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Por PAULO ROBERTO DE ALMEIDA
Doutor
em Ciências Sociais, diplomata, autor de vários trabalhos sobre
relações internacionais e política externa do Brasil
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O
fim da “era Vargas”: uma missão para o governo do PT?
Desde
o início dos anos 90, com a inauguração do governo Fernando
Collor e mais particularmente durante os oito anos do ancien
régime tucanês, ou seja, durante toda a “fernandécada”
– o copyright da expressão
pertence ao presidente do BNDES, professor Carlos Lessa –, temos
ouvido acusações indignadas contra esses “Fernandos” (e outros
personagens de baixa estima política), a propósito de sua intenção
soturna ou declarada de “acabar com a era Vargas” no Brasil.
Eles são acusados de pretender extinguir uma série de conquistas
dos trabalhadores brasileiros, de desmantelar o Estado varguista e,
pior, de querer entregar o Brasil aos estrangeiros, via privatizações
e outras manobras soezes de alienação do patrimônio nacional –
como a livre movimentação do capital financeiro, a integração
subordinada na globalização capitalista, além de se renderem ao
projeto anexacionista da Alca imperial.
A realidade está longe de
corresponder a essas imagens inflamadas, mas bem que ambos os
“Fernandos” tentaram inserir o Brasil na interdependência econômica
global – para desconforto dos esquerdistas e dos protecionistas da
FIESP –, abrir um pouco mais a economia à competição externa
– inclusive como meio de aumentar a produtividade de nossa indústria,
o que se logrou apenas na primeira metade dos 90 – e reduzir, de
modo geral, o grau de controle estatal sobre a economia nacional. Ao
final do regime militar, e ainda durante boa parte da redemocratização,
a economia brasileira apresentava um coeficiente de abertura externa
de modestos 7%, o que significa que o produto interno bruto
comportava mais de 90% de nacionalização, uma situação de clara
irracionalidade do ponto de vista econômico (já que a quase
autarquia apresenta um custo para toda a sociedade), sem falar da
baixa qualidade geral dos bens de consumo e dos serviços de notória
carência (como telefonia e comunicações, por exemplo).
O governo do PSDB esteve longe de
promover a abertura indiscriminada da economia, ao contrário.
Depois da reforma tarifária do início dos anos 90 – começada
por Collor, portanto –, a proteção comercial só fez aumentar
durante os oito anos de FHC. As privatizações criaram novos cartéis,
o que explica que as tarifas telefônicas tenham sido aumentadas
algumas centenas de vezes acima da taxa de inflação e que, ainda
agora, pagamos proporcionalmente mais caro, do que povos de renda
cinco vezes superior à nossa, pelos mesmos serviços de utilidade pública.
O Estado continua a determinar grande parte das regras de
funcionamento desses serviços, assim como deixamos para o Estado
quase 50% do custo do custo desses serviços, sob a forma de
impostos, taxas especiais e outras contribuições “de emergência”,
que se eternizam nas faturas, como a CPMF nos extratos bancários.
Estamos longe, portanto, de conformar
um regime “neoliberal”, como acusam vários expoentes do
academicismo econômico, que parecem achar normal e desejável um
sistema econômico no qual dois quintos do PIB passam pelo Estado
para retornar sob a forma de serviços e prestações públicas –
como saúde, educação, transportes e segurança –, diminuído
dez vezes do montante extraído da sociedade. Com efeito, qualquer
exame rápido das estatísticas de contas públicas revelaria a
parte crescentemente maior ocupada pelos gastos próprios do Estado
em relação ao PIB, mesmo descontando as despesas com a dívida pública
e o regime previdenciário, também crescentes nos últimos anos.
Como pode ser “neoliberal” um sistema que exige que provemos,
todos os dias, que estamos em ordem com os tributos devidos ao
Estado, para que este se “digne nos autorizar” a exercer uma
atividade produtiva qualquer? Como poderia ser “neoliberal” um
regime econômico que empurra, literalmente, para a ilegalidade milhões
de micro e pequenas empresas que não podem suportar conviver, não
apenas com uma carga tributária direta e indireta extorsiva, mas
também por meio de um conjunto de regulações burocráticas que
podem, facilmente, ocupar três contabilistas durante pelo menos
duas semanas por mês?
Não, decididamente, não somos um
regime neoliberal, e talvez fosse bom que o fôssemos, pelo menos em
alguns aspectos que, precisamente, enchem a boca daqueles defensores
saudosistas (e por isso mesmo reacionários) da chamada “era
Vargas”. Refiro-me, em especial, a uma das piores heranças da era
Vargas, ainda hoje cultuada por corporativistas de todos os matizes
e de todos os níveis de renda: a legislação laboral, ou se
quisermos, “trabalhista” (o que inclui, igualmente, sua vertente
sindical). Não parece estranho que sindicatos de “patrões” e
de “operários” defendam uma legislação que, de outra forma,
é conspurcada diariamente na academia e no jornalismo superficial
como sendo de origem fascista, e portanto deletéria por “pecado
original”, mas que no entanto sobrevive impávida depois de mais
de seis décadas, justamente por que convém a uns e a outros? Não
seria reacionarismo defender essas “conquistas” outorgadas por
um ditador, interessado tão somente, como seus mestres fascistas,
na domesticação do trabalhador e na subordinação destes e seus
patrões aos mecanismos controladores do Estado? Como é possível,
nestas circunstâncias, a pessoas que se consideram progressistas, e
mesmo de esquerda, comprometer-se com estruturas tão eivadas de vícios
de origem e de outras deformações autoritárias e corporativistas,
sempre condenadas, de outro modo, naqueles regimes abertamente
fascistas, como as ditaduras franquista e salazarista?
O que, afinal, há de tão
progressista no regime varguista, para ser defendido com unhas e
dentes pelos seus herdeiros presumidos, cinqüenta anos após a
morte do odiado ditador do Estado Novo? Provavelmente porque se
cultiva o suposto líder nacionalista dos anos 50, o defensor da
soberania brasileira contra os interesses da “grande finança
internacional”, o iniciador do Estado empreendedor e grande
promotor de companhias estatais. Mas, sabem os “varguistas” de
hoje que o projeto de 1953, por ele mandado ao Congresso, de criação
de uma companhia estatal para o petróleo, a Petrobrás, não previa
o monopólio estatal da exploração e refino dos hidrocarburantes,
só obtido graças a uma emenda introduzida pela UDN, o partido
“reacionário” e “defensor do capital estrangeiro”? Sabem os
defensores da limitação das remessas de lucros por empresas
estrangeiras que o presidente João Goulart aguardou quase dois anos
para promulgar a lei do capital estrangeiro aprovada pelo Congresso
em 1962? Sabem eles que, a despeito de pregar retoricamente
“reformas de base”, o mesmo presidente não preparou nenhum
projeto de lei prevendo uma, sequer, das reformas por que clamava em
praça pública?
Mas, tudo isso é história, e convém
deixar os mortos de lado para cuidar dos vivos, alguns tão
“vivos” a ponto de reivindicarem uma “herança” que mal
conhecem e cujas características e impacto sobre a atual economia
brasileira ignoram ou fingem não saber. Vamos tratar de um aspecto,
tão somente, desta “herança varguista”, a legislação
trabalhista, que pesa como uma espada de Dâmocles sobre a cabeça
dos trabalhadores de hoje, ou melhor, sobre a dos candidatos a
trabalhadores, em muito maior número do que aqueles empregados
formalmente ao abrigo das “leis fascistas” da era Vargas. Estou
falando, obviamente, dos milhões de trabalhadores informais ou
aspirantes a sê-lo, não da minoria dos legalmente empregados
(relativamente privilegiados, portanto).
Todos sabem, ou deveriam pelo menos
sabê-lo, que a legislação trabalhista cobre uma parte, tão
somente, da força-de-trabalho brasileira, e que essa parte vem
diminuindo proporcionalmente em relação ao imenso exército de
reserva dos informais, dos “sem-carteira”, enfim, da imensa
massa de destituídos de uma relação contratual normal. Talvez 60%
da mão-de-obra do Brasil não se encontre, hoje, ao abrigo de uma
forma qualquer de legislação laboral, fascista ou não,
sobrevivendo à margem dessa “herança da era Vargas” e que
constitui injustificado motivo de orgulho para os já incluídos em
seus generosos dispositivos. Todos sabem, ou deveriam sabê-lo, que
possuímos uma das mais “avançadas” legislações trabalhistas
do mundo “capitalista”, detalhista ao ponto de regular certos
direitos por via constitucional, e injusta ao ponto de deixar milhões
de brasileiros, talvez a maioria da população economicamente
ativa, excluídos de suas fabulosas disposições protetoras.
A legislação trabalhista, junto com
sua prima-irmã que regula o “sindicalismo de classe” no Brasil,
constitui, hoje, um dos mais formidáveis obstáculos à integração
ao mercado formal de trabalho de milhões de brasileiros desprovidos
de educação mínima ou desprotegidos de qualquer regime
associativista. Ela funciona muito bem para todos aqueles que
lograram se inserir no mercado formal de trabalho – mas eles também
constituem uma fração decrescente da população economicamente
ativa –, mas ela não significa absolutamente nada para os excluídos
de fato das relações contratuais “normais”, e não apenas
devido aos encargos trabalhistas ou outros custos sobre a folha de
pagamentos. Assim como as micro e pequenas empresas são empurradas
para a informalidade não apenas devido a uma carga tributária
excessiva, mas basicamente por uma regulação intrusiva, extorsiva
e abusiva, também os trabalhadores e empregados são expurgados da
regulação e da proteção da legislação laboral em virtude de um
atroz “regulacionismo”, que impede a expressão normal do poder
de barganha entre as partes e exclui, de fato, a liberdade
contratual. Quantos milhões de “desempregados” e outros tantos
“inempregáveis” não poderiam hoje estar trabalhando, Brasil
afora, caso se pudesse ter liberdade para fixar de forma flexível
horas e condições de pagamento pelos serviços prestados? Por
acaso a “ameaça de exploração” é mais terrível do que o
espectro da fome e da miséria, por “ausência de exploração”
absoluta? A hipocrisia dos incluídos na defesa da “legislação
laboral” soa como um escárnio do ponto de vista dos excluídos.
Se há um aspecto no qual o atual
governo do PT deveria afastar-se completamente ou mesmo considerar
um enterro em grande estilo da “era Vargas”, trata-se certamente
da legislação trabalhista ou laboral, junto com sua irmã siamesa,
igualmente fascista, a legislação sindical. Não há nada que
provocaria maior revolução social, no sentido da inclusão laboral
entenda-se, do que a eliminação de uma legislação tão anacrônica
quanto desprovida de qualquer critério de inclusividade social. Se
o governo do PT desejar eliminar o desemprego, o subemprego, o
emprego parcial e clandestino, a burla ilegal ao regime de trabalho
definido como “legal”, então ele não teria como hesitar: ele
precisaria “enterrar a era Vargas”, pelo menos nesse particular,
e quanto antes melhor. Se ele quiser fazer alguma diferença do
ponto de vista da história e da sociedade, não será apegando-se
de forma reacionária a heranças de um passado distante, tão
desajustadas às condições econômicas do Brasil moderno quanto
seriam hoje, parafraseando Engels, o machado de bronze e a roca de
fiar.
Esta é a diferença, quer queiramos
ou não, entre o passado e o presente. Alguns, velhos reacionários
disfarçados de militantes da causa progressista, se aferram às
antigas relíquias como se o gesto iconoclasta fosse estilhaçar um
mundo de fantasia, o que de fato ele é. Em alguns momentos da história,
a ousadia revolucionária – vá lá, o ímpeto reformista – faz
uma diferença maior aos deserdados do presente do que o culto dos
velhos mitos de um passado progressista, que há muito deixou de sê-lo.
Corporações de ofícios e guildas de mestres são resquícios
medievais que não deveriam existir mais no mundo da economia
moderna. Esses resíduos ainda encontram guarida em algumas instituições
“medievais”, como são as universidades e outras associações
similares. Mas, elas deixam de ser efetivas e já não correspondem
ao estado atual de desenvolvimento das forças produtivas. Os grilhões
que impedem o pleno desenvolvimento das forças produtivas terão de
ser quebrados. Eles serão quebrados. Seria bem melhor se isso fosse
obra de um partido de trabalhadores, mas ele precisaria estar à
altura da consciência de classe de sua época, não aferrado a
mitos de um passado enterrado e anacrônico. Isso ocorrerá um dia,
é tudo uma questão de tempo. Os deserdados do Brasil não têm
mais nada a perder, só a esperança no partido suposto representá-los.
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