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Por ROBINSON DOS SANTOS
Doutorando
em Filosofia na Universidade de Kassel – Alemanha, bolsista do
DAAD (Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico)
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Ensino
Superior: entre a profissionalização e o clientelismo
O
número de Universidades, Faculdades e Institutos de ensino
superior, todos de caráter privado, tem se multiplicado
vertiginosamente nos últimos anos. A(s) causa(s) desta expansão
envolvem uma complexidade tão grande de fatores que, por vezes,
dificulta e condiciona nossa compreensão acerca do tema. Mas, sem dúvida,
fatores como o desmantelamento da universidade pública, seguido
pelos cortes de verbas para a educação (já costumeiros), a
necessidade imperativa do estudante carente de recursos financeiros
ter que trabalhar durante o período de estudos e buscar o ensino no
período noturno, além de outros tantos, contribuem
significativamente para aumentar as estatísticas que indicam este
aumento do ensino superior privado.
Entretanto,
não deixa de proporcionar uma reflexão produtiva o fato de nos
questionarmos sobre aspectos que dizem respeito à qualidade do
ensino que vem sendo oferecida por tais instituições. E nosso
objetivo com o texto a seguir é, ao menos, apontar para problemas
que surgem em decorrência desta expansão da educação ser, cada
vez mais, fruto da iniciativa privada e, cada vez menos, um dever do
Estado, implicando, portanto, na perda progressiva da educação em
seu caráter público, gratuito, universal e laico.
Podemos
apontar aqui, ao menos, dois aspectos que incidem sobre a qualidade
do ensino: a) a ambivalência da instituição, simultaneamente pública
e privada; e b) a profissionalização e formação daqueles que
nela atuam.
No
primeiro aspecto, pretendemos refletir sobre como a instituição,
mesmo servindo a um bem público como a educação, neste caso a
formação em nível superior, corre o risco de reduzí-la a um comércio
de títulos e/ou “canudos”, provocando a perversão total do que
seria seu objetivo. No segundo, abordaremos a questão da
profissionalização e formação continuada enquanto compromisso ético
elementar da instituição.
A
ambivalência da instituição
Os
interesses no estabelecimento e funcionamento de uma instituição
de ensino superior podem ser os mais diversos. Eles podem se mover
desde o interesse em oportunizar ou oferecer o acesso a um ensino de
qualidade, portanto, visando o desenvolvimento e a socialização do
conhecimento científico e a melhora qualitativa e quantitativa da
cultura e da sociedade, até o puro comércio de títulos. Como
identificar o interesse fundamental de uma instituição?
É
óbvio que “no papel”, ou seja, nos documentos e projetos
exigidos, todas elas proclamam um único interesse: aquele que acima
citamos por primeiro. Mas o que podemos perceber na prática, no
dia-a-dia, é que muitas funcionam exatamente da mesma maneira que
uma empresa privada. Em outras palavras: formalmente são instituições
de natureza pública, que trabalham para um bem público (a educação
como direito de todos...) mas que visam o lucro, acima de tudo. Eis
a ambivalência da instituição. Como
conciliar objetivos tão diferentes?
O
dilema de “servir a dois senhores”, em algumas instituições,
é compatibilizado, em outras opta-se unicamente pelo lucro. Na
primeira situação, vemos instituições que, realmente, trabalham
com saldo financeiro positivo mas este é re-investido em favor da
cultura e da sociedade, como por exemplo, na manutenção de
projetos sociais, bolsas de estudos e apoio a projetos comunitários,
bem como parcerias com a governança nos seus diferentes níveis. Na
segunda situação pode-se perceber que instaura-se uma política do
clientelismo e do corporativismo. Nesta perspectiva, o discente é
reduzido à condição de cliente e a instituição a um
mercado onde o cliente entra e, desde que pague, pode fazer quase
tudo o que quiser. Facilitam-se os tramites, as regras se tornam
mais “maleáveis”, os coordenadores e professores mais “amáveis”
e etc. Além disso, em alguns casos, vemos o corporativismo político-partidário
sendo, escancaradamente, um critério para a definição de cargos e
salários. Ora, temos aqui a perversão completa do que seria o
objetivo fundamental da instituição: em vez de promover a emancipação
e o conhecimento crítico, ela promove o clientelismo e a hegemonia
ideológica de pessoas que não estão interessadas na melhoria da
sociedade e sim interessadas no seu saldo bancário ou na situação
do seu bolso. O desserviço que as instituições, que assim se
comportam, prestam à sociedade é de conseqüências desastrosas e
contribui progressivamente para o estado de atraso social em que
estamos.
A
perversão do seu objetivo primeiro se concretiza no fato de ela, ao
invés de promover a formação cultural e crítica do cidadão,
promove a crescente alienação e a ignorância. Ou seja, ela
trabalha decisivamente contra o bem da população. E, o pior disso,
é que o “cliente” vai pagar por uma “mercadoria” cuja
qualidade e procedência não conhece. Quem o alertará deste
perigo? Como ele terá condições de saber, se o saber é
justamente o que ele está buscando? Uma das possibilidades de
enfrentar este problema pode estar na postura do docente que atua na
instituição. Se ele consentir com uma pura lógica do lucro da
instituição, então não há chances de uma formação crítica e
emancipatória. O mesmo rezará segundo a “cartilha” da
empresa, tornando-se um “marqueteiro” na sala de aula. Se,
ao invés disso, o docente for comprometido com uma educação que
inspire e promova a reflexão crítica e autocrítica da sociedade e
da cultura de sua época, então podemos esperar que a educação
superior privada contribua para uma sociedade mais justa e menos
desigual no aspecto econômico. Deste modo, um sinal explícito de
ela querer contribuir para a melhora social, além dos investimentos
em ensino, pesquisa e extensão, é o compromisso institucional com
a profissionalização e formação continuada do seu corpo docente
e administrativo, aspecto que comentaremos em seguida.
O
compromisso com a profissionalização e formação continuada
Adolfo
Calderón, em artigo na revista São Paulo Perspectiva, comenta que
“com a chegada das universidades mercantis, pode-se afirmar que se
institucionalizou o mercado de ensino universitário”. A disputa
pelo cliente tornou-se motivo de uma batalha sem precedentes entre
as instituições. Nunca se viu tanto marketing e propaganda para
conquistar o cliente.
E,
num mercado cada vez mais agressivo, é forçoso não dispender
investimentos à toa, ou então, priorizar os recursos. Ora, é
justamente aqui que aparece o problema da contratação e manutenção
do corpo docente. Em muitas das instituições privadas de ensino
superior o docente é contratado como horista, reduzindo seu
trabalho a cumprir o horário estabelecido e cumprindo a ementa a
ele delegada. Acontece que, justamente, por ser horista ele não terá
tempo e condições para um compromisso maior com a instituição,
pois se verá obrigado a vender sua “força de trabalho” a
tantas instituições quantas forem necessárias para um sustento
digno de sua vida. Compartilhamos da afirmação de Calderón que
“esse sistema, além de não criar vínculos entre a universidade
e o professor, nem criar a possibilidade da existência de um espírito
de comunidade universitária, faz que com que a universidade se
torne um espaço de produção ‘fordista’ de diplomas”. Ora,
é nesta trilha que o ensino vira literalmente um “bico”, que,
aliás, muitos profissionais liberais, com ou sem formação e
preparo pedagógico, buscam como forma de complementar seus ganhos.
A
qualidade do ensino é também condicionada pela qualidade da formação
dos docentes. Deste modo, uma das formas de identificar se a
instituição está preocupada com a qualidade do ensino é saber o
quanto ela investe na formação e capacitação do quadro docente
além da sua ampliação intensiva (aumentando o número de
professores efetivos com vinte, trinta ou quarenta horas) e não
somente extensiva (simplesmente aumentando o número de professores
horistas). Além disso, é importante saber o quanto ela investe em
pesquisa e capacitação profissional ou atualização (também
chamada de formação permanente) de seu corpo docente e técnico-administrativo.
O
grande problema é que estas informações não são veiculadas nas
propagandas e nos folders de oferta de cursos. Mas o desafio
permanece e o cidadão que está interessado em freqüentar o ensino
superior deve questionar a instituição sobre estas informações,
para poder avaliar com mais calma o seu ingresso ou não. Além
disso, é preciso que os próprios docentes (horistas ou efetivos)
que atuam nas instituições reflitam sobre suas condições de
trabalho e contribuam para a criação de mecanismos que influenciem
na busca pelo aprimoramento do conhecimento que a instituição
ajuda a construir e oferece à comunidade.
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