|
Por ARIOVALDO
UMBELINO DE OLIVEIRA Professor
aposentado do Departamento de Geografia da USP. Estudioso dos movimentos
sociais no campo, fez parte da equipe coordenada por Plínio de
Arruda Sampaio para elaboração da proposta original de um plano
nacional de reforma agrária para o governo Lula. É autor, entre
outros livros, de Modo capitalista de produção (Ática,
1995), Agricultura camponesa no Brasil (Contexto, 1997)
|
|
Edvaneide
Barbosa da SILVA. Educação e Reforma Agrária: práticas
educativas de assentados do sudoeste paulista. São Paulo:
Xamã: 2004 (158p.)
Pedidos:
http://www.xamaeditora.com.br
/ xamaed@uol.com.br
PREFÁCIO
Ariovaldo
Umbelino de Oliveira
"Sempre
foi na luta, o governo não tá
nem
aí com nada ...
Não, na luta só não, é na guerra
mesmo! Foi guerra mesmo! sabe? O governo não dá nada prá ninguém
e nem na negociação,
tem que ser na guerra mesmo. A gente vai negociar, ocupa prédio,
a Secretaria da Justiça, a Secretaria da Agricultura, a Secretaria
do Governo do Estado, a
gente ocupa e faz uma negociação com ele e só sai quando eles
negocia, é que a televisão distorce um pouco a coisa, né?" (MARINA)
O
trabalho de Edvaneide Barbosa da Silva inscreve entre um conjunto de
estudos que vêm sendo produzido nas universidades brasileiras a
respeito da educação no campo. Inserido entre aqueles que entendem
serem os Sem Terra novos personagens da cena política brasileira, o
estudo leva em conta como princípio básico articulador, a atuação
política dos camponeses brasileiros via principalmente, pelo
Movimentos ds Sem Terra – MST em sua luta cotidiana não só
contra o latifúndio da terra, mas também contra o latifúndio do
saber. Trata-se de uma luta sem trégua pelo acesso aos direitos que
os camponeses e os pobres deste país têm.
A
educação sempre foi preocupação básica nas propostas de ações
do MST. As escolas itinerantes acompanham as ocupações de terras
por estes rincões do país. A Pedagogia da Terra nasce na ocupação
e consolida-se nos assentamentos conquistados, fazendo do movimento
político da luta pela terra um movimento político, igualmente,
pelo acesso à educação para todos. Aprende-se lutando e luta-se
para aprender. É a marcha inexorável dos camponeses rumo à sua
libertação e posição de classe na sociedade capitalista no
Brasil. Lutam pelo que não têm, para ter pelo que lutam. Assim,
destróem o latifúndio e sua concentração de tudo na sociedade
brasileira.
Como
movimento social de luta por direitos inovam na forma de construir
uma outra forma de fazer política e participar da vida política:
fazem política de massa. Por isso causam medo às elites, porque
representam simultaneamente, a negação da forma histórica com que
as elites e a esquerda sempre fizeram política, como trazem a cena
estes novos personagens, como escreveu o saudoso Eder Sader. Eles
falam por si, não precisam de representantes, dão um nó no
centralismo democrático princípio básico da organização política
das esquerdas, e deixam a todos esquerda, centro e direita pasmados.
A elites esquecem que a fusão luta pela terra, luta pela educação
é princípio fundante da formação política de massa. Na massa
nascem cotidiamente lideranças. Eles estão em todos acampamentos e
assentamentos. São sujeitos de si próprio. Emanciparam-se na luta
e nela forjaram suas consciências de classe. São os camponeses
estes novos sujeitos sociais da classe camponesa da sociedade
brasileira.
O
trabalho de Edvaneide conta parte desta luta e evidentamente desta
história. Pesquisa realizada no mestrado do curso de Pós-Graduação
em Educação da Faculdade de Educação na Universidade Estadual de
Campinas foi competentemente orientado por esta importante pedagoga
da terra Profa.
Dra.
Maria Da Glória Marcondes Gohn. O Programa
Nacional
De Educação Na Reforma Agraria – PRONERA foi vasculhado à luz
das práticas
educativas que se desenvolvem nos assentamentos do MST na região
sudoeste do Estado de São Paulo.
Nesta
região o governo do Estado de São Paulo de Carvalho Pinto, no início
dos anos 60, propos começar aí um pequeno programa de Reforma Agrária.
Eram tempos da Revolução Cubana, que trazia para a utopia de parte
da esquerda do Brasil, uma tocha de esperança na luta pela revolução
socialista no país. As elites paulistas buscavam antecipar-se. Era
preciso ceder os anéis ... Mas, a radical intransigência da base
rentista dos latifundários do país reagiu contra, e tornando o
imposto territorial rural - ITR federal, retirou do governo de São
Paulo as poucas verbas que seriam utilizadas na sua “pequena
reforma agrária”. Ironia ou não da história, é certo que a
Fazenda Pirituba não foi loteada e entregue aos que pretendiam
terra naquela época. Mas foi sendo sistematicamente, cedida a
interessados em “explorá-la”.
Entretanto,
o nascimento da luta pela terra no Estado de São Paulo no início
da década de 80 permitiu o primeiro passo da reconquista da Fazenda
Pirituba, pelos Sem Terra. O primeiro assentamento foi implantado em
1984, e depois dele a continuidade da luta fez com que outros cinco
fossem também constituidos em novas agrovilas. A Fazenda Pirituba
agora, é quase toda parcela camponesa do território capitalista no
Brasil. Removido o latifúndio e seus algozes, constroi-se lá um
espaço da solidariedade e da luta dos camponeses do país. Pelo
canal radiofônico da Rádio Camponesa, cultura, conhecimento,
relacionamento e novas práticas sociais são postas a disposição
dos assentados e de parte dos brasileiros daquela região. A cultura
caipira vai assim, sendo recuperada e tornada disponível para a
cultura brasileira. Os camponeses caipiras vão retomando o hábito
nunca esquecido de compor e cantar.
Foi
neste processo de luta pelo acesso à terra e à cultura que a luta
pela educação está inscrita. Assim, Edvaneide se propôs a tratar
“das experiências
educativas desenvolvidas pelos assentados
do sudoeste paulista, organizadas pelo Movimento dos Trabalhadores
Rurais Sem Terra (MST)”.
Buscou desvendar as mais
diferentes formas de educação praticadas na fazenda Pirituba em Itapeva.
Escolheu entre elas a educação escolar de jovens e adultos. Pode
verrificar como a a luta pela escolarização
dos Sem Terra foi “parte constitutiva do processo de reconstrução
da vida no assentamento.”
Suas
pesquisas permitiram concluir que durante os anos 90, a educação
de jovens e adultos foi conquistada através da incansável “atuação
voluntária dos educadores do MST
da
região”. Eles cotidianamente, travaram batalhas e foram tornando
realidade “um
conjunto de experiências no campo da educação não formal.”
Com
o crescimento do número de assentados em todo o país, e em decorrência
das novas demandas nas políticas públicas por estes personagens, a
sua luta política na educação redundou na criação do PRONERA.
No ano de 1998, ele chegou a todas as agrovilas
do assentamento através de conflituosas parcerias entre MST/SP,
UNESP/Marília e INCRA-SP.
Hoje este programa premiado internacionalmente, é exemplo de política
pública bem sucedida no país. Porém, a sua efetivação no assentamento “foi marcada por momentos conflitivos entre os parceiros, bem como suscitaram
questões referentes à própria
prática pedagógica dos educadores do MST.”
Edvaneide
escolheu a simbólica Agrovila V para realização da pesquisa
relativa ao complexo processo de reconstrução
da vida pelos camponeses assentados. A Agrovila V é uma espécie de
ícone da implantação da produção coletiva em assentamentos do
MST. Alí fundem-se princípios coletivos da divisão do trabalho
com a vida cotidiana dos camponeses. Cooperativa, vida coletiva e
vida cotidiana privada travam verdadeira luta sem trincheira e sem
fim pela construção da identidade camponesa socialista. Foram idas
e vindas nesta trajetória. Muitas contradições estão presentes,
mas para movê-las e superá-las uma gana de luta sem fim.
Lá,
Edvaneide conheceu e conviveu com sujeitos concretos, atores
principais e personagens desta nova forma de se fazer política
neste país. Todos são sujeitos da pesquisa, mas, alguns ficaram
para sempre na memória de Edvaneide: Antonia, Nilza, Sandra, Mário,
Laisa, Edimilson, Doralice, Marina, Sheila, Manuel e Maria. Assim,
este trabalho não nasceu de fora para dentro. Ele foi sendo construído
de dentro para fora nos encontros e desencontros entre a teoria e
realidade. A educação foi sendo tratada como ensinou Paulo Freire
“com o povo, no meio do povo e para o povo”. A escola da vida
foi ocupando a vida na escola. Assim, o trabalho foi sendo construído.
O
olho clínico de quem pesquisa foi sendo tomado pela cenas
incessantes das ações políticas transformadas em práticas
educativas do setor de educação. A pesquisadora foi sendo colocada
no fio de navalha entre a consciência crítica fundante da ciência
crítica e o convencimento/opção política da militância. O
produto final foi uma feliz trajetória de encontros e desencontros
que formam a essência da vida.
O
trabalho buscou no estudo dos documentos e práticas realizadas pelo
Setor
Nacional de Educação do MST
e pelos seus níveis estadual e do assentamento. Vasculhou-se as propostas
sobre a educação de jovens e adultos em acampamentos e assentamentos. O estudo buscou
responder três perguntas fundamentais:
“a)
O trabalho
desenvolvido pelo
PRONERA alterou
significativamente
os índices
de analfabetismo presente no assentamento
em Itapeva/SP?;
b)
de que maneira
o Programa foi
desenvolvido, principalmente
na
agrovila
V?;
c)
o conjunto de experiências referentes à educação de jovens e
adultos na agrovila
V, adquire uma conotação transformadora?”
Dessa
forma, o trabalho tratou no primeiro capítulo do quadro geral que
forma o assentamento e sua inserção no estado e no país. Procurou
ressaltar “quanto
a reconstrução
da vida no assentamento
constitui-se em uma
dinâmica complexa.” Ainda neste capítulo buscou desvendar “a trajetória
da luta camponesa em Itapeva” através de “relatos importantes
acerca da luta pela escolarização dos filhos dos assentados,
indicando uma realidade ainda mais complexa por parte desses
sujeitos sociais ... visando ... um
conhecimento mais abrangente do trabalho
educativo desenvolvido no campo de educação de jovens e adultos”
No
capítulo II é apresentada
“o processo de ocupação da escola no assentamento,
mostrando também que, paralelamente à luta pelo acesso à educação
escolar, existe um conjunto de experiências
educativas,
as quais podem ser caracterizadas
enquanto educação não formal.
Sob essa óptica, a escola é o assentamento
ou vice-versa. As práticas educativas não formais, bem como a luta
pela educação escolar, relacionadas nesse capítulo, são
organizadas intencionalmente pelos militantes do MST.
Os
materiais publicados pelo Movimento expressam uma concepção
de educação em que contempla práticas educativas desenvolvidas no
âmbito
do próprio MST, como
também a luta pela educação formal nos acampamentos e
assentamentos.”
Uma
incursão na história da educação escolar de jovens e
adultos no Brasil e da experiência na
agrovila V, onde foi “possível constatar que o PRONERA ... pode
ser considerado continuidade de uma
educação não formal existente anteriormente.” Entretanto, pode
ser verificado que “a implementação
do Programa possibilitou um trabalho educativo um pouco mais
estruturado, pois esta foi uma experiência no Estado de São
Paulo, desenvolvida por uma parceria que
incluía o MST,
UNESP/Marília
e INCRA/SP.” Em termos gerais, “a
experiência
citada pode
ser caracterizada como uma educação emergencial por não ter tido
continuidade e pelos problemas relatados pelos protagonistas do
Programa, como é
possível perceber no capítulo III
... pois, pela
complexidade e atualidade do objeto de estudo pesquisado, podemos
antecipar que não apresentamos opiniões "fechadas" ...
longe disso, nossas observações
estão mais próximas de algumas considerações finais, imbuídas
de reflexões que conseguimos apreender no percurso do trabalho acadêmico.”
Assim,
o trabalho termina, modesto e cauteloso, como devem ser todas as
pesquisas que lutam para buscar uma aproximação com o real e com a
verdade. Parece que melhor é evocar os Sem Terra da Fazenda
Pirituba para definir a base da experiência que lá se realiza.
Eles têm a sabedoria que os move, movendo os camponeses do Brasil
na sua luta contra todas formas de latifúndio:
“Paulo
Freire foi um educador do povo, ele conseguiu educar as pessoas de
uma forma
diferente. Nós temos ele como referência. Não só o Paulo Freire,
também Che
Guevara, Makarenko
e outros. A gente tem que ter várias referências para ter um
olhar mais amplo. Temos leituras, palestras, planejamento coletivo,
todos nós educadores
trabalhamos juntos, não é só o coordenador.” (NILZA)
(Neste
frio outono do segundo ano do governo LULA)
|
|

|