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Sustentabilidade
– Um Ensaio de Prospectiva
Vivemos em plena era do fracasso do
paradigma oficial de desenvolvimento e da ideologia dominante.
Antes, afirmava-se que era preciso primeiro fazer crescer o bolo,
para depois distribuí-lo. Hoje, com a bolsa de valores sendo
considerada indicador de progresso, o bolo não cresce mais e nem se
sabe o que produzir e para quem?
O impasse criado nas políticas
oficiais requer a construção de um novo modelo de transformação
social, baseado na cooperação e solidariedade e com a participação
da população, na concepção, execução e avaliação dos
projetos.
O discurso e a prospectiva oficiais
assumem os objetivos e metas do progresso técnico como verdades ou
certezas inquestionáveis por serem supostamente derivados das leis
da evolução natural. A realidade social, todavia, é complexa e
contraditória e mesmo os objetivos e planos puramente técnicos
refletem interesses e valores de grupos sociais em campos
diferentes.
Nestas condições, seria
pretensioso considerar o exercício da prospectiva equivalente à
previsão do futuro. Políticos e tecnocratas procuram obter uma visão
do contexto futuro, para melhor adequarem suas decisões.
Mas, estimativas baseadas em extrapolações da taxa de câmbio,
da inflação, dos juros e suas oscilações constantes evidenciam o
caráter altamente equivocado e perverso dessa prospectiva oficial.
Em vez de bancarmos o papel de futurólogos cujas predições não
ultrapassam o trivial, devemos procurar explorar futuros
alternativos, admitindo explicitamente a existência de certas
precondições, consideradas como partes do próprio futuro provável
e desejável. Não se trata de uma visão romântica de um futuro
“a priori”, ainda inexistente. Ao tentarmos inventá-lo, nossos
pressupostos sobre o que deve acontecer mesclam-se com as premissas
sobre o que pode e o que vai acontecer.
As incertezas e a insegurança
presentes em nosso cotidiano transformam a vida em um pesadelo cheio
de contradições, de instabilidade e de interrogações. Face aos
problemas e aos desafios aparentemente insolúveis, os indivíduos
perdem a confiança em si, nos outros e no governo da sociedade.
Onde encontrar orientação para antecipar e prever o futuro, uma
aspiração da humanidade tão antiga quanto sua existência no
planeta? Nem o fatalismo religioso, nem o determinismo científico
foram capazes de fornecer respostas satisfatórias aos anseios de
escaparmos da situação de caos. Afinal, aonde vamos?
A penetração da racionalidade
econômica e tecnológica em todas as esferas da vida,
potencializada pela globalização, em vez de aclarar o horizonte
tem agravado os riscos de acidentes ecológicos, de conflitos
armados e de ameaças de desequilíbrios dos ecossistemas, até a
entropia irreversível. Impelido pela dinâmica de acumulação e
reprodução do capital em escala global, o tão almejado
crescimento econômico provoca a destruição das condições ecológicas
da sustentabilidade, ao estimular o consumo insaciável de recursos
naturais e gerar emissões tóxicas que provocam o aquecimento
global.
A racionalidade econômica baseada
numa pseudociência mecanicista constitui o desafio mais sério para
uma governança responsável da vida e da segurança do planeta. O
processo de globalização introduziu em todos os cantos da terra a
racionalidade técnica e econômica do mercado, com efeitos que
transcendem a nossa capacidade de controle dos fenômenos reais.
Seus impactos resultam em descontrole dos acontecimentos, inclusive
os desastres ecológicos e a degradação sócio-ambiental,
manifesta sob forma de pobreza, desequilíbrios, insegurança e
conflitos.
A incapacidade da ciência para
prever e antecipar as catástrofes e para desenvolver uma gestão
racional dos riscos nos leva a postular a superação do modelo
convencional, linear e cartesiano, a fim de desenvolver um método
capaz de enfrentar as incertezas e orientar políticas públicas
para um processo de tomada de decisões participativas. Isso
permitiria a abertura de um novo campo de estudos visando o controle
social das aplicações de tecnologias, com o objetivo de antecipar
e conter os impactos negativos das tendências dominantes nos
processos desencadeados pela racionalidade instrumental.
A realidade tem desmentido as predições
da maioria dos cientistas, a ponto em que hoje, formular políticas
visando a sobrevivência das espécies e do planeta, exige a aplicação
do Princípio de Precaução, para enfrentar os riscos ecológicos.
Este aparece como um recurso de sensatez diante a cegueira de uma
racionalidade econômica instrumental que se pretende onisciente. A
prospectiva convencional, como arte e método de perscrutar o futuro
e para evitar catástrofes não consegue equacionar as causas e
propor alternativas.
Os modelos de simulação servem
para construir cenários baseados num raciocínio do tipo ”se tal
fenômeno ocorrer, produzirá tal efeito”, baseando-se em correlações
e interdependência de processos conhecidos. Estudiosos que se debruçam
sobre as probabilidades de ocorrência de certos fenômenos,
procuram oferecer alternativas além da mera extrapolação de fatos
e tendências, recorrendo à História e a analogias. Esses exercícios
oferecem a oportunidade de construir uma nova racionalidade, em
oposição à racionalidade econômica hegemônica que impede mudanças
e cerceia alternativas. O conceito de sustentabilidade - sistêmica,
interdisciplinar e interdependente - permite pensar uma
racionalidade alternativa, baseada em outros modelos de
desenvolvimento.
A globalização dos mercados e o
pragmatismo de curto prazo não permitem aos políticos e tomadores
de decisão incorporar resultados de estudos sobre os riscos ecológicos.
A fé cega na “mão invisível” e nos mecanismos de mercado
desqualifica qualquer previsão fundada na ciência e nos valores
diferentes daqueles da racionalidade dominante. Assim, as previsões
do Painel Internacional sobre Mudanças Climáticas não afetam as
certezas dos economistas. O Princípio da Precaução, formulado na
CNUMAD Rio-92 não passou de um juízo moral marginal entre os critérios
para a tomada de decisões sobre políticas econômicas.
Nas discussões sobre a
sustentabilidade do planeta se enfrentam as prioridades atribuídas
à globalização e aos processos de degradação do meio ambiente.
O economicismo dominante tende a minimizar ou desacreditar a importância
do aquecimento global, da conservação da biodiversidade e da
preocupação com o bem-estar de toda a humanidade. Assim, as advertências
do Painel Internacional e do Worldwatch Institute estão sendo
ignoradas e suas propostas de caminhos alternativos acabam sendo
descartadas por serem “irrealistas”. Mas, diante a iminência
dos riscos ecológicos, as perspectivas da sustentabilidade não se
limitam à previsão de catástrofes ambientais. Ao questionar o
fatalismo determinista, a prospectiva procura induzir a reversão de
processos insustentáveis, colocando a razão a serviço da análise
de alternativas e louvando-se no potencial ecológico e na
diversidade cultural do planeta.
As últimas conferências mundiais
– a Cúpula do Milênio, em 2000; e a Conferência Mundial sobre o
Desenvolvimento Sustentável, em 2002 –, não avançaram na
elaboração de programas e projetos alternativos, confiando mais
nos mecanismos do mercado e no financiamento internacional. A
prospectiva ambiental implica na desconstrução dessa racionalidade
e a construção de outra, muito além de modelos e de jogos
de simulação e que coloque a preocupação com o ser humano no
centro de todas as políticas. A construção de uma sociedade
sustentável requer a vontade de poder para desconstruir o caminho
que leva à entropia e para construir uma realidade que acene com um
devir desejável. O
futuro se apresenta como um projeto a ser construído, ancorado numa
racionalidade de valores, ou substantiva, como diria M. Weber.
O desmoronamento das certezas e da
capacidade de controle do sistema atual enfraqueceu o poder de
previsão de eventos futuros. A legislação ambiental aparece como
uma defesa tardia, reativa e incompleta diante o impacto devastador
de processos de espoliação dos recursos naturais que ameaçam a
segurança ecológica do planeta. A alternativa exige romper com o
poder de monopólios e de sistemas autoritários, abrindo espaço
para a construção de uma sociedade baseada na diversidade cultural
e na democracia participativa.
O atual modelo gera e estimula um
processo de crescimento baseado no consumo ilimitado de recursos e
na destruição paulatina das condições ecológicas de sobrevivência.Mesmo
controlando o crescimento da população por políticas e mudanças
culturais, a racionalidade econômica do sistema capitalista não
oferece mecanismos internos de equilíbrio e estabilização, na
corrida cega atrás do crescimento que arrasa o meio ambiente.
Portanto, não se trata de ficção,
nem de uma visão romântica – queremos desenvolver propostas de
um futuro possível e desejável, em oposição ao mundo frio de fórmulas
econométricas, e de jogos de simulação que transformam a
realidade percebida numa imagem fantasmagórica e a vida das pessoas
em um pesadelo sem fim.
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