Por NIELSON ROSA BEZERRA 

Professor do Departamento de História da FEUDUC; Mestre em História pela Universidade Severino Sombra (USS).

 

Entre Escravos e Senhores: a ambigüidade social dos capitães do mato

 

Ao longo do século XX, a historiografia brasileira cristalizou alguns cânones analíticos a respeito da configuração social escravocrata. Um bom exemplo disso foi pensar a organização da sociedade escravista a partir de três segmentos sociais específicos: senhores(mundo da ordem), escravos(mundo do trabalho) e homens livres pobres(mundo da desordem). Ora, como observou Ilmar de Mattos, tal visão correspondia à configuração ideal da sociedade pensada pela elite senhorial. No entanto, a historiografia brasileira tomou tal configuração de forma axiomática, como se efetivamente desse conta do conjunto das práticas sociais escravistas.

No século XIX, o Recôncavo da Guanabara – região periférica à Cidade do Rio de Janeiro, atualmente conhecida como Baixada Fluminense – foi uma importante região de passagem entre o litoral e o interior, tornando-se estratégica na transposição do café e de outras mercadorias, além de pessoas e informações que circulavam no âmbito da Província Fluminense. Duas vilas importantes podem ser identificadas nesta região: Iguaçu(1833) e Estrela(1846). Como se trata de uma região de passagem, as referências de trabalho, de identificação social e cultural adquiriam características próprias. Em função disso, a assimetria social que caracteriza uma sociedade escravista assume feições específicas. Ora, quando centramos nossa atenção no Recôncavo da Guanabara, torna-se evidente que o axioma dos três mundos é insipiente para dar conta de sua diversidade social. A própria figura do capitão do mato demonstra a fragilidade de tal modelo, pois geralmente são homens livres pobres que trabalhavam em favor dos interesses patrimoniais dos senhores. Na verdade, estamos falando de homens livres de cor, geralmente escravos libertos, que se prontificavam a participar da repressão institucionalizada contra a fuga de escravos, sendo estratégicos para isso justamente porque conheciam a região e as táticas de fuga. Portanto, os capitães do mato eram agentes sociais ambivalentes, cuja presença era notada, suportada ou utilizada pelas autoridades, havendo várias possibilidades de ação, conforme a configuração dos interesses, poderes e necessidades de cada localidade. Nesse sentido, o tipo de convivência com os capitães do mato poderia variar regionalmente, representando a sua posição mais prestígio social numa área de fronteira do que num grande centro urbano.

Em minhas reflexões, parece-me intrigante o fato de ex-escravos – homens que conheciam  as agruras do cativeiro, assim como a lógica das fugas em busca da liberdade – prontificarem-se a ser agentes da repressão contra negros cativos que buscavam com a fuga melhores condições de vida e de sobrevivência. Para fazer seu trabalho, o capitão do mato deveria receber armas, dinheiro, homens e outros recursos, atuando em nome de uma freguesia. Logicamente, as desconfianças sobre tais agentes nunca eram afastadas nesse tipo de configuração social: para um homem livre pobre tornar-se capitão do mato, era necessário que fossem reconhecidos nele “bons antecedentes”, ratificados por uma recomendação prestigiosa. Por isso, o interessado em tornar-se capitão do mato deveria se apresentar a um “homem-bom”, que o recomendaria às autoridades locais. Assim, não é de se estranhar que, em 1824, Antônio José Santana, morador da freguesia de Nossa Senhora do Pilar, fosse apresentado como alguém que queria “ser útil à nação” ao vigiar escravos fugidos, afirmando que teria facilidade neste ofício, pois “tinha experiência e conhecimento das dificuldades dos terrenos da região”, sugerindo também que trabalharia por conta própria, mediante a provisão pública destinada a este ofício.(Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro. Códice 40.3.75, p.87)

O aparato burocrático não se restringia apenas ao momento da nomeação de um capitão do mato, pois se estendia no sentido de regular as atribuições e limites de autoridade de sua função. Esta restrição pode ser inferida de acordo com a análise que fiz de sete processos de capitães do mato que atuavam em freguesias do Recôncavo da Guanabara, entre elas: Santo Antônio de Jacutinga, Nossa Senhora do Pilar, Nossa Senhora da Piedade de Iguaçu, Nossa Senhora da Conceição de Marapicu, Nossa Senhora da Guia de Pacobaíba e São João de Meriti, sendo que nesta última havia dois processos entre os anos de 1821 e 1826. Como amostragem, destacarei o caso de João Pereira Filho, em 1821, que era casado, tinha nascido em Minas Gerais e era morador do Riachão (localidade que pertencia à freguesia de Santo Antônio de Jacutinga). Nos termos do documento de provimento no cargo, podemos observar a explicitação de um critério de aceitabilidade para o serviço: “pelo documento junto da sua folha corrida mostra não ter crime algum e nem embaraço que o exima de servir (...)”.(Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro. Códice 40. 3. 73, p.50 e 53)

O período de atuação no ofício era de um ano, dependendo do aval do imperador caso as autoridades locais desejassem estender seu tempo no serviço. Ora, o curto período de atuação, precedido por atestados de boa conduta para o ingresso no ofício, evidencia uma difusa desconfiança em relação aos capitães do mato – homens livres pobres, armados e a serviço da ordem escravista. Um outro detalhe importante é que a “missão” da qual eram investidos obrigava-os a capturar escravos fugidos e quilombolas, com a autorização de fazê-lo fora de sua freguesia, o que era uma forma de corrigir as falhas de outros capitães do mato. Como podemos verificar, há vários cuidados com o processo da investidura do cargo de capitão do mato, além de uma preocupação constante com a sua atuação, sendo acompanhada de perto pelas autoridades e pela sociedade em geral.

A origem social do capitão do mato poderia ser encarada com muito mais desconfiança quando a isso fosse somada a sua origem étnica. Apesar de ser comum considerar os escravos forros como os principais interessados na ocupação de um cargo que tinha como missão a captura de escravos fugidos e quilombolas, o fato é que entre os sete processos que estudei, apenas um deles identifica o candidato como negro liberto. Sendo assim, podemos considerar a hipótese da diversidade étnica na ocupação do posto de capitão do mato. Portanto, não era um emprego exclusivo para ex-escravos, mas, via de regra, a sua ocupação estava relacionada aos homens pobres livres.

Os critérios de aceitabilidade explicitados nos documentos a respeito da investidura dos capitães do mato em seu ofício policial sugerem-nos que os senhores viviam tensionados entre a necessidade e o medo de sua proximidade social. O jogo dinâmico de interdependência é evidente: o capitão do mato adquiria um meio de sobrevivência e prestígio vigiado e autorizado pelos senhores locais, em troca de sua perícia em controlar ou conter revoltas e fugas de escravo. Esta perícia definia-se por sua capacidade de conhecer os signos socioculturais do mundo dos quilombolas e outros escravos fugidos. Devido justamente a esta perícia, que implicava em proximidade social e cultural com os cativos, havia o temor implícito de que os capitães do mato pudessem contribuir para a desordem. Entretanto, uma constante de comportamento no interior dos jogos de interdependência numa sociedade escravista garantia uma margem de segurança para a posição dos senhores: o fato de que a origem comum e as condições de miserabilidade e marginalização não criavam necessariamente um horizonte de expectativa grupal entre escravos e capitães do mato, mas sim uma necessidade de afastar-se das marcas desprestigiosas do cativeiro.

Nesse sentido, para além de atender necessidades econômicas, o cargo de capitão do mato, para um escravo liberto, atendia às demandas simbólicas de distinção social numa sociedade escravista. A “posição” de capitão do mato colocava aquele que vestia a dignidade de tal ofício mais próximo do senhor do que da escravaria, conferia autoridade e prestígio, ostentando um poder que o deixava acima dos escravos e dos pobres livres. É bom lembrar que os capitães do mato eram ou tornavam-se moradores das freguesias em que atuavam. Sendo assim, acabavam vivendo o cotidiano da comunidade, configurando relações sociais com taberneiros, tropeiros etc...Portanto, é a própria forma de configuração de interdependência numa sociedade escravista que cria a circunstância em que senhores acabavam por confiar seu poder armado aos capitães do mato como meio de defesa da ordem escravista, revestindo tal posição de algum prestígio, pois era um meio eficaz de se contrapor às ameaças ao patrimônio representadas pelas fugas de escravos e pela formação de quilombos.

No entanto, para além das tensões sociais diretas e indiretas entre senhores e escravos, indiciadas ou não pela ação policial de capitães do mato, deve-se também levar em consideração outras formas de negociação de posições e interação social, pois isso possibilitaria uma ampliação de nossas perspectivas para a análise da configuração social do Recôncavo da Guanabara do século XIX. Como foco de estudo, atentar para os homens livres pobres enriquece as possibilidades de análise social desta região, uma vez que eles se dividiam em vários níveis de solidariedade, interesse e identificação social: na relação com os escravos (principalmente os fugidos), poderiam vir a atuar pontualmente na sua libertação, ampliando as opções de dissimulação de fugas, sem que isso desembocasse necessariamente numa postura sistemática crítica contra o regime escravista; na relação com os senhores, poderiam ser revestidos pela dignidade de um ofício que, como no caso de capitão do mato, estava diretamente relacionado com a manutenção da propriedade e da ordem escravocrata.

Todas essas tensões e interações sociais tornam-se ainda mais interessantes quando as localizamos em uma região de passagem, onde há uma confluência dos códigos sociais dos espaços rural e urbano. As peculiaridades locais demonstram o quanto era complexa a configuração da interdependência numa “sociedade escravista pós-colonial”, que melhor seria tratada, numa outra escala de observação, como uma colcha de “comunidades escravistas”. Portanto, acredito que os estudos das particularidades regionais são imprescindíveis para o enriquecimento da produção historiográfica sobre escravidão no Brasil, sem perder de vista que a configuração social do escravo no século XIX, período de institucionalização do liberalismo, não é a mesma de épocas anteriores.

 

 

Referências de Leitura:

1. Fontes:

ARQUIVO GERAL DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO

1.      Códice 40.3.73. Capitães do Mato. Freguesia de Santo Antônio da Jacutinga, 1821.

2.      Códice 40.3.73. Capitães do Mato. Freguesia de Nossa Senhora da Piedade de Iguaçu, 1821.

3.      Códice 40.3. 74. Capitães do Mato. Freguesia de Nossa Senhora da Guia de Pacobaíba, 1823.

4.      Códice 40.3.73. Capitães do Mato. Freguesia de São João de Meriti, 1824.

5.      Códice 40.3.75. Capitães do Mato. Freguesia de São João de Meriti, 1824.

6.      Códice 40.3.75. Capitães do Mato. Freguesia do Pilar, 1824.

2. Bibliografia:

BEZERRA, Nielson Rosa. Rebeldia e Repressão na Baixada Fluminense – Século XIX. In: Hidra de Igoassú: Caderno de Textos de História Local e Regional. Ano II – Edição Especial. Duque de Caxias, Clio, 2000. P. 25-32.

__________. Tensões e interações das relações sociais em torno do regime escravista na Freguesia de Santo Antônio de Jacutinga. In: Revista Pilares da História: textos sobre a História de Duque de Caxias e a Baixada Fluminense. Ano II – Nº 2 – maio de 2003.

___________. As confluências da escravidão no Recôncavo da Guanabara: Iguaçu e Estrela (1833-1888). Dissertação de Mestrado. Vassouras: USS, 2004.

GOMES, F. S. História de quilombolas: mocambos e comunidades de senzalas no Rio de Janeiro – século XIX. Dissertação de Mestrado. Campinas: Unicamp, 1992.

LARA, Silvia H. Campos da violência: escravos e senhores na Capitania do Rio de Janeiro (1750-1808). Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988.

MATTOS, Ilmar R. O tempo Saquarema: a formação do Estado Imperial. Rio de Janeiro: Access, 1994.

REIS, João José e SILVA, Eduardo. Negociação e conflito: a resistência negra no Brasil escravista. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

REIS, J. J. e GOMES, F. S. Liberdade por um fio: história dos quilombos no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

RUSSEL-WOOD, A. J. R. Autoridades ambivalentes: o Estado do Brasil e a contribuição africana para  “a boa ordem na República”. Em: SILVA, M. B. N. Brasil: Colonização e Escravidão. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000, p. 105-126.

http://www.espacoacademico.com.br - Copyright © 2001-2004 - Todos os direitos reservados