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Por
CELUY ROBERTA HUNDZINSKI DAMÁSIO
Doutoranda
no Institut Catholique de Paris e Université Marne-la-Vallée
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Negritude
Como
todo movimento reivindicador, o chamado “Negritude” foi marcado
por uma literatura que, muito mais do que um movimento literário,
foi um ato político, uma afirmação de independência, um clamor
por reconhecimento.
Em 1934, o senegalês Léopold Sedar Sénghor,
o francês Aimée Césaire, juntamente com Damas, Sainville e Maugée,
fundaram a revista “L’Etudiant Noir” (O Estudante Negro), cuja
função foi resumida pelo guiano Damas como jornal corporativo e de
combate, que tinha por objetivo o fim da tribalização, do sistema
clânico em vigor no Quartier
Latin!
A proposta era que deixassem de ser estudantes martiniqueses,
guadalupenses, guianos, africanos, malgaches, para que fossem um só
e mesmo “estudante negro”.
Nessa época o objetivo era a união para
combater a discriminação, dando-se ênfase à reflexão sobre a
condição do negro e sua relação com o colonizador. Assim,
intelectuais haitianos, senegalêses, antilhanos, criam, em Paris,
as revistas “La Légitime Défense” (A Legitima Defesa) e “La
Revue du Monde Noir” (A Revista do Mundo Negro), e inicia-se, por
Aimée Césaire, Sénghor e Damas, o movimento “Negritude”, que
não foi privado de contestações, a começar pelo nome.
O Movimento, criado com o objetivo de
revalorizar o negro cultural, política e artisticamente, apesar de
dominar a literatura durante décadas, foi acusado de veicular um
essencialismo negro, como se o fato de ter a pele negra pudesse
deflagar uma identidade comum; além disso, foi tachado de ser
excessivamente intelectual e de ter um caráter burguês.
Foi na revista “L’Etudiant Noir” que
a palavra “negritude” foi empregada por Césaire pela primeira
vez, designando, primordialmente, a rejeição da assimilação
cultural e de uma certa imagem do negro pacífico, incapaz de
construir uma civilização. Sénghor defendia a idéia de que o
termo era empregado visando o conceito em sua aceitação mais
geral, englobando todos os movimentos culturais lançados por uma
personalização negra ou por um grupo de negros em qualquer lugar
do mundo; admitindo a negritude como fato, e assim cultura, bem como
aceitação desse fato e sua projeção na história e na civilização
negra.
Em 1933, Sénghor criou em Paris, com
Birago Diop, a “Association des Etudiants Ouest-Africains”
(Associação dos Estudantes da África do Oeste), que teve grande
influência na Sorbonne e na “Ecole Normale Supérieure” (Escola
Normal Superior), renovando as idéias em gestação durante os
quinze anos antecedentes, como a dependência de partidos de
esquerda, principalmente do PCF (Parti Communiste Français –
Partido Comunista Francês) cuja linha era, claramente,
anti-colonialista. A autonomia era, entretanto, difícil por causa
do parco número de adeptos, da falta de meios e das divisões teóricas
e políticas.
Nunca se teve com precisão o número de
imigrantes negros na França, sobretudo nas décadas de 30 e 40,
devido ao grande numero de clandestinos, mas é interessante notar
que, nessa época, todos os imigrantes de origem africana ou
antilhesa eram registrados como negros, independente da cor da pele.
Pode-se afirmar, entretanto, que o número
de estudantes era maior que o número de trabalhadores. Em 1952-53
havia em torno de 4.000 estudantes africanos no país, e em 1960 o número
elevou-se a aproximadamente 8.000.
O período desencadeador de movimentos
africanos negros foi entre as décadas de 20 e 50, sendo reagrupados
em torno de associações, partidos políticos, sindicatos e algumas
personalidades como Blaise Diagne ou René Maran, além do apoio
essencial das revistas criadas com esse fim.
Após 1945, o contexto era completamente
novo, pois muitos africanos tiveram direito à cidadania francesa,
provocando o fim do trabalho forçado.
O estudante negro de hoje, apesar de ainda
sofrer muita discriminação, é herdeiro de uma luta fervorosa que
continua e firma-se cada vez mais, em busca de igualdade, sobre os
alicerces erguidos por esses desbravadores da raça, que merecem
destaque no mundo inteiro, pela coragem, força e determinação que
os moveram durante essa época de árduo combate.
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