Por CARLOS HENRIQUE ASSUNÇÃO PAIVA 

Historiador, mestre e doutor em Saúde Coletiva, é professor titular de História da América na FEUDUC e pesquisador associado do Climageo/UFRJ

 

Literatura, realidade e identidade em Antônio Cândido

 

Antônio CândidoNão vem de hoje o interesse pela relação entre literatura e sociedade. Em nossos dias, contudo, não há quem neste campo conceba uma ligação mecanicista entre estas duas categorias. Assim, a literatura ganha especialmente um grau de autonomia ao deixar de se tornar um mero epifenômeno da realidade social em que foi forjada. Contudo, dizer isso não significa que o problema esteja resolvido, pois a natureza deste vínculo continua sendo matéria de polêmica entre muitos estudiosos. Nesse sentido, o intuito deste ensaio não é adentrar em terreno tão pantanoso, mas sim especular a respeito do argumento que sustenta que a literatura “como sistema” funciona ao mesmo tempo como elemento de constituição identitária e expressão de identidades, sejam elas regionais ou nacionais. Este argumento é especialmente caro à obra do crítico literário e sociólogo Antônio Cândido, que passarei a comentar a seguir.

Através da idéia de sistema, Cândido procura apontar o surgimento das obras não como fenômeno pontual, expressão individual, mas como um evento de natureza sociológica, pois relacionado ao contexto social e/ou ideológico em que a obra foi formada. Em Dialética da malandragem (1993), ele endossa a tese de Darcy Damasceno (1956) de que a obra Memórias de um Sargento de milícias não deveria ser identificada nem como um realismo antecipado, nem como um romance picaresco atrasado. Segundo Cândido, características gerais do pícaro espanhol não se confirmariam na obra de Manuel de Almeida, apesar de o personagem Leonardo chamar a atenção por ocupar o tropo literário de “malandro”. Leonardo é, na verdade, um anti-pícaro, pois, nas palavras de Cândido, “nada aprende com a experiência”(p.23), sendo apresentado desde o início como malandro amolecido por normas e regras sociais flutuantes, marcas de uma sociedade em que os imperativos morais não operariam perfeitamente. Se optarmos, por exemplo, de levar ao limite a proposta de Mário de Andrade (isto é, de um romance pícaro), teríamos que qualificar o “nosso pícaro” de modo diferenciado – um “pícaro tropical” –, com características próprias que o afastariam do tropo literário europeu. Não creio que este seja o caminho de Cândido.

Quanto à tese de ser Memórias um simples documentário da sociedade carioca, caso seja interessante levarmos também ao limite este gênero de proposta, diríamos que o era de maneira bem restrita, pois privilegiou essencialmente a camada média urbana da cidade (isto é, nem elite econômica, nem escravos). Nesse caso, o que parece chamar atenção de Antônio Cândido é a possibilidade de compreender o romance não como um reflexo mecânico da sociedade (como uma imagem refletida de uma ordem social), mas perceber na literatura certa complexidade e singularidade em relação ao ambiente social ou cultural em que foi discursivamente configurada. Portanto, há relações que podem ser feitas, embora se deva estar atento aos riscos de mecanicismos. O romance não deve ser visto apenas como fruto da capacidade imaginativa de quem o compôs, nem mesmo deve ser percebido como uma simples narrativa realista do acontecido. Se a narrativa de Memórias estaria calcada em certa realidade histórica, qual seria ela para Cândido?

Ao comparar sociedades européias ou a norte-americana à sociedade brasileira, Cândido concluiria que esta última guarda em relação às demais certa dinâmica própria de funcionamento. O romance de Manuel de Almeida, por exemplo, representaria um “mundo sem culpa”,  “livre de culpabilidade e remorso, de repressão e sanções interiores”(p.50). Segundo tal visão, a internalização de uma ética ou moral da ordem (do ponto de vista europeu) não teria acontecido no Brasil. Nesse sentido, a ordem seria a própria desordem, ranço e marca brasileira, pois estaríamos diante de um mundo onde haveria uma equivalência entre a ordem e a sua negação. Segundo Antônio Cândido, é nessa sociedade aparentemente desordenada e não excludente (pois tudo é negociável) que os indivíduos são conformados a estabelecer relações sociais, não havendo tendência a julgamentos éticos ou morais prévios, pois as condutas sociais estariam relacionadas a um contexto eminentemente dinâmico e escorregadio. Portanto, não haveria uma fronteira preestabelecida entre o lícito e o ilícito, o verdadeiro e o falso. Como não haveria imperativos morais consolidados, não haveria conflito de consciência. Logo, não haveria sentido em esperar uma reabilitação do “pícaro tropical”. No entanto, longe de censurar tal fenômeno, Cândido se coloca a favor destas “formas espontâneas de sociabilidade”(p.51) retratadas pela literatura nacional.

Em sua opinião, ao contrário das formas norte-americanas, as sociabilidades brasileiras seriam capazes de sustentar certa fraternidade, pois conseguiriam melhor administrar as diferenças culturais, raciais, religiosas ou ideológicas, sem apelar para a exclusão social como elemento estrutural do sistema. Portanto, podemos observar em sua análise um julgamento ético e moral envolvendo a questão de saber quais seriam as formas de sociabilidade (brasileira, européia ou norte-americana) mais viáveis para administrar de maneira satisfatória as relações sociais entre os indivíduos. Na opinião do autor, aquela que é capaz de evitar correntemente o conflito ou a exclusão social seria a mais conveniente. No entanto, há um problema em sua forma de análise que não pode deixar de ser notado: acreditar ser a “nossa identidade” mais espontânea que as “demais”. Ora, quando se opta por interpretar a espontaneidade como um ato voluntário, isto é, derivado da vontade própria do indivíduo desprovido de qualquer inspiração social ou coletiva, nós não estaríamos a dar à “sociabilidade e identidade brasileiras” um caráter de inspiração natural ou estritamente psicológica? As “demais” coletividades ou sociedades não pareceriam um fardo pesado demais para o indivíduo, enquanto nós pareceríamos viver num “idílio tropical”?

Cabe lembrar que cada forma de sociabilidade está fundada em relações socialmente determinadas. Portanto, não há “liberdades” ou “espontaneidades” em vazios de poder. Quando discutimos formas de sociabilidade, é preciso ficar claro que refletimos também a respeito não só acerca das nossas vidas, mas também das muitas gerações passadas, de modo que a “nossa espontaneidade”, nesse caso, é uma manifestação social e histórica, em vez de uma mera voluntariedade individual. Nesse sentido, não há um ser mais e outro menos “espontâneo”, mas singularidades de ordem social, econômica, política e ideológica que definem as formas de interdependência entre os indivíduos.

No entanto, não me parece que Antônio Cândido pretenda se valer de um individualismo metodológico. Em outras palavras, ele não parece estar interessado nas dinâmicas psicológicas das pessoas que participam dos sistemas sociais, mesmo de um personagem como Leonardo. Em seu ponto de vista, a questão é bem mais complexa, pois ele reconhece que indivíduos e contextos sociais estão intimamente relacionados. A compreensão, portanto, não pode jamais ser realizada sem levar em conta tanto um dado quanto outro. Esta aparente polaridade não representa uma contradição, pois o mundo social apenas pode existir através dos indivíduos, que são capazes de estabelecer sentido às próprias vidas com relativa autonomia.

Logicamente, subjaze a tudo que foi dito aqui uma longa discussão acerca da objetividade e subjetividade na literatura científica e no romance, muitas vezes ainda inspirada em velhos paradigmas do mundo físico anteriores à relatividade. A literatura tanto quanto o saber cientificamente conduzido não são frutos de uma imaginação individual solitária. Portanto, de forma diferenciada, ambos reduzem experiência a regimes discursivos e, nesse sentido, configuram a realidade/experiência para reduzi-la a um modo específico de explicá-la, compreendê-la e agir sobre ela. Portanto, não há passagem direta para um “mundo real mais concreto”, imediato, pois nossa relação com o mundo já é um processo de mediação compreensiva que é necessariamente redutora. Se não fosse assim, literatura e ciência teriam um ponto final a partir do qual nada mais poderia ser dito ou criado, o que, honestamente, seria algo digno de tédio...

 

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

CÂNDIDO, Antônio. “dialética da malandragem”. In: O discurso e a cidade. São Paulo:  Duas cidades, 1993.

COLLINGWOOD, R. G. A idéia de História. Tradução de Alberto Freire. Lisboa: Editorial Presença, 1989.

PAIVA, Carlos Henrique Assunção. “Público e privado: de complementaridade a antagonismo”. Andrzej Dembicz e Maria T. Toríbio Lemos (org.). El Espacio en la Cultura latinoamericana: el contrapunteo entre lo local y lo global. Varsóvia: Universidad de Varsóvia/Centro de Estudios Latinoamericanos, 2000.

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