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Sobre
Ética em Tempos de Barbárie
Incertezas
e insegurança permeiam profundamente o nosso cotidiano e aumentam
nossa angústia existencial. “Tudo
que é sólido se desmancha no ar” e, perplexos e desnorteados
diante as informações e interpretações contraditórias da mídia
e da academia, os indivíduos se interrogam desesperadamente sobre
os rumos da sociedade e de suas próprias vidas.
Encurralados
cada vez mais no seu espaço vital – a violência do cotidiano, o
meio ambiente arrasado e as oportunidades econômicas minguando –
a vida no mundo de incertezas tornou-se um pesadelo carregado de
absurdos cuja razão ou sentido parece fugir de qualquer esforço de
análise racional.
Desesperados
com as falsas promessas de “desenvolvimento pelo progresso técnico”
e constantemente desorientados pelos discursos mentirosos de chefes
de governos, de políticos corruptos, a ganância voraz é insaciável
do “mercado” e a maior parte da mídia cooptada e controlada
pelas “elites”, os jovens perplexos diante dos aparentemente
inescrutáveis enigmas da vida, procuram escape no niilismo, nas
drogas, na violência ou na autodestruição.
Como
lutar contra essas tendências destrutivas e orientar para caminhos
e valores que resgatem o sentido da vida, individual e coletivo?
Contra
qualquer crença determinista, postulamos que toda nossa realidade
é produto de uma construção social e, portanto, pode ser
desconstruída e reconstruída.
Moral
e Ética
Segundo
o dicionário de filosofia, ética é a ciência que tem como objeto
os juízos de valor que distinguem entre o bem e o mal.
Historicamente, o senso comum trata moral e ética como sinônimos,
mas, desde E. Kant, no século do Iluminismo, a ética é
considerada superior à moral.
A
moral é historicamente datada e suas normas e sanções mudam de
acordo com as transformações da sociedade, sempre refletindo a visão
do mundo e os interesses das elites. Basta recordar as manifestações
dos senhores escravocratas, dos primeiros capitães da indústria e
dos tecnocratas das grandes empresas, hoje, supostamente racionais e
ideologicamente neutros, ao justificarem a pobreza e a desigualdade.
Enquanto
a moral é particularista, profundamente vinculada e identificada
com grupos religiosos, nacionalistas, étnicos, políticos ou
classistas, a ética tem conteúdo universal e parte do princípio
da igualdade dos seres humanos e de seus direitos inalienáveis à
paz, ao bem-estar e à felicidade, individual e coletiva. Suas
manifestações concretas são a cooperação e a solidariedade numa
organização social pluralista e de democracia participativa.
A
ética postula um código de conduta para a comunidade de indivíduos
que exige um comportamento baseado em valores consentido e praticado
em dimensões universais.
O
cerne da ética universal transcende a todos os outros sistemas de
crenças e valores, como síntese da consciência humana, ciente da
preciosidade de todas as formas de vida humana e dos direitos dos
indivíduos à liberdade e felicidade.
A
ética se refere a um devir, uma visão futura da humanidade que tem
inspirado inúmeras gerações durante o processo histórico, cujos
sujeitos “desejantes” e ativos criaram comunidades de cidadãos
ativos, fontes de liberdade que transformaram a História. Essa ética
não é ficção ou sonho, mas uma visão do futuro construída por
meio de um discurso em que se confrontam os valores por seus
impactos reais e prováveis na existência humana. Ela surge como um
amálgama e a recriação de aspirações e valores cultuados em
todos os tempos, levando a uma síntese imaginária à luz das
experiências políticas e práticas acumuladas.
Segundo
os filósofos da Antiguidade e os profetas bíblicos, a ética seria
instituída pelo comportamento virtuoso, em conformidade com a
natureza dos atores sociais e dos fins buscados por eles. Postularam
que o ser humano seria, por natureza, um ser racional, cuja virtude
se manifesta pela razão que comanda as paixões. Essa virtude seria
o efeito da potencialidade da natureza humana desde que a razão
comande as paixões e oriente a vontade, pois só o ignorante é
violento, passional e vicioso.
Para
reconstruir a “utopia”, o comportamento ético exige a paz e o
desarmamento, a contestação da dominação autoritária e a
reivindicação do poder para construir uma nova realidade. Nesta,
se cuidará da melhoria da qualidade de vida e da ampliação do
horizonte social e cultural de todas as pessoas. Um indicador do nível
ético da sociedade seria o grau de confiança das pessoas no futuro
e nas possibilidades de realizar seu pleno potencial, contribuindo,
ao mesmo tempo, para o bem-estar coletivo.
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