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Por ALINE
BARROS DE CARVALHO SILVA &
SILVANIA
BRITO DUARTE Graduandas
do curso de História da Faculdade de Filosofia, Ciências e
Letras de Duque de Caxias (FEUDUC)
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Família
e Relações Afetivas:
entre
Antigo Regime e Restauração
Em “Romeu e Julieta”(1594/1595), de William
Shakespeare(1564-1616), e em “Frankenstein”(1818), de Mary
Shelley(1797-1851), os personagens-título servem como metonímias
para valores e regras de sua sociedade, que são postos em debate
através dos planos de ação de ambas as obras. No entanto, são
obras de períodos distintos: a primeira é do final do século XVI,
escrita numa Inglaterra sob o Antigo Regime; a segunda é do começo
do século XIX, escrita por uma autora que já vivia sob o clima político
do liberalismo. Elas têm em comum o mesmo espaço de formação e
uma narrativa em plano de tragédia, mas foram desenvolvidas em
momentos civilizacionais completamente distintos. Este lapso
temporal permite-nos perceber transformações evidentes quanto ao
modo de se encarar os ideais de vida familiar, os jogos de
pertencimento e as relações afetivas. É justamente isso que
pretendemos explorar neste estudo comparativo de ambas as obras.
Os personagens Romeu e Julieta estão inseridos em uma
sociedade dividida internamente em corpos de privilégios, o que
significava uma obrigação muito estreita com os nomes de família.
Nesse sentido, diferentemente do ideal romântico de família que
perpassa a obra de Mary Shelley, os personagens Romeu e Julieta não
poderiam anular os seus nomes em prol do amor, pois isso seria impróprio
para os valores e regras que regiam uma sociedade de Antigo Regime.
Na sua postura em relação à realização do amor – tal como
Victor Franskenstein em seu projeto de glória científica –,
Romeu e Julieta são antimodelos, são o mal exemplo a ser eliminado
no decorrer do drama, pois representam a deformidade de um ideal. No
entanto, a atitude leviana que eles tomam ao pretenderem casar-se
escondidos é fruto de uma circunstância: a intolerância das
guerras interfamiliares na fictícia Verona, que provoca a
instabilidade do Estado. Portanto, é isso o foco central de censura
na peça, pois é tal circunstância que os faz desejarem ser indivíduos
sem corpos de privilégio, de “jogar fora o nome”, de não
esperarem que seus pais conduzam seus destinos. No caso de Julieta,
por ser mulher-menina, há um efeito cômico na audiência por cada
fala em que seu pai acha ter controle da situação, como na cena
que se segue ao diálogo do balcão:
“Capuleto:
– Senhor
Páris, posso dar-lhe uma prova desesperada do amor de minha filha.
Penso que ela se deixa orientar por mim em todos os aspectos
de sua vida. Aliás, não só penso como não tenho a menor dúvida
a esse respeito”.[Ato III, Cena IV; Grifo nosso] (SHAKESPEARE,
1998: 105)
Um efeito tragicômico é também provocado por Romeu, que se
cega perante o amor – tal como Victor Frankenstein se priva de luz
e afeição na consecução de seu projeto de glória científica
–, tornando-se incapaz de interagir eficientemente com novas
experiências. A sua relação diversas vezes dolorosa, pessimista e
passiva com o mundo não o permite apreender a si mesmo como um
jogador atento às circunstâncias. Por isso, não é sem razão que
se sinta joguete e não jogador perante as forças do destino.
Portanto, há na peça uma série de apelativos de restabelecimento
do equilíbrio nas relações sociais tradicionais: que o homem
conduza as escolhas da mulher; que os pais conduzam as escolhas dos
filhos; que a vir-virtus reduza os efeitos da fortuna. Para
tanto, deve-se superar aquilo que torna o mundo desajustado: as
guerras.
No momento em que Mary Shelley escreveu “Frankenstein”, são
idéias e valores liberais que compõem isso que podemos chamar de
ideal burguês de ordem familiar. Aqui, os pais continuam sendo
bastante ativos na promoção social de seus filhos e no aumento ou
manutenção do patrimônio, mas um espaço afetivo maior é dado
para os gostos e preferências dos filhos. Logicamente, isso estava
ainda no início quando Mary Shelley projeta na família de
Frankenstein uma configuração afetiva em que os pais participam de
forma não dogmática na formação e gosto dos filhos. Isso estava
tão no começo que, na voz de Frankenstein, podemos observar a
autoconsciência da raridade de seu tipo de relação familiar:
“É
de duvidar que alguém tenha tido infância mais feliz do que a
minha, sob a permanente gentileza e indulgência de meus pais. Longe
de serem tiranos ávidos por submissão a seus caprichos, eram,
antes, criadores e participantes dos prazeres que desfrutávamos. O
convívio com outras famílias dava-me condições de avaliar o
quanto era feliz, e isso concorreu para desenvolver em mim o amor
filial”.(SHELLEY, 2001: p.41)
Na narrativa de Mary Shelley, o personagem Victor
Frankenstein, antes de criar o monstro, usufruiu do convívio tranqüilo
com seus familiares, que era repleto de afetividade e liberdade de
consciência, ou seja, os laços familiares proporcionavam ao indivíduo
uma maior capacidade em aperfeiçoar sua criatividade e manifestar
sinceramente seus anseios. De acordo com o ideal liberal,
diferentemente do que ocorria na configuração social de Antigo
Regime, o indivíduo não dependia de guias (dogmas e tradições)
ou de mediação estamental para definir a sua posição social. O
seu mérito era medido pela riqueza e pela aquisição de um saber
específico, cujo bom desenvolvimento demandaria um clima de
liberdade de consciência. No entanto, a busca de riqueza e reputação
não deveria tomar dimensões monstruosas, sacrificar a afeição,
enfim, desequilibrar a relação entre meios e fins. Mary Shelley
parecia justamente sentir no ambiente social e político da Europa
Restaurada(1815-1830) a deformação dos pressupostos liberais que
acreditava. Assim, através da tragédia de Frankenstein, ela
instiga o leitor a refletir que, para buscar reputação e progresso
material, não se deve sacrificar a afeição, pois cedo ou tarde os
efeitos monstruosos disso se voltam contra seu criador.
Além disso, no desenrolar da história são apresentadas
questões de grande importância no que se refere ao sexo feminino:
os personagens representados por Caroline (mãe de Victor
Frankenstein) e Elizabeth Lavenza (tratada familiarmente como
“prima”) exerciam a função social de ponto de equilíbrio da
ordem doméstica. Após o falecimento de Caroline, Elizabeth assumiu
as suas funções. Conforme desejavam os pais de Victor, se tudo
corresse bem nos gostos e preferências dele e Elizabeth, ambos
deveriam casar-se. Caroline confessa isso no leito de morte:
“–
Meus filhos – disse ela –, minhas esperanças de felicidade eram
assistir um dia a união de vocês.
E essa esperança será agora o consolo de seu pai.
Elizabeth, minha querida, compete a você tomar meu lugar
junto a meus filhos menores. Feliz
e amada como tenho sido, entristece-me ser arrebatada da companhia
de todos vocês”.(SHELLEY, 2001: p.46)
Era o caráter pessoal – e não a posição
social de Elizabeth – que a tornava um bom par (e não partido)
para Victor, mesmo porque, pessoalmente, ela não tinha o mérito do
bom nascimento e da riqueza de berço. Ela fora adotada pela família
abastada de Victor e, devido aos méritos que manifestava em sua
formação, recebera afeição e foi, de certa forma, moldada para
ser a “Nova Heloísa” de Victor, o seu complemento em humor e
afeição. Daí, nada mais natural que seus pais esperassem que
entre eles nascesse uma cumplicidade afetiva plena. Há evidentes
ecos das relações rousseauístas de gênero nas páginas de Mary
Shelley:
“A
alma de Elizabeth era uma réstia de luz em nosso lar. Desfrutávamos
de sua irradiante simpatia, e seu sorriso, sua voz melodiosa, a doçura
de seus olhos, estavam sempre presente, como o espírito de amor. Se
me acontecia enervar-me nos estudos ou tornar-me áspero, ela estava
sempre presente para subjugar-me à imagem de sua própria
candura”.(SHELLEY,2001: p.41)
Como já vimos, as relações afetivas de Elizabeth e Victor
não têm as mesmas conotações (no plano de valores do enredo)
daquelas de Julieta e Romeu. Os primeiros têm seu amor construído
por um longo convívio que gradativamente criou afinidades e
complementaridades recíprocas. Em vez de simplesmente realizar a
reputação de um nome de família, é esta que se conforma à busca
da felicidade afetiva sincera de seus filhos, independentemente da
origem social das partes envolvidas. Nesse sentido, em plano ideal,
Elizabeth e Victor viveriam a realização plena do ideal romântico
de vida familiar se ela não fosse assassinada pelo monstro no leito
de núpcias antes da consumação do casamento. Por sua vez, em
termos moralizantes distintos, a consumação do casamento de
Julieta e Romeu funciona em outro sentido: mais do que um amor
cultivado serenamente, trata-se de uma paixão arrebatadora que os
faz colocar em segundo plano a obrigação de honrar o nome das famílias
e conduzir-se conforme os desígnios paternos. Nesse sentido, a
morte de ambos demonstra que não há lugar, no interior de uma
configuração social de Antigo Regime, para indivíduos que
rejeitem o pertencimento e a obrigação com a reputação do nome
de família.
Mary Shelley pinta o quadro da família de Victor
Franskenstein como um oásis liberal-romântico numa fictícia
Genebra do século XVIII, que ela mesma havia conhecido, pela
primeira vez, com seu futuro marido Percy
Shelley(1792-1822) por volta de 1815. Em seu conto fantástico,
quando o monstro adquire consciência existencial, um dos livros que
ele lê é “Os Sofrimentos do Jovem Werther”(1774), de
Goethe(1749-1832). Esta citação não é gratuita: tal como o
monstro, Werther não sentia ter um lugar no mundo, já que as
obrigações com o nome de família e as concorrências por prestígio
impediam que ele fosse reconhecido por seus méritos pessoais,
valores e sensibilidade. Essas mesmas barreiras o impossibilitavam
de poder realizar seu amor por Lotte, tendo que sublimá-lo apenas
na amizade. Ora, Victor Frankenstein não passou por nenhum desses
sofrimentos, pois sua família operava num complexo afetivo que
tornaria impossível um sofrimento de tipo wertheriano. No entanto,
Victor não deu ao monstro que criara o que tivera de sua família
e, assim, sua monstruosa criatura voltou uma fúria vingativa contra
tudo que fosse caro ao seu criador, com o objetivo de fazê-lo
sentir algo que até então lhe seria estranho: a dor do abandono e
da exclusão de laços sinceros de afeição.
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Referências Bibliográficas:
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