|
Por
ALEXANDER MARTINS VIANNA
Doutorando em História
Social pelo PPGHIS-UFRJ; Prof. de História Moderna e Contemporânea
do Departamento de História da FEUDUC.
|
|
Liminaridade
Indesejada:
Por uma Leitura
Anti-Romântica de “Romeu e Julieta”
“Dedico
este artigo à turma de formandos de 2004 em História da FEUDUC”
Gostaria de começar este artigo fazendo
uma das citações mais celebradas na literatura de um trecho da peça
associada ao nome “Shakespeare”(1564-1616). Trata-se do solilóquio
de Julieta no balcão, depois do baile em que se enamorara por Romeu:
|
“O Romeo, Romeo! wherefore art thou Romeo? Deny thy father and
refuse thy name; or, if thou wilt not, be but sworn my love, and
I’ll no longer be a Capulet...
‘Tis but thy name
that is my enemy; thou art thyself though, not a Montague.
What’s Montague? It is nor hand, nor foot, nor arm, nor face,
nor any other part belonging to a man. O, be some other name!
What’s in a name?
That which we call a rose, by any other name would smell as
sweet. So Romeo would, were he not Romeo call’d, retain that
dear perfection which he owes without that title.
–
Romeo, doff thy name; and for that name, which is no part of
thee, take all myself...”(Romeo and Juliet, Act II, scene II) |
“Oh, Romeu,
Romeu, por que és tu, Romeu?! Renega teu pai e recusa teu nome
ou, se não puderes, jura somente pelo meu amor que eu não mais
serei uma Capuletto...
Somente teu nome é meu inimigo. Tu
não és mais do que ti mesmo, não um Montecchio. O que é um
Montecchio? Não é nem mão, nem pé, nem braço, nem rosto, nem
qualquer outra parte que pertença a um homem. Oh, sê outro nome!
O que há em um nome? O que chamamos
de rosa teria o mesmo cheiro doce se tivesse qualquer outro
nome. Então, Romeu, não fosse ele chamado Romeu, reteria essa
cara perfeição que possui sem tal título.
Romeu, joga
fora teu nome e, com esse nome que não é parte de ti, possua-me
por inteira...”(Romeo and Juliet, Act II, scene II) |
|
Extraído de: SHAKESPEARE, William. The Complete Work. New
York/New Jersey: Gramercy Books, 1990.
p.
1020. |
A reação comum a nós em relação a esta
peça e, particularmente, a este trecho é que estamos diante de uma
tragédia amorosa em que as partes principais envolvidas lutaram
heroicamente por seu ideal de amor. Tendemos a ver na atitude de
Romeu e Julieta um ato heróico no seguinte sentido: o indivíduo se
emula em nome de um ideal (amor) contra um sistema opressivo e
artificial. No entanto, tal sentido de valorização heróica
é construído historicamente. O nosso olhar sobre a peça já está
condicionado por uma lente sentimental romântica construída na
virada do século XVIII para o XIX, em que a tensão entre “ser” e
“parecer” foi resolvida, como ideal, em favor do “ser” – mesmo que,
“para que o ser seja”, isso representasse “o exílio do sujeito” (despatriamento,
morte ou fuga para lugares imaginários). Entretanto, dado o
distanciamento temporal da peça – que primeiramente fora encenada
entre os anos de 1594 e 1595 –, deveríamos, no mínimo, desconfiar de
nosso excesso de envolvimento ou aproximação sentimental. Nesse
sentido, pretendo apresentar nas linhas que se seguem alguns
dispositivos de análise que nos ajudem a construir tal
distanciamento afetivo e cultural.
Em primeiro lugar, para usarmos o
manancial de crítica textual da “virada lingüística” sem cairmos em
seduções formalistas, devemos considerar que as convenções textuais
não nos impedem de fazermos uma leitura referencial dos textos
atribuídos ao nome “Shakespeare”. Em segundo lugar, considerando que
a nossa leitura não vai ser anti-referencial, devemos expor com mais
vagar o que é o campo referencial que pressupomos ser necessário
para pensar “Romeu e Julieta” o mais próximo possível dos valores e
convenções sociais e políticas de sua época.
Como não há espaço aqui para falarmos
mais detidamente das convenções textuais que interferem na
existência física do “texto” que hoje lemos como “página”(page) e
que já foi mais flexivelmente “palco”(stage), contento-me em deixar,
sobre tais aspectos, alguns avisos: (1) enquanto foi encenada pela
companhia teatral da qual Shakespeare fazia parte, a peça “Romeu e
Julieta”, como tantas outras, sofreu múltiplas alterações feitas
pelos atores conforme o momento, lugar e público para o qual foi
encenada; (2) não há sentido falar em “texto original” ou em
“autoria individual”, pois todas as peças encenadas no período de
Shakespeare foram obras coletivas das companhias teatrais, sendo
flexíveis textualmente enquanto estiveram no “palco”(stage),
devendo-se, nesse sentido, considerar que a versão de “Romeu e
Julieta” que geralmente é divulgada hoje como “página”(page) está
baseada no fólio de 1623, cuja estabilização textual significou a
interferência dos editores na fixação de alguns “sons”(coisas ditas
no palco) em “palavras”(coisas escritas nas páginas), o que teve
como efeito restringir o campo semântico de muitos “sons”; (3) os
personagens não são “indivíduos” no sentido de complexões
psicológicas, pois tão somente representam “relações posicionais”,
para os quais a configuração discursiva era feita de modo a
torná-los facilmente identificáveis pelas audiências do final do
século XVI.
Nesse sentido, o fato de hoje termos a
necessidade de identificar os personagens pelos nomes já indica uma
leitura baseada na nossa noção de “sujeito psicológico”, enquanto
para a audiência do final do século XVI os personagens eram antes de
tudo “posições”, devendo isso ser entendido em duplo sentido:
“posição” tanto no movimento da trama quanto na hierarquia social
encenada na peça. Os personagens que encenam a ação principal são
geralmente aqueles que ocupam alta posição na hierarquia social,
criando em torno de si um círculo tenso de fidelidade e/ou traição.
O aparecimento de listagens de
personagens no começo de cada peça associada ao nome Shakespeare
remonta ao projeto editorial de Nicholas Rowe em 1709. O seu advento
é, evidentemente, um sintoma significativo de mudança não apenas da
prática de leitura de peças impressas, mas também, num sentido mais
abrangente, das práticas sociais desde o advento do folio de 1623.
Neste, somente 7 das 36 peças tinham listagem de personagens – e,
mesmo assim, somente figurava ao final delas. Esta variação
topográfica não pode ser ignorada por nós, pois está relacionada a
uma forma específica de conceber personagens para o plano de ação
das peças. Lembrar isso é uma forma de evitar anacronismos, pois o
hábito ainda presente de antecipar a listagem de personagens pode
induzir ao equívoco de pensar cada personagem nos termos de uma
identidade psicológica que move a ação, quando na verdade eles
eram concebidos como unidades posicionais que movem a ação.
Todas essas considerações sumárias sobre
convenção textual nos ajudam a construir algum tipo de
distanciamento, já que alteram a nossa visão sobre texto,
autoria e personagem no período de Shakespeare. Acrescentemos agora
os dispositivos referenciais que se somarão para a construção de
nossa análise anti-romântica da peça.
Um conceito-chave norteia minha análise
referencial da peça atribuída ao nome “Shakespeare”: Estado de
Antigo Regime. Este conceito serve para pensar a personalidade
política do Estado fora do campo habitual de abordagem que o associa
à idéia de formação de uma burocracia. Em termos weberianos, aquilo
que recorrentemente é entendido como “burocracia” significa uma
gradativa superação da lógica patrimonial-estamental de
organização do poder político e das relações sociais. No entanto, os
estudos mais atuais sobre poder e instituições políticas na Europa
Moderna justamente demonstram que o surgimento do Estado é anterior
à configuração política burocrática. Nesse sentido, observamos na
Europa Moderna a emergência de uma configuração política singular de
Estado, que dificilmente pode ser entendida em sua dinâmica social e
político-institucional se a pensarmos como mera antecipação do
Estado burocrático contemporâneo.
Uma configuração política estatal é
patrimonial quando, partindo de um fundamento feudal-senhorial,
concebe-se que muitos cargos ou atribuições ligados à “coisa
pública” ou ao “bem comum” adquiriam ação administrativa(potestas)
por meio de patrimônios particulares(dominium). E é
estamental porque a sociedade é concebida como organizada em
três grandes estamentos: 1º estado ou “aqueles que oram”; 2º estado
ou “aqueles que guerreiam”; 3º estado ou “aqueles que labutam”. Para
se evitar simplificações no entendimento da configuração política
estatal de Antigo Regime e, ao mesmo tempo, não se perder de vista
uma constante que norteia toda a sua dinâmica estrutural, não se
pode esquecer que cada estamento está dividido internamente em
corpos de privatae leges – que vinculam cada indivíduo a
direitos e obrigações hierarquicamente instituídos. Por isso, no
interior de cada corpus, um sanior pars (“primeiro” ou
“mais excelente” entre seus “iguais” de privilégio) representaria os
interesses de seu corpus numa instância externa ou superior
e, internamente, o sanior pars julgaria contendas,
distribuiria encargos (fiscais ou não) e promoveria a paz. Portanto,
na configuração política estatal de Antigo Regime, a liberdade, a
ação e a dignidade do indivíduo estariam definidas por sua
posição na cadeia hierárquica dos privilégios.
Para escapar da armadilha conceptual de
antecipar valores e idéias do liberalismo para um momento que não
seria adequado, penso que seja possível, esquematicamente, traçar a
seguinte caracterização geral sobre o aflorar do indivíduo: na
Idade Média, não haveria indivíduo, pois a dignidade existencial
do sujeito está a priori fundida no predicativo estamental,
não havendo, portanto, necessidade de verbo de ligação;
na Idade Contemporânea, haveria o indivíduo do
individualismo, pois, como princípio geral, trata-se de um
tipo de sujeito a priori desvinculado de qualquer
predicativo, regendo o verbo de ligação consoante o
seu arbítrio; na Idade Moderna, com a complexificação da vida
social em relação à Idade Média, haveria o indivíduo sem
individualismo, pois, fundindo-se com o verbo de
ligação, o sujeito – sem questionar os predicativos
estamentais, cuja substância está a priori estabelecida –
adquiriu um tipo de flexibilidade que modelarmente opera no sentido
de buscar adequação entre humor individual, honra do
nome de família e expectativas sociais sobre como agir em face das
circunstâncias, de modo a não macular a honra ou a dignidade de sua
posição. Então, Julieta e Romeu são verbos de
ligação, mas sua ação não conforma e sim deforma as
expectativas grupais características aos seus nomes de família. No
entanto, tal deformação de caracter (unfashioning)
é gerada por uma circunstância da qual são vítimas.
Portanto, se indubitavelmente há uma
noção de indivíduo florescendo no começo da Idade Moderna, não é
ainda o indivíduo romântico e/ou liberal, pois o que se espera
idealmente do indivíduo no interior do Estado de Antigo Regime é que
realize eficientemente no tempo a honra de seu “corpus”,
buscando afastar-se de qualquer atitude que pudesse fragilizá-la ou
maculá-la. Se pensarmos o sentido ideal da ação política de tal
indivíduo a partir da posição principesca,
esta deveria ser capaz de reduzir as discrepâncias, fazer
adaptações e associar os contrários. Considerando que o
Estado na Europa Moderna é de Antigo Regime, fazer adaptações
significa quase sempre conciliar partes de privilégios
frente às forças do tempo (que a tudo altera e pode corromper os
vínculos de interdependência). Ora, tal tarefa é tanto mais difícil
quando as partes que de alguma forma se rivalizam são
equivalentes em dignidade, clientela política e riqueza. Daí a
dificuldade do príncipe Escalo de conseguir a paz na fictícia Verona
encenada na peça “Romeu e Julieta” que, desde o seu prólogo, avisa à
audiência que duas famílias rivais, iguais em dignidade,
derramam sangue dos habitantes da cidade (“sangue
cidadão”).
Na configuração discursiva das
tragédias, o mundo encenado pelos personagens delineia as situações
que representam “desequilíbrio”, sendo o movimento dramático operado
para um fim moralizante: a restauração da ordem ou equilíbrio das
coisas. Na peça “Romeu e Julieta”, o príncipe Escalo é a autoridade
soberana que busca estabelecer uma escala de harmonia nas coisas do
governo de forma a evitar que seu principado se perca em guerras
civis. Para tanto, é fundamental que as duas principais famílias de
Verona (Capuletos e Montéquios) – abaixo da autoridade principesca
e, portanto, intermediárias de seu poder – cessem as suas guerras.
Deste modo, é a ação desmedida (hibrys)
de dois corpos de privilégios na arena política que causa o
desequilíbrio do Estado e serão eles (através de suas descendências:
Julieta e Romeu) punidos ao final do drama.
Na lógica do poder político encenada em
“Romeu e Julieta”, a melhor forma de se tentar cessar uma guerra
civil que envolva os principais de um lugar é o casamento, pois, em
princípio, significa associar as clientelas políticas numa única
parentela. No entanto, tal horizonte não faz parte dos planos das
autoridades paternas Capuleto e Montéquio. Tal indisposição das
casas em pensar uma paz duradoura desembocará numa situação
moralmente condenável: o casamento de Julieta e Romeu à revelia da
vontade das autoridades paternas e levado por motivações que
desconsideravam a necessidade de honrar o nome de suas respectivas
“casas”/“nomes”.
Aproveitando-se do acaso que fará os
dois jovens apaixonarem-se, Frei Lourenço aceitará o plano
arquitetado por Julieta de casá-los em segredo, pois, malgrado a
situação pouco convencional de tal casamento, Frei Lourenço (a
partir de sua posição de clérigo) pensava poder fazer aquilo que
Escalo (a partir de sua posição de príncipe) não estava conseguindo
com plena eficiência: conciliar duas famílias iguais em dignidade
para que cessassem todas as guerras.
No entanto, a posição conciliatória de
Frei Lourenço é moralmente ambígua, pois tentava corrigir o erro(dos
pais) com o erro(dos filhos). Porém, tais erros não são
equivalentes, embora mantivessem uma relação causal: em guerra
civil, as casas Capuleto e Montéquio jamais planejaram uma paz
duradoura, tanto é verdade que, desde o baile, pensando em casar
Julieta, o pater Capuleto pensava em Páris, parente do
príncipe, como melhor pretendente – jamais vislumbrara como
possibilidade o jovem Romeu dos Montéquios. Ora, sendo os “nomes de
família”(“casas”) um empecilho para Julieta e Romeu amarem-se,
restava para eles, então, enganarem os pais ou
desejarem, no limite, não serem um “nome”.
Portanto, a situação de erro dos pais desembocava inescapavelmente
num desejo de erro dos filhos: uma paixão proibida que levava
Julieta e Romeu a desejarem ser “nada”, ou seja, jogarem fora o “nome”
(a obrigação em honrar a posição). Isso significa que, nos
termos de uma sociedade de Antigo Regime, Julieta e Romeu
tornavam-se indecorosos, pois perdem o decoro
das obrigações em relação à sua posição; e também tornam-se
indiscretos: Romeu perde o discernimento,
enquanto Julieta usa-o com destreza, mas de modo moralmente
condenável. No final das contas, de posições distintas
deformadas(homem-afeminado e mulher-virago), ambos não
usam o discernimento para uma ação eficiente que
concilie honra e circunstância, tornando
o seu projeto secreto de amor destrutivo para a autoridade e honra
dos “nomes” de suas “casas”.
Em sua posição de clérigo, Frei Lourenço
tenta fazer com que as intenções indecorosas
e indiscretas de Julieta e Romeu – circunstancialmente
desculpáveis pela juventude e pela rivalidade de suas famílias –
tenham um efeito político eficiente: a paz em Verona. Entretanto, no
plano narrativo da peça, não há espaço moral para o êxito de seu
artifício, pois seria o mesmo que transformar em
meios políticos as intenções de dois jovens
que representavam deformações do princípio de
autoridade e das hierarquias sociais. Nesse sentido, ao aceitar
fazer o casamento secreto, Frei Lourenço corrobora com a imoralidade
em nome de fins políticos, visto que: ratifica que os filhos enganem
os pais e sejam desobedientes aos seus desígnios; aceita que os pais
não planejem o casamento dos filhos e a configuração patrimonial dos
poderes de suas “casas”; considera que a causa de uma intenção,
mesmo que indecorosa e indiscreta, possa
ao menos ter efeitos políticos eficientes, embora estes não
alterem em nada, em termos morais-religiosos, a substância da
intenção. Portanto, o fracasso da ação do clérigo indicia um forte
apelativo “anti-Maquiavel” no plano de enredo da peça.
A paixão de Julieta e Romeu não é
moralmente viável em uma sociedade de Antigo Regime, pois não é
configurada, como já se disse, no sentido da realização honrada da
posição e autoridade de suas parentelas. No entanto, se assim os
jovens agem é porque há uma situação anterior de desequilíbrio das
paixões da qual não são individualmente responsáveis. Nesse sentido,
Julieta e Romeu são apenas metonímias invertidas das
paixões destrutivas de suas casas: o vetor “ódio/evasão”
das guerras entre Capuletos e Montéquios é potencialmente
desestruturador do Estado, enquanto o vetor “amor/desejo”
de Julieta e Romeu – através de seus meios e motivações
de ação – é potencialmente desestruturador da honra dos “nomes”
Capuleto e Montéquio. Então, como solução moralizante-punitiva, a
morte de Julieta e Romeu – que provoca dor e arrependimento em seus
pais – corrige a deformação dos caracteres do corpo
político do Estado causada pelas guerras, pois Capuleto e Montéquio
perdem seus únicos descendentes, sobrando apenas para a posteridade
as estátuas de ouro que uma casa levantará em honra da
outra como selo de uma paz duradoura. É interessante observar que,
ao final, o pater Capuleto faz o ritual legítimo de
casamento, mesmo que póstumo, quando oferece a sua
própria mão(amizade) ao pater
Montéquio como “dote da filha”. Isso confere ao seu ato uma solene
dramaticidade e redime o ato moralmente condenável do casamento
secreto de Julieta e Romeu. Assim, o “dote de Julieta” torna-se a
metáfora da paz no principado da fictícia Verona.
Um parêntese especial deve ser aberto
aqui para tratar do que vou chamar de “deformidade viril” de
Julieta, cuja ação dramática é complementada pela “deformidade
feminil” de Romeu. Julieta é “virago”, ou seja, a mulher que, em
decisão e atitude, traveste-se de masculino. Ela é decisiva,
eloqüente e planeja toda a ação, da qual Romeu apenas sofre os
efeitos. Assim, em certo sentido, ela é como a fortuna, enquanto
Romeu, dada a sua passividade e indecisão, deixa-se levar pela
virilidade de Julieta. Além disso, o seu plano de ação é revestido
de comicidade, já que há inversão de papéis: atenta às
circunstâncias para ter uma ação eficiente em nome de seu projeto
pessoal de amor, Julieta é a jovem que engana o pai (experiência) e
conduz Romeu (indecisão) ao matrimônio.
Desde o começo da peça, devido à sua
indecisão, inconstância “feminil” e dificuldade de discernimento
frente a novas experiências, Romeu sofre a paixão em vez de atuar
nela, tanto quanto sente-se joguete frente às forças do
destino/fortuna. Portanto, no plano de ação da peça, não há
deformidade de caracter em Julieta sem que haja o seu
contraponto complementar em Romeu. Por isso mesmo, Romeu é risível e
objeto de zombaria para Mercutio (cuja posição na peça é aquela do
“bobo”, ou seja, da “censura cômica”), enquanto é também objeto de
repreensão de Frei Lourenço, que faz a “censura séria”. Assim, em
vários momentos, Romeu é advertido para não se perder de si mesmo e,
deste modo, estar preparado para realizar de forma honrada a
sua posição conforme as circunstâncias. Em uma dessas vezes,
quando ameaçou se matar com a espada para arrancar de si as “marcas
no nascimento”, Romeu foi incisivamente censurado por Frei Lourenço.
A admoestação de Frei Lourenço é tão exemplar para demonstrar a
deformidade de caracter a ser corrigida pelo movimento
dramático da peça que vou citá-la integralmente:
|
“Hold thy
desperate hand! Art thou a man? Thy form cries out thou art. Thy
tears are womanish; thy wild acts denote the unreasonable fury
of a beast. Unseemly woman in a seeming man! Or ill-beseeming
beast in seeming both! Thou hast amaz’d me. By my holy
order, I thought thy disposition better tempered. Hast thou
slain Tybalt? Wilt thou slay thyself? And slay thy lady, too,
that lives in thee, by doing damned hate upon thyself? Why
rail’st thou on thy birth, the heaven, and earth? Since birth,
and heaven and earth, all three do meet in thee at once, which
thou at once wouldst lose. Fie, fie! Thou sham’st thy shape, thy
love, thy wit; which, like a usurer, abound’st in all, and usest
none in that true use indeed, which should bedeck thy shape, thy
love, thy wit. Thy noble shape is but a form of wax,
digressing from the valour of a man. Thy dear love sworn, but
hollow perjury, killing that love which thou hast vow’d to
cherish. Thy wit, that ornament to shape and love,
mis-shapen in the conduct of them both, like powder in a
skilless soldier’s flask, is set a-fire by thine own
ignorance, and thou dismember’d with thine own defence.
What, rouse thee,
man! Thy Juliet is alive, for whose dear sake thou wast but
lately dead – there art thou happy. Tybalt would kill thee, but
thou slew’st Tybalt – there art thou happy too. The law, that
threaten’d death, becomes thy friend, and turns it to exile –
there art thou happy. A pack of blessings lights upon thy back.
Happiness courts thee in her best array. But, like a misbehav’d
and sullen wench, thou pout’st upon thy fortune and thy love.
Take heed, take heed, for such die miserable. Go, get thee to
thy love, as was decreed. Ascend her chamber, hence and comfort
her...” (Romeo and Juliet, Act III,
scene III) |
“Detém tua desesperada mão! És um
homem? Tua forma apregoa que és, [mas] tuas lágrimas são de
mulher. Teus atos selvagens denotam a fúria insensata de uma
fera. Mulher deformada em forma de homem, ou mal formada fera
em forma de homem e mulher! Assombrado me deixas. Por minha
Santa Ordem, pensei que tua disposição fosse melhor temperada.
Mataste Teobaldo, queres matar a ti mesmo e também tua
esposa, que vive em ti, voltando condenável ódio contra
ti mesmo? Por que injurias teu nascimento, o céu e a terra se
todos – nascimento, céu e terra – estão em ti ao mesmo tempo, os
quais queres perder de uma só vez? Cuidado, cuidado! Tu
envergonhas tua forma, teu amor, tua inteligência. Como um
usurário, tudo tens em abundância, mas nada usas conforme o
verdadeiro uso, o que realçaria a tua forma, o teu amor, a tua
inteligência. Tua nobre forma é apenas uma imagem de cera,
desprovida do valor de um homem. Tua cara jura de amor é apenas
um oco perjúrio que mata tal amor ao qual devotavas estima.
Tua inteligência, esse ornamento de tua forma e amor,
desviada da condução de ambos, como a pólvora no polvarinho de
um soldado inábil, inflama-se devido à tua própria ignorância,
e tu te mutilas com teu próprio meio de defesa.
Anima-te,
homem! Tua Julieta, por quem morrias de amor há pouco, está viva
– nisso tu és feliz. Teobaldo queria te matar, mas tu mataste
Teobaldo – nisso também és feliz. A lei, que ameaçava com morte,
torna-se tua amiga e converte morte em exílio – nisso tu és
feliz. Um fardo de bênçãos recai em tuas costas. A felicidade te
corteja em seus melhores paramentos. No entanto, como uma moça
malcomportada e rabugenta, tu desdenhas tua fortuna e teu amor.
Preste atenção, preste atenção! Por isso se morre miserável.
Vai, procura teu amor como estava decidido. Sobe até seu quarto
e, então, console-a...”(Romeo and Juliet, Act III, scene III) |
|
Extraído de: SHAKESPEARE, William. The Complete Work. New
York/New Jersey: Gramercy Books, 1990.
p.
1031. |
Consolar
Julieta significa consumar o casamento. A admoestação
de Frei Lourenço é, nesse sentido, o contraponto perfeito ao
solilóquio de Julieta citado no começo deste artigo. No movimento
dramático da peça não há, portanto, positivação de qualquer projeto
de amor (ou poder) que signifique “jogar fora o nome” ou desajustar
a harmonia das hierarquias dos corpos de privilégios. Por isso,
propondo em ação valores e idéias compartilhadas pelas
audiências de sua época, a peça “Romeu e Julieta” nega posteridade
para tudo que represente desestruturação ou deformação da
configuração política de Antigo Regime do fictício Estado de Verona.
Referências
Bibliográficas:
CASSIRER, Ernst.
Individu et Cosmos dans la philosophie de la renaissance. Paris:
Minuit, 1991.
ELIAS, Norbert. La
Société de Cour. Paris: Flammarion, 1985.
ELIAS, Norbert. O
Processo Civilizador, 2 vols. Rio de Janeiro: Jorge Zahar,1994.
ELIAS, Norbert; SCOTSON,
John L.. Os estabelecidos e os outsiders. Rio de Janeiro: Jorge
Zahar Editor, 2000.
GARIN, Eugenio (dir.). O
Homem Renascentista. Lisboa: Presença, 1991.
GINZBURG, Carlo.
Relações de Força. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
GINZBURG, Carlo. Olhos
de Madeira: Nove Reflexões sobre a Distância. São Paulo: Companhia
das Letras, 2001.
GRAZIA, Margreta de;
STALLYBRASS, Peter. “The Materiality of the Shakespearean Text”. In
Shakespeare Quartely, volume 44, 1993(3): pp.255-283
GUY, John. The Tudor
Age, 1485-1603. In The Oxford Illustrated History of Britain.
Oxford/New York: Oxford University Press, 1992. pp. 223-285.
HANSEN, João Adolfo. “O
Discreto”. In NOVAES, Adauto(org.), Libertinos e Libertários.
São Paulo: Companhia das Letras.
HONAN, Park.
Shakespeare: Uma Vida. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.
KAEUPER, Richard. Guerre,
Justice et ordre public: la France et l’Angleterre à la fin du Moyen
Âge. Paris: Aubier, 1994.
KISHLANSKY, Mark. A
Monarchy Transformed, Britain: 1603-1714. New York: Penguin Book,
1996.
LOADES, David. Tudor
Government: Structures of Authority in the Sixteenth Century.
Oxford/Malden: Blackwell, 1997.
MARAVALL, J.A.. La
cultura del barroco. Barcelona, Ariel, 1990.
MARAVALL, J.A.. Poder,
honor y elites en el siglo XVII. Madrid: Siglo XXI, 1989.
MARCUS, Leath S..
“Levelling Shakespeare: Local Customs and Local Texts”. In
Shakespeare Quartely, volume 42, 1991(2): pp.168-178
MORRIL, John. The
Stuarts, 1603-1688. In The Oxford Illustrated History of Britain.
Oxford/New York: Oxford University Press, 1992. pp.286-351.
POCOCK, J.G.A.. The
Machiavellian Moment: Florentine Political Thought and the Atlantic
Republican Tradition. Princeton: Princeton University Press, 1973.
PUJOL, Xavier Gil.
“Centralismo e Localismo: Sobre as relações políticas e culturais
entre capital e territórios nas Monarquias Européias dos séculos XVI
e XVII”. In Penélope, nº6. Lisboa: Cosmos, 1991. pp.119-142.
RENAUT, Alain. O
Indivíduo: reflexão acerca da filosofia do sujeito. Rio de Janeiro:
DIFEL, 1998.
SHAKESPEARE, William.
Obras Completas. Lisboa: Nova Aguilar, 1969.
SHAKESPEARE, William.
The Complete Works. New York: Gramercy Books, 1990.
SKINNER, Quentin. As
Fundações do Pensamento Político Moderno. São Paulo: Companhia das
Letras, 1999.
STONE, Lawrence. Causas
da Revolução Inglesa, 1529-1642. São Paulo: EDUSC, 2000.
VIANNA, Alexander
Martins. “O poder político na Europa Moderna, sécs. XV-XVIII”. In
Escritos de História e Educação: Homenagem a Maria Yedda Leite
Linhares. Rio de Janeiro: Mauad, 2001.pp.171-196
VILLARI, Rosario (dir.).
O Homem do Barroco. Lisboa: Presença, 1995.
WRIHGT, George T.. “An
almost oral art: Shakespeare’s language on the stage and page”. In
Shakespeare Quartely, volume 43, 1992(2): pp.159-169. |
|

|