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Por ANTÔNIO
INÁCIO ANDRIOLI
Bolsista do EED e doutorando em Ciências Sociais na
Universidade de Osnabrück – Alemanha
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Aumentar
a exploração para garantir empregos?
Diante
do crescente desemprego e da ameaça dos empresários em transferir
investimentos para países com salários mais baixos, os
trabalhadores estão diante de uma nova ofensiva do capital contra
direitos historicamente conquistados. Na Alemanha, os trabalhadores
estão sendo submetidos a um aumento da jornada de trabalho de 35
horas para 40 horas semanais, com o argumento da possibilidade de
preservação dos empregos. A idéia, que vem sendo defendida há
mais tempo pela base dos partidos conservadores CDU/CSU (União
Democrática Cristã/União Social Cristã), agora recebe o apoio
dos social-democratas no governo e, pasmem, de parte dos
sindicalistas que, após o recente acordo realizado na empresa
Siemens (sob a alegação de garantir 2 mil empregos na Alemanha),
reagem dizendo que trata-se de um caso excepcional, que não deve
ser generalizado. Em que se baseia essa tendência e qual é sua
probabilidade de expansão?
O
desemprego acompanha o desenvolvimento do capitalismo e reflete uma
lógica que é inerente ao funcionamento do mercado. Como mercadoria
que possui um preço definido pela oferta e procura de trabalhadores
no mercado, a tendência é baixar a remuneração do trabalho ao mínimo
necessário à sobrevivência e reprodução dos trabalhadores (o
assim chamado salário mínimo). O trabalho, no entanto, constituiu
uma mercadoria especial para o capitalismo, ou seja, somente ela é
capaz de gerar valor, de aumentar o valor das mercadorias
produzidas, um processo que na abordagem marxista é caracterizado
como mais-valia (o valor que o trabalho produziu a mais, porém não
recebe como remuneração, pois é a base do lucro, da exploração
por parte do capital). Para que o lucro de uma empresa aumente, a
regra básica é fazer o trabalho render ao máximo, pagando-lhe o mínimo
necessário. Nessa estratégia, duas alternativas vêm sendo
utilizadas historicamente pelo capital: a) a adoção de novas
tecnologias, que permitam uma maior produtividade, sem aumentar a
jornada de trabalho; b) o aumento da jornada de trabalho sem aumento
proporcional da remuneração do trabalhador.
O
problema, do ponto de vista do conjunto dos trabalhadores, é que
uma maior produção de mercadorias por parte dos atuais
“empregados”, tende a aumentar os “desempregados”,
contribuindo para uma maior oferta da “mercadoria trabalho”, o
que, por sua vez, tende a diminuir o seu valor no mercado. Para os
capitalistas, o desemprego é uma vantagem, do ponto de vista
individual, pois a competição entre os trabalhadores por empregos
permite a super-exploração dos trabalhadores, a fonte para o
aumento dos lucros. Entretanto, do ponto de vista da economia
capitalista como um todo, o aumento de investimentos em capital
constante (tecnologia) e a redução do capital variável
(trabalhadores) conduz à queda da taxa de lucros, por reduzir
exatamente a parte responsável pela reprodução do valor. Além
disso, a perda de poder aquisitivo por parte dos trabalhadores em
geral, diminui o potencial de compra das mercadorias. O processo
tende a aprofundar a crise de superprodução da economia
capitalista e gerar uma maior instabilidade social. A correlação
de forças entre capital e trabalho fica mais clara para o conjunto
da sociedade nestes momentos e, no decorrer da história, podemos
verificar que somente a mobilização social dos trabalhadores
contribuiu para alterar a lógica em curso. O sindicalismo, que é
fruto da organização dos trabalhadores no capitalismo, foi responsável
pela implementação dos direitos sociais assumidos pelos Estado,
que, intervindo nos momentos de crise do capitalismo, criou condições
para a instauração de novos períodos de acumulação capitalista.
A redução da jornada de trabalho para 8 horas diárias, o seguro
desemprego, o direito a férias, o 13˚. Salário, a melhoria
das condições de trabalho e de saúde do trabalhador, aumentos
salariais e participação nos lucros das empresas, bem como a
instituição do direito a greve, a comissões de fábrica e ao
acordo coletivo de trabalho, não são dádivas dos empresários,
mas conquistas da organização dos trabalhadores, que tiveram
reflexos em partidos políticos e em governos na construção do
assim chamado Estado de bem-estar social. Por outro lado, a organização
dos trabalhadores também originou os movimentos revolucionários e
as revoluções socialistas que significaram uma ruptura com a lógica
capitalista. A existência do bloco soviético, apesar da sua
burocratização, contribuiu decisivamente para a implementação de
políticas sociais por parte dos Estados capitalistas, no sentido de
amenizar possíveis levantes por parte dos trabalhadores nos países
industrialmente desenvolvidos. A preservação de um padrão de vida
estável impedia uma maior radicalidade na ação do movimento dos
trabalhadores, que foi sendo gradativamente reduzido a um movimento
reivindicatório e burocratizado.
No
atual contexto da economia capitalista, em que o capital assume seu
caráter de expansão mundial livre
de qualquer contraposição que pudesse existir no contexto da
“guerra fria”, com o aprofundamento da divisão internacional do
trabalho, a submissão da maioria dos governos aos interesses dos
capitalistas e o recuo na organização dos trabalhadores,
acompanhamos o ressurgimento de características anteriores ao próprio
estágio inicial da organização da classe trabalhadora.
Apresentando-se como o que gera empregos (no alemão
“Arbeitsgeber” = aquele que dá o trabalho), o grande capital
está livre para adotar, ao mesmo tempo, as duas estratégias de
aumentar a super-exploração: a) ao incorporar o mais alto padrão
tecnológico da história (mais valia relativa), responsável por
altas taxas de produtividade e que dispensa massivamente
trabalhadores; b) ao propor o aumento da jornada de trabalho dos
trabalhadores (mais valia absoluta). A dupla estratégia se vale da
implicação mútua que ela mesma gera num contexto que ela
aprofunda. Em função do aumento do desemprego estrutural,
resultante do alto padrão tecnológico adotado, os trabalhadores
empregados tendem a aceitar o aumento da jornada de trabalho, para
evitar um mal maior: a perda do emprego. Os trabalhadores
desempregados, por sua vez, vêem suas perspectivas de trabalho
sendo ainda mais reduzidas por aqueles que aceitam trabalhar mais
para preservar o mesmo salário. Parte dos empregados aceitam
trabalhar mais tempo exatamente na produção de um padrão tecnológico
ainda maior, gerador de mais desemprego.
A
organização dos trabalhadores, que no decorrer da história foi
responsável pela alteração da correlação de forças, já
estando reduzida, passa a centrar sua ação na preservação dos
empregos existentes e tende a se esvaziar cada vez com sua ação
defensiva. No momento em que a ofensiva pela redução da jornada de
trabalho poderia significar a conquista de tempo livre sem diminuição
do salário aos trabalhadores e uma alternativa de ocupação aos
atuais desempregados, a lógica do grande capital, que aumenta a
produtividade e sua taxa de lucros numa proporção historicamente
nunca vista, é exatamente oposta e passa a ser aceita por governos,
sindicatos e, inclusive, trabalhadores que abrem mão de direitos
historicamente conquistados. A origem do desemprego muda
ideologicamente de foco: o próprio desempregado passa a ser o
culpado, a necessidade de qualificação é apresentada como solução
aos que continua empregados, o Estado e os sindicatos passam a ser
louvados como “preservadores” do emprego, na proporção em que
compactuam com os interesses do capital, embora só tendam a agravar
a situação. A intensificação da competição entre trabalhadores
empregados e trabalhadores desempregados, uma alternativa do ponto
de vista do capital, perpetua a ausência de alternativas do ponto
de vista dos trabalhadores, pois mina a solidariedade de classe,
elemento que historicamente serviu para a mudança na correlação
de forças.
Para
complicar ainda mais essa situação, com a mundialização do
capital, a resistência dos trabalhadores exige uma ação cada vez
mais mundializada. Se o rebaixamento dos salários e das condições
de trabalho nos países industrializados é um fenômeno que tende a
se reproduzir nos países da periferia, é a crescente informalização
e precarização do trabalho na periferia que serve de motor ao
desmonte social no chamado Primeiro Mundo, com a ameaça do grande
capital em se expandir para a periferia. O quadro é de precarização
do trabalho em nível internacional, acompanhado de uma defensiva
internacional da organização dos trabalhadores. A informalização
do trabalho já passou a ser a forma típica de ocupação dos
trabalhadores em vários países, uma situação que desafia as
organizações de trabalhadores atualmente existentes, que, além de
fragilizadas, não estão conseguindo organizar os desempregados.
Se, a nível local, surgem novas iniciativas em resposta à
crescente exclusão de amplas camadas sociais, uma articulação
internacional unindo trabalhadores empregados e trabalhadores
desempregados é imprescindível para se contrapor à mundialização
da barbárie. Caso contrário, a classe que vive do trabalho reduzirá
suas revindicações ao único direito que lhe resta na sociedade
capitalista: o direito de ser explorado, por cuja “concessão”
alguns parece que já se precipitaram em agradecer!
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