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Por ARMANDO
BOITO JR. Professor
Titular de Ciência Política da Unicamp e autor do livro O
golpe de 1954: a burguesia contra o populismo. São Paulo,
Editora Brasiliense, 1982, Coleção Tudo
é história
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Vargas
e a herança populista
Getúlio
Vargas suicidou-se há meio século, mas o populismo, numa versão
piorada, continua vivo entre nós.
Não
nos deixemos confundir pelas palavras. Muitos observadores políticos
utilizam o termo populismo como sinônimo de demagogia, outros
utilizam-no pensando no conceito weberiano de liderança carismática
e há ainda aqueles que quando falam em populismo estão pensando na
tradução consagrada, porém problemática, para o termo narodnichestvo,
que é a denominação do movimento camponês e de classe média
pela restauração da comuna agrária que existiu na Rússia
czarista. Nós estamos utilizando a palavra populismo para designar
outro conceito.
O
conceito de populismo que utilizamos designa um fenômeno político
e ideológico, presente com maior força na periferia do sistema
capitalista, que se caracteriza pela expectativa de setores
populares menos organizados por uma ação salvadora do Estado
capitalista. Os trabalhadores sob o impacto do populismo tendem a
permanecerem desorganizados ou, quando se organizam, restringem-se
à organização e à luta meramente reivindicativa, deixando, em
qualquer dos casos, a iniciativa política nas mãos do Estado. Esse
organismo é visto por esses trabalhadores, graças às suas
instituições formalmente universalistas, como uma força neutra e
acima da luta de classes que pode, por iniciativa livre e soberana,
acudir os trabalhadores. Lênin, analisando o comportamento político
da pequena burguesia, cunhou a expressão “fetiche do Estado”
para um fenômeno homólogo. Nós diríamos, seguindo essa indicação,
que o populismo é um fetiche
do Estado protetor.
No
período recente, tem surgido um novo tipo de crítica, conceitual e
política, ao conceito de populismo. Esse conceito não ocultaria a
luta dos trabalhadores? Não acabaria referendando o discurso ideológico
varguista que apresentava Getúlio como o pai dos pobres? Ou, ainda,
esse conceito não seria euro-centrista, desempenhando a função de
ocultar a própria organização operária no Brasil?
Na
discussão dessas questões, cabe uma referência crítica ao
trabalho recente de alguns historiadores de São Paulo e do Rio de
Janeiro ().
Alguns historiadores e ativistas preocupados em resgatar a memória
da luta operária entenderam que precisavam abandonar o conceito de
populismo. Na verdade, para utilizar tal conceito precisam apenas
abandonar a perspectiva “basista” e reconhecer que há uma
diferença qualitativa entre luta reivindicativa e luta pelo poder
político. Como o utilizamos, o conceito de populismo não é
incompatível com a valorização da luta (reivindicativa) dos operários
e dos trabalhadores em geral. Há, na verdade, uma complexa dialética
entre a pressão reivindicativa na base e a resposta política dos
governos populistas que, por manterem a iniciativa política graças
à desorganização política das massas, podem devolver o resultado
da pressão popular (difusa) como se fosse fruto de uma iniciativa
livre e soberana do Estado e dos governos, realimentando o mito do
Estado protetor. Mas, essa dialética entre reivindicação e
iniciativa política não permite, ao contrário do que sugerem os
historiadores que procuram recuperar positivamente a memória do
varguismo, que se coloque um sinal de igualdade entre reformismo
populista e reformismo social-democrata. O velho PTB ou o atual PDT,
isto é, o denominado trabalhismo não é a versão brasileira da
social-democracia. Ele está muito aquém desse reformismo de tipo
operário. A diferença de organização entre um e outro movimento
aparece naquilo que mais importa: o resultado que cada um obtém.
Basta lembrar, para indicar a que estamos nos referindo, que o
Brasil nunca chegou a um Estado de bem-estar social. O populismo,
dada a dependência especificamente política a que condena as
grandes massas, produziu apenas um arremedo do Estado de bem-estar.
O
populismo desenvolvimentista
O
varguismo foi um tipo de populismo. Hoje, diante do que assistimos
no Brasil neoliberal, podemos ver com mais clareza que se tratou de
um populismo progressista. Getúlio Vargas apoiou-se na insatisfação
difusa que vigorava no seio de amplas camadas de trabalhadores
urbanos para fazer a Revolução de 1930 e tocar adiante uma política
de industrialização capitalista e de modernização da sociedade
brasileira. Essa revolta difusa (sem programa definido) e inorgânica
(sem organização) acumulara-se ao longo da República Velha. A
revolta popular era motivada pela política econômica e social
antipopular do grande capital cafeeiro e pelo regime político
excludente da república das oligarquias – direitos civis precários,
direitos políticos falseados pelo voto de cabresto e pela prática
do bico de pena etc. Havia, de outra parte, todo um quadro político
e social que dificultava a organização política dessa revolta. O
campesinato brasileiro estava disperso e sua ação política efêmera
assumia a forma de insurreições religiosas. O operariado fabril, já
então minimamente organizado, encontrava-se sob hegemonia
anarco-sindicalista, o que o confinava a uma posição obreirista e
economicista, já que fazia do abstencionismo em matéria política
um valor doutrinário. Nesse quadro, os trabalhadores urbanos não
organizados, tendiam a expressar sua revolta de maneira cega e
inconsistente. O historiador Edgar Carone registrou a freqüência
dos quebra-quebras ao longo de toda história da República Velha.
Foi aí que a Revolução de 1930 buscou apoio no campo popular.
O
adversário do populismo varguista era, em primeiro lugar, a antiga
classe dominante, representada pelo grande capital cafeeiro. Ao
longo de todo o período aberto pela revolução de 1930 ela
manteve-se firme na oposição. Já em 1932, organizou, através do
PRP, a Frente Única Paulista, que desembocaria na guerra civil de
1932. Após 1945, essa grande burguesia tomou a iniciativa de
organizar a antiga UDN – União Democrática Nacional -, partido
com o qual organizou diversos golpes de Estado, inclusive o golpe de
agosto de 1954 que depôs Getúlio Vargas. Essa “oligarquia”
opunha-se à industrialização capitalista do Brasil. Tal processo
exigia a reformulação da antiga divisão internacional do trabalho
de maneira a priorizar os interesses da indústria e do mercado
interno e implicava, na política cambial, creditícia e de comércio
exterior inúmeros prejuízos para o grande comércio de exportação
e de importação. Outro adversário do populismo varguista era o
imperialismo estadunidense. As empresas dos EUA pretendiam continuar
usufruindo a situação favorável que lhes era assegurada pela
antiga divisão internacional do trabalho e, por isso, eram contra a
política de industrialização capitalista do Brasil. A história
mostra que, no jogo de concorrência entre as potências, a política
industrialista pôde contar mais com o investimento industrialista
do capital europeu que com o do capital estadunidense. Um terceiro
adversário do populismo varguista era a fração superior da classe
média. Esse setor social era marcado pelo elitismo e engrossava as
fileiras da UDN contra a ampliação da participação popular.
Getúlio
Vargas arrostou esses três adversários e procurou apoiar-se, ao
mesmo tempo, nos trabalhadores urbanos e na burguesia industrial.
Para os primeiros, “ofereceu” a CLT, diploma que contém, de um
lado, a legislação trabalhista que até hoje atormenta os
neoliberais, mas, de outro lado, a estrutura sindical corporativa de
Estado que burocratizou precocemente o movimento sindical
brasileiro. Getúlio Vargas utilizou essa estrutura sindical para
manter o controle do Estado capitalista sobre o movimento sindical e
impedir a unificação da luta política dos comunistas com a luta
reivindicativa dos trabalhadores. Para a burguesia industrial,
oferecia a política de industrialização e gozava de seu apoio um
tanto hesitante. Nos momentos de crise, tinha de procurar conciliar
os trabalhadores urbanos com os industriais de modo a romper o cerco
do imperialismo e da velha classe dominante à política de
industrialização. Na crise de 1954, encontrando-se sob o assédio
das forças inimigas e verificando as hesitações da burguesia
industrial, procurou ampliar a aprofundar o apoio popular ao seu
governo. No 1o de maio de 1954, concedeu um reajuste de
100% do salário mínimo, para uma taxa acumulada de inflação de
apenas 12% nos doze meses anteriores. Apresentou esse aumento com um
discurso radicalizado no qual afirmava que, “pela força do número”,
os trabalhadores acabariam por chegar ao poder – “hoje, estais
comigo no poder, amanhã sereis poder”. O efeito político foi o
oposto do esperado por Vargas. A burguesia industrial abandonou-o e
o seu governo foi deposto por um golpe de Estado em 24 de agosto de
1954. A reação popular veio tardiamente e sob a forma populista clássica:
os quebra-quebras nas principais capitais do país duraram três
dias e visavam alvos como os jornais conservadores e as casas
comerciais e instituições que lembravam os EUA.
Como
está indicado acima, o governo populista, graças ao apoio popular
difuso e às contradições existentes no interior da burguesia,
pode manobrar entre forças conflitantes. Os estudiosos falam de uma
crise de hegemonia e de um empate na fraqueza como principal condição
dessa ampla margem de manobra de tais governos. O governo Getúlio
Vargas não representava os trabalhadores e tampouco representava,
em sentido estrito, a burguesia industrial, embora essa fração da
classe dominante tenha sido a grande beneficiária de sua política.
Era um governo controlado diretamente pela burocracia do Estado
brasileiro que sustentava um projeto de industrialização
capitalista com a criação de um mínimo de direitos trabalhistas e
sociais.
Como
sabemos, a deposição Getúlio Vargas foi um ensaio geral para a
deposição de João Goulart dez anos depois e essa deposição
encerrou o ciclo de governos populistas. Por que dizemos, então,
que o populismo continua vivo, numa versão piorada, nos dias de
hoje?
O
populismo neoliberal
Que
conceito é esse que serve tanto para a política desenvolvimentista
das décadas de 1950 e 1960, quanto para a política que liquidou o
desenvolvimentismo, isto é, a política
neoliberal das décadas de 1990 e 2000? Não teriam razão os
críticos que afirmam ser o
populismo um conceito muito geral e, por isso, destituído de
utilidade? É verdade que o conceito de populismo designa mesmo um
fenômeno muito geral, mas isso não significa que ele não seja um
conceito útil. No Brasil de hoje, o mesmo fetiche do Estado
protetor, que Getúlio Vargas utilizou para tocar adiante a
industrialização e a ampliação dos direitos dos direitos dos
trabalhadores, esse mesmo fetiche é reanimado pelo imperialismo e
pela grande burguesia financeira para desindustrializar o país
suprimir direitos conquistados. O feitiço do populismo voltou
contra os trabalhadores enfeitiçados.
É
certo que o Brasil mudou desde então e que o populismo não é mais
a tendência tão amplamente dominante que fora na sociedade
brasileira há algumas décadas atrás. Desde a década de
1970, começou a crescer uma nova tendência no movimento
operário e popular brasileiro. Essa tendência consolidou-se com a
formação do PT e da CUT. Suas características eram e são
diferentes das características do populismo. Baseada nos setores do
operariado e da classe média assalariada com maior poder de
organização e de luta sindical – metalúrgicos, bancários,
petroleiros, funcionalismo público -, essa nova tendência acredita
mais na força dos trabalhadores para conquistar suas reivindicações
no plano sindical e concebeu e organizou um partido político para
ser o instrumento eleitoral e governativo da luta reivindicativa dos
trabalhadores. Essa nova tendência tem, portanto, uma ação política
própria, mas a concebe como mera extensão da ação sindical. Os
trabalhadores brasileiros aderiam, assim, à forma clássica do
reformismo operário. A CUT e o PT pareciam ter deixado o populismo
definitivamente para trás. De resto, ambicionavam conscientemente
essa meta e, ao longo de toda sua história de lutas, o novo
sindicalismo e os petistas proclamaram que iriam enterrar
definitivamente o populismo. Mas, não foi isso que aconteceu. Hoje,
no governo, o petismo também lança mão do novo populismo para
manter o modelo econômico neoliberal.
Não
temos espaço para discutir as razões dessa reanimação do
populismo. Iremos diretamente aos fatos. Em 1989, Fernando Collor de
Melo conclamou os “descamisados” a apoiarem a sua luta contra os
“marajás” e obteve, como se sabe, sucesso eleitoral. Se
estiverem corretas as pesquisas de intenção de voto, nas eleições
de 1989, 1994 e 1998, a candidatura Lula foi derrotada pelos
eleitores que se situam na base da pirâmide de distribuição de
renda – as famílias com renda inferior a cinco salários mínimos
mensais. Os trabalhadores mais pobres e desorganizados votaram, em
sua maioria, nos candidatos neoliberais. O que é isso? Mera
demagogia? Liderança carismática? Nada disso. Trata-se do novo
populismo, ressurgente no Brasil e na América Latina.
Como
dissemos, o populismo varguista não implantou um Estado de
bem-estar social no Brasil. Ao contrário, deixou grande parte dos
trabalhadores à margem. Durante as décadas de 1930, 1940 e 1950 os
trabalhadores rurais foram excluídos dos direitos trabalhistas e
sociais. Nas décadas de 1960 e de 1970, quando os direitos sociais
começaram a chegar ao campo nas figuras da sindicalização rural,
do Estatuto do Trabalhador Rural e do Funrural, o trabalhador do
campo estava se convertendo em trabalhador urbano sem carteira
assinada e, portanto, permanecendo sem direitos. Os direitos sociais
nunca se universalizaram no Brasil. Nossa hipótese é que se
acumulou uma revolta difusa contra essa exclusão. A esquerda
socialista, comunista ou petista, por razões diversas que em outra
ocasião valeria a pena discutir, não logrou organizar amplamente
essa revolta. Quando o imperialismo e os setores mais reacionários
da burguesia iniciaram a ofensiva neoliberal essa massa
insatisfeita, excluída da cidadania social e legitimamente
revoltada, encontrava-se politicamente disponível e foi convertida
em classe-apoio da ofensiva neoliberal. Os neoliberais cercaram a
esquerda pela retaguarda.
Sim,
o imperialismo e os setores mais reacionários da burguesia
brasileira lograram obter apoio, graças a um mecanismo político e
ideológico complexo, junto aos setores mais pauperizados da população
trabalhadora, e isso sem fazer concessões econômicas aos
interesses desses setores. Para obter tal apoio, radicalizaram um
discurso contra os direitos sociais restritos, que puderam ser
apresentados como privilégios, e encenaram a ampliação desses
direitos recorrendo às insuficientes e incertas políticas
compensatórias baseadas na focalização. A focalização é a
resposta neoliberal reacionária à cidadania restrita do populismo
desenvolvimentista. Relembremos alguns traços do novo populismo
brasileiro. Collor discursava conta os “marajás” e prometia
acabar com a inflação. Fernando Henrique Cardoso, além do Plano
Real, tinha o programa Comunidade Solidária e apresentava os
funcionários públicos e aposentados como “vagabundos”. Lula
tem o programa Fome Zero e já comparou, em discurso na cidade de
Pelotas, o trabalhador rural com o professor universitário para
apresentar esse último como privilegiado. Chegou a chamar de
privilegiados, em discurso proferido em São Bernardo do campo, os
operários do ABC pelo fato de eles pagarem imposto de renda. O novo
populismo atiça os pobres contra os remediados para o júbilo dos
milionários que são preservados ilesos.
Estamos,
portanto, diante de um quadro muito distinto daquele do populismo
desenvolvimentista. Os promotores do novo populismo são, como
dissemos, o imperialismo e a grande burguesia financeira, os setores
mais reacionários da classe dominante. No governo, não se verifica
nenhuma autonomia especial da burocracia de Estado. Essa burocracia
age, agora, como representante político do grande capital
financeiro. Os adversários do populismo atual são os trabalhadores
organizados, seus direitos, e a indústria nacional. É quase uma
inversão exata do populismo varguista. A semelhança fundamental
encontra-se na base social, na ideologia e no instrumento que
viabilizam uma e outra política. O fetiche do Estado, a desorganização
política dos trabalhadores, o apelo direto do ocupante do Executivo
às massas, esses mesmos elementos são utilizados hoje, mas com
objetivos distintos daqueles que Vargas perseguia ontem.
Por
que não denominar a política atual uma política bonapartista?
Expliquemo-nos. O bonapartismo pode ser considerado, seguindo a análise
de Karl Marx, uma política que também se apóia, como o populismo,
no culto do Estado, mas que valoriza, diferentemente daquele, o
Estado enquanto instrumento da ordem e não da promoção do
bem-estar. Por isso preferimos manter o conceito de populismo. A
motivação dos trabalhadores que apóiam as reformas neoliberais,
como a reforma da previdência, da CLT e outras, não é,
diferentemente do que ocorre com os idealizadores e promotores
dessas reformas, aumentar o lucro do capital, mas viabilizar,
segundo acreditam os trabalhadores pauperizados e desorganizados,
uma política social que inclua realmente a todos. Nossa hipótese
é que eles percebem o discurso contra os pretensos privilégios e a
política social focalizada como o início de um processo de ampliação
da cidadania social, e não como uma política de liquidação dessa
cidadania. É a mesma aspiração de fundo para a qual Getúlio
Vargas dera um encaminhamento progressista embora muito limitado.
Hoje, essa aspiração de fundo, que interpela o conjunto da
esquerda brasileira, é convertida, pelos partidos e governos
neoliberais, em base de apoio para uma política reacionária.
Como
e porque os reacionários tiveram acesso aos setores mais
pauperizados dos trabalhadores? Como e porque um governo apoiado por
forças que se diziam antipopulistas continua utilizando o populismo
e na sua modalidade piorada? Como superar o déficit organizativo
histórico das grandes massas da população trabalhadora do nosso
país? Entender e superar o populismo, eis um dos grandes desafios
da esquerda brasileira hoje.
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