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Por
DEIVY FERREIRA CARNEIRO Doutorando em História Social pelo PPGHIS-UFRJ
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Distinção pela Ofensa:
Processos
de Ofensa Verbal em Juiz de Fora de Finais do Século XIX
O objetivo deste artigo é apresentar algumas possibilidades
da utilização de processos criminais de ofensas verbais (calúnia
e injúria) como fontes para a análise de conflitos
intra/inter-grupais. Através de alguns episódios relatados nos
autos de processos envolvendo alemães e teuto-descendentes em Juiz
de Fora no último terço do século XIX, pretendo demonstrar como
as ofensas verbais foram utilizadas como critério de delimitação
de distinção, pois expõem performances que entrecruzam
vários critérios de pertencimento e/ou exclusão grupal.
Cidade nascida às margens do Caminho Novo – estrada
construída no século XVIII, entre o sudoeste da Zona da Mata e o
Rio de Janeiro, para facilitar o fluxo legal e oficial de ouro da
região das minas para o porto do Rio –, Juiz de Fora concentrou
em seus domínios, a partir da segunda metade do século XIX, uma
dinâmica economia cafeicultora sustentada pela grande propriedade
escravista.(PIRES,1993) Em 1850, a então Santo Antônio do
Paraybuna foi elevada à categoria de Vila e, em 1854, tornou-se
município. Em 1855, a sua população já atingia 6.466 habitantes,
sendo que 37,1% era formada por nacionais(2.401 hab.), 0,6% de
estrangeiros(40 hab.) e 62,3% de escravos.(OLIVEIRA,1991:p.48) Este
contingente bastante significativo de escravos por si só demonstra
a importância que a lavoura cafeeira possuía na região, que
já ocupava nesta época o primeiro lugar em produção na Província de Minas
Gerais.
Com os excedentes econômicos gerados pelo café,
desenvolveram-se na região melhorias de caráter estrutural –
telefone (1883), telégrafo (1884), água encanada e sistema de
esgoto (1885), iluminação pública utilizando energia elétrica
(1889) e setor financeiro organizado (década de 1880) –, que
possibilitaram uma rápida urbanização da região. Outro elemento
que possibilitou a dinamização do município foi a vinda de
imigrantes germânicos contratados pela Companhia União e Indústria.
Entre os meses de abril e junho de 1858, saíram do porto de
Hamburgo cerca de 1162 germânicos com destino para a pequena cidade
Santo Antônio do Paraybuna.(CARNEIRO,2004:p.29)
A vinda desses alemães para tal localidade esteve ligada
indiretamente à produção cafeeira, já que o principal sentido da
construção da rodovia União e Indústria era o escoamento
comercial do café; apenas posteriormente houve a tentativa
de implantação do núcleo colonial agrícola
D. Pedro II, que objetivava abastecer o mercado interno com
produtos alimentícios.(STEHLING,1979; GIROLETTI,1988) Este
processo de inserção dos alemães em Juiz de Fora foi marcado por
muitos problemas e dificuldades. Até o final de 1858, apenas 36 famílias
de tiroleses haviam recebido seus lotes para cuidarem de suas criações
e plantações.(CARNEIRO,2004: p.28)
Em meados da década de 1870, ocorreram as falências
da Companhia
União e Indústria e da colônia agrícola
D. Pedro II. Vários imigrantes e seus descendentes foram forçados,
pelas necessidades materiais que iam surgindo, a abandonar a colônia,
vender seus lotes e migrar para a zona urbana. Alguns alemães
acabaram se concentrando no setor de
prestação de serviços, em especial aqueles que não dispunham de
capital para investir em manufaturas domésticas.(SOUZA, 1998)
Foi neste momento que a ex-colônia passou
a ser habitada também por portugueses, brasileiros, italianos e
libertos, o que acabou gerando, de acordo com alguns processos
criminais, vários conflitos. No entanto, devemos nos lembrar que os
conflitos entre estes grupos não ocorreram simplesmente pela
necessidade de divisão do mesmo espaço geográfico. Ocorreram também
devido à configuração local dos preconceitos e das fronteiras
grupais trazidos da Europa, temperados pelas disputas ligadas à
terra e à inserção no mundo do trabalho juizforano.
As
ofensas verbais são bons indiciadores de padrões de conflitos
intra/inter-grupais existentes numa dada localidade. Nenhum tipo de
comunicação, verbal ou não, pode ser entendido sem referência à
configuração social no interior da qual se expressa. Nesse
sentido, em qualquer cultura existem
muitas imputações que são potencialmente insultuosas, mas elas de
fato só passam a ter essa característica quando usadas de uma
forma bastante específica. Do mesmo modo, há graus de insultos.
Dependendo da relação posicional estabelecida entre ofensor e
ofendido em certa circunstância, as palavras são reconfiguradas em
seu sentido – epítetos específicos são escolhidos em detrimento
de outros –, o que delimita o patamar de sentimento de ofensa
associado a elas. Nestes casos, as variações indiciam as posições
– sempre dinâmicas – dos grupos e indivíduos numa dada
configuração social, manifestando valores, convenções de
comportamento, o caráter e a importância de certos relacionamentos.(GARRIOCH,
1997: p.121)
Nesse tipo de contexto, as ofensas verbais acabavam
preenchendo algumas funções fundamentais. Primeiramente,
terminavam levando para a comunidade mais próxima os problemas
cotidianos de relacionamentos; se o oponente não entrava na
batalha, os insultos acabavam insinuando a vitória de quem os
proferia e a vergonha pública do ofendido. No entanto, raramente
existe alguma sugestão nas declarações das testemunhas de que os
insultos pudessem repercutir no agressor. Pelo fato de o público e
os participantes se conhecerem bem, a vitória era convertida em
precedência social, criando uma hierarquia na qual uma pessoa era
considerada mais admirável e a outra menos digna de consideração.
Nesse sentido, a eficácia dos insultos dependia da existência de
um público ressonante formado por pessoas conhecidas pelas partes,
pois os desdobramentos potenciais de questões de ofensa da honra
dependiam da relação posicional das partes no seio de sua
comunidade em determinada circunstância.
No
caso de 1884, as testemunhas faziam parte da comunidade, foram favoráveis
à parte ofendida e não havia assimetria social. Em outro caso,
observamos uma testemunha estranha à comunidade alemã, que teria
presenciado um conflito entre alemães nos termos da relação patrão/empregado.
No dia oito de fevereiro de 1885, às 3 horas da tarde
mais ou menos, Pedro Glazmann – empregado de Nicolau Scoralick –
chegou na Escola Agrícola e informou ao patrão que não havia mais
tripas para a fabricação de lingüiças. Em função disso,
segundo Glazmann, Scoralick se exaltou sem o menor motivo e declarou
que, como Glazmann havia estado na cidade, deveria ter comprado o
material necessário. Pedro Glazmann disse que não havia comprado
tais tripas por não saber que faltava, já que naquela casa sempre
abundava o gênero, a tal ponto de estragar-se e ser jogado fora.
Isso foi o bastante para que Nicolau Scoralick se irritasse e, em
altas vozes, mandasse publicamente que Glazmann “fosse à merda
e à puta que o pariu”, chamando-o também de outros nomes,
tais como: “sacana, cachorro e filho da puta”. A partir
de tal discussão, Glazmann foi despedido do que até então era seu
meio de subsistência.(AHMJF, processo criminal – Injúria: cx.
54, 10/2/1885) Durante o inquérito,
quando foi perguntado a uma testemunha quais foram as ofensas
proferidas pelas partes, esta disse “não entender o que foi
falado por ter sido dito na língua dos alemães”. Portanto,
diferentemente do caso de 1884, faltou um público ressonante que
pudesse atuar favoravelmente para a parte ofendida, mas isso não
ocorreu pelas mesmas razões que observamos no processo de 1918,
pois a testemunha alegara não conhecer alemão, ou seja, participar
dos signos de ofensa de um grupo.
Através
dos exemplos processuais apontados, observamos o quanto é maleável
e circunstancial a forma de delimitar distanciamento ou envolvimento
nas tensões intra/inter-grupais de uma dada localidade. Nesse
sentido, a configuração social de uma ofensa verbal indicia tensões
que explicitam patamares de entrecruzamento de vários critérios de
pertencimento e solidariedade grupal, assim como os interesses
envolvidos daqueles que participam como vítimas ou testemunhas em
tais processos.
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