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Por ANTONIO OZAÍ DA SILVA
Docente
na Universidade Estadual de Maringá (UEM), membro do Núcleo
de Estudos Sobre Ideologia e Lutas Sociais (NEILS – PUC/SP),
do Conselho Editorial da Revista Margem Esquerda e Doutor
em Educação pela Universidade de São Paulo
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Educar
contra a barbárie
“A
exigência que Auschwitz não se repita é a primeira de todas para
a educação”.
“(...)
se as pessoas não fossem profundamente indiferentes em relação ao
que acontece com todas as outras, excetuando o punhado com que mantêm
vínculos estreitos e possivelmente por intermédio de alguns
interesses concretos, então Auschwitz não teria sido possível, as
pessoas não o teriam aceito". (Theodor W. ADORNO, 1995: 119 e
134)
Você
que nasceu nos anos 60 sabe onde fica Auschwitz? Ainda que não
saiba sua localização, provavelmente saberá o que foi Auschwitz.
Mas, e a geração dos anos 80: será que aprendeu o real
significado de Auschwitz? Será que nossa geração soube cultivar
nas mentes e corações destes jovens a indignação diante do que
aconteceu em Auschwitz e outros campos de concentração
nazistas?
Nossa
responsabilidade como educadores é enorme. Quanto maior a nossa
ignorância, maior o perigo da negação absoluta
da civilização. Como afirma Adorno: “Fala-se de uma ameaça
de regressão à barbárie. Mas não se trata de uma ameaça, pois
Auschwitz foi a regressão; a barbárie continuará existindo
enquanto persistirem no que têm de fundamental as condições que
geram esta regressão. É isto que apavora”.
(Id.: 119)
Olhemos
ao nosso redor. A realidade que nos cerca expressa a barbárie e está
prenhe de fatores que apontam para o risco da regressão.
O mundo globalizado impele as pessoas em direção ao xenofobismo,
à intolerância diante do outro,
à idéia de que há uma inevitabilidade histórica, ao consumismo e
ao individualismo desenfreado. Naturalizam-se as mazelas e misérias
da condição humana, em nome de um determinismo amparado num viés
tecnicista e nas necessidades da concorrência internacional, isto
é, da predominância do mercado.
As
possibilidades históricas são suprimidas pelo discurso único.
Prevalece a mesmice entediante e auto-anestesiante. Certos espaços
onde deveria frutificar a reflexão crítica mais parecem “cemitérios
de vivos”. A crítica deu lugar ao comodismo e ao servilismo. Os
poderosos de plantão decretaram que não existe alternativa e
muitos intelectuais, salvo honrosas exceções, acataram. Os
problemas sociais que afligem enormes parcelas da humanidade, excluídas
da mais elementar cidadania, parecem inevitáveis ou um castigo dos
céus. O Capital riscou do mapa contingentes populacionais cujo
maior pecado é simplesmente não ter poder aquisitivo para
consumir. Estas pessoas, no Brasil, na África, na Índia e mesmo
nos países desenvolvidos, não contam como humanos: são descartáveis.
A
desnutrição cresce num mundo onde a tecnologia já torna possível
a superação da fome. Contrariamente aos ideólogos malthusianos,
nosso problema não é o crescimento populacional. As guerras
declaradas, as guerras civis não-declaradas nos centros urbanos e
as políticas governamentais funcionam como a foice da morte a
ceifar a vida de milhares de crianças e jovens precocemente
enviados para o além. O problema está na concentração da riqueza
– aqui e lá fora. As próprias instituições internacionais,
como o BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), reconhecem que
a globalização concentrou mais renda, seja na relação comercial
entre os países, seja no âmbito interno destes.
A
condição humana continua a ser aviltada em situações que antes
horrorizavam os bem-pensantes membros da classe média
intelectualizada. Basta ver as notícias sobre as torturas nas
cadeias deste nosso imenso país. As vítimas em geral são negros e
pobres. E o trabalho infantil, a prostituição de crianças e o
trabalho escravo, volta e meia denunciados na grande imprensa?
Enquanto
isso, nós, educadores e intelectuais acadêmicos, nos voltamos para
o nosso mundinho, para o
nosso umbigo; para as veleidades da ambição acadêmica. Vaidosos,
ostentamos nossos títulos acadêmicos como prova da nossa pretensa
superioridade intelectual. Títulos que nada provam. Mesquinhos,
alimentamos nosso ego com o quinhão do poder burocrático. Em nossa
arrogância, fetichizamos a técnica e o conhecimento sem atentarmos
para o fato de que seu domínio pelo nazismo significou a supressão
da humanidade. Como
compreender que foram precisamente os cientistas, isto é, pessoas
tituladas e diplomadas, que projetaram o sistema ferroviário para
conduzir as vítimas a Auschwitz com rapidez e eficiência?
Donos
da verdade, damos ouvidos às conversas de corredores; formalizamos
a informalidade das relações em memorandos, protocolandos etc.
Transformamos o trivial e o ridículo em batalhas políticas –
ainda que coloquemos em risco a sobrevivência econômica dos nossos
colegas de trabalho. Substituímos a mais elementar solidariedade
– ou mesmo o tão famigerado corporativismo, mas que tem lá seus
aspectos positivos, pois pelo menos expressa um mínimo de
solidariedade – pela autofagia e pelo individualismo exacerbado.
Em
nome da eficiência quantificamos tudo. Dessa forma, repetimos outro
procedimento presente em Auschwitz: a coisificação
das relações humanas. A partir do momento que não nos indignamos
diante da realidade social, que aceitamos como naturais determinados
fenômenos sociais, acabamos por admitir que parcelas de seres
humanos são descartáveis. Ao perdermos a noção do humano, o que
Adorno denomina de consciência coisificada,
nos tornamos coisa e tratamos os outros como coisas.
Longe
de pura abstração filosófica, este fenômeno está presente em
nosso cotidiano nas questões que nos parecem mais banais: a delinqüência
juvenil (lembremos de como os adolescentes atearam fogo no índio
Pataxó); os assassinatos motivados por roubos de pequenas quantias
ou mesmo por uma discussão com o motorista de ônibus; o domínio
do tráfico e quadrilhas semelhantes (onde o fator humano só conta
como consumidor de drogas e meio de enriquecimento). Numa realidade
onde a vida humana vale menos do que um objeto material qualquer, a
tendência é a crescente banalização do mal.
Perdemos
os limites. Quando um filho da abastada classe média trata outro
ser humano como coisa descartável e ficamos indiferentes
alimentamos a serpente do autoritarismo. É preciso, portanto, impor
limites e mostrar que o intolerável não pode ser tolerado. Em nome
da liberdade de expressão, grupos racistas e neonazistas fazem
propaganda pela Internet. Não podemos tolerá-los! Não podemos
agir como se isto fosse insignificante. O argumento preconceituoso
contra os negros, os nordestinos, os homossexuais, etc., nos diz
respeito.
Como
educadores, temos responsabilidade social diante de tudo isso. Então,
ao invés de nos perdemos em discussões intermináveis e estéreis;
de nos afogarmos em nossa própria vaidade; de gastarmos nosso
precioso tempo na mesquinhez do emaranhado burocrático e na luta
pelo poder de controlar os meios de prejudicar o outro;
de nos desgastarmos em picuinhas e academicismos; eduquemos no
sentido da auto-reflexão crítica e nos dediquemos à tarefa de
esclarecer, para que se produza um clima intelectual, cultural e
social que não permita a repetição de Auschwitz. O primeiro passo
é repensarmos nossas práticas como educadores.e nos indignarmos
com tudo que nos lembre Auschwitz ...
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