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Por EVA PAULINO BUENO
Depois
de quatro anos trabalhando em universidades no Japão, Eva Paulino
Bueno leciona Espanhol e Português na St. Mary’s University em
San Antonio, Texas. Ela é autora de Mazzaropi, o artista do
povo (EDUEM 2000), Resisting Boundaries (Garland,
1995), Imagination Beyond Nation (University of Pittsburgh
Press, 1999), Naming the Father (Lexington Books, 2001), e I
Wouldn’t Want Anybody to Know: Native English Teaching in Japan
(JPGS, 2003)
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O
documentário
Fahrenheit 9-11 e sua possível influência nas eleições
americanas
Neste
começo de verão, aqui nos Estados Unidos, o filme que começou no
topo da audiência foi não um filme de aventuras, nem de ficção
científica, nem de trama internacional, nem de comédia, nem de
tragédia. Foi um filme que reuniu todas estas características e
mais algumas outras, em forma de documentário. O filme é Fahrenheit
9-11, escrito, dirigido e produzido por Michael Moore, e
estrelado por, entre outros, George W. Bush, Osama Bin Laden, Saddam
Hussein, os moleques barbudos do Taliban, papai Bush, figurões da
política americana, etc. Enfim, aquela turma toda que aparece na
televisão com uma freqüência irritante. Até o Michael Moore
aparece, só que muito menos que em outros filmes seus.
O nome do filme, para os que não se
lembram, vem daquele filme dos anos 70, Fahrenheit 451, que vem do livro do mesmo nome escrito por
Ray Bradbury. Em Fahrenheit
451, as pessoas vivem num tempo em que as casas são todas
iguais, todas ligadas através de um sistema de televisão, e os
cidadãos não têm o direito de ler. Todos os livros estão sendo
queimados. Em suma, este filme e o livro do qual se origina se
relacionam com a série de livros que apresentam o mundo como um
lugar distópico, da linha de 1984 de George Orwell, e de Admirável
Mundo Novo, de Aldoux Huxley, entre outros. A ditadura, nestas
obras, não controla somente o corpo, mas se apossa da mente das
pessoas. Em Fahrenheit 451, com a proibição da leitura, as pessoas
ficam à mercê da propaganda do estado (alguém se lembra da nossa
ditadura?), e um grupo de pessoas começa a resistir ao decorar
livros inteiros, para passá-los para os outros.
Mas e Fahrenheit 9-11? O que faz deste filme um fenômeno imperdível
nestes dias fumacentos na América do Norte? Vários fatores, entre
os quais cito por exemplo o fato de que, na verdade, embora todos nós
já estejamos fartos destas histórias dos horrores da/s guerra/s,
é impossível resistir-se a ir ver um filme que mostra não somente
coisas que se passaram “por detrás das cortinas” do poder, mas
também outras que simplesmente têm ocorrido aqui com gente comum,
que como sempre é a que menos voz tem, e a que é mais afetada
pelas maquinações políticas e financeiras nos postos de comando
do país. Assim como em Fahrenheit
451, também aqui nos Estados Unidos a máquina de propaganda do
estado, com soundbites do presidente dizendo o costumeiro
sobre “pátria! liberdade! América! Quem não está comigo é
inimigo do país!”, continua ainda convencendo a muitos que tudo o
que os americanos fazem no mundo está não só certo, mas é uma
ordem de Deus. Fahrenheit
9-11 vem para dar ao público americano uma chance de ver o
outro lado da moeda.
Logicamente, os adeptos do partido
republicano começaram a cair de pau no filme e em Michael Moore o
mais rapidamente possível, chamando o filme de uma teoria de
conspiração, e também de propaganda política. Vamos ver cada uma
destas acusações em separado.
Se o filme fosse realmente uma teoria
de conspiração, ele seria somente isto, uma teoria. A diferença,
neste caso, é que Moore mostra as imagens sem retoques, tanto as
que foram passadas para o público televisivo como as que as
antecederam e as que vieram depois. Uma coisa que qualquer pessoa
que estava neste país no dia 11 de setembro de 2001 se lembra, é
do presidente falando à nação. O que ninguém tinha visto foram
as imagens de George W. Bush ao receber a notícia do ataque às
torres, continuar sentado em uma cadeira de escolinha de criança,
na Flórida, fingindo ler um livro chamado “The Pet Goat.” Fahrenheit 9-11 nos mostra o tempo se escoando, enquanto
“Debiú” continua olhando para o vazio, uma cara de perdido, sem
tomar nenhuma iniciativa. E todos sabemos qual foi a primeira
iniciativa que ele tomou: fugiu no avião presidencial. Outra
iniciativa tomada em seguida foi providenciar para que todos os
membros da família de Bin Laden deixassem o país, mesmo durante o
período em que vôos estavam cancelados.
E por que Bush permitiu que os
aeroportos do país, fechados para todos, fossem abertos para estes
membros de uma família saudita? Simplesmente, como o filme nos
mostra, porque a família Bush tem estreitas relações comerciais
com a Arábia Saudita, inclusive com a família de Bin Laden.
Enquanto todos – todos! — estavam impedidos de chegar ao seu
destino, continuar suas viagens, a exceção foi feita, por ordem de
“Debiú,” exatamente para gente relacionada com quem havia
ordenado a execução do plano que custou a vida de milhares de
pessoas inocentes em Nova Iorque, Washington, e Pensilvânia.
Mas, logicamente, que se poderia
esperar de um presidente que não cortou relações com o Taliban
mesmo depois da destruição dos Budhas milenares, ordenadas pelos
malucos que governavam o Afeganistão com ferro e fogo? E quem tinha
visto aquelas imagens dos moleques barbudos do Taliban, se fazendo
de embaixadores, vindo aos Estados Unidos, insultando uma mulher
jornalista e dizendo que o marido dela devia mantê-la em casa? Como
é possível que um país que se diz o campeão da democracia,
continuar de conluio com tal grupo? Como é possível que os
governantes de um país que se diz civilizado aceitem sentar-se à
mesa com representantes de um país que executa mulheres à queima
roupa porque elas não colocaram a burqa cobrindo o corpo inteiro?
Como é admissível que os representantes do povo dos Estados Unidos
tenham apertado a mão das alimárias que destruíram museus e
arrasaram a tiro de canhão as estátuas, patrimônio da humanidade,
somente porque eles acham que tais estátuas ofendiam a sua religião?
E, diga-se de passagem, os protestos contra esta destruição vieram
de todo o mundo, especialmente de autoridades muçulmanas, que
consideravam que as imagens tinham valor histórico, artístico, e
cultural, e que o Taliban não tinha o direito de destruí-las. Mas
eles foram em frente, arrebentando tudo. E depois disto, ainda
vieram aos Estados Unidos em missão oficial.
Claro, depois de 11 de setembro, Bush
ordenou o ataque ao Afeganistão. Inevitavelmente, muita gente
morreu, civis, crianças, velhos, mulheres, homens. Alguns membros
do Taliban. E os moleques fantasiados de governantes foram presos. E
o Bin Laden? Ninguém sabe, ninguém viu. Coincidência? Falta de
sorte? Não é interessante que a maioria dos seqüestradores dos
aviões era saudita, e as únicas pessoas que voaram para fora dos
Estados Unidos naqueles caóticos primeiros dias eram sauditas e
alguns até parentes do Bin Laden? Por que eles não foram
interrogados? Por que eram bons demais, acima da lei, acima de tudo?
O filme de Michael Moore nos coloca
estas questões. Mas estas não são as únicas. Na realidade, elas
são parte de uma série de perguntas que o filme faz, colocando
imagens que são chocantes, comoventes, horríveis, e, a maioria
delas, nunca antes vistas. Tal é o caso, por exemplo, de cenas da
vida em Bagdá antes da invasão, e cenas logo após as bombas começaram
a cair. Muito urgentemente, o filme pergunta por que esta guerra
contra o Iraque. Uma vendetta porque “Debiú” achava que tinha
que tirar a desforra no cara — Saddam — que tinha tentado matar
o “daddy” dele? Ora, isto seria muito simplista. Em imagens que
seriam incríveis, se não fossem reais, vemos que a família Bush e
seus associados estão lucrando com esta guerra, enquanto o povo
comum, o americano que não consegue emprego nenhum (a economia está
bem ruim por aqui) e vai às forças armadas, continua morrendo.
Esta parte está muito bem
dramatizada pela presença de uma mulher simples, Lila Lipscomb, que
é de Flint, no estado de Michigan. Ela conta como sempre incentivou
seus filhos a que entrassem para as forças armadas, porque achava
que era uma coisa boa para se fazer, além do fato que assim seus
filhos teriam acesso a uma universidade. Ela também conta que
sempre se irritava contra os que protestavam contra a guerra, porque
achava que eles estavam rejeitando o sacrifício dos soldados.
Durante a filmagem, ela recebe a notícia que seu filho tinha sido
morto no Iraque. Algum tempo depois, ela recebe uma carta que o
filho tinha escrito um dia antes de morrer, na qual ele expressa a
desilusão dele e muitos outros soldados, que chegaram à conclusão
que Bush os mandou ao Iraque por nada. Lila então vai até
Washington, porque ela quer ver de onde emana a força que mandou
que seu filho fosse ao Iraque, e lá acabou sendo morto, por nada,
por nada. Quando ela chega à frente da Casa Branca (que está
protegida por cercas, nestes tempos terrorísticos), uma mulher a
agride, dizendo que isto tudo é um fingimento, cena inventada. Lila
se volta à mulher e diz que seu filho não era uma invenção, que
ele era um homem bom. E que a sua morte não é um fingimento. Ela
se dirige à cerca, olha para a Casa Branca e chora, e diz que agora
sabe para onde vai dirigir sua raiva.
E quanto à acusação de que esta é
somente uma propaganda a favor dos democratas, e que tudo isto é
realmente uma maneira de colocar o partido republicano em má luz:
espere até ver o filme. Notem especialmente o que Moore faz com a
palhaçada da eleição de 2000, da atitude de Gore, e de outros
proeminentes democratas. Ele vai adiante: já que o congresso votou
para permitir que Bush mandasse tropas para o Iraque, ele vai falar
com senadores (dos dois
partidos) e leva papéis para que eles também alistem e mandem seus
filhos à guerra. Logicamente, nenhum aceita (somente um senador tem
o filho no Iraque).
Em termos de filme, de artefato
cultural, Fahrenheit
9-11 pode não ser perfeito. Mas qualquer um pode ver como as
imagens foram muito bem escolhidas, como a narração cabe
perfeitamente em todos os casos. O filme também é engraçado em
algumas partes, especialmente quando Moore, ao ser informado que os
senadores assinaram o “Patriot Act” sem ler o texto, roda em um
caminhãozinho de sorvete equipado com autofalantes, e lê o texto
em volta do congresso. Estas partes cômicas são breves, mas são
extremamente efetivas.
Talvez no futuro este filme seja
julgado somente sob os aspectos artísticos. Talvez ele não seja tão
“polido” como os dois outros filmes de Moore, Roger and Me,
e Bowling for Columbine. Mas Fahrenheit 9-11 tem a força
dramática dos filmes que estão retratando um momento extremamente
importante não só para o país, mas para todo o mundo. Se vai
influenciar a eleição presidencial neste novembro, não podemos
ter certeza. A certeza que eu tenho, pessoalmente, é que
influenciou um grupo de rapazes militares que assistiram o filme. No
começo vaiavam, assoviavam, mas aos poucos, quando Moore mostra a
imagem dos soldados americanos mortos ou horrivelmente feridos no
Iraque, se calaram. Talvez, para aqueles rapazes, finalmente tenha
ficado claro que ser contra a guerra é exatamente ser a favor da
vida deles. Nem todas as guerras podem ser evitadas. Mas o filme
mostra que esta guerra no Iraque é, certamente, uma que não
deveria nem ter sido começada. E o filme lança ainda mais dúvidas
quanto à legitimidade do governo que a começou.
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