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Por ANTONIO OZAÍ DA SILVA
Docente
na Universidade Estadual de Maringá (UEM), membro do Núcleo
de Estudos Sobre Ideologia e Lutas Sociais (NEILS – PUC/SP),
do Conselho Editorial da Revista Margem Esquerda e Doutor
em Educação pela Universidade de São Paulo.
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Vale
nota, professor?!
“...
viva a certeza de que faz parte de sua tarefa docente não apenas
ensinar conteúdos mas também ensinar a pensar certo. Daí a
impossibilidade vir a tornar-se um professor crítico se,
mecanicamente memorizador, é muito mais um repetidor cadenciado de
frases e de idéias inertes do que um desafiador”. (Paulo
Freire, 1997: 29)
“Se
se respeita a natureza do ser humano, o ensino de conteúdos não
pode dar-se alheio à formação moral do educando. Educar é
substantivamente formar”. (Id.: 37)
Educadores críticos como Paulo Freire nos ajudam a refletir
sobre a prática docente. Mas, toda reflexão embute um certo
sofrer; e este sofrimento é ainda maior quando identificamos que a
teoria pedagógica, isto é, os fundamentos e modelos que
incorporamos, contribuem para aumentar as dificuldades presentes no
processo de ensino-aprendizagem. Entre a teoria e a prática há uma
distância nem sempre fácil de percorrer. Assim, ainda que nossas
certezas teóricas nos levem a assumir uma determinada postura como
educadores, somos desafiados cotidianamente pela realidade da sala
de aula.
A título de analisarmos os desafios e angústias da prática
docente, adotemos alguns exemplos hipotéticos:
-
O
(a) professor (a) “X” ministra aulas para duas turmas, em
horários seguidos. Ele (a) aplica a prova para primeira turma e
esta, no intervalo, passa as questões (e respostas) para a
segunda turma. Posteriormente, o (a) professor (a) fica sabendo
do ocorrido, e irado (a), afirma que a prova será anulada para
ambas as turmas. Os alunos, é claro, não aceitam. O que fazer?
-
Numa
certa manhã gélida o (a) professor (a) dirige-se à escola
para ministrar aula e, lá chegando, se vê diante do seguinte
fato: seus alunos mataram a aula para estudar a matéria
do (a) outro (a) professor (a), que aplicou a prova na aula
seguinte. O que fazer?
-
A
aula do (a) professor (a) “Y” é interrompida pelo (a)
professor (a) “Z” para informar aos alunos sobre a
disponibilidade de monitoria em sua disciplina. Os alunos
escutam-no atenciosamente, mas não esboçam reação nem fazem
perguntas. Não contente em apenas “dar o recado”, o (a)
professor (a) “Z” adota um tom de ameaça velada e sugere
aos alunos que procurem a monitoria e façam um “estoque de
notas”.
Nestas hipóteses, o fator fundamental que salta aos olhos é
o objetivo e/ou a necessidade da nota. O (a) aluno (a)
precisa estudar não para aprender, não para se formar
e se educar – no sentido freireano – mas para
tirar a nota, fazer um estoque de notas
e obter o diploma. A avaliação torna-se o fim e não um meio,
entre outros, da prática pedagógica. Os alunos sabem que não
podem se esquivar de fazer o “estoque de notas”, reconhecem que
determinados (as) professores (as) serão mais exigentes, isto é,
dificultarão ao máximo (quanto maior o número de reprovados em
sua disciplina, mais terão a fama de rigorosos); os alunos sabem-no
e, por isso, adotam estratégias de sobrevivência (a
cola, o “matar a aula” para estudar a prova da outra disciplina,
a compra de trabalhos, via internet ou de algum conhecido (a) que
vive dessa prestação de serviço, etc.). O (a) aluno precisa
“fazer o estoque de notas”, passar de ano, pegar seu diploma.
A exigência da nota determina o agir dos
alunos e professores, angustiando uns e outros – sem contar os sádicos
e masoquistas. A nota não prova inteligência –
acaso o saber pode ser quantificado?! – mas a capacidade de
memorização ou de enganar o (a) professor e a si mesmo. A prova
nada prova, mas é instrumento de poder e, em certos casos, de
autoritarismo; em outros, simples recurso que encobre a insegurança
do (a) professor e sua incapacidade de garantir a ordem na sala de
aula. Que seria dos (as) professores (as) sem as notas?
Que seria dos alunos sem a auto-ilusão de que suas notas
expressam conhecimento? Que seria do sistema de ensino se todos
perdessem o medo à liberdade, se todos se responsabilizassem pelo
próprio processo de aprendizagem, se valorizassem a autonomia e a
solidariedade, em lugar da tutela, submissão e da competição?
É preciso que o sistema se alimente de uns e outros e
aparente que os meios são os fins. É preciso que o
sistema apareça a todos como racional e natural; que
o (a) professor (a) diferente e questionador seja isolado e anulado.
Seus alunos e colegas se encarregam desta função. Eles nem sempre
o farão de maneira consciente ou por maldade, mas sim através de
atitudes amparadas em regras e procedimentos pedagógicos burocráticos
que dificultam e tornam ilusória a liberdade de cátedra. Isto
ocorre porque alunos e professores internalizam a pedagogia
burocrática e pautam sua ação e objetivos por seus princípios.
Portanto, o (a) professor que não se adapta ou questiona o sistema
de notas será tratado como algo desimportante e exótico. Ele
(a) até terá a simpatia de uns e outros, mas muitos tenderão a não
levá-lo a sério, a tratá-lo com desdém e até mesmo a
desrespeita-lo, ora abusando da sua boa vontade, ora confundindo liberdade
com licenciosidade. Seus alunos, numa perspectiva
utilitária e viciada no sistema de “estocar notas”, o
abandonarão a seus próprios sonhos – ele (a) lhes parecerá um
idealista. Presos mentalmente ao sistema de notas, eles usarão
a sua disciplina como tempo disponível para outras disciplinas que
consideram mais importantes ou de professores que lhes parecem mais
“rigorosos”; lerão outros textos e outros livros, dos
professores mais exigentes: seus corpos podem até se fazer
presentes, mas suas mentes estarão noutro lugar. Eles não percebem
a própria indolência, pois que se encontram subjugados à lógica
da cega obediência, da memorização de conteúdos, do “tirar
a nota”. O discurso do (a) professor (a) lhes parecerá
vazio, sem fundamento: não corresponde às suas expectativas. E, se
o (a) professor (a), inquirí-los, eles silenciarão. O que fazer?
O professor crítico
se vê, então, diante do dilema de se render à “tirania da
maioria”, aos vícios incorporados por seus alunos e
institucionalizados pelo sistema de ensino – desde a infância –
ou insistir em suas certezas, sob o risco de parecer que padece de
ingenuidade crônica ou que o considerem bobo ou frouxo. Em suma, não
é fácil ser um (a) professor (a) que respeita seus alunos,
trata-os como sujeitos e não como objetos e acredita em sua
capacidade autônoma de aprender e de ensinar.
Todos estamos, simultaneamente, aprendendo e ensinando. Esta
é a nota mais difícil de conseguir, a nota determinada não por
procedimentos burocráticos, mas pela experiência do educar-se, do
ensinar aprendendo e aprender ensinando. Vale nota, sim! Mas esta
nota o (a) professor (a) não pode dar-lhe, meu caro (a) aluno (a).
Não depende dele (a), mas apenas do seu interesse pelo conhecer. Não
é fácil! Exige que você aprenda a pensar certo e que alcance
a maturidade necessária a um indivíduo livre e autônomo, capaz de
diferenciar meios e fins e de exercer a crítica – mesmo que tenha
que enfrentar os seus próprios receios e insegurança.
O (a) educador (a) educa-se ao educar; os alunos, em geral, não
compreendem essa simples verdade. Imaginam que seja “papo
furado”, pensam que é “enrolação”, uma forma de “não dar
aulas”, ironizam. Mas o (a) educador (a), insiste. Ele (a) sabe
que há os que reagem afirmativamente, que não apenas simpatizam,
mas que se assumem enquanto sujeitos autônomos e também responsáveis
por seu próprio aprendizado. Há os que respondem positivamente e
se educam no sentido freireano; os que percebem
que memorizar conteúdos não é tudo, e talvez nem seja o
principal. Então, terá valido a pena insistir neste caminho! O (a)
professor (a) crítico deve agradecer a estes e também àqueles que
desafiam suas certezas e teorias pedagógicas!
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