Por ANTONIO OZAÍ DA SILVA

Docente na Universidade Estadual de Maringá (UEM), membro do Núcleo de Estudos Sobre Ideologia e Lutas Sociais (NEILS – PCU/SP), do Conselho Editorial da Revista Margem Esquerda e Doutor em Educação pela Universidade de São Paulo

 

Vito GIANNOTTI. Muralhas da Linguagem. Rio de Janeiro: Mauad, 2004 (181p.)

 

Muralhas da linguagem

 

Vito Giannotti, autor de Muralhas da Linguagem, é um intelectual orgânico da classe operária. Nascido na Itália em 1943, Vito reside no Brasil há cerca de 40 anos e dedica a sua vida à militância no movimento operário. Ele destacou-se na militância na oposição sindical dos metalúrgicos de São Paulo, foi dirigente da CUT São Paulo nos anos 1990 e fundador do Núcleo Piratininga de Comunicação (NPC). Vito Giannotti especializou-se em comunicação sindical e escreveu, entre outros livros, CUT por dentro e por fora (Vozes), Força Sindical, a central neoliberal (Mauad), Comunicação Sindical, falando para milhões (Vozes) e O que é Jornalismo Sindical (Brasiliense).

Vito Giannotti conhece a linguagem dos trabalhadores. Sua tese central é que a posição econômica dos indivíduos e classes sociais condiciona o uso da linguagem. A estrutura econômica incide sobre a comunicação. O pertencimento a determinado grupo e classe social tem tudo a ver com as diferentes linguagens utilizadas no cotidiano, nos diversos espaços formais e informais da sociedade.

A desigualdade econômica instituiu muralhas intransponíveis entre maioria da população e a elite brasileira. Reproduz-se, assim, a segregação histórica entre a Casa Grande e a Senzala. Este é o fundamento da análise do autor, isto é, a permanência de uma herança histórica ainda persistente economicamente e que se traduz na existência das muralhas da linguagem:

“A Casa Grande e a Senzala são a marca registrada no Brasil de hoje, de ontem, de anteontem. A chave para se entender nossa história e presença obsessiva em todos os domínios da vida brasileira. Estes dois referenciais são a melhor imagem para explicar a vergonhosa distribuição de renda no país, que é a nossa principal característica”. (p. 15)

A linguagem da Casa Grande é incompreensível à Senzala, e vice-versa. Com bom-humor, um dos traços marcantes da sua narrativa, o autor expõe inúmeros exemplos de como estes dois mundos não se entendem. “São dois mundos incomunicáveis, duas maneiras de vidas, duas reações frente aos vários acontecimentos. Para o nosso caso, duas linguagens”, afirma (p. 16).

Esta diferenciação é o legado que carregamos enquanto nação. O abismo que separa a elite da maioria populacional, em todos os sentidos, expressa a permanência da dicotomia Casa Grande e Senzala sob forma modernas. A superação das abissais diferenças econômicas é fundamental para superar a desigualdade lingüística. Neste sentido, a educação tem um papel de suma importância. O acesso à educação de qualidade, à universidade e aos recursos necessários para um bom desempenho educacional são essenciais.

A baixa escolaridade constitui um dos principais fatores que impedem a derrubada das muralhas econômicas e da linguagem. Paradoxalmente, exige-se dos desfavorecidos social e economicamente que dominem a linguagem culta. O saber formal adquirido nos bancos escolares, desde a infância, se funda na linguagem da Casa Grande. Um dos efeitos desta lógica perversa é a exclusão, por mecanismos não declarados, de enorme quantidade de crianças e jovens, alunos que não se adaptam à vida escolar e cuja cultura e saber não-formal são desconsiderados e desvalorizados. A escola transforma-se num território estranho, inimigo, e, para muitos, uma muralha intransponível. O currículo oculto[1] asfixia-os...

Na outra ponta, temos os que alcançam um alto nível de escolaridade. Outro paradoxo! Longe disto favorecer a diminuição da desigualdade tende a perpetuá-la. A alta escolaridade cria o fenômeno definido por Giannotti como intelectualês, que também contribui para a exclusão. A pirâmide da sociedade desenvolve mecanismos para a garantia de privilégios e de manutenção das relações desiguais entre a Casa Grande e a Senzala. Dessa forma, a Universidade interdita o acesso aos negros e pobres. E isso ocorre não por meios declarados de exclusão, mas através de um discurso e prática universalista e meritocráticos que, na essência, tornam-se garantia de reserva de mercado e de ocupação de posições privilegiadas.

O autor observa que a baixa escolaridade é uma forma de exclusão passiva. “A pessoa é excluída por não conhecer o sentido das palavras. Ela é deixada à margem”. O intelectualês, ou seja, a alta escolarização é uma forma de exclusão ativa. “Quem a usa, a menos que esteja falando com seus pares, exclui milhões de outros que não pertencem ao seleto grupo de quem sabe, de quem fala, ou de quem lê uma linguagem de poucos” (pp. 98-99).

É verdade que alguns indivíduos provenientes da Senzala conseguem romper a muralha e conquistam a inclusão. Contudo, é uma exceção que confirma a regra. A maioria continua à margem: a universidade, os programas de pós-graduação, os concursos públicos para a carreira docentes constituem gigantescas muralhas, terreno repleto de obstáculos à minoria que se aventura a fazer esta caminhada. O contra-senso é que dentre os poucos que conseguem superar estas muralhas, há muitos que se integram, isto é, negam suas origens e passam a defender privilégios como direitos inacessíveis aos demais. No aspecto lingüístico esta passagem para o outro lado se expressa no intelectualês, na adoção de uma linguagem inacessível à maioria. O indivíduo intelectualês não consegue se comunicar com os simples mortais, considera mesmo que é perda de tempo.

Não se trata de negar a especialização. As carreiras universitárias, as áreas do conhecimento, desenvolvem uma linguagem própria, especializada, inteligível aos pares. Porém, o intelectualês não consegue se comunicar fora da sua especialidade; seu idioma, embora sendo o mesmo português brasileiro, é outro idioma. Este fenômeno se reproduz até mesmo entre aqueles que se colocam em defesa da Senzala:

“Muitos intelectuais de esquerda têm dificuldade de admitir este fato. Como se admitir este fato fosse uma traição a não se sabe o quê. Fosse quase uma ofensa. Mas a realidade é simples. Quem estudou e tem uma vida intelectual mais dinâmica acaba aprendendo uma nova língua. Ótima coisa. É só admitir e saber administrar”. ((102)

O intelectualês tem outros irmãos siameses: o juridiquês, o economês, o informatiquês, o mediquês, o psicologuês, o sociologuês etc. São linguagens especializadas, incompreensíveis aos leigos, à Senzala. Contudo, no campo em que atuam se justificam. O problema é quando os que usam estas linguagens específicas precisam interagir com os que não a dominam e não percebem a necessidade de traduzi-las – por exemplo, o discurso professoral que transforma coisas simples em complexas e é pedagogicamente inoperante, ainda que muitos alunos se deliciem e considerem positivo o fato de não entenderem o que o professor fala.

A obra de Vito Giannotti não se presta a objetivos academicistas, mas sim àqueles referentes à transformação da realidade social. O que está em questão para ele é a necessidade e a possibilidade de disputar a hegemonia na sociedade. Isto pressupõe não apenas uma luta econômica, mas também uma disputa lingüística. Os que defendem outro modelo de sociedade precisam se comunicar, se fazerem compreendidos à maioria que fala a língua da Senzala e compreenderem a sua linguagem. Deste ponto de vista, entre as várias linguagens específicas, os linguês, as que causam mais prejuízo à disputa da hegemonia é o poliquês, o sindicalês e seus derivados. Estas linguagens constituem um crime porque resultam exatamente no oposto do pretendido. O autor explica que estas línguas:

“Ao criarem uma barreira, fazem exatamente o contrário do que a atividade política e sindical estaria exigindo. Política e sindicalismo exigem convencimento de centenas, milhares e milhões. Para quem atua na vida sindical, ou numa perspectiva político-popular, falar ou escrever numa linguagem excludente representa uma contradição total em relação ao seu objetivo que é, justamente, o de convencer o máximo de pessoas”. (p. 135)

O politiquês e o sindicalês são linguagens contaminadas pelo intelectualês. A interação dos dirigentes políticos e sindicais com o mundo acadêmico e intelectual leva-os a incorporarem palavras e expressões próprias dos que pertencem a esta realidade social. Ocorre um fenômeno interessante: o sindicalista oriundo do meio operário se intelectualiza, no sentido negativo do termo e, simultaneamente, se integra ao modo de vida específico da classe média e burguesa. No sindicato e no partido ele se aburguesa e se torna um estranho para os seus representados – estes não mais se reconhecem nele, no seu jeito de falar e nos seus costumes.

A rigor, este processo de contaminação não é, em si, negativo, A interação enriquece o conhecimento do sindicalista operário e produz uma nova síntese capaz de gerar propostas políticas para a transformação da sociedade. Em outras palavras, o operário se politiza – nos termos da esquerda tradicional, ele se transforma num quadro. Vito Giannotti alerta que, do ponto de vista da comunicação, esta síntese produz mudanças na linguagem, as quais, “se não for bem administrada, gera uma grande distância entre o ativista sindical-político e as pessoas que este quer atingir. Esta nova linguagem, se usada sem as preocupações devidas, gera a exclusão de quem não é ator direto, e sim simples ouvinte ou leitor” (p. 138).

Não sei se Vito Giannotti leu Jürgen Habermas (pelo menos não consta da bibliografia). Mas certamente seu paradigma não é habermasiano. Giannotti enfatiza os fatores econômicos, a estrutura do sistema social capitalista no Brasil que propicia a manutenção da herança social de um tempo em que os brasileiros se dividiam entre a Casa Grande e a Senzala e era negado aos segundos os mais elementares direitos humanos e de cidadania. Este tempo persiste sob novas condições históricas e se expressa, também, na diferença da linguagem, nas muralhas interpostas entre elas. A preocupação do autor é que as classes populares e seus representantes saibam difundir o seu projeto; que considerem o aspecto lingüístico no sentido de se fazer entender e de gerar as condições para a disputa hegemônica. Os militantes envolvidos com a comunicação popular devem desempenhar um papel contra-hegemônico. Precisam, portanto, transpor as muralhas da linguagem.

É uma pedagogia ativa que possibilita a reflexão sobre o funcionamento da sociedade; uma pedagogia que comunica e capaz de tornar-se compreensível à Senzala. “Sem esta pedagogia ativa, não haverá milhões de pessoas dispostas a se comprometerem com uma ação transformadora. Só os fatos não levam, automaticamente, à ação”, conclui o autor. (p. 175)

Vito Giannotti defende uma comunicação que comunique. Esta é, em sua concepção, uma das condições essenciais para qualquer projeto político que se pretenda revolucionário. Muralhas da Linguagem é, neste sentido, uma contribuição fundamental. Sua leitura é imprescindível aos que objetivam contribuir para a superação do legado da Casa Grande. Mesmos os que estão contaminados pelo intelectualês e outros “ês”, deveriam ler este livro. É um bom antídoto...

Uma comunicação que comunique é, sem dúvida, um fator importante para superar as desigualdades econômica e lingüística. A análise de Vito Giannotti tem o mérito de deslocar a discussão do campo economicista para o lingüístico, a necessidade de saber comunicar e de superar as muralhas da linguagem. Concordo com a sua análise fundada no paradigma da luta de classes, mas devo observar a insuficiência no tocante a fatores como a questão racial, que também incide sobre a desigualdade social e que constitui outra muralha a ser transposta. A Senzala não é uniforme. O autor se mantém restrito, ao menos nesta obra, à concepção universalista e eurocêntrica tradicionalmente vinculada à esquerda – embora ele se refira à Casa Grande e Senzala. O fato dele compartilhar desta concepção não desqualifica o seu livro. Mas o leitor não-passivo e dialógico, não pode se omitir. Imagino que este é também um dos objetivos do autor. Afinal, seu enfoque é a comunicação.

 

Referências bibliográficas:

GIROUX, Henry A. (1997) Os professores como intelectuais: rumo a uma pedagogia crítica da aprendizagem. Porto Alegre: Artes Médicas.

MCLAREN, Peter. (1997) A Vida nas Escolas: Uma introdução à pedagogia crítica nos fundamentos da educação. Porto Alegre: Artes Médicas.

[1] Os educadores críticos chamam a atenção para as “conseqüências não intencionais do processo de escolarização”, isto é, o currículo oculto. Este “também inclui estilos de ensino e aprendizado enfatizados em sala de aula, as mensagens transmitidas ao estudante pelo ambiente físico e instrucional como um todo, estruturas de liderança, expectativas do professor e procedimentos de avaliação”. (MCLAREN, 1997: 216) GIROUX (1997: 36) define o currículo oculto como “aquelas mensagens e valores que são transmitidos aos estudantes silenciosamente através da seleção de formas específicas de conhecimento, do uso de relações específicas em sala de aula, e das características definidoras da estrutura organizacional escolar. As mensagens de discriminação de raça, sexo e classe que espreitam por trás da linguagem dos objetivos e da disciplina escolar são convenientemente ignoradas”.

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