouco
mudara. Em forma ainda mais radical, o hino mais cantado na República
materializou formalmente a profunda rejeição, pelas novas elites,
das classes populares, na nova ordem republicana.
As
exóticas inversões sintáticas e o elitismo vocabular dos versos
do Hino Nacional Brasileiro, musicado por Francisco Manuel da Silva,
em 1841, registraram plenamente o elitismo da nova república dos
coronéis e latifundiários, onde se manteve o mundo do trabalho na
submissão, a ferro e fogo, se necessário, como comprovam, entre
outros sucessos, a guerra de Canudos-Belo Monte, em 1897; a Revolta
da Chibata, em 1910; a guerra do Contestado, em 1912.
O
pernosticismo lexical e o preciosismo sintático usados por Osório
Duque Estrada, na construção, em 1909, da letra definitiva do Hino
Nacional, foram tão radicais que
ele ainda hoje é praticamente incompreensível para a imensa
maioria da população, incapaz de dar sentido a vocábulos
retorcidos como “plácido”, “retumbante”, “fúlgido”,
“resplandecente”, “impávido”, “florão”, “garrida”,
“lábaro”, “verde-louro”, “clava” etc.
Ouviram
do Ipiranga as margens plácidas
De
um povo heróico o brado retumbante
E
o sol da liberdade, em raios fúlgidos,
Brilhou
no céu da Pátria nesse instante
A
linguagem do mito
A
esquizofrenia patente de uma população cantando hino que não
entende ensejou propostas de simplificação lingüística ou
modificação radical da letra da canção pátria, para que o povo
a pudesse compreender o que cantava. Essas tentativas de remendo
ignoram a funcionalidade, na ótica das elites brasileiras, do caráter
estrangeiro da língua em que foi composto o Hino Nacional.
O
lingüista marxista Mikhail Bakhtine lembrava que, por além da
compreensão, na “consciência histórica dos povos, a palavra
estrangeira fundiu-se com a idéia de poder, de força,
de santidade, de verdade”. Por isso, em geral, o
discurso religioso dá-se em língua impossível ou difícil
de ser compreendida pelos crentes. Comumente, seu caráter evocativo
se dissolve como sorvete exposto ao sol ao ser traduzido em língua
de gente.
Foi
com indignação e perplexidade que ouvi meu professor de latim
explicar que o mágico e magnético “It missa est” de minha infância
queria dizer qualquer coisa como “podem ir jogar futebol que a
missa já terminou”. Os conteúdo irracionais de uma narrativa
podem ser mais facilmente veiculados quando o estranhamento lingüístico
que produz nos receptores dificulta eles penetrem racionalmente os
conteúdos sociais e ideológicos reais da mensagem.
A
linguagem esotérica e arcaica galvaniza comumente sentimentos mágicos
e aristocráticos imprecisos e difusos. No mundo das percepções
invertidas e alienadas, a sentimentos superiores não pode
corresponder, jamais, linguagem e conceitos inferiores. Ou
seja, comumente, para que conteúdos elitistas alcancem
efeito popular, eles não podem ser vertidos em linguagem
popular compreensível.
A
linguagem mandarinesca supera a impossibilidade de escrever, em língua
de gente, canção que registre, no seio de espaço geográfico
nacional, os
inexistentes interesses comuns a banqueiros e bancários, a
empregadores e empregados, a investidores e desempregados, a
latifundiários e sem terra. Assim sendo, a linguagem rebuscada e
incompreensível materializa facilmente sentimentos produzidos na
esfera da irracionalidade social.
Nesse
sentido, a repetição de uma produção verbal semi-compreensível,
associada a sentimentos alienados e irracionais sacralizados, enseja
que o homem comum, educado na repetição do rito desde criança,
associe-se, periodicamente, a ato unitário de celebração nacional
que consolida a perpetuação de Estado fundado e construído através
da produção e reprodução consciente da miséria, da exploração
e da desigualdade.
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