Revista Novos Rumos 41

Apresentação

As dificuldades crescentes que os EUA vêm encontrando no seu propalado desejo de refazer o mapa político do Oriente-Médio têm estimulado também a instabilidade das relações entre América e Europa e, principalmente, uma forte incerteza quanto ao quadro econômico dos principais pólos de acumulação capitalista. O vínculo direto e estreito entre armas e petróleo para fazer frente à crise do capital não tem sido capaz de gerar consensos amplos e fortes, ainda mais em se considerando que, um a um, todos os argumentos dos EUA para se apossarem das vias estratégicas de produção e escoamento de fontes de energia têm se mostrado falaciosos e fraudulentos. Pior, é sempre mais evidente que os métodos do terror em massa e da tortura fazem parte da parte operacional da ofensiva imperialista contra os povos. A Europa, por sua vez, além da forte propensão americanista da Grã-Bretanha, assim como de forças políticas conservadoras em outros países, deve enfrentar o desafio da incorporação de países eslavos relativamente atrasados e também com tendência a se aproximar dos EUA. Importa notar que a luta contra a guerra e contra o terror é a face mais visível do movimento antiglobalização, mas que também ocorre uma retomada da luta operária na fábrica em várias regiões.

Enquanto isso o Brasil tenta diversificar as suas relações econômicas internacionais, não só como forma de fortalecer a sua situação nas negociações para a formação da Alca, mas principalmente para encontrar opções de continuar navegando na instabilidade da crise capitalista global. No entanto, toda essa ação tem uma debilidade intrínseca, pois está marcada por uma política que visa apenas encontrar escoadouro para a produção agro-industrial articulada ao capital financeiro. A preservação dos interesses dos setores das classes dominantes mais ligados ao mercado mundial dificulta iniciativas mais sólidas visando o fortalecimento da soberania, que demanda, por suposto, um massivo investimento em produção de tecnologia, de ciência e de cultura, além de reformas sociais que penalizem os interesses do capital. Isso, no entanto, tem-se mostrado impossível por conta dos compromissos do governo Lula na preservação da ordem atual. A prioridade estabelecida na luta contra a crise fiscal obriga a realização de "reformas" que penalizam direitos sociais e que preservam o endereço privatista do conjunto das políticas públicas, da previdência social a pesquisa e ensino de nível superior, fazendo assim persistir uma grave crise social, grassando a fome, a doença e a ignorância.

Nessa situação dificílima, em meio a agudas contradições, o novo movimento operário e socialista que vem se gestando tem que encarar questões de ordem estratégica, organizativa e programática, que necessitam, no entanto, de um enquadramento teórico substantivo que dê conta de apontar a tendências e as particularidades da contradição em processo, assim como das suas virtualidades emancipatórias. Um momento importante desse processo refundativo da esquerda é o reconhecimento da necessidade de uma forte carga internacionalista. Os textos que apresentamos nesse número da revista Novos Rumos tratam tanto do desfio programático, como de temas teóricos postos no debate do marxismo e do movimento socialista e de temas da realidade política e cultural do Brasil.

Marcos Del Roio
Instituto Astrojildo Pereira
Presidente

 

SUMÁRIO

Propostas para um trabalho coletivo de renovação programática
François Chesnais

O epistêmico e o ontológico nos métodos de Durkheim e Marx
José Benevides Queiroz

A cauda do diabo: o marxismo de José Aricó e sua interpretação de Gramsci
Antonino Infranca

A ilusão da morte. O marxismo e o falso assalto da ciência à filosofia
Fernando Magalhães

Reforma da previdência ou como destruir gerações
Edmundo Fernandes Dias

O conceito de produção cultural em massa na “modernidade-mundo”
Mariana Mont’Alverne Barreto Lima

Encarte
Entrevista com Mario A. Manacorda

Rosemary Dore Soares

 

 

 

http://www.espacoacademico.com.br - Copyright © 2001-2004 - Todos os direitos reservados