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Por ANTÔNIO
INÁCIO ANDRIOLI
Bolsista do EED e doutorando em Ciências Sociais na
Universidade de Osnabrück – Alemanha
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A
política como profissão
“É
correto afirmar, e a experiência histórica confirma, que o possível
não teria sido alcançado se não houvesse sempre a tentativa de
alcançar o impossível” (Max Weber).
A
crescente despolitização e descrença da população com relação
às instituições políticas é uma marca de nosso tempo. As eleições
diretas, antes vistas como um caminho em direção à democracia,
passam a ser reduzidas ao estágio máximo de participação política
permitida dentro da lógica da sociedade capitalista. Vemos, assim,
um meio de disputa da hegemonia sendo transformado em objetivo final
de todo o fazer político. Nesta situação, é perfeitamente
compreensível que, em países onde o voto é voluntário e
facultativo, como a Alemanha, os índices de abstenção venham
crescendo a cada eleição, especialmente entre os jovens, o que foi
confirmado nas recentes eleições para o Parlamento Europeu. A ausência
de controle social dos eleitos e seu descompromisso com as promessas
de campanha só tendem a reforçar a idéia da inexistência de
diferenças substanciais entre os partidos políticos e a aumentar a
frustração com a democracia representativa e as instituições políticas
tradicionais. Como não
há efetivas alternativas de mudança em jogo, é diminuído o
sentido do voto e a campanha eleitoral se reduz a uma mera escolha
de candidatos a um cargo político que, cada vez mais, tende a ser
identificado como profissão.
O
contexto socioeconômico, que se acentuou ao longo da década de 90,
pode ser caracterizado pela supremacia do capital e do livre mercado
e pela dominação mundial do capital financeiro. Através da
privatização e do desmonte social, passa a ser reforçada a idéia
de que tudo é comercializável; o poder de interferência dos
governos é reduzido; os países são conduzidos à aceitação do
neoliberalismo e o endividamento dos Estados nacionais é crescente.
Somam-se a isso o aprofundamento da concorrência e da divisão do
trabalho em nível internacional, possibilitada pela padronização
mundial de novas técnicas de comunicação, da oferta de
mercadorias, de moedas e de línguas. A concentração do capital
atinge um patamar anteriormente nunca visto, aumentando o abismo
entre ricos e pobres, cujas conseqüências mais visíveis são o
crescimento do desemprego e da pobreza, problemas que também
atingem os assim chamados países industrializados, mas se acentuam
de forma mais aguda nos países “subdesenvolvidos”.
Neste
contexto, a política é, talvez como nunca, subordinada à
economia, os governos nacionais ficam imobilizados, como se restasse
apenas uma única alternativa: a adaptação e subordinação às
exigências de expansão e dominação do capital. O fatalismo passa
a ocupar cada vez mais espaço nos discursos políticos e, como já
afirmava César Benjamin em A opção brasileira, de sintoma
de ignorância e crendice, o fatalismo passa a expressar uma forma
chique, um sinal de grande erudição, não com a intenção de
liquidar as alternativas existentes, mas a capacidade de pensá-las.
Assim, a teoria monetarista acaba sendo afirmada como única válida
no debate macroeconômico, cabendo aos governos a mera função de
adequar-se às exigências dos especuladores, evitando qualquer
resistência à lógica em curso, em nome da defesa da
governabilidade. A própria linguagem passa a ser adaptada às
normas da ditadura do mercado. Um contexto de recessão econômica,
falência de empresas, perda do poder aquisitivo, desemprego massivo
e aumento da pobreza passa a ser caracterizado como ambiente de
“estabilidade econômica”; a passividade, imobilidade e inoperância
do Estado passa a ser identificada como “governabilidade”; o
desmonte social, com a modificação da legislação em favor dos
interesses do capital, é identificado como um processo de
“reformas”. Aliás, não é por acaso que em
2003 o termo reforma
foi o mais indicado para o concurso de
maior palavrão do ano na Alemanha. A manifestação
do público demonstra a rejeição popular às políticas de
desmonte social colocadas em curso pelo atual governo alemão e
denominadas como "reformas do Estado". De um conceito
central da ideologia social-democrata, originalmente relacionado à
gradativa melhoria de políticas públicas e sociais, as reformas
colocadas em andamento pelo partido social-democrata passaram a
significar exatamente o contrário, ou seja, a desregulamentação
de direitos sociais conquistados historicamente pelos trabalhadores
e a gradativa retirada do Estado da economia e da prestação de
serviços públicos.
A
democracia representativa manifesta sinais claros de esgotamento. Ao
desestimular a participação, reduzindo a atividade política a um
grupo de eleitos sem controle social e cada vez mais distantes das
reivindicações dos cidadãos, o parlamento deixa clara sua mera
função de legitimação da natureza excludente do Estado
capitalista, perdendo, gradativamente, a confiança da população
enquanto instrumento mediador de regulamentação das relações políticas
e sociais. Além disso, como sistema de representação que deveria
ser, é notável que o parlamento nunca atingiu sua função pois,
numa sociedade dividida em classes, em nenhum parlamento do mundo a
classe trabalhadora, majoritária na sociedade, alcançou maioria
parlamentar. Pelo contrário, a maioria no parlamento representa os
interesses da classe capitalista, a minoria dominante na sociedade.
Neste sentido, não é novidade que a lógica do parlamento tenda a
ser de conformidade com os interesses de grupos privados, de
vulnerabilidade aos lobbys, ao corporativismo, à tecnocracia e, não
por último, à corrupção. Afinal, a função clássica do Estado
é impedir mudanças sociais e, nesse contexto, a distância dos
parlamentares dos problemas sociais da maioria da população é
inerente à própria lógica da política numa sociedade de classes.
A frustração, impotência e desilusão da população com as
instituições políticas resulta do confronto com a dura realidade
dos limites da democracia representativa.
A
esperança de democratização do Estado desmorona na mesma proporção
da desmobilização da sociedade civil, pois somente com uma mudança
na correlação de forças na sociedade é possível contrapor os
interesses da maioria da população à lógica repressiva e
corporativa do aparato estatal. O espaço das eleições, única
conquista que parece ter restado das intensas mobilizações pela
democratização do Estado, mostra seus limites ao ficar dissociado
da mobilização social e da possibilidade de controle dos eleitos.
Ao mesmo tempo, é exatamente o espaço da mobilização e organização
social, o confronto coletivo com a realidade, que permite o processo
de formação da consciência política. Ao unificar movimentos
sociais em torno de um projeto de sociedade comum, um partido político
pode assumir a função de intelectual orgânico, proposta por
Gramsci, unificando necessidades concretas de diferentes grupos com
propostas políticas que venham a ser disputadas no interior da
sociedade e no próprio Estado.
Nesse
sentido, é possível que a representação parlamentar seja usada
como caminho de disputa da hegemonia na sociedade, visto que o
Estado é um espaço importante na legitimação da hegemonia
dominante. Entretanto, é preciso estar atento aos limites dessa
disputa que é de mera representação de uma correlação de forças
em curso na sociedade civil e que a lógica parlamentar tende
constantemente à cooptação dos representantes eleitos, pois muda
sua perspectiva de vida ao transformar a representação política
em profissão. Parlamentares oriundos da classe trabalhadora
adquirem o mesmo status quo dos representantes da
burguesia, seja em forma de remuneração ou em influência sobre a
sociedade. Os seus objetivos como representantes são, no entanto,
opostos: enquanto os representantes da burguesia primam pela manutenção
da lógica vigente, os representantes da classe trabalhadora, em
minoria, procuram desconstruir o aparato repressivo de um espaço
que eles mesmos compõem, com o objetivo de reforçar a luta pela
hegemonia política na sociedade como um todo. Além de lutar contra
uma maioria parlamentar burguesa pela implementação de melhorias
sociais em benefício dos trabalhadores, a preocupação maior dos
representantes dos trabalhadores é de construir instrumentos que
permitam uma maior participação política dos trabalhadores
organizados na definição de políticas em seu próprio benefício,
pois só dessa forma se poderá avançar em termos de disputa de
hegemonia e maior consciência política. A tarefa não é fácil:
além de se contrapor à tendência confortante da acomodação ao status
quo conquistado, é necessário desconstruir um espaço de
poder, por si mesmo representado, para torná-lo um instrumento
hegemônico exercido por aqueles do qual ele não deveria ter-se
separado como ação política estranhada.
O
que verificamos, no entanto, é que a representação parlamentar
vem seguindo cada vez mais a lógica da política como mera profissão.
Diante da perda de perspectiva revolucionária por parte de muitos
partidos de esquerda no mundo, o que resta a muitos parlamentares é
a sua adequação à estrutura parlamentar vigente, onde o objetivo
é permanecer na atividade de representação política para evitar
que outros o façam. Mais do que isso: a questão está para além
de mera disputa política, pois o que ocorre é que os antigos líderes,
oriundos muitas vezes do próprio mundo do trabalho,
burocratizaram-se e, hoje, lutam desesperadamente pela sua manutenção
nos espaços estatais, pelo simples motivo de que eles não têm
mais profissão no mundo da produção. É assim que sua profissão
(da qual eles passam inteiramente a depender) tornou-se a política.
O impressionante é constatar que essa tendência tende a ser muito
mais forte quando partidos de esquerda atingem uma maioria
parlamentar do que quando eram minoria e se moviam no ambiente da
oposição. A descaracterização dos partidos e da função dos
parlamentares andam juntas, de forma que os próprios interesses
originalmente representados podem mudar de lado, com a justificativa
de que isso permite a continuidade da representação. À população
resta assistir a um espetáculo, em que a consciência política que
movia militantes e dava sentido à representação política é
dispensada pela adoção de instrumentos de marketing em nome
de uma eficiência eleitoral, marcada por profissionais que, cada
vez mais, se identificam com um processo, em que seu sentido e rumo
já deixaram de existir. Afinal, o que é mais importante: a
alternativa a implementar ou a possibilidade de poder implementá-la?
O que se verifica é que, em nome do pragmatismo de conseguir
implementar o possível, a alternativa pode vir a ser considerada
impossível e o potencial emancipador da política se reduz a uma mera profissão.
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