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Por
PAULO EDUARDO PEDRASSOLI Mestrando
em Sociologia pela Unicamp e Membro do Conselho Editorial da
revista Margem Esquerda
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Estado
e Revolução no Manifesto:
notas
do marxismo revisionista no Brasil
Qual
o significado do Estado para os trabalhadores no fim do século XX?
Qual postura política a adotar em suas lutas até a sua emancipação
como classe oprimida? Partindo de uma revisão do Manifesto,
algumas formulações do marxismo no Brasil
procuraram responder essas questões. Esse artigo resgata, em síntese,
apenas a sua compreensão revisionista de Estado e sugestões
políticas, no interior de um confronto crítico com a teoria
marxiana.
Como
apontou Gorender (02: 1998), a mundialização capitalista, sob a égide
da fração financeira do capital, formava o olho do furacão
neoliberal que violentou muitos dos direitos sociais e trabalhistas
da rede social do Estado. A remoção dessas barreiras legislativas
favoreceu, de um lado, o movimento da acumulação capitalista –
apropriação privada financeira das verbas públicas, privatizações
- e, de outro, provocou o rebaixamento da condição de vida dos
dependentes da venda de sua força de trabalho - desemprego,
precarização do trabalho, perdas salariais e de serviços
coletivos. Esse cenário sombrio parece ter contribuído para
confundir a postura política do neoliberalismo como antiestatal.
É um passo para conceber positivamente o Estado em relação
aos trabalhadores e, por conseguinte, para revisar a teoria de sua
extinção, preconizada na origem do marxismo.
“Uma
questão relevante, que requer abordagem é a questão do Estado.
Desde sua origem dissociado do anarquismo e adversário dele, o
marxismo sempre focalizou o Estado como instituição negativa, que
deve desaparecer paulatinamente a partir do próprio momento em que
o proletariado se assenhora do poder político. Mas também esta
tese deve ser posta em questão e qualificada. Em nosso tempo, a
doutrina neoliberal também se apresenta como antiestatista e
negadora do Estado. Seria ingenuidade de nossa parte nos
confundirmos com a ideologia neoliberal”. (Id.: 08)
Minado
hoje, o Estado em sua forma de Bem-estar social não seria apenas um
mero engodo para organizar o domínio da burguesia e abafar o
comunismo, pois, antes de qualquer coisa, foi também uma construção
proletária.Caberia, então, defender uma outra intervenção do
Estado favorável aos interesses da classe trabalhadora para
resgatar os direitos sociais do período fordista-keynesiano
solapados nos últimos anos.
“Diante
da prova histórica, cumprem que os marxistas reconheçam que o
Estado do Bem-estar não constitui somente um engodo da burguesia, não
procedeu exclusivamente da intenção estratégica de desviar a
classe operária da atração comunista. O Estado do bem-estar também
resultou – em proporção substancial – da luta de classes
travada pelos trabalhadores, foi também uma conquista dos
trabalhadores. Por isso mesmo, cabe defender hoje a rede
de proteção social estendida precisamente naquele período
caracterizado como fordista-keynesiano”. (Id.: 08)
Esses
fatos observáveis servem de base para o revisionismo propor uma
nova compreensão de Estado capaz de superar as limitações daquela
sugerida no Manifesto.
Primeiro, entende que ocorreu uma socialização da política,
caracterizada, entre outros, pelo sufrágio universal e pelas as
organizações políticas dos trabalhadores – sindicatos e
partidos. Segundo, esta ampliação do político permitiu que os
trabalhadores pudessem obrigar o Estado capitalista a se abrir para
seus interesses, extirpando o seu monopólio pela classe dominante.
Assim, embora o Estado permaneça com seu caráter de classe, não o
é mais somente da burguesia.
“(...)
a crescente ‘socialização da política’ (conquista do sufrágio
universal, criação dos sindicatos e partidos operários de massa)
forçou o Estado capitalista a se abrir para outros interesses que não
apenas os da classe dominante, com o que – sem deixar de ser um
Estado de classe – ele não mais pode ser definido como um mero
‘comitê executivo’ da burguesia”. (COUTINHO, 1998, 03)
Além
disso, conforme, Genro (1998: 02), a redução do Estado à classe
dominante impossibilita a apreensão dos “movimentos reais” que
permeiam a estrutura política no “estágio civilizatório”
atual. Explica que (Id.: 02):
“estes
movimentos são tanto tipicamente de ‘classe’, como se originam
de vários outros fatores, nem sempre de natureza econômica, como ,
por exemplo, aqueles orientados pelos costumes nacionais, pela
cultura, pela religião e pela própria forma com que os homens se
relacionam com a natureza”.
A
suposição das demandas de caráter universais serve para
corroborar concepção do Estado como “uma instância que reflete,
nas suas próprias instituições, não só os antagonismos de
classe que permeiam a sociedade, mas também – por elas –
assegura algumas demandas de caráter universal acima das
classes”. (Id.: 04) Por trás dessas ponderações encontra-se o temor em
reeditar “o problema da negação da democracia e das liberdades
políticas, pelo marxismo vencedor.“ (Id.: 04) O revisionismo
entende que há hoje um “Estado fundado numa ordem jurídica e sob
permanente assédio do proletariado”. (Id.: 04), e, desse modo, o
mesmo não tem um caráter específico e de correspondência
com o domínio burguês. Pelo contrário, o seu valor universal
choca-se com a restrição de classe. Alterar o significado da
estrutura política para os trabalhadores – que de meio de repressão
e desarticulação para ser meio para a organização política dos
mesmos - implica chegar numa nova forma das lutas de classes mediada
pelo Estado. O ponto central na transição socialista configura-se
pela permuta, no seu interior, entre o conteúdo de classe burguesa
pelo conteúdo de classe proletária, já que o movimento dos
trabalhadores revolucionários (pode e) deve fazer a apropriação
do mesmo e retirá-lo das garras burguesas. Destruí-lo e substituí-lo
por outra forma política, como a ditadura do proletariado, mediante
um embate violento com a burguesia, seria um anacronismo, pois as instituições
liberal-democráticas, supostamente neutras, abrem caminho para uma
revolução processual e pacífica. É como se estas também já
fossem portadoras de um conteúdo proletário, por serem resultados
de seus esforços políticos.
“Tudo
isso, finalmente, motivou uma nova concepção da revolução
socialista: esta pode agora ser imaginada como um movimento
processual, que opera nos espaços abertos pelas instituições
liberal-democráticas (resultantes, em grande parte, das lutas dos
trabalhadores), e não mais, como ainda supunha o Manifesto,
sob a forma de uma ‘explosão violenta’ concentrada num curto
lapso de tempo”. (COUTINHO, 1998: 03)
Em
grande parte, foi pelo resgate da tradição liberal-democrática
que o revisionismo buscou renovar a teoria política marxista e
superar seus limites. Esse flerte é explícito em Coutinho (1998:
04) quando afirma que o ideal emancipatório do comunismo – a
associação de indivíduos livres – encontra seu ponto de apoio
naquela tradição, capaz de contribuir para esclarecer, por isso
mesmo, as razões do fracasso do “socialismo real”. Desse modo,
se o erro central foi o da estatização totalitária dos meios de
produção (GORENDER, 1998: 08), recomenda-se, então, uma reformulação
do marxismo no que tange a estatização total desses meios e ao
planejamento ultra-centralizado. Uma configuração mista da
propriedade socialista, estatal e outra sob formas não exatamente
estatais.
“Diante
da experiência soviética, diante dos resultados negativos do
planejamento ultra-centralizador praticado na extinta URSS, cabe
colocar em questão a estatização total como forma socialista de
coletivização dos meios de produção, Certamente, ao lado da
propriedade estatal dos meios de produção, é possível imaginar a
atuação de formas diferentes – comunitárias, locais, regionais,
setoriais e até familiares. Conservando o seu cerne, precisam os
marxistas reformular as proposições fundamentais do Manifesto
comunista”. (Id.: 08-09)
Em
suma, a tese revisionista acaba sendo o contrário da proposta por
Marx, ou seja, o Estado possibilitaria a organização política do
proletariado como classe social para romper com o domínio da
burguesia. As instituições liberal-democráticas são o núcleo
contrário da ordem de classe burguesa por basear-se em princípios
universais que a ultrapassa.Basicamente, esta compreensão compõe-se
por duas considerações: a) o Estado ampliou-se para a atuação
política do proletariado e, portanto, não está mais restrito para
repressão burguesa e seus interesses dominantes; b) a partir disso,
o Estado pode também corresponder aos interesses e finalidades da
classe dominada, inclusive ser o instrumento fundamental de sua
emancipação.
Nova
época, velho debate? Renovação que supera, ou renovação que
retrocede?
Em
linhas gerais, as questões anotadas aqui relembram o caloroso
debate travado nas origens do século XX, entre outros posteriores,
ao redor das teses de Bernstein e Kautsky, cujas críticas vieram,
para citar algumas célebres da época, de Lênin e Rosa Luxemburgo.
Neste,
admitir ou não o caráter especificamente burguês do Estado e de
suas instituições liberal-democráticas desemboca,
respectivamente, em duas posturas políticas opostas: 1) processo de
ruptura e de lutas até violentas, esmagar a estrutura política
existente e substituí-la por uma outra estritamente classista
derivada da organização dos trabalhadores; 2) processo evolutivo e
pacífico, conquistá-la para aperfeiçoar suas dimensões
supostamente emancipatórias.
Se
para Marx, o Estado não passava de um meio de opressão de dominação
da classe burguesa sobre a classe proletária, queria dizer isso que
o caráter burguês reside na sua apropriação pela classe
dominante e na realização exclusiva de seus interesses? A resposta
é negativa. Superando o Manifesto,
Marx (1997: 66) apreende, no seu 18 Brumário, o
desenvolvimento, em conformidade com os interesses da burguesia, da
estrutura interna do Estado - sua máquina burocrática e militar,
centralizada e hierarquizada - que não se identifica com nenhuma
das classes. A específica organização do aparelho estatal perante
a sociedade impossibilita a gestão livre e igualitária do ser
social, coagindo e reprimindo todos os movimentos autônomos que
desafiam a estabilidade da ordem social burguesa. Esta,
profundamente contraditória, provoca os embates entre as classes e,
nestes momentos, “revela-se com traços cada vez mais nítidos o
caráter puramente repressivo do poder de Estado” (MARX, 1875:
195), por amortecê-los em nome do “interesse público”. Esta
aparência de neutralidade da máquina estatal é fortalecida e
possibilitada ideologicamente através de sua forma democrática e
republicana que supõe essa vida política formada pelos indivíduos
livres e iguais, os cidadãos, abstrações das classes sociais
(MARX, 1997: 35-36) - possíveis pela esfera mercantil da produção
capitalista, conforme cap. VI Inédito d’O Capital. Aliás,
o Estado, em certos momentos, pode abrigar certos interesses proletários,
sem deixar de ser capitalista, para possibilitar a reprodução da
dominação burguesa, conforme análise de Marx (1998: 277) sobre a
legislação fabril na Inglaterra. Esta é uma contradição da própria
realidade e, aprendendo nela a luta revolucionária dos proletários
franceses em sua experiência na Comuna de Paris, Marx - junto com
Engels – (1998: LXXXI) fez sua famosa retificação do Manifesto,
no prefácio deste texto em 1872: “a classe operária não
pode limitar-se a tomar conta da máquina do Estado que encontra
montada a pô-la em movimento para atingir os seus próprios
fins”. O nascimento do ser social livre não pode ser realizado
por um Estado organizado para perpetuar a dominação de classe.
Assim, conseguiu Marx (1975: 199-200) vislumbrar dentro da transição
socialista a necessidade de outra forma política própria à classe
trabalhadora organizada para eliminar as bases econômicas do poder
burguês.
Palavras
finais... voltando ao ponto de partida
A
dialética marxiana foi capaz de apreender a unidade entre forma e
conteúdo burguês do Estado ao captar a necessária relação entre
a superestrutura política e sua infraestrutura socioeconômica.
Afirmando a historicidade do Estado burguês e de suas manifestações
ideológicas burguesas como resultados da organização da sociedade
em classes sociais antagônicas, Marx rompeu com as mistificações
idealistas do hegelianismo - a realização universal - e da tradição
liberal-democrática – o bem comum -, formadas pela união de
indivíduos livres e iguais. Por isso, ao contrário do que podem
objetar, voltar ao pensamento científico de Marx pode contribuir
para romper com o dogmatismo que eterniza as categorias históricas,
revolucionar a própria ciência social em suas abstrações e
desmascarar suas dimensões burguesas de classe.
O
caminho revisionista pareceu estar mais próximo, de certo modo, da
dialética hegeliana do que a de Marx, já que compreendeu o Estado
de forma autônoma diante da produção social burguesa, como forma
política capaz de subverter a dominação burguesa – de existir
além desta. Assim, o Estado burguês pôde ser perpetuado num
processo de síntese entre a afirmação e a negação de duas
dimensões, classista e universalista, supostamente sem ligações
necessárias. Enfim, esse revisionismo brasileiro apontou para uma
superação do Manifesto e de Marx que retrocedeu da
radicalidade de seu estatuto teórico e político clássico para o
universo ideológico burguês.
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Bibliografia
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