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Por TERRY
CAESAR
Professor
de literatura norte americana na Mukogawa Women’s University em
Nishinomiya, Japão, e autor de vários livros, incluindo estudos
críticos do sistema universitário nos Estados Unidos.
VERSÃO
EM INGLÊS:
“The
Day After Tomorrow” in Curitiba
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“O
Dia Depois de Amanhã” em Curitiba
Em
um país estrangeiro, você faz as coisas de forma diferente. Uma
coisa que você faz é assistir filmes que você jamais assistiria
em seu país, entrar no cinema em horas diferentes das usuais, e
ficar deliciado em pagar preços mais baixos. E aqui está uma história.
Mas no meu caso a história não foi, finalmente, sobre nenhuma
estas coisas.
“O Dia Depois de Amanhã” estava
sendo mostrado em todos os cinemas no Brasil neste mês passado.
Antes de chegar ao Brasil, eu nem tinha ouvido falar de tal filme.
Ele estava sendo mostrado nos Estados Unidos? (De fato, sim,
estava.) De todas formas, eu fiquei pensando, por que este filme
(que provavelmente seria tão centrado nos Estados Unidos, pra não
dizer tão chauvinista, como o filme anterior do mesmo diretor, “O
Dia da Independência”) estaria sendo mostrado no Brasil neste
momento?
A questão dos direitos da distribuição
(dos quais simples mortais jamais sabem coisa alguma) certamente
explica algumas destas razões; os cinemas recebem os filmes que são
designados a eles através de acordos com as companhias
distribuidoras. E, naturalmente, as audiências da maioria dos países
provavelmente vão gostar de ver outra extravagância sobre a
destruição global, completa com crianças inocentes, cientistas
solitários, e um monte de efeitos especiais.
Assim eu pensava, enquanto parado
diante do poster para “O Dia Depois de Amanhã” na frente de um
cinema uma tarde em Curitiba. Me pareceu que este era mais um
daqueles filmes fórmula. O tipo de filme no qual alguém vai sempre
dizer, “Isto nunca aconteceu antes.” (Na verdade, alguém diz
isto no filme.) Que tédio. Mas, naquela tarde eu tinha duas horas
sem nada pra fazer, e estava bem frio na rua, e o filme custava
menos que um dólar. Pelo menos parecia que eu ia poder ver Nova
Iorque ser tomada por uma onda gigantesca.
Poderia esta ser uma das razões
porque “O Dia Depois de Amanhã” estava sendo mostrado no Brasil
inteiro? Uma coisa é uma audiência americana se divertir vendo a
destruição de Nova Iorque, famosa por sua arrogância e sua violência.
(Nova Iorque é o Rio dos Estados Unidos.) É uma coisa bem
diferente para uma audiência brasileira se divertir com esta
destruição. Talvez eu comprei minha entrada de dois reais e meio
simplesmente para assistir o filme desde uma perspectiva brasileira.
Se tal foi o caso, havia uma surpresa
em estoque para mim imediatamente. De uma certa forma, os produtores
de “O Dia Depois de Amanhã” já incorporaram no script alguma
imaginação que não é exclusivamente americana. Quando os
horrores apocalípticos começam, a acumulação mostra neve em New
Delhi e granizo em Tokyo. Provavelmente teria sido demais esperar
que eles mostrassem tornados em Ipanema.
Ainda mais surpreendentemente, quando
estes horrores se tornam literalmente congelados na forma de uma
nova Idade do Gelo para a América do Norte, a solução para toda a
metade sul dos Estados Unidos é fugir através da fronteira do México!
De uma perspectiva americana, este é um desenvolvimento muito engraçado,
já que o assunto da imigração ilegal de mexicanos através da
mesma fronteira é um assunto político sempre momentoso.
Mas
o filme mostra bem pouco interesse na ironia, e nenhum interesse em
explorar sua política. Os americanos simplesmente fogem, os
mexicanos inicialmente resistem, embora rapidamente aceitam a situação
quando a sua dívida é perdoada, e só há umas vagas referências
a países “mais ao sul.” Então não chegamos nem um pouco mais
perto de São Paulo, por exemplo, que estávamos antes do filme começar.
Curitiba continua completamente fora de questão.
O que é pior é que a narrativa de
“O Dia Depois de Amanhã” logo retorna aos Estados Unidos, onde
o cientista-herói salva o seu filho que estava na biblioteca pública
de Nova Iorque. (Todos os americanos que estão fora dos Estados
Unidos celebram este feito, assim como celebram notícias de
sobreviventes em outros lugares do norte congelado.) Um momento incrível
se perde na indústria de entretenimento americana: a possibilidade
da América do Sul salvar os Estados Unidos!
É como se o script ponderou esta
possibilidade por tempo suficiente somente para descartá-la.
Poderia haver outras possibilidades que não foram sequer sonhadas?
Todo o estado do Texas colocado no Amazonas? Todos os
afro-americanos de Atlanta subitamente confrontando os
afro-brasileiros de Salvador? Nós nunca vamos saber. De uma certa
maneira, “Brasil” pode ser imaginado como — se não o — nome
para desenvolvimentos de tramas nunca sequer sonhadas.
Naturalmente é muito mais fácil
sonhar estes desenvolvimentos em Curitiba do que em Chicago. Além
do mais, é mais fácil talvez em Curitiba ver que alguma localização
específica do Brasil teria começado a expor o fato de que a trama
de “O Dia Depois de Amanhã” — mesmo que ele traga a história
para o sul do continente o mais que pode — está muito próxima de
conceitos imperialistas que a idéia apocalíptica tenta esconder.
Parece que faz mais sentido para os americanos olharem para o sul
porque é mais provável que uma Idade do Gelo e não o comunismo
esteja vindo em sua direção.
Mas isto faz a mesma diferença para
uma platéia brasileira como faz para uma platéia americana? Difícil
dizer. Não importa o quão completamente focalizados eles sejam nos
Estados Unidos, filmes como “O Dia Depois de Amanhã” estão
sendo cada vez mais construídos para uma audiência global. Seus
dilemas são dados como “universais,” e suas sensações são
construídas como irresistíveis. Quem entre nós não se
“identifica” com um pai em busca do seu filho?
Entretanto, em outro sentido, o
“Brasil” pode ser entendido como o nome das limitações
nacionais de tais construções. Para todo mundo na terra, a
possibilidade de americanos entrando as fronteiras de seus países
para evitar congelarem não é uma idéia muito feliz. Para alguns
povos, esta idéia seria imperdoável — não importando se o
planeta inteiro está de alguma forma ameaçado. Que os brasileiros
representem estes povos.
De fato, os brasileiros representam
com mais autoridade uma resistência geograficamente imediata e
apropriada (dado o script to filme) às maquinações dos Estados
Unidos, em nenhum lugar mais insidiosas do que através de seu
entretenimento popular. “O Dia Depois de Amanhã” é um
excelente exemplo, porque ele concede que existem nações ao sul
dos Estados Unidos. Mas, ainda neste caso, o filme concede esta
realidade apenas vagamente depois do México. E, como sempre, mais
uma vez, somente enquanto estas nações contribuem em alguma
maneira ao destino dos Estados Unidos.
Que qualquer um destes países
poderia mudar este destino, ou de alguma forma redefini-lo,
simplesmente não é levado em consideração, exatamente como o
Brasil não é levado em consideração, tanto como um país a mais
entre as nações da América do Sul como um país que possui sua própria
identidade entre estas nações. Que “Brasil,” então, seja o
nome de uma última coisa: tudo o que deve permanecer sem
especificidade para um filme tal como “O Dia Depois de Amanhã”.
Para que seus peculiares medos apocalípticos sejam liberados, ou
para que seus meandros de trama sejam vistos com simpatia, o filme
precisa conter um mundo sem o Brasil, e sem qualquer menção do
Brasil.
Naturalmente, para mim, nesta fria
tarde curitibana, havia uma razão adicional, se bem que pessoal,
para continuar pensando no Brasil: estava muito frio no cinema. Não
havia calefação alguma. Meu casaco era muito fino. Alguém aí
falou em Idade do Gelo? Ironicamente, eu estava assistindo um filme
no qual a temperatura do lugar onde eu estava era narrada como
exatamente o oposto. Como podia alguém — muito menos um americano
— sentir tanto frio no Brasil?
Naturalmente, em termos da realidade
a resposta era bem simples: assim como em todos os lugares, no
Brasil faz frio no inverno, especialmente no sul (e talvez mais em
Curitiba). Além do mais, a temperatura no Brasil não é
uniformemente quente, assim como a dos Estados Unidos não é
uniformemente fria. No entanto, é do interesse de cada nação ver
a outra nestas formas fixas e estáveis, pelos menos através das
suas respectivas construções imaginativas.
O problema é: o que acontece com a
vida separada destas construções? Bem, algumas vezes ela não faz
sentido. Eu não só estava congelando em um lugar onde — de
acordo com o filme — eu deveria supostamente ser salvo de
congelamento. Eu era um americano tentando me imaginar como um
brasileiro. Nesta última parte, eu falhei, claro. Uma perspectiva
“brasileira” sobre “O Dia Depois de Amanhã” seria sem dúvida
muito mais elusiva.
Mas pelo menos o esforço de
localizar tal perspectiva me manteve aquecido. A vida é localização,
afinal — circunstâncias específicas, temperaturas exatas, e tudo
o mais. Você não tem que ver filmes a fim de entender isto, embora
alguns deles — e deixemos que todos sejam representados por “O
Dia Depois de Amanhã” — podem ser tão bobos que simplesmente
tentar se localizar em relação a eles pode ser tão necessário
(pelo menos em certos dias) como manter seu cachecol enrolado no
pescoço.
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