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Por
ROBINSON DOS SANTOS Doutorando
em Filosofia na Universidade de Kassel – Alemanha. Bolsista pelo
Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico (DAAD)
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A
união entre saber e compromisso. Homenagem a Florestan Fernandes
No
dia 10 de agosto de 1995 o Brasil perdeu uma pessoa ilustre. Sociólogo,
professor universitário, militante socialista e,
duas vezes eleito,
deputado federal, pelo Partido dos Trabalhadores. O nome dele:
Florestan Fernandes. Desde sua despedida, seu testemunho e sua voz
continuam ecoando entre aqueles que lutam e sonham com um Brasil
diferente. Na seqüência destacaremos alguns elementos do trabalho
acadêmico de Florestan Fernandes, dada sua atualidade e pertinência
ao nosso contexto.
O
contexto em que surge o trabalho de Florestan Fernandes
As
décadas entre 1930 e 1960 representam um período extremamente
significativo para a compreensão da realidade brasileira. Período
controverso que motivou uma vasta produção acadêmica, literária,
filosófica, artística e cultural. Acontecimentos emblemáticos
deste período são, por exemplo, o processo de industrialização;
o surgimento, crise e declínio do Estado Novo; a criação do
Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (INEP); o I
Congresso Brasileiro de Escritores; a criação da Sociedade
Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC); a Plataforma da Nova
Geração; a criação do Instituto Brasileiro de Economia Sociedade
e Política (IBESP); e a crescente disputa entre os partidos políticos
entre o Estado Novo e o golpe militar de 64. A demanda por mão-de-obra
vinda do processo de
industrialização provocou um grande êxodo do campo para as
cidades, fator decisivo no processo de formação dos centros
urbanos brasileiros. Este cenário, propiciou algumas formulações
do pensamento social brasileiro em torno de questões como classes
sociais no Brasil, as
possibilidades da industrialização, o
capitalismo associado, negros
e índios, o subdesenvolvimento e outras...
É
neste período que surgem análises e interpretações teóricas da
realidade sócio-política, econômica e cultural do Brasil
elaboradas por figuras como Caio Prado Júnior, Celso Furtado,
Nelson Werneck Sodré, Antonio Candido, Hélio Jaguaribe, Raimundo
Faoro e Florestan Fernandes. Este último, sem dúvida, foi um dos
intelectuais que mais se destacou na interpretação do processo de modernização da sociedade brasileira.
Sociólogo
por opção e vocação, como ele mesmo se definia, jamais
restringiu seu trabalho ao mundo das discussões teóricas. Sua obra
abrange vários campos para além da sociologia, como a antropologia
e etnologia (no que diz respeito aos estudos sobre os índios
Tupinambás e sobre os negros), a
educação, a questão da universidade, a política nacional
e internacional, bem como ocupou-se, também, da tradução e edição
de várias obras para o português, sobretudo, na área da
Sociologia. Preocupou-se com o fomento à pesquisa em todos os
setores da ciência, pois acreditava que por meio do desenvolvimento
científico e tecnológico seria possível ao Brasil superar a situação
de atraso e dependência na qual se encontrava.
Florestan
Fernandes acreditava que o desenvolvimento da ciência, de modo
amplo, possibilitaria aos brasileiros detectar os problemas sociais,
bem como aplicar esforços e inteligência na sua solução, e
promover o processo de emancipação cultural em relação aos países
que nos colonizavam.
A
ciência social como caminho para compreender e transformar a
sociedade
No
sentido acadêmico, a formação de Florestan Fernandes acontece
entre 1941 e 1953. Seus primeiros trabalhos visavam,
simultaneamente, testar os conhecimentos teóricos recebidos dos
professores e, por meio da leitura de autores clássicos,
interpretar a realidade brasileira nas suas diversas relações,
instâncias e processos. Autores como Comte, Durkheim, Mauss,
Gurvitch, Weber, Sombart, Simmel, Mannheim, Malinowski, Parsons,
Merton e Wright Mills destacam-se nas pesquisas de Florestan.
Para
ele, a produção e a utilização da ciência estão ligadas a dois
fatores condicionantes: os modelos de indagação e verificação (método)
da verdade e as exigências sócio-culturais do meio (possibilidade
de aplicação). Na obra A
sociologia numa era de Revolução Social ele constata, que “a
sociedade estimula, assim, o desenvolvimento da ciência, compelindo
os cientistas, de várias maneiras, a conceber e a realizar projetos
de investigação ou de aplicação que levem em conta necessidades
práticas de alcance social.”(FERNANDES, 1976: 25). Entretanto,
ele observa que naquela época, especialmente nos países
subdesenvolvidos, o segundo elemento era ignorado, isto é, a ciência
e os cientistas estavam mais preocupados com a questão do método
do conhecimento que com sua aplicação à realidade social. E
adverte: “Em nossa época o cientista precisa tomar consciência
da utilidade social e do destino prático reservado às suas
descobertas. O ‘bom’ ou o ‘mau’ uso dos conhecimentos científicos
depende, em grande parte das atitudes que os cientistas tomarem
diante da utilização dos dados da ciência”(FERNANDES,
1976: 26).
Neste
sentido, Florestan voltou-se a análise de alguns dos fatores
condicionantes do processo de desenvolvimento da ciência no Brasil.
Ele destaca que, com o avanço tecnológico e a ascensão da ciência
na planificação racional da sociedade, teriam surgido novas exigências
para os cientistas. Estas transformações, afirma ele, expressam a
marcha que a civilização estaria tomando: uma marcha rumo à
civilização baseada na ciência e na tecnologia científica.
Deste
modo, surge uma nova perspectiva quanto à natureza e o significado
das obrigações extra-científicas do cientista na sociedade.
Caberia, então, a eles uma dupla tarefa: “contribuir de modo
positivo para o progresso do saber científico” e, também,
“contribuir para o progresso das comunidades às quais pertencem
em termos dos ideais associados à propagação e à democratização
da concepção científica do mundo, com suas garantias materiais,
sociais e morais” (FERNANDES, 1976:
30). Em nossa interpretação é a partir desta perspectiva que
podemos afirmar sem titubeios que Florestan não só defendeu como
exigiu um vínculo indissolúvel entre o saber e o compromisso com a
transformação da sociedade numa perspectiva política socialista
(SANTOS, 2002).
Florestan
denunciava, neste sentido, como a postura da sociedade marcada pela
herança tradicional aristocrata, escravocrata e senhorial, baseada
num noção elitista de ciência, postulou uma educação pública
voltada exclusivamente para a classe dominante ou visando formar uma
classe seleta para as atividades de liderança social,
administrativa e política; enquanto que para as classes populares
foram criados especialmente o SENAI e SENAC com o objetivo de
preparar mão-de–obra apta para o mercado de trabalho. Para ele, a
ciência tem essencialmente um papel transformador e, por esta razão,
a responsabilidade pela efetivação deste papel transformador da ciência
recairia sobre os ombros do cientista. Deste modo, torna-se
indispensável o comprometimento e a colaboração entre os
cientistas das diversas áreas do conhecimento, objetivando
encontrar alternativas para a superação do sub-aproveitamento dos
quadros de pesquisadores, das vocações intelectuais e dos recursos
materiais empregados na pesquisa no Brasil.
A
preocupação de Florestan com relação ao tema do desenvolvimento
da ciência e tecnologia no Brasil fica explícita em sua obra. Para
ele, o desenvolvimento econômico e social (e, neste aspecto, entra
a questão da educação) estaria atrelado ao desenvolvimento da ciência
e da tecnologia. Decorrente destas questões resulta a preocupação
constante e a defesa da pesquisa na universidade, fato que não se
deu somente no período que se comenta neste ensaio, mas que foi um
dos marcos na militância e na produção acadêmica de Florestan.
“(...) Sem conjugar ciência e tecnologia de forma verdadeiramente
ampla estaremos sempre na condição de país importador de técnicas
inventadas alhures, sem iniciativas próprias e, o que é
pior, aproveitando tais técnicas com margens enormes de
atraso temporal e cultural.”(FERNANDES,
1976:
42). Deste modo, tornava-se urgente a preparação de
quadros humanos para o florescimento das ciências no Brasil e uma
das formas de acelerar este processo era, e ainda é, a investida na
preparação de pessoal para a atuação científica (ensino e
pesquisa). Tal preparação compreenderia desde uma educação básica
de qualidade até a formação de um espírito de colaboração
entre os cientistas das diversas áreas do conhecimento. Ora, isto
significaria pôr fim ou, então, minimizar ao máximo a lógica
competitiva que estava instaurada nas áreas de investigação e que
transformava a pesquisa e a disputa pelas parcas verbas de
financiamento numa guerra de interesses particularistas. Assim, os líderes
intelectuais das diversas áreas olhavam-se como “aves de
rapina”, conforme Florestan, demonstrando-se verdadeiramente
oportunistas. As conseqüências disto eram extremamente
prejudiciais ao desenvolvimento qualitativo e quantitativo da ciência
no Brasil. Ao invés da colaboração inteligente havia um
antagonismo e uma concorrência absurdos. Comenta Florestan que:
“embora saibam que a ciência exige progressos concomitantes nos
diversos ramos de investigação, que ela é um edifício construído
na base da cooperação inteligente e da capacidade de especialização
interdependente, na prática dão ombros a esses valores
(...)”(FERNANDES, 1976:
41).
Na
defesa destes valores, foi expressiva e intensiva sua atuação e
produção especialmente por meio de artigos em revistas acadêmicas
(especializadas), conferências e artigos de jornal. Florestan não
só se ocupou em falar ou escrever sobre a importância da pesquisa
como encarnou em si a missão de praticá-la e difundi-la como uma
práxis essencial. Como resultado temos sua intensa produção
intelectual sistemática que vai desde o trabalho teórico, analítico
e interpretativo dos clássicos (já apontados) até a pesquisa empírica,
buscando desvelar a realidade brasileira através de estudos sobre
os Tupinambás, sobre a revolução burguesa no Brasil, as questões
raciais e o folclore em São Paulo (e, posteriormente, em pontos
estratégicos importantes do Brasil), estudos sobre comunidade e
sociedade e questões relativas à educação. Ele sempre esteve
atento ao complexo processo histórico-social da cultura brasileira,
mesmo admitindo que nem todas as faces da realidade são evidentes e
podem ser analisadas do ponto de vista sociológico. O debate que
Florestan Fernandes instaura no período em questão é de suma
importância para a compreensão da realidade brasileira atual.
Florestan
constatou o acúmulo de conhecimento sobre os mundos orgânico e
inorgânico; era momento de sabermos mais sobre o mundo supra-orgânico.
Em conseqüência, ao sociólogo (cientista social) é atribuído um
papel fundamental a ser desempenhado, pois ele, por meio dos devidos
instrumentos (conceituais, metodológicos e materiais) desvela a
realidade, apontando para os seus problemas, dilemas e inconsistências,
propondo a reflexão sobre as perspectivas de solução.
Assim,
o saber deve estar fundamentalmente a serviço da transformação da
sociedade, na perspectiva da transformação dentro da ordem e/ou
contra a ordem.
Como a ordem social brasileira apresentava sérias
inconsistências, especialmente no plano social (dilema social) e
cultural (demora cultural), era urgente a modificação do
padrão de ação e relação nestas duas esferas. Entre seus
principais trabalhos encontram-se: A
organização social dos Tupinambá (1949), Ensaios
de sociologia geral e aplicada (1960),
A sociologia numa era de revolução social (1962), Educação
e sociedade no Brasil (1966), Sociedade
de classes e subdesenvolvimento (1968), A
revolução burguesa no Brasil (1975), Universidade
brasileira: reforma ou revolução? (1975), A sociologia no Brasil (1977).
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