Por FABRÍCIO FONSECA DA SILVA* & FERNANDA GONÇALVES DE LAIA**

* Graduando do curso de História da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Duque de Caxias (FEUDUC)

** Graduanda do curso de Letras da  Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Duque de Caxias (FEUDUC). Bolsista de iniciação científica do Grupo de Estudos Lingüísticos (GEL/FEUDUC)

 

Um estudo comparado de “Frankenstein” e “Os Miseráveis”: questão social e liberalismo no século XIX

 

Este artigo pretende discutir comparativamente o tratamento de “párias sociais” na literatura oitocentista através da figura do “monstro” de Mary Shelley(1797-1851), apresentado em seu conto Frankenstein(1818), e do personagem Jean Valjean de Victor Hugo(1802-1885), apresentado em Os Miseráveis(1862), cujo ponto central comum é o fato de serem obras carregadas de denúncias sociais. Os autores procuraram retratar a trajetória de personagens que foram privados de afeição e generosidade e, com isso, foram jogados para o “nada social” do liberalismo. Nesse período, a distinção social passou a ser regulada idealmente pelo mérito da riqueza e da educação, mudando o quadro do Antigo Regime, onde a sociedade era hierarquizada por critérios estamentais. Nesse sentido, a forma de se configurar as relações de interdependência entre indivíduos e, por conseguinte, definir “estabelecidos” e “outsiders” mudou completamente. Nas obras de Mary Shelley e Victor Hugo, podemos observar que denunciam que o progresso material não pode vir atrelado à exclusão social e à perda de afeição pelos infortunados da nova sociedade. A grande novidade está justamente no fato de a pobreza deixar de ser encarada como algo natural – no sentido de ser algo que faz parte da constituição do mundo por Deus –, passando a ser vista como algo circunstancial e, logo, passível de reforma ou correção em seus efeitos mais negativos para a dignidade humana. No entanto, a maneira que Victor Hugo constrói o personagem Jean Valjean é diferente da forma como Mary Shelley cria sentido social para seu monstro, mas ambos convergem para um ponto comum.

Jean é um homem que vive uma situação de miserabilidade no mesmo período em que Napoleão III[Imperador: 1852/1871] aumentara seus gastos com a política externa francesa em busca de glória política. A vida miserável leva-o ao crime, mas se reabilita socialmente quando consegue uma ajuda caridosa. Em certo sentido, Jean é a própria mancha social que os projetos urbanos de Haussmann[Prefeito em Sena: 1853/1870] pretendiam jogar para a periferia, mas que insistia em invadir o centro em horários inoportunos, emergindo literalmente de dentro de si (metáfora dos esgotos de Paris). Por sua vez, o monstro de Mary Shelley não é um homem, mas um ser sem nome ou espécie, abandonado no mundo, privado de afeição e condenado a nunca se integrar, pois a sociedade que vive da aparência da riqueza e do mérito do nome no período da Restauração(1815/1830) seria incapaz de ver nele, para além da aparência externa, uma beleza interior a ser cultivada e respeitada.

Nesse sentido, o monstro de Mary Shelley é mais miserável do que qualquer homem miserável, pois para ele não há chance de afeição caridosa, nem mesmo de seu criador, o cientista Victor Frankenstein. No entanto, não paradoxalmente, é esta situação extrema de “nada social” que mais provoca empatia no leitor, fazendo-o pensar não num homem (como Jean de Valjean), mas em qualquer homem. De qualquer forma, no plano de ação de ambas as obras, os personagens são igualmente sinédoques dos valores e regras sociais a serem questionadas de suas respectivas formações sociais. Não sem razão, em vários momentos os personagens são apresentados em fluxos de autoconsciência que dão ao leitor a chance de questionar as regulações sociais em que estão inseridos.

Na descrição que Victor Hugo faz da vida do personagem Jean Valjean, podemos observar que há o cuidado de evidenciar as circunstâncias que o levaram ao crime e, portanto, mais do que uma questão de gosto ou preferência pessoal por uma vida irregular, tratava-se de uma situação social que deveria ser encarada francamente pela sociedade em geral e pelas autoridades políticas em particular:

“Jean Valjean, de humilde origem camponesa, ficara órfão de pai e mãe ainda pequeno e foi recolhido por uma irmã mais velha, casada e com sete filhos. Enviuvando a irmã, passou a arrimo da família, e assim consumiu a mocidade em trabalhos rudes e mal remunerados(...). Num inverno especialmente rigoroso, perdeu o emprego, e a fome bateu à porta da miserável família. Desesperado, recorreu ao crime: quebrou a vitrina de uma padaria para roubar um pão. (...)Levado aos tribunais por crime de roubo e arrombamento, foi condenado a cinco anos de galés. (...) Mesmo na sua ignorância, tinha consciência de que o castigo que lhe fora imposto era duro demais para a natureza de sua falta e que o pão que roubara para matar a fome de uma família inteira não podia justificar os longos anos de prisão a que tinha sido condenado”. [HUGO, 1970: p.23] (Grifo nosso)

A situação familiar vivida por Jean Valjean é o contraponto perfeito ao ideal romântico de família construído por Mary Shelley para seu personagem Victor Frankenstein. Este recebera de seus pais boa formação intelectual e afetiva, sendo um traço comum a seus pais o fato de evitarem imposições autoritárias e dogmáticas, como podemos observar no trecho que se segue:

“É de duvidar que alguém tenha tido infância mais feliz do que a minha, sob a permanente gentileza e indulgência de meus pais. Longe de serem tiranos ávidos por submissão a seus caprichos, eram, antes, criadores e participantes dos prazeres que desfrutávamos. O convívio com outras famílias dava-me condições de avaliar o quanto era feliz, e isso ocorreu para desenvolver em mim o amor final”. (SHELLEY, 2002: p.41)

Victor Frankenstein desfrutara de uma vida familiar que não proporcionara para seu monstro, que chega inocente no mundo e apenas encontra dor e abandono:

“(...) Nenhum pai velara meus dias de infância, nenhuma benção de mãe baixara sobre minha fronte ou, se tal havia acontecido, tudo havia diluído no borrão, no grande vazio em que consistia toda minha vida passada. (...)Jamais vira um ser semelhante a mim, que eu pudesse considerar da minha espécie ou que tivesse qualquer relação comigo. Quem era eu? O que era eu? A pergunta voltava constantemente ao meu espírito, sempre sem resposta.” (SHELLEY, 2002: p.115)

Indivíduo extremado, ser sem espécie, aos poucos o monstro adquire consciência existencial, torna-se sujeito. O monstro é o indivíduo criado por um indivíduo em busca de glória científica, de projetar seu nome na posteridade. No entanto, tal ânsia de ter um “nome de destaque”, ao lado da boa educação e da riqueza de família, adquiriu em Victor Frankenstein feições monstruosas, pois ele se perdeu do equilíbrio entre meios e fins, tornando-se, mesmo que por um átimo, insensível às demais vidas. Assim, nos termos da configuração social liberal, o individualismo e a indiferença de um indivíduo geraram um monstro que se voltará contra si – tal como os desafortunados dos esgotos de Paris poderiam um dia fazer contra as “maisons” dos “boulevards”. Por isso, deve-se considerar que, se o monstro de Mary Shelley era fruto de uma circunstância, também o era a ânsia de Victor por glória científica. Por sua vez, Jean de Valjean, que também viveu uma situação monstruosa de “dejeto social”, conseguirá sair dela justamente porque encontrou aquilo que Victor Frankenstein não soube dar ao seu monstro. Podemos observar isso quando Jean é introduzido num novo ciclo social na casa do Bispo Monsenhor Benvindo:

‘Será verdade? Tratam-me com consideração! A mim, um simples forçado! (...)Sou um homem infeliz, não tenho amigos: não passo de um forçado(...). Nesta casa, no entanto, convidam-me a ficar! E não enganei ninguém! Fui entrando e dizendo que eu sou. Vou jantar à mesa da família e dormir  numa cama com lençóis e colchões, como acontece a todos! Uma cama! Há dezenove anos não sei o que seja isso. Estou diante de pessoas generosas(...)’. [Jean de Valjean] vivia escorraçado e humilhado, perambulando da cidade em cidade até que, junto a Monsenhor Benvindo, encontrou finalmente o calor humano de cuja existência os anos de sofrimento o fizeram duvidar”. (HUGO, 1970: pp.20-24.) (Grifo nosso)

Para Mary Shelley e Victor Hugo, o liberalismo teria trazido um ideal novo de sociedade, em contraste com a sociedade de Antigo Regime. Se tal ideal de sociedade funcionasse em sua plenitude, tornaria o mundo melhor, ou seja, cultivar a sensibilidade de que todas as pessoas devem ser tratadas como parte de uma mesma dignidade e, portanto, seriam dignas de mesma consideração e afeição, mesmo que não tivessem “nome” ou riqueza. Este tipo de sensibilidade é expressa, no caso de Victor Hugo, através do Bispo Monsenhor Benvindo, enquanto o mesmo ocorre, no caso de Mary Shelley, com a forma com que constitui o ambiente familiar de Victor Franskenstein. Os seus pais, reconhecendo os méritos distintos de Elizabeth e Justine – cujas origens sociais eram análogas –, criaram para elas condições dignas de existência no seio da família, mas suas posições não eram as mesmas: “prima Elizabeth” era, se tudo corresse para o melhor, “para casar com Victor”; Justine era a empregada que recebera as primeiras letras. Portanto, não se questiona propriamente as hierarquias internas da configuração social do liberalismo, apenas se almeja que suas potências não se desdobrem para feições monstruosas, como se evidencia neste trecho:

“Aprendi, Frankenstein, que os bens mais almejados pelos seus semelhantes eram a alta posição, a reputação e as riquezas. Uma só dessas vantagens bastaria para outorgar respeito a um homem, mas a falta de pelo menos uma delas era o suficiente para que fosse considerado relegado à condição de pária ou escravo, condenado a despender todas as suas forças para lucro de poucos eleitos. E que era eu? Nada sabia sobre minha criação e meu criador, mas sabia que não possuía a menos parcela disso a que chamavam dinheiro, nem amigos, nem a mais insignificante propriedade. (...) Eu nem sequer era da mesma natureza que o homem. (...) Então eu era um monstro, uma nódoa na terra, da qual todos os homens fugiam e a quem ninguém queria reconhecer por seu igual!”(SHELLEY, 2002: pp.114-115)

Portanto, o limes monstruoso de Jean de Valjean não era o mesmo do monstro de Mary Shelley, pois, devido à extremosidade monstruosa deste último, não havia como a sociedade reconhecê-lo como seu igual – a menos que conseguisse enxergá-lo para além da aparência, como fizera o Bispo Monsenhor Benvindo no caso de Jean de Valjean. No entanto, em ambas as obras a solução da questão social é ainda tratada nos parâmetros do liberalismo: dever-se-ia difundir a generosidade (sinônimo de caridade burguesa), em vez de pensar a resolução da questão em termos de uma necessária revolta social. Nesse sentido, não se deve esperar de Mary Shelley e Victor Hugo uma sensibilidade socialista “avant les lettres”. No caso específico de Victor Hugo, é bem evidente a sua simpatia pelo ideal democrático da segunda metade do século XIX, do qual considerava Napoleão III um traidor, o que era bem distinta da sensibilidade ainda rousseauísta que Mary Shelley projetou para a sua fictícia Genebra setecentista.

   

 

Referências Bibliográficas:

BARRÈRE, Jean-Bertrand. “Victor(-Marie) Hugo”. In CD-ROM da Enciclopédia Britannica (1994-2000).

DUROSELLE, J.B.. A Europa de 1815 aos nossos dias: vida política e relações internacionais. São Paulo: Pioneira, 1985.

HUGO, Victor. Os Miseráveis. Rio de Janeiro: Ediouro, 1970.

ELIAS, Norbert. O Processo Civilizador, vol. I. Rio de Janeiro: Jorge Zahar,1994.

ELIAS, Norbert; SCOTSON, John L.. Os Estabelecidos e os Outsiders. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2000.

RÉMOND, René. O século XIX (1815 – 1914). São Paulo: Cultrix, 1993.

SHELLEY, Mary. Frankenstein. São Paulo: Martin Claret, 2002.

VIANNA, Alexander Martins. Entre Iluministas e Românticos: Continuidade e Ruptura de Perspectivas. Duque de Caxias: FEUDUC, 2004. (mimeo)

VIANNA, Alexander Martins. “Novo Moderno Prometeu: O Espelho de Victor Frankenstein”, In Revista Espaço Acadêmico, n.26 (julho)/n.28 (setembro). (Maringá, 2003).

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